sexta-feira, 1 de março de 2013

Cap. 6


_Sebastian! _ chamei baixinho, certa que ele podia me ouvir.
 Nada. Ele não reapareceu feito um fantasma, como costumava fazer sempre que eu mencionava o nome dele nesses últimos dois dias.
 _Sebastian! _ chamei de novo e esperei. Ele não veio_ Ela te pediu, não foi?_ sussurrei a dúvida que estava sufocando meu peito_ Quando você beijou a outra Pura, ela te pediu que a mordesse, foi por isso que você fez? _ me senti mais louca do que nunca falando sozinha, mas ele estava ouvindo, eu tinha certeza.
_Sim. _ sua voz vinha de perto da janela. Ele estava gloriosamente transformado em um vampiro. Com seus olhos negros como a noite e o rosto mais sombrio que eu já tinha visto. Suas presas mal podiam ser contidas por seus lábios. Cada célula do meu corpo o desejou como quem deseja água no deserto_ E ela morreu._ sua voz era seca e profunda.
_Me desculpe. _ eu me senti uma completa idiota. Por que eu tinha feito aquilo? Na verdade eu sabia exatamente porque tinha feito aquilo. Não poderia evitar. Estava louca para fazer tudo de novo.
_Vou leva-la até Katharine. Pediremos a ela um feitiço que te liberte de tudo isso. Que faça com que você possa ter uma vida humana normal. _ ele estava sério como nunca o tinha visto. Meu peito se apertou dolorosamente. Eu queria ser livre. Era o que mais queria, mas aquelas palavras vindas de Sebastian naquele momento me atingiram como o mais cruel desprezo.
_Por que... Vai fazer isso? _minha voz saiu falhando.
_Porque é o que você quer. E vejo que será melhor para você. _ ele ainda era duro e inflexível. Não percebi que estava chorando até que minha visão ficou embaçada com as lágrimas. _Você ainda quer?
_Sim._ fui capaz de dizer.
_Prepare-se para viajar amanhã. Teremos pouco tempo antes do seu aniversário._ ele disse e desapareceu de novo me deixando chorando sozinha no quarto.
O dia demorou a chegar. Eu devo ter chorado a noite inteira. Não sei exatamente quando a exaustão me venceu e eu adormeci, mas já estava escutando o canto dos pássaros lá fora. Movi-me na cama, mas meu travesseiro estava diferente. Era diferente porque não era meu travesseiro. Eu estava deitada sobre no peito de alguém. “Sebastian”, abri meus olhos rapidamente. Cheia de esperanças.
_Bom dia. _ a voz de Victor estava incerta e tinha uma expressão desconfiada no rosto. Ele esperou que eu me recuperasse da surpresa ao vê-lo.
_Como entrou aqui?_ eu disse rouca pelo sono. Eu já tinha me acostumado com Sebastian surgindo e desaparecendo no meu quarto, mas não imaginei que Victor também faria isso.
_O que ele fez a você?_ Victor não se deu ao trabalho de me responder. Estava furioso.
_Ele não me fez nada.
_Você chorou a noite toda Helene. Eu não acho que isso seja nada!
_Eu não quero fazer parte disso e ele vai me levar até a bruxa que pode me deixar livre. Deixar todos nós livres. _ eu me levantei e fui abrir a janela. Torcendo para que o ar da manhã desfizesse o nó que se formava novamente em minha garganta. Victor estava lá antes de mim. Ele também era muito veloz. Parei de repente com o susto. Ele estava petrificado como uma estátua de Adônis na minha frente.
_Ele não vai te levar a lugar nenhum!_ ele quase gritou.
_Você não pode me impedir. Não te devo nenhuma obediência Victor._ eu estava furiosa agora também.
 Como aqueles homens chegavam do nada, invadindo minha vida e do dia para noite queriam mandar em mim? Coloquei minhas mãos na cintura e o encarei.
_Tem razão. Não posso te impedir._ ele disse firme. Sua boca formando uma linha fina. Eu podia sentir sua raiva. Sua indignação. _ Mas até onde você acha que pode se afastar de mim? E quanto tempo acha que poderia passar sem a minha presença? _ aquilo me confundiu. Minha raiva perdeu terreno. O que ele queria dizer com isso? Victor cruzou os braços frente ao peito e esperou. Seus olhos ainda estavam furiosos. _ Quando diz que estamos presos a você e você a nós, não imagina o quanto, não é? Você pensa mesmo que eu abriria mão de estar com você todas as noites em favor do Sebastian e vice e versa, por bondade e cavalheirismo? Não pode imaginar a tortura que é ficar lá fora, sabendo que ele está aqui com você?_ minha raiva cedeu completamente. Eu estive tão absorta por sensações novas e todas essas histórias que eu não tinha pensado realmente neles. Em como eles sentiam aquela “competição”. Aquela candidatura esquisita, que nem eu, nem eles escolheram.
_Por que então? _ perguntei confusa. Com medo da resposta que eu sabia que viria.
_Você não pode ser privada da companhia de nenhum de nós por muito tempo. Mas eu acho que você já adivinhou isso não foi?_ ele disse ainda zangado.
A coisa era pior do que eu tinha pensado. Eu estava mesmo presa a eles! Eu queria gritar. Meu rosto caiu e voltei a me sentar na cama com medo que minhas pernas falhassem e eu caísse.
_Isso é uma droga!_ murmurei em uma conclusão doentia.
_Uma droga? _ ele bufou _ Como pode dizer isso?
_Você gosta de ser um prisioneiro contra sua vontade? _ cuspi as palavras.
_Na verdade sim. É uma honra ser escolhido._ ele estava confuso. Eu não tinha levado isso em consideração também. Ser escolhido para servir de opção para a Pura significava que ele era o melhor de sua raça.
_Então tudo se trata de orgulho masculino?_ aquilo não estava ficando melhor.
_Não tudo. Tente entender Helene. Nós crescemos ouvindo lendas sobre A Pura e contos heroicos dos seus predestinados. Todos sonham em ser escolhidos e ter uma chance de realizar o feito máximo de sua raça. Purificá-la, fortalece-la. O escolhido de uma Pura é um herói para os seus sim, mas não é só isso. É também a garantia de uma felicidade quase eterna para os dois. Uma união perfeita para o resto da vida. O que no nosso caso seria muito mais longa do que dos humanos comuns. Você ainda não percebeu Helene? _ sua emoção tinha mudado de fúria para paixão. Eu a via queimar em seus olhos quando se aproximou de mim lentamente. _Você não entendeu que eu a amo? Nos três a amamos verdadeiramente. Daríamos nossas vidas por você, mesmo sem nenhuma garantia de sermos escolhidos. Isso não é o que mais importa. O que mais importa é você. A sua existência é algo maravilhoso. É a esperança de tempos melhores na Terra para as três raças que foram excluídas pelos humanos. Você é a única chance que temos de reestabelecer o equilíbrio e voltar a sermos aceitos no mundo. Sem nenhum perigo ou discriminação. Um mundo de liberdade e igualdade para todos. Sem segredos e mistérios ocultos. Só paz. _ ele respirou profundamente _ Por tudo isso que te amamos e te protegemos. Não é só pelo desejo sexual ou por sua beleza inigualável. É muito mais pelo o que você representa.
Agora eu estava chocada. Meu grito que estava preso na garganta emudeceu.
Victor segurou ambos os lados do meu rosto e encostou sua testa na minha.
_Não sabe o quanto é preciosa para mim e para tantos? _Suas mãos acariciavam meu rosto com ternura. Ele suspirou e fechou os olhos. Quando os abriu ele se afastou de mim um passo. _ Mas mesmo assim, se quiser tentar abrir mão de tudo, eu não poderei impedir. Você ainda tem seu livre arbítrio.
_Eu não sei o que pensar._ consegui dizer. Minha cabeça estava rodando.
_Talvez o seu lado humano fale mais alto e você queira viver entre eles. Isso nunca aconteceu pelo que eu sei, mas poderia ser uma primeira vez. _ ele parecia resignado.
_E você não iria me impedir? _ eu confirmei.
_Não. _ ele respondeu curtamente.
_Mesmo se eu tivesse que ir para longe?
_ Eu iria com você. Nunca te deixaria sozinha com Sebastian por qualquer espaço de tempo._ evitei pensar muito sobre isso. Não queria imaginar que Victor ficasse me vigiando quando eu estava com Sebastian.
_E Rafa? Ele também não é preso a mim, ou eu a ele?
_Sua ligação com o lobisomem é formada pelo sentimento de amizade e familiaridade. Ele já teve o privilégio de passar anos na sua companhia. _ seus olhos brilharam e vi a sombra de um sorriso em seus lábios _ Eu penso que ele recebe essa vantagem por que é o que tem mais desvantagem, com sua natureza mais agressiva e sua inexperiência de vida. Assim ele tem a oportunidade de ter mais do seu afeto e garantir sua gratidão e ficamos mais em pé de igualdade. Gosto de pensar neles como bons cães de guarda também. Livrando-a de todos os humanos que fossem inconvenientes. _ele parecia curtir algum tipo de piada secreta _ Você sentirá falta dele se ficar muito tempo longe, mas não seria a mesma coisa do que se fosse eu ou o Sebastian. Tudo com nós dois lhe parecerá mais forçado e mais intenso, eu acho. Pelo menos é o que pude perceber com a experiência que tive antes. As lendas não falam muita sobre isso. Elas estavam mais focadas nas regras práticas e nos feitos heroicos dos escolhidos ao lutarem para proteger A Pura._ ele olhava para o nada, lembrando. Vi quando ele franziu a testa suavemente.
Eu o observava atentamente, tentando absorver o que ele me dizia. Lutando para compreender o que significava para ele e para os outros, toda aquela trama do destino que eu achava tão absurda e inaceitável. Ele parou e voltou seus olhos verdes para mim. Eles estavam cheios de sentimento. Era aquele mesmo sentimento que eu tinha visto nos olhos dos três e que diferenciava o desejo deles do dos outros homens que me viam. Aquele olhar que encontrava em Rafa todas as manhãs. O olhar que vi nos olhos de Sebastian na primeira noite, ainda naquela pedra, e que eu comparei com o olhar da minha mãe. Era amor o que tinha nos olhos deles. Eu pude perceber agora. Eles me amavam verdadeiramente como Victor me disse. Muito além do desejo. Era por esse amor que Rafa cuidou de mim por tantos anos, abdicando de sua própria juventude para me proteger e ser meu amigo, sem exigir nada em troca. Era por esse amor que Victor abriria mão da chance de ser o escolhido e me levar como uma preciosa deusa salvadora para o seu povo, apenas por pensar que não estaria me fazendo feliz. Também foi por esse amor que Sebastian tinha me deixado ontem com a promessa de levar até a bruxa, para que assim eu tivesse uma chance de me libertar. Ele me deixou para me proteger do perigo. Do perigo que ele mesmo era para mim.
 Meu coração disparou. Eu queria poder retribuir os três. Fazê-los felizes. Eu me sentia tão ligada a eles de maneiras tão diferentes, mas nenhuma menos intensa ou passível de ser descartada. Os três me amavam e eram capazes de dar suas vidas para me proteger. O que no meu caso era mesmo necessário, levando em conta a minha condição de chamariz de machos enlouquecidos. Mas cada um possuía particularidades ímpares que os tornavam especiais ao meu sentimento. Rafa era como Victor disse. Familiar, confidente. Meu parceiro de toda uma vida em que eu dependi tanto dele, mas que agora eu não sentia plenamente confiante, depois daquele ataque e de ver aquela fera em que ele se transformou. Victor já me passava toda a confiança que eu tinha perdido em Rafael. Ele era estável, agradável, cavalheiro... um perfeito príncipe de contos de fadas. Já Sebastian... esse chegava a ser irritante, impulsivo e voraz. Mas o desejo carnal que eu sentia por ele, e o prazer que ele podia proporcionar, eram de longe, inigualáveis.
Não havia nenhuma chance de preterir dois deles em benefício de um só. Eu não poderia escolher. Essa era minha decisão final.


2 comentários:

  1. Luh, estou cada vez mais curiosa. A hitoria esta ficando incrivel e viciante,. Sera que helene vai escolher um deles? quero muito saber. (lari)

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  2. É Lari, parece impossível escolher um deles né rsrs vamos ver como ela vai resolver isso... Bjinho querida!

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