Tomamos café e conversamos coisas alegres. Eu estava
feliz e Victor também parecia estar. Fomos para o aeroporto de táxi. Victor já
tinha devolvido o carro alugado. O motorista olhou para mim com interesse, mas
nada exagerado. Ele perguntou o destino e Victor o respondeu. Já que eu não
sabia nada de Frances. O dia estava nublado e com certeza não demoraria a
chover. Caminhei naturalmente pelo aeroporto e em meio as pessoas. Eu ficava fascinada
por poder fazer isso de maneira tão simples como nunca.
Confirmamos o voo e caminhamos para a plataforma. Tivemos
que esperar pouco. Eu estava nervosa, mais o medo de voar tinha diminuído. A
ansiedade por chegar em casa e começar logo minha nova vida estava me deixando
sem tempo para pensar em outras coisas. Exceto em Sebastian. Ele não saia da
minha cabeça. Eu não conseguia esquecer aquele rosto contraído e os olhos fixos
em mim quando saí daquela casa.
_Victor_ eu chamei a atenção dele que estava conferindo o
painel de pousos e decolagens do aeroporto. Ele se virou para mim
imediatamente_ O que são as Bruxas? Alguma outra raça?
_Pode se dizer que sim, pela genética especial que é
transmitida de mãe para filha, mas elas são basicamente humanas.
_Como você?
_Sim, mas assim como só existem vampiros machos, só
existem bruxas fêmeas.
_Sério! E se eles tivessem filhos? Seriam bruxas ou
vampiros?_ minha pergunta saiu sem pensar.
_ As sub-raças só podem ter filhos com os humanos que são
mais neutros. Bruxas e vampiros não costumavam se unir, e mesmo quando faziam,
eles não podiam ter filhos.
_Entendo._ mergulhei nos meus pensamentos. Sebastian
tinha seus motivos para ser tão arredio. Ele era o único sobrevivente de uma
raça em extinção. Mas ao contrário do que ele disse sobre não ser a melhor
opção da raça e sim a única, eu achava justamente o contrário. Só o fato dele
ter sobrevivido a despeito de tudo, o tornava o melhor e mais forte de todos.
_Vamos._ Victor me tirou os meus pensamentos_ Já estão
embarcando. _ eu me levantei e o segui para o portão de embarque. Atravessamos
a plataforma e o grande avião tinha suas escadas á minha frente. Victor subia
primeiro, mas quando eu coloquei o pé no primeiro degrau uma força desconhecida
me fez olhar para trás.
Era Ele. Sebastian caminhava suavemente em minha direção.
Seus olhos estavam apertados, incomodados com a luz do dia. Ele era uma
criatura da noite, assim como a Lua e as estrelas. E também era tão misterioso
e lindo como elas. Suas roupas totalmente negras que se destacavam tanto na
ensolarada Rio das Ostras estavam perfeitamente adequadas àquela cidade sofisticada
que era Paris.
_Sebastian._ eu sussurrei mais para mim mesma quando
parei e dei espaço para que as outras pessoas embarcassem na minha frente.
Enquanto ele se aproximava mil pensamentos vinham a minha cabeça. Será que ele
iria para o Brasil comigo? E Katherine, ela teria aberto mão dele? Não achava
isso provável, mas meu coração se enchia mais de esperança a cada passo que o
trazia para mim. _Sebastian._ repeti quando ele parou na minha frente. Ele não
disse nada, apenas me puxou gentilmente para seus braços num abraço carinhoso.
Seu rosto deslizava nos meus cabelos suavemente. Fui inundada com seu perfume
indescritível. Donos de laboratórios de perfumaria venderiam suas almas para
colocar aquela fragrância em frascos. Seria uma fonte de fortuna, eu pensei
bobamente enquanto sentia o calor de seu corpo no meu e o aperto firme de suas
mãos. Não resisti ao desejo de tocar seu cabelo macio e logo estava com meus
dedos agarrados em sua nuca. Sebastian virou seu rosto para me encarar e seus
olhos estavam negros. Ele franziu a testa como se tentasse resistir ao impulso,
mas foi inútil. Seus lábios tocaram os meus no beijo mais doce que eu já havia
provado. Ele também me segurou pela parte de trás de minha cabeça e seu aperto
aumentava junto com minha excitação. Era uma sensação muito forte e em segundos
eu não me lembrava de mais nada. Não sabia onde estava e nem quem ele era, ou
mesmo quem eu era. Eu só sentia. Sentia seu calor, seu gosto seu corpo. E
queria mais, muito mais. Sem que eu pudesse impedi-lo, ele se afastou
lentamente de minha boca. Foram apenas alguns centímetros, mas não podia mais
sentir seu sabor. Quis estreitar mais a distancia, mas ele me continha,
resistia.
_Oh Helene. Está tão linda!_ ele murmurou no meu ouvido _
Eu sinto muito.
_Sente pelo que?_ perguntei ainda anestesiada. Meu corpo
parecia flutuar em uma nuvem.
_Vim apenas me despedir, mas resistir a você é
simplesmente impossível. Tão doce. Tão quente. Não resta dúvida que seu pai
Elfo não seguiu o protocolo quando escolheu os genes de sua mãe. Acho que ele é
quem foi seduzido por ela._ ele brincou, mas era uma brincadeira quase triste.
Eu lembrei que ele tinha me dito que eu tinha mais libido que uma Pura deveria
ter, e ele culpou a minha mãe por isso. _Foi feita pra mim. _ ele murmurou
ainda mais baixo. Um suspiro que quase não pude ouvir enquanto afundava seu
rosto no um cabelo.
_Você vai ficar?_ me arrependi por ter perguntado no
momento que disse as palavras. Era lógico que ele iria ficar. Ficar com a bruxa
fria e fútil.
_Eu só não podia deixar você ir embora com aquela imagem
minha, Helene. _ ele explicou com uma expressão de desgosto. Eu vi que ele
estava triste. E tudo que eu queria evitar era vê-lo triste. E os outros
também. Eu pensei que se eu os libertasse todos poderiam viver suas vidas e
buscar por sua felicidade. Sem estarem amarrados a mim. Mas Sebastian não seria
feliz com aquela mulher.
_Por que você vai ficar com Katherine? Ela o está
obrigando? É por mim que está fazendo isso?_ eu estava agitada.
_Ela não pode me obrigar a nada e não é por sua causa.
Ficarei um tempo aqui, depois saio pelo mundo de novo. Não tenho nada melhor
para fazer no momento._ ele disse cansado.
_Nada melhor do que ficar com aquela garota ... _ eu
procurei um jeito de parecer menos ofensiva.
_Fútil, infantil, egoísta e má? _ ele completou sorrindo
travesso_ Eu não sou muito diferente dela, não se engane Helene, eu apenas não
sou hipócrita.
_Você não é nada disso._ eu disse com tristeza que ele
pensasse assim de si próprio.
_Talvez eu não seja assim quando estou com você, mas isso
não importa agora. Deve ir ou seu avião partirá sem você. _ ele me abraçou mais
uma vez, só que muito brevemente.
_Vou ver você de novo?_ pedi miseravelmente.
_Quem pode prever o futuro é Victor._ ele debochou _ mas
vou tentar ficar longe. Não vou interferir na sua “vidinha normal”. Não se
preocupe. _ ele sorriu de novo tentando ser sarcástico, mas falhou. Vi o
desanimo escondido em seus olhos. _Vá logo e dê lembranças a sua mãe. Ele se
afastou de mim e já se virava para ir embora. Olhei para o avião e vi Victor de
braços cruzados em frente ao peito, nos olhando com cara de poucos amigos.
Quando me virei para Sebastian de novo ele estava longe caminhando de costas
para mim.
_Sebastian, obrigada!_ eu gritei. Ele não se virou,
apenas levantou brevemente sua mão esquerda em um aceno _ obrigada por tudo._ conclui
baixinho. Estava chorando. Uma angustia sufocante e um sentimento de perda
enorme me torturava. Olhei Victor que me esperava e subi no avião.
_ Me desculpe Victor._ pedi quando ele sentou ao lado no
avião. Ele não me olhava apenas suspirou. Sequei minhas lágrimas e tentei me
recompor.
_Desculpas aceitas._ ele disse amargo _ A culpa não foi
sua mesmo. É só Sebastian que não consegue deixar de ser ele mesmo.
_Ele está fazendo um grande sacrifício por mim. Você não
acha que ele merece algum desconto?_ eu era acima de tudo muito grata a Sebastian
por ter me dado uma oportunidade de ter uma vida que sempre desejei. Só ele pôde
fazer isso por mim, e ele sacrificava sua própria oportunidade de ser feliz
para me dar isso.
_Ele só faz isso porque acha que você não o escolheria
mesmo._ ele atirou. Victor estava mais irritado que eu imaginava que ele
poderia.
_Porque você está tão bravo?
_Porque ele te beijou escandalosamente ha minutos atrás._
ele me encarou como se aquilo fosse óbvio demais para que eu tivesse
perguntado.
_Sim, mas eu e você não somos namorados, então..._ eu não
tinha pegado a lógica daquilo.
_Helene. Você é a Pura. Nunca vai deixar de ser. E agora
que você nos liberou eu não posso reivindicar o beijo que ele te deu. Qualquer
um de nós pode estar com você sem nenhum compromisso ou consequência e isso
é...
_Uma bagunça. Eu sei, mas o que você quer Victor? Quer
ter o direito de me beijar também? É por isso que está bravo?
_Se fossem seus beijos sem compromisso que eu quisesse
teria tentado seduzir você no hotel, ou nos passeios que fizemos. Eu não fiz
isso, e não foi por falta de vontade. Fiz por respeito a sua decisão de deixar
a nós três para viver sua vida humana. Uma vida que nunca teria com algum de
nós. Nem comigo.
_Mas você vive entre os humanos.
_Sim, mas meus dons são um segredo que tem que ser
mantido de qualquer forma. Nossos filhos seriam como eu e teríamos que educa-los
longe das outras crianças até que eles pudessem manter sigilo de seus poderes,
e muitas outras coisas seriam diferentes. Eu não estou com humor para falar sobre
isso agora. _Ele bufou_ Victor não respeita nada. Ele vem e beija você na primeira
oportunidade que tem. Eu estou surpreso que não tenha ficado lá com ele. Com a
nossa ligação desfeita, você poderia facilmente ser seduzida, com qualquer
mulher que ele toca.
Eu estava pasma. Fazia sentido. O vampiro era um sedutor
por sua natureza e agora que eu não tinha a contra balança da ligação com
Victor ele poderia ter me seduzido.
_Mas isso daria certo?_ eu estava alarmada _ Se ele me
seduzisse sem que fosse ele a escolha da Pura, poderíamos ficar juntos?
_Eu não sei._ Victor ficou ainda mais irritado com a
direção da nossa conversa_ Isso nunca aconteceu.
_ Bom, em todo caso, quem fez a bagunça toda fui eu. E
Sebastian não usou isso a seu favor._ Victor me olhou acusadoramente _ Não
totalmente, afinal eu estou aqui indo para casa, não estou.
_É. Você está._ ele concordou finalmente, mas seu humor
não melhorou de pronto.
Meus pensamentos giravam, mas de uma coisa eu tinha certeza,
eu tinha que manter distancia dos três daqui por diante. Já que eu decidi abrir
mão de escolher um deles teria que ficar sem nenhum. Isso seria seguro, justo
e... doloroso. Eu gostava mesmo deles. Cada um havia me conquistado de um jeito
diferente, mas na mesma intensidade. Eu conhecia Sebastian e Victor ha tão
pouco tempo, mas eles já faziam parte da minha vida. Imaginei então o que seria
de mim sem Rafael. Não, eu não poderia imaginar isso. Fiquei calada e pensativa
por toda a viagem. Victor pareceu se acalmar depois de algumas horas, mas
também não falou muito. Eu não me sentia culpada por ter beijado Sebastian. Era
como ele disse, eu simplesmente não podia evitar. A atração que o vampiro
exercia sobre mim era irresistível. Se ele quisesse poderia ter feito de mim o
que quisesse. Eu teria ido com ele se ele tivesse me pedido e estaria
alegremente em seus braços agora. Balancei a cabeça tentando tirar esse
pensamento. Não era seguro pensar em Sebastian. Aquilo que eu sentia por ele
não era natural, nem especial. Era somente uma reação genérica das mulheres por
ele. Eu não seria feliz sabendo que estava sendo manipulada por meus hormônios.
Eu precisava pensar no futuro humano que eu escolhi. Poderia estudar mais,
trabalhar e fazer novos amigos. Um mundo novo se abria na minha frente. Um
mundo que eu assistia na TV e sonhava poder estar nele. Agora eu poderia.
Não consegui dormir um minuto sequer na viagem de volta
para casa. Minha mente e meu corpo estavam cansados, mas alertas. Desembarcamos
no Rio de Janeiro e Victor pegou seu carro que estava no estacionamento do
aeroporto.
_Você é muito legal por me trazer para casa depois de
tudo. _ eu disse em reconhecimento sincero.
_Não supervalorize uma pequena gentileza. Você merece ser
muito bem tratada pela importância que tem. _ ele disse com um sorriso
confortável_ E também merece pela pessoa que você é, independente disso tudo.
_Sério? Existe algo em mim independente disso tudo?
_Claro que existe bobinha. Você tem uma personalidade
única, como todo mundo afinal de contas, do contrário não estaria indo na
direção inversa do destino. _ ele sorriu mais largamente. Estávamos chegando à
minha casa e meu peito se apertou quando vi que se aproximava o momento de mais
uma despedida. Eu provavelmente nunca mais veria aquele sorriso arrasador de
novo. _O que foi?_ ele perguntou quando viu meu rosto cair.
_Vou sentir sua falta. _ confessei mesmo sabendo que
estava sendo egoísta com ele.
_Entendo. _ ele ficou sério_ Me custa muito deixar você,
mesmo que seja para a sua felicidade.
_Eu sei. Não devia ficar assim, mas não consigo evitar.
_Tudo vai passar com tempo. Você vai esquecer isso tudo._
ele tentou melhorar as coisas.
_Não posso me esquecer de nada Victor, você não sabe?_ eu
disse desanimada.
_Oh, é mesmo. Desculpe, me esqueci._ ele deu uma risada
gostosa e tive que rir com ele.
Estávamos parados em frente à praia onde eu morava. Eu
olhei o mar que me viu crescer e me senti em casa. Só não estava totalmente
segura agora que sabia que ficaria sozinha. Tive medo daquele vazio que senti
no quarto do hotel em Paris. Torci para que aquilo fosse porque eu estava em um
lugar estranho, longe de casa. Victor me ajudou a levar as malas até a porta de
casa, mas não quis entrar. Era fim de tarde e logo minha mãe chegaria do trabalho,
então ele não queria ter que se despedir dela também.
_Você vai ficar bem?_ ele perguntou com um olhar tão doce
que me abalou intimamente. A ligação estava desfeita, mas ele ainda parecia me
amar. Como isso funcionava? Eu me perguntei.
_Vou sim, não se preocupe. Só vou sentir sua falta. Você
poderia vir me visitar se quiser._ disse esperançosa.
_Sabe que isso não seria o melhor para você. Precisa
seguir em frente, se vai viver uma vida humana, terá que conviver com humanos.
_Você acha que eu sou louca por fazer isso não é?
_Louca não, mas não compreendo muito bem a lógica disso,
tenho que confessar, mas vejo em seus olhos que é o que acredita que precisa, e
Helene, nós só podemos viver dentro daquilo que acreditamos. Não há outro
caminho a seguir.
_E em que você acredita Victor.
_Eu? _ ele franziu o cenho perfeito_ Agora mesmo estou
buscando novas crenças._ aquilo cortou meu coração já abalado. Eu estava
acabando com as esperanças dele também. Victor era o mais confiante de ser
escolhido. Apesar de nunca ter sido arrogante com isso. Ele era o que tinha
mais chances e por isso é o que mais estava perdendo.
_Sinto tanto._ estava banhada em lágrimas de novo_
Obrigada por tudo Victor e me desculpe.
_Ah não faça assim Helene. Não se culpe. Talvez não
tivesse mesmo que ser. Talvez os planos de Deus tenha mudado, por isso o
lobisomem te atacou daquele jeito. Pelo menos você não teve que morrer e agora
pode viver sua vida feliz. _ ele me envolvia ternamente em seus braços, mas não
me manteve ali por muito tempo. Antes que eu pudesse estar preparada para me
despedir ele me beijou a testa com ternura e se afastou.
_Adeus, linda Helene. Tenha uma bela vida._ ele falou com
seu sotaque charmoso e seus modos de cavalheiro do século XVI.
_Adeus gentil Victor. Seja feliz._ eu o imitei tentando
disfarçar minha dor. Em segundos ele tinha partido para sempre e o vazio
cresceu no meu peito.
Mamãe não demorou a chegar. Eu estava na cozinha fazendo
um chá de camomila com maçã quando ouvi a porta se abrir. Ouvi sua voz tão
familiar e percebi o quanto estava com saudades dela. Mas tinha outra voz a
acompanhando. Ela não estava sozinha. E um frio correu pela minha espinha
dorsal. Reação instintiva às vozes masculinas estranhas na minha casa.
_Filha você está aí?_ mamãe deve ter visto minhas
bagagens ainda na sala. Eu esperei que ela viesse até mim na cozinha.
_Oi mãe._ eu disse colocando minha xícara na mesa e indo
abraça-la. Meus olhos não se fecharam atrás dela, eu procurava pelo visitante
misterioso. Um homem de meia idade parecendo muito distinto surgiu na porta.
Ele tinha um rosto benigno e seus cabelos grisalhos bem cortados davam-lhe
certo charme. Ele me olhava com curiosidade, mas não teve a reação que eu
temia._ Senti sua falta._ eu respirei aliviada que o feitiço estava funcionando
e pude relaxar nos braços de minha mãe.
_Eu é que senti filha, você não imagina. Como está linda!
Deixa-me ver você._ ela se afastou de mim e correu os olhos pelo meu corpo e
voltou a me olhar nos olhos_ Linda demais, mas parece triste, o que foi?_ ela
estreitou os olhos e se voltou para olhar seu convidado, de repente se lembrado
que ele estava ali e medindo a sua reação, como eu tinha feito. Ele continuava
quieto com um sorriso agradável no rosto esperando ser apresentado. Mamãe se
iluminou quando viu uma reação tão positiva. Ela abriu um largo sorriso._
Funcionou! Deu certo. É maravilhoso!_ ela me abraçou de novo e logo me soltou e
foi em direção ao homem_ Helene esse é Rodolfo. Nós estamos nos conhecendo e...
_ ela parecia não saber como definir o relacionamento deles.
_Sou o namorado de sua mãe._ ele completou com bom humor_
É um prazer finalmente conhecer você._ ele me ofereceu sua mão com entusiasmo.
Eu regredi na mesma hora lembrando que se eu o tocasse ele estaria
ultrapassando os limites do bloqueio.
_O prazer é meu._ eu disse, me esquivando_ desculpe não
pegar sua mão, mas estou com um problema e não posso tocá-lo. _ ele olhou
confuso para minha mãe. Ela também não estava entendendo. Eu resolvi ser direta
e verdadeira, afinal se eles tinham um relacionamento teriam que entender
minhas limitações._ Mãe. Você sabe aquele problema que eu fui resolver na
França? _ ela concordou com a cabeça_ Então, eu consegui uma solução paliativa
que nada adianta se encostarem em mim._ vi no olhar de mamãe que ela entendeu.
_Então é
isso. Isso já é um grande avanço. _ ela disse animada. O tal Rodolfo continuava
nos olhando sem entender_ Querido eu te explicarei tudo depois, agora vamos
tomar um chá e ouvir sobre a viagem de Helene. _ ele concordou e eu gelei. O que
poderia dizer a eles? Sobre as compras e os passeios. Sim, isso estava bom.
Depois de
muitos chás e conversas, descobri que Rodolfo era um cara muito legal e bem
humorado. Mamãe ria de tudo que ele dizia. Eles estavam visivelmente
apaixonados e felizes. Entreguei os presentes que trouxe para ela que adorou
tudo. Depois levei minhas roupas para o quarto. Ela deixou seu namorado
abandonado na sala vendo TV para me ajudar a guarda-las no meu guarda-roupa.
Tirando todas as velhas e colocando as novas. Tive que segurar algumas coisas
de minha preferencia, ou ela teria jogado tudo fora.
_Estou muito
feliz por você meu amor._ mamãe me abraçou e novo_ Mas por que parece estar
triste?
_ Eu tive que
me despedir de Victor e de Sebastian. Vou sentir falta deles._ disse a versão
simplificada da verdade.
_Mas, por quê?
Eles foram embora porque você não
escolheu nenhum dos dois?_ ela tinha o cenho franzido de novo_ ou foi por que o
encanto acabou? Não me diga que foi isso que os afastou?
_Não foi
isso. Na verdade, eu vi que nenhum deles tem nada haver comigo. Nossas vidas
são totalmente diferentes.
_Entendo.
Então você considera o Rafael?
_Não, nem
ele. _ suspirei profundamente.
_Filha eu não
entendo você, se quisesse mesmo ficar sozinha estaria feliz em dispensar esses
homens lindos que te querem, mas você não está. O que pretende? Eu sei que você
não teve nenhum relacionamento para saber, mas não vai encontrar nenhum que
seja perfeito, ou livre de problemas. Sempre temos que abrir mão de coisas para
termos outras.
_Eu sei, mas
está dizendo que se eu me casasse com o Victor e tivesse que ir para outro país
com ele estaria tudo bem? E você mamãe?
_Querida, se
você o amasse de verdade não deveria pensar em mais nada, nem em mim. Eu
sentiria sua falta, mas você é uma mulher adulta e deve viver sua vida. Não sou
dependente de você e nem você de mim, não mais.
_Você tem
razão. Eu acho que estou muito perdida e não sei o que devo ou não fazer. Nunca
tive tantas opções.
_Ah meu amor!
Não fique assim, na sua idade nada é definitivo. Tome seu tempo para colocar as
coisas no lugar, então estará mais preparada para decidir a sua vida._ ela sorriu e eu sorriu de volta tentando
fazê-la se sentir melhor, mas meu coração se apertou ainda mais ao lembrar que
eu já tinha feito escolhas definitivas, mesmo antes de estar preparada. _ Agora
descanse. Amanhã será um novo dia para você. Um dia de liberdade total. Será
maravilhoso! E vamos poder planejar uma grande festa de aniversário. Tenho
vários amigos que querem te conhecer.
Meu aniversário!
Eu nem estava lembrando mais disso. Seria depois de amanhã. Será que eu mudaria
depois que completasse vinte e um anos?
Quando
finalmente minha mãe me deixou sozinha no quarto eu me joguei na cama e me
rendi ao desanimo. A atmosfera pesada sobre mim, era o que me deixava cansada.
Eu não tinha me arrependido de ter feito nada, sabia que era tudo parte do que
era necessário para conseguir a vida que eu queria, mas ainda assim, sentia os
efeitos da energia escura que Katherine me envolveu. E também sentia a profunda
solidão por ter liberado meus pretendentes. Essa última era a pior. O vazio que
tinha por dentro me consumia completamente agora. O ar entrava em meus pulmões
que pareciam grandes demais. Meu coração batia muito leve, como se estivesse completamente
vazio. O sentimento era muito ruim.
Percebi que
ficar deitada sem dormir não estava me fazendo descansar, só me concentrava no
mal estar que estava sentindo, então me levantei para ir tomar banho e poder
dormir. Torcia para que conseguisse. Fui até o armário e peguei uma camisola de
ceda que tinha visto na vitrine de uma loja cara de Paris e tinha me
apaixonado. Ela era longa justa ao corpo. Sua cor era de um vermelho profundo e
fascinante. Victor insistiu para que eu experimentasse. Eu nem queria entrar na
loja, claro, o luxo era intimidador demais, mas ele não me deixou sair de lá
sem me presentear com ela. Decidi usá-la na minha primeira noite em casa, na
minha nova vida.
Dessa vez a
água não me ajudou muito. Eu estava
realmente cansada e angustiada. A dúvida de se minha decisão tinha sido
a coisa certa ou não, me torturava cada vez mais. Mas como Victor disse, era no
que eu acreditava e não podia agir de outra forma. Saí do banheiro secando os
camelos com uma toalha.
_Helene._
tomei um susto e me virei imediatamente para a janela. Rafael estava lá parado
com o rosto mais tenso que já tinha visto nele, salvo aquele dia da
transformação. Quis tirar aquela imagem da minha cabeça e recebe-lo
amigavelmente, mas sua expressão sombria não me permitiu isso.
_Rafael, o
que está fazendo aqui?
_Preciso
falar com você, é muito sério. _ ele me olhava com o rosto contraído, como se
não estivesse me reconhecendo.
_O que há de
errado com você?_ perguntei confusa e com medo.
_Eu é que
pergunto, o que diabos fizeram com você? _ ele rosnou. Entendi que de alguma
forma ele podia ver o bloqueio escuro a minha volta. _ Júlio tinha razão.
Poluíram você! Mas por que fizeram isso?
_Ninguém me
poluiu Rafa, eu pedi para que me ajudassem a ser normal e esse foi o único jeito._
expliquei sem vontade e voltei ao banheiro para pendurar minha roupa. Quando me
vi no espelho lembrei que estava naquela camisola absurdamente sensual e fiquei
constrangida por Rafa ter me visto assim. Tinha que pedir para ele ir embora,
afinal já era tarde e eu estava cansada da viagem, mas antes eu queria saber
por que ele tinha invadido meu quarto, ele não costumava fazer isso, era um
hábito de Sebastian. Sacudi minha cabeça para me livrar desse pensamento_ E
quem é Júlio?_ voltei para o quarto, me sentei na cama e me cobri com a colcha.
_Júlio é o
lobo Alfa. _ ele vacilou um pouco e caminhou na minha direção_ Helene o que
fizeram com você foi errado, transgrediram todas as regras que envolvem a Pura.
Júlio não vai permitir isso e eu tive que implorar para vir falar com você
antes dele. Entenda eu tenho que obedecê-lo, não tenho escolha.
_Ele virá
aqui falar comigo? Falar o que?_ eu o encarei confusa_ Rafa depois de tanto
tempo sem ver você e quando aparece é com essa conversa?
_Helene, é
sério. Eu vim falar com você, mas ele vai leva-la, querendo ou não. _ seu rosto
estava contrariado.
_Me levar
para onde?
_Não se preocupe
ninguém vai te machucar. Ele apenas quer garantir que a Pura cumpra seu
destino.
_Eu não vou a
lugar nenhum Rafa, eu não quero cumprir nenhum destino da Pura. Fui à Paris
para encontrar a bruxa que podia mudar tudo. Não quero escolher nenhum de
vocês. Eu não quero._ eu estava desesperada e irritada. Quem esse tal Júlio
alfa não sei do que, pensava que era para interferir na minha vida.
_Não terá que
escolher mais._ Rafa disse cuidadosamente_ Júlio sabe que você dispensou os
outros, nós temos uma anciã, esposa de um dos lobos que tem poderes e pôde ver
tudo o que você fez. Ela disse que agora você só tem uma escolha, eu._ vi um
brilho fraco nos olhos dele_ Então quando você completar vinte e um anos me
escolherá e poderemos purificar nossa raça. Isso é muito importante para a
matilha.
_Isso é um
absurdo! Eu não posso dispensar você, então será meu escolhido? _ eu gritei.
_É no que todos
lá acreditam._ ele estava constrangido.
_Rafa, eu sei
que você gosta de mim, mas não acredito que usaria desse tipo de artifício para
que eu fique com você.
_Eu nunca
faria isso Helene, mas não estou no comando, eu tenho que obedecê-lo. Peço que
venha comigo, antes que eles venham aqui para leva-la contra sua vontade. Os
lobisomens não são maus, mas eles são muito facilmente irritáveis e estão
aborrecidos com a sua atitude. Sentem-se prejudicados pela Pura já por séculos,
quando elas não os escolhiam, agora você abre mão de tudo nos tirando outra
chance. Não vão deixar. Eu sinto muito.
_Está me
dizendo que se eu não for por vontade própria eles vão me sequestrar?_ mal
terminei a frase e ouvi um uivo alto do lado de fora da casa e meu corpo
estremeceu.
_Helene,
precisamos ir. Será melhor não envolver sua mãe nisso._ minha mãe, eu pensei,
ela deve ter ouvido o lobo.
_Meu Deus!
Mande-o embora.
_Não posso.
Só vão sair daqui com você.
_Por que
tenho que ir junto? O que eles querem?
_Querem
garantir que você esteja perto de mim para me escolher, por que se você for
para longe isso pode nunca acontecer.
_Isso não é
justo Rafa!
_Eu sei. Eu
sinto muito, mas te imploro Helene. _ Rafa veio em minha direção, mas antes que
ele chegasse, um homem enorme surgiu no meu quarto. Ele era mais moreno do que
Rafa e duas vezes maior em musculatura. Eu tremi quando o vi caminhando até mim.
Ele não disse nada apenas me apanhou nos braços como se eu fosse uma boneca de
pano e me levou para a janela.
_Me solta! _
eu gritei, mas me arrependi. Se minha mãe ouvisse ela viria ver o que estava
acontecendo e eles poderiam fazer algo com ela.
_Júlio, eu a
levo, eu disse que levaria._ Rafa pediu enérgico, mas com respeito.
_Demora
demais. Não temos a noite toda. _ ele me segurou possessivamente e quando ele
me olhou vi o desejo nos olhos dele. Seu rosto era vincado e duro. Podia dizer
que era jovem, mas a rigidez de suas expressões o tornava sério como um homem
velho. Era de uma beleza forte e rude. _tive medo. Muito medo. Ele estava me
tocando, então o feitiço não me protegia dele. O que aquele homem gigante faria
comigo?
Ele não se
demorou com conversas. Com um movimento rápido me levou para fora da janela e
correu comigo em seus braços para as pedras. Agarrei-me em seu corpo
instintivamente, com medo da velocidade que ele corria. Estava apavorada demais
para falar alguma coisa. Desejei não ter colocado aquela camisola, a seda
roçava na minha pele e nos braços fortes de Júlio. Eu podia sentir a provocação
que aquele tecido fino fazia nele, mas ele resistia. Existia uma firme
determinação dentro daquele homem. Mas até quando ele aguentaria? Isso era
difícil saber.
Meu único conforto era ver Rafa correndo ao
nosso lado o tempo todo. Subíamos e descíamos no meio a um matagal que eu nem
sabia que existia ali. Aos poucos percebi que não estávamos sós, passos pesados
e sons de rosnados estranhos estavam a nossa volta. Era assustador. Imaginei
outros lobisomens, mas eles deveriam estar totalmente transformados escondidos
na escuridão da mata.
Não sei por
quanto tempo fui carregada. Pareceu uma eternidade. Eu queria gritar, mas não
conseguia. Sentia-me estranhamente presa nos braços daquele homem estranho e
medonho.
Chegamos a
uma espécie de clareira e logo vi luzes acesas e as sombras de pequenas casas. Júlio
me levou até uma delas e me colocou em um quarto que tinha uma cama de solteiro
e uma mesinha apenas. Rafa entrou junto conosco e não tirava os olhos de mim
nem por um segundo.
_Ela ficará
aqui. Amanhã Dona Berta virá retirar o feitiço.
_Não._ disse
tentando me levantar, mas estava tonta e fraca_ o Homem rude só olhou para mim
por um segundo, mas ele me ignorava o tempo todo.
_Ela não vai
tentar fugir. Não terá forças para isso. A escuridão a sua volta lhe consome a
cada hora. Mas você Rafael, nem pense em tentar leva-la. A casa está cercada e
as consequências não seriam boas para você se tentasse. _ Rafael o encarou
furioso, mas algo no olhar firme de Júlio o fez baixar o olhar lentamente.
_Helene, me
perdoe._ Rafa se abaixou perto da cama quando ficamos a sós_ Tiraria você daqui
se pudesse, eu juro.
_Eu não
entendo Rafa, eles não têm o direito de fazer isso comigo._ minha cabeça girou
ainda mais com minhas palavras e eu tive que me deitar. O travesseiro tinha o
cheiro de Rafa, então imaginei que deveria ser onde ele dormia agora que morava
junto com a matilha. Seu cheiro gostoso e familiar me acalmou.
_Eles pensam
que tem esse direito. Eu sinto muito.
_Você não
pode se negar... a ficar comigo?_ eu me esforcei a dizer, minha consciência
quase se perdendo.
_Como eu me
negaria a você? Seria como arrancar o meu coração._ ouvi sua voz sumindo e
afundei na inconsciência.
“Liberta! Limpa! Vá embora toda sombra!”
Uma voz rouca e firme
penetrou em meus sonhos confusos e me trouxe lentamente de volta a vigília.
Abri os olhos, piscando várias vezes para focar as imagens. O quarto estava
escuro, a luz fraca que vinha da janela era insuficiente para me permitir
distinguir todas as formas, Imaginei que estivesse quase amanhecendo, mas mesmo
com pouca luz, pude ver que a pessoa ao lado da cama, que falava com tanta
propriedade, era uma mulher pequena e idosa. Ela tinha cabelos muito escuros,
curtos ou presos, e sua pele apresentava rugas finas em volta dos olhos que
permaneciam fechados enquanto ela fazia uma espécie de oração, com as mãos
estendidas em direção ao meu corpo deitado.
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