terça-feira, 19 de março de 2013

Cap. 9


Tomamos café e conversamos coisas alegres. Eu estava feliz e Victor também parecia estar. Fomos para o aeroporto de táxi. Victor já tinha devolvido o carro alugado. O motorista olhou para mim com interesse, mas nada exagerado. Ele perguntou o destino e Victor o respondeu. Já que eu não sabia nada de Frances. O dia estava nublado e com certeza não demoraria a chover. Caminhei naturalmente pelo aeroporto e em meio as pessoas. Eu ficava fascinada por poder fazer isso de maneira tão simples como nunca.
Confirmamos o voo e caminhamos para a plataforma. Tivemos que esperar pouco. Eu estava nervosa, mais o medo de voar tinha diminuído. A ansiedade por chegar em casa e começar logo minha nova vida estava me deixando sem tempo para pensar em outras coisas. Exceto em Sebastian. Ele não saia da minha cabeça. Eu não conseguia esquecer aquele rosto contraído e os olhos fixos em mim quando saí daquela casa.
_Victor_ eu chamei a atenção dele que estava conferindo o painel de pousos e decolagens do aeroporto. Ele se virou para mim imediatamente_ O que são as Bruxas? Alguma outra raça?
_Pode se dizer que sim, pela genética especial que é transmitida de mãe para filha, mas elas são basicamente humanas.
_Como você?
_Sim, mas assim como só existem vampiros machos, só existem bruxas fêmeas.
_Sério! E se eles tivessem filhos? Seriam bruxas ou vampiros?_ minha pergunta saiu sem pensar.
_ As sub-raças só podem ter filhos com os humanos que são mais neutros. Bruxas e vampiros não costumavam se unir, e mesmo quando faziam, eles não podiam ter filhos.
_Entendo._ mergulhei nos meus pensamentos. Sebastian tinha seus motivos para ser tão arredio. Ele era o único sobrevivente de uma raça em extinção. Mas ao contrário do que ele disse sobre não ser a melhor opção da raça e sim a única, eu achava justamente o contrário. Só o fato dele ter sobrevivido a despeito de tudo, o tornava o melhor e mais forte de todos.
_Vamos._ Victor me tirou os meus pensamentos_ Já estão embarcando. _ eu me levantei e o segui para o portão de embarque. Atravessamos a plataforma e o grande avião tinha suas escadas á minha frente. Victor subia primeiro, mas quando eu coloquei o pé no primeiro degrau uma força desconhecida me fez olhar para trás.
Era Ele. Sebastian caminhava suavemente em minha direção. Seus olhos estavam apertados, incomodados com a luz do dia. Ele era uma criatura da noite, assim como a Lua e as estrelas. E também era tão misterioso e lindo como elas. Suas roupas totalmente negras que se destacavam tanto na ensolarada Rio das Ostras estavam perfeitamente adequadas àquela cidade sofisticada que era Paris.
_Sebastian._ eu sussurrei mais para mim mesma quando parei e dei espaço para que as outras pessoas embarcassem na minha frente. Enquanto ele se aproximava mil pensamentos vinham a minha cabeça. Será que ele iria para o Brasil comigo? E Katherine, ela teria aberto mão dele? Não achava isso provável, mas meu coração se enchia mais de esperança a cada passo que o trazia para mim. _Sebastian._ repeti quando ele parou na minha frente. Ele não disse nada, apenas me puxou gentilmente para seus braços num abraço carinhoso. Seu rosto deslizava nos meus cabelos suavemente. Fui inundada com seu perfume indescritível. Donos de laboratórios de perfumaria venderiam suas almas para colocar aquela fragrância em frascos. Seria uma fonte de fortuna, eu pensei bobamente enquanto sentia o calor de seu corpo no meu e o aperto firme de suas mãos. Não resisti ao desejo de tocar seu cabelo macio e logo estava com meus dedos agarrados em sua nuca. Sebastian virou seu rosto para me encarar e seus olhos estavam negros. Ele franziu a testa como se tentasse resistir ao impulso, mas foi inútil. Seus lábios tocaram os meus no beijo mais doce que eu já havia provado. Ele também me segurou pela parte de trás de minha cabeça e seu aperto aumentava junto com minha excitação. Era uma sensação muito forte e em segundos eu não me lembrava de mais nada. Não sabia onde estava e nem quem ele era, ou mesmo quem eu era. Eu só sentia. Sentia seu calor, seu gosto seu corpo. E queria mais, muito mais. Sem que eu pudesse impedi-lo, ele se afastou lentamente de minha boca. Foram apenas alguns centímetros, mas não podia mais sentir seu sabor. Quis estreitar mais a distancia, mas ele me continha, resistia.
_Oh Helene. Está tão linda!_ ele murmurou no meu ouvido _ Eu sinto muito.
_Sente pelo que?_ perguntei ainda anestesiada. Meu corpo parecia flutuar em uma nuvem.
_Vim apenas me despedir, mas resistir a você é simplesmente impossível. Tão doce. Tão quente. Não resta dúvida que seu pai Elfo não seguiu o protocolo quando escolheu os genes de sua mãe. Acho que ele é quem foi seduzido por ela._ ele brincou, mas era uma brincadeira quase triste. Eu lembrei que ele tinha me dito que eu tinha mais libido que uma Pura deveria ter, e ele culpou a minha mãe por isso. _Foi feita pra mim. _ ele murmurou ainda mais baixo. Um suspiro que quase não pude ouvir enquanto afundava seu rosto no um cabelo.
_Você vai ficar?_ me arrependi por ter perguntado no momento que disse as palavras. Era lógico que ele iria ficar. Ficar com a bruxa fria e fútil.
_Eu só não podia deixar você ir embora com aquela imagem minha, Helene. _ ele explicou com uma expressão de desgosto. Eu vi que ele estava triste. E tudo que eu queria evitar era vê-lo triste. E os outros também. Eu pensei que se eu os libertasse todos poderiam viver suas vidas e buscar por sua felicidade. Sem estarem amarrados a mim. Mas Sebastian não seria feliz com aquela mulher.
_Por que você vai ficar com Katherine? Ela o está obrigando? É por mim que está fazendo isso?_ eu estava agitada.
_Ela não pode me obrigar a nada e não é por sua causa. Ficarei um tempo aqui, depois saio pelo mundo de novo. Não tenho nada melhor para fazer no momento._ ele disse cansado.
_Nada melhor do que ficar com aquela garota ... _ eu procurei um jeito de parecer menos ofensiva.
_Fútil, infantil, egoísta e má? _ ele completou sorrindo travesso_ Eu não sou muito diferente dela, não se engane Helene, eu apenas não sou hipócrita.
_Você não é nada disso._ eu disse com tristeza que ele pensasse assim de si próprio.
_Talvez eu não seja assim quando estou com você, mas isso não importa agora. Deve ir ou seu avião partirá sem você. _ ele me abraçou mais uma vez, só que muito brevemente.
_Vou ver você de novo?_ pedi miseravelmente.
_Quem pode prever o futuro é Victor._ ele debochou _ mas vou tentar ficar longe. Não vou interferir na sua “vidinha normal”. Não se preocupe. _ ele sorriu de novo tentando ser sarcástico, mas falhou. Vi o desanimo escondido em seus olhos. _Vá logo e dê lembranças a sua mãe. Ele se afastou de mim e já se virava para ir embora. Olhei para o avião e vi Victor de braços cruzados em frente ao peito, nos olhando com cara de poucos amigos. Quando me virei para Sebastian de novo ele estava longe caminhando de costas para mim.
_Sebastian, obrigada!_ eu gritei. Ele não se virou, apenas levantou brevemente sua mão esquerda em um aceno _ obrigada por tudo._ conclui baixinho. Estava chorando. Uma angustia sufocante e um sentimento de perda enorme me torturava. Olhei Victor que me esperava e subi no avião.
_ Me desculpe Victor._ pedi quando ele sentou ao lado no avião. Ele não me olhava apenas suspirou. Sequei minhas lágrimas e tentei me recompor.
_Desculpas aceitas._ ele disse amargo _ A culpa não foi sua mesmo. É só Sebastian que não consegue deixar de ser ele mesmo.
_Ele está fazendo um grande sacrifício por mim. Você não acha que ele merece algum desconto?_ eu era acima de tudo muito grata a Sebastian por ter me dado uma oportunidade de ter uma vida que sempre desejei. Só ele pôde fazer isso por mim, e ele sacrificava sua própria oportunidade de ser feliz para me dar isso.
_Ele só faz isso porque acha que você não o escolheria mesmo._ ele atirou. Victor estava mais irritado que eu imaginava que ele poderia.
_Porque você está tão bravo?
_Porque ele te beijou escandalosamente ha minutos atrás._ ele me encarou como se aquilo fosse óbvio demais para que eu tivesse perguntado.
_Sim, mas eu e você não somos namorados, então..._ eu não tinha pegado a lógica daquilo.
_Helene. Você é a Pura. Nunca vai deixar de ser. E agora que você nos liberou eu não posso reivindicar o beijo que ele te deu. Qualquer um de nós pode estar com você sem nenhum compromisso ou consequência e isso é...
_Uma bagunça. Eu sei, mas o que você quer Victor? Quer ter o direito de me beijar também? É por isso que está bravo?
_Se fossem seus beijos sem compromisso que eu quisesse teria tentado seduzir você no hotel, ou nos passeios que fizemos. Eu não fiz isso, e não foi por falta de vontade. Fiz por respeito a sua decisão de deixar a nós três para viver sua vida humana. Uma vida que nunca teria com algum de nós. Nem comigo.
_Mas você vive entre os humanos.
_Sim, mas meus dons são um segredo que tem que ser mantido de qualquer forma. Nossos filhos seriam como eu e teríamos que educa-los longe das outras crianças até que eles pudessem manter sigilo de seus poderes, e muitas outras coisas seriam diferentes. Eu não estou com humor para falar sobre isso agora. _Ele bufou_ Victor não respeita nada. Ele vem e beija você na primeira oportunidade que tem. Eu estou surpreso que não tenha ficado lá com ele. Com a nossa ligação desfeita, você poderia facilmente ser seduzida, com qualquer mulher que ele toca.
Eu estava pasma. Fazia sentido. O vampiro era um sedutor por sua natureza e agora que eu não tinha a contra balança da ligação com Victor ele poderia ter me seduzido.
_Mas isso daria certo?_ eu estava alarmada _ Se ele me seduzisse sem que fosse ele a escolha da Pura, poderíamos ficar juntos?
_Eu não sei._ Victor ficou ainda mais irritado com a direção da nossa conversa_ Isso nunca aconteceu.
_ Bom, em todo caso, quem fez a bagunça toda fui eu. E Sebastian não usou isso a seu favor._ Victor me olhou acusadoramente _ Não totalmente, afinal eu estou aqui indo para casa, não estou.
_É. Você está._ ele concordou finalmente, mas seu humor não melhorou de pronto.
Meus pensamentos giravam, mas de uma coisa eu tinha certeza, eu tinha que manter distancia dos três daqui por diante. Já que eu decidi abrir mão de escolher um deles teria que ficar sem nenhum. Isso seria seguro, justo e... doloroso. Eu gostava mesmo deles. Cada um havia me conquistado de um jeito diferente, mas na mesma intensidade. Eu conhecia Sebastian e Victor ha tão pouco tempo, mas eles já faziam parte da minha vida. Imaginei então o que seria de mim sem Rafael. Não, eu não poderia imaginar isso. Fiquei calada e pensativa por toda a viagem. Victor pareceu se acalmar depois de algumas horas, mas também não falou muito. Eu não me sentia culpada por ter beijado Sebastian. Era como ele disse, eu simplesmente não podia evitar. A atração que o vampiro exercia sobre mim era irresistível. Se ele quisesse poderia ter feito de mim o que quisesse. Eu teria ido com ele se ele tivesse me pedido e estaria alegremente em seus braços agora. Balancei a cabeça tentando tirar esse pensamento. Não era seguro pensar em Sebastian. Aquilo que eu sentia por ele não era natural, nem especial. Era somente uma reação genérica das mulheres por ele. Eu não seria feliz sabendo que estava sendo manipulada por meus hormônios. Eu precisava pensar no futuro humano que eu escolhi. Poderia estudar mais, trabalhar e fazer novos amigos. Um mundo novo se abria na minha frente. Um mundo que eu assistia na TV e sonhava poder estar nele. Agora eu poderia.
Não consegui dormir um minuto sequer na viagem de volta para casa. Minha mente e meu corpo estavam cansados, mas alertas. Desembarcamos no Rio de Janeiro e Victor pegou seu carro que estava no estacionamento do aeroporto.
_Você é muito legal por me trazer para casa depois de tudo. _ eu disse em reconhecimento sincero.
_Não supervalorize uma pequena gentileza. Você merece ser muito bem tratada pela importância que tem. _ ele disse com um sorriso confortável_ E também merece pela pessoa que você é, independente disso tudo.
_Sério? Existe algo em mim independente disso tudo?
_Claro que existe bobinha. Você tem uma personalidade única, como todo mundo afinal de contas, do contrário não estaria indo na direção inversa do destino. _ ele sorriu mais largamente. Estávamos chegando à minha casa e meu peito se apertou quando vi que se aproximava o momento de mais uma despedida. Eu provavelmente nunca mais veria aquele sorriso arrasador de novo. _O que foi?_ ele perguntou quando viu meu rosto cair.
_Vou sentir sua falta. _ confessei mesmo sabendo que estava sendo egoísta com ele.
_Entendo. _ ele ficou sério_ Me custa muito deixar você, mesmo que seja para a sua felicidade.
_Eu sei. Não devia ficar assim, mas não consigo evitar.
_Tudo vai passar com tempo. Você vai esquecer isso tudo._ ele tentou melhorar as coisas.
_Não posso me esquecer de nada Victor, você não sabe?_ eu disse desanimada.
_Oh, é mesmo. Desculpe, me esqueci._ ele deu uma risada gostosa e tive que rir com ele.
Estávamos parados em frente à praia onde eu morava. Eu olhei o mar que me viu crescer e me senti em casa. Só não estava totalmente segura agora que sabia que ficaria sozinha. Tive medo daquele vazio que senti no quarto do hotel em Paris. Torci para que aquilo fosse porque eu estava em um lugar estranho, longe de casa. Victor me ajudou a levar as malas até a porta de casa, mas não quis entrar. Era fim de tarde e logo minha mãe chegaria do trabalho, então ele não queria ter que se despedir dela também.
_Você vai ficar bem?_ ele perguntou com um olhar tão doce que me abalou intimamente. A ligação estava desfeita, mas ele ainda parecia me amar. Como isso funcionava? Eu me perguntei.
_Vou sim, não se preocupe. Só vou sentir sua falta. Você poderia vir me visitar se quiser._ disse esperançosa.
_Sabe que isso não seria o melhor para você. Precisa seguir em frente, se vai viver uma vida humana, terá que conviver com humanos.
_Você acha que eu sou louca por fazer isso não é?
_Louca não, mas não compreendo muito bem a lógica disso, tenho que confessar, mas vejo em seus olhos que é o que acredita que precisa, e Helene, nós só podemos viver dentro daquilo que acreditamos. Não há outro caminho a seguir.
_E em que você acredita Victor.
_Eu? _ ele franziu o cenho perfeito_ Agora mesmo estou buscando novas crenças._ aquilo cortou meu coração já abalado. Eu estava acabando com as esperanças dele também. Victor era o mais confiante de ser escolhido. Apesar de nunca ter sido arrogante com isso. Ele era o que tinha mais chances e por isso é o que mais estava perdendo.
_Sinto tanto._ estava banhada em lágrimas de novo_ Obrigada por tudo Victor e me desculpe.
_Ah não faça assim Helene. Não se culpe. Talvez não tivesse mesmo que ser. Talvez os planos de Deus tenha mudado, por isso o lobisomem te atacou daquele jeito. Pelo menos você não teve que morrer e agora pode viver sua vida feliz. _ ele me envolvia ternamente em seus braços, mas não me manteve ali por muito tempo. Antes que eu pudesse estar preparada para me despedir ele me beijou a testa com ternura e se afastou.
_Adeus, linda Helene. Tenha uma bela vida._ ele falou com seu sotaque charmoso e seus modos de cavalheiro do século XVI.
_Adeus gentil Victor. Seja feliz._ eu o imitei tentando disfarçar minha dor. Em segundos ele tinha partido para sempre e o vazio cresceu no meu peito.
Mamãe não demorou a chegar. Eu estava na cozinha fazendo um chá de camomila com maçã quando ouvi a porta se abrir. Ouvi sua voz tão familiar e percebi o quanto estava com saudades dela. Mas tinha outra voz a acompanhando. Ela não estava sozinha. E um frio correu pela minha espinha dorsal. Reação instintiva às vozes masculinas estranhas na minha casa.
_Filha você está aí?_ mamãe deve ter visto minhas bagagens ainda na sala. Eu esperei que ela viesse até mim na cozinha.
_Oi mãe._ eu disse colocando minha xícara na mesa e indo abraça-la. Meus olhos não se fecharam atrás dela, eu procurava pelo visitante misterioso. Um homem de meia idade parecendo muito distinto surgiu na porta. Ele tinha um rosto benigno e seus cabelos grisalhos bem cortados davam-lhe certo charme. Ele me olhava com curiosidade, mas não teve a reação que eu temia._ Senti sua falta._ eu respirei aliviada que o feitiço estava funcionando e pude relaxar nos braços de minha mãe.
_Eu é que senti filha, você não imagina. Como está linda! Deixa-me ver você._ ela se afastou de mim e correu os olhos pelo meu corpo e voltou a me olhar nos olhos_ Linda demais, mas parece triste, o que foi?_ ela estreitou os olhos e se voltou para olhar seu convidado, de repente se lembrado que ele estava ali e medindo a sua reação, como eu tinha feito. Ele continuava quieto com um sorriso agradável no rosto esperando ser apresentado. Mamãe se iluminou quando viu uma reação tão positiva. Ela abriu um largo sorriso._ Funcionou! Deu certo. É maravilhoso!_ ela me abraçou de novo e logo me soltou e foi em direção ao homem_ Helene esse é Rodolfo. Nós estamos nos conhecendo e... _ ela parecia não saber como definir o relacionamento deles.
_Sou o namorado de sua mãe._ ele completou com bom humor_ É um prazer finalmente conhecer você._ ele me ofereceu sua mão com entusiasmo. Eu regredi na mesma hora lembrando que se eu o tocasse ele estaria ultrapassando os limites do bloqueio.
_O prazer é meu._ eu disse, me esquivando_ desculpe não pegar sua mão, mas estou com um problema e não posso tocá-lo. _ ele olhou confuso para minha mãe. Ela também não estava entendendo. Eu resolvi ser direta e verdadeira, afinal se eles tinham um relacionamento teriam que entender minhas limitações._ Mãe. Você sabe aquele problema que eu fui resolver na França? _ ela concordou com a cabeça_ Então, eu consegui uma solução paliativa que nada adianta se encostarem em mim._ vi no olhar de mamãe que ela entendeu.
_Então é isso. Isso já é um grande avanço. _ ela disse animada. O tal Rodolfo continuava nos olhando sem entender_ Querido eu te explicarei tudo depois, agora vamos tomar um chá e ouvir sobre a viagem de Helene. _ ele concordou e eu gelei. O que poderia dizer a eles? Sobre as compras e os passeios. Sim, isso estava bom.
Depois de muitos chás e conversas, descobri que Rodolfo era um cara muito legal e bem humorado. Mamãe ria de tudo que ele dizia. Eles estavam visivelmente apaixonados e felizes. Entreguei os presentes que trouxe para ela que adorou tudo. Depois levei minhas roupas para o quarto. Ela deixou seu namorado abandonado na sala vendo TV para me ajudar a guarda-las no meu guarda-roupa. Tirando todas as velhas e colocando as novas. Tive que segurar algumas coisas de minha preferencia, ou ela teria jogado tudo fora.
_Estou muito feliz por você meu amor._ mamãe me abraçou e novo_ Mas por que parece estar triste?
_ Eu tive que me despedir de Victor e de Sebastian. Vou sentir falta deles._ disse a versão simplificada da verdade.
_Mas, por quê?  Eles foram embora porque você não escolheu nenhum dos dois?_ ela tinha o cenho franzido de novo_ ou foi por que o encanto acabou? Não me diga que foi isso que os afastou?
_Não foi isso. Na verdade, eu vi que nenhum deles tem nada haver comigo. Nossas vidas são totalmente diferentes.
_Entendo. Então você considera o Rafael?
_Não, nem ele. _ suspirei profundamente.
_Filha eu não entendo você, se quisesse mesmo ficar sozinha estaria feliz em dispensar esses homens lindos que te querem, mas você não está. O que pretende? Eu sei que você não teve nenhum relacionamento para saber, mas não vai encontrar nenhum que seja perfeito, ou livre de problemas. Sempre temos que abrir mão de coisas para termos outras.
_Eu sei, mas está dizendo que se eu me casasse com o Victor e tivesse que ir para outro país com ele estaria tudo bem? E você mamãe?
_Querida, se você o amasse de verdade não deveria pensar em mais nada, nem em mim. Eu sentiria sua falta, mas você é uma mulher adulta e deve viver sua vida. Não sou dependente de você e nem você de mim, não mais.
_Você tem razão. Eu acho que estou muito perdida e não sei o que devo ou não fazer. Nunca tive tantas opções.
_Ah meu amor! Não fique assim, na sua idade nada é definitivo. Tome seu tempo para colocar as coisas no lugar, então estará mais preparada para decidir a sua vida._  ela sorriu e eu sorriu de volta tentando fazê-la se sentir melhor, mas meu coração se apertou ainda mais ao lembrar que eu já tinha feito escolhas definitivas, mesmo antes de estar preparada. _ Agora descanse. Amanhã será um novo dia para você. Um dia de liberdade total. Será maravilhoso! E vamos poder planejar uma grande festa de aniversário. Tenho vários amigos que querem te conhecer.
Meu aniversário! Eu nem estava lembrando mais disso. Seria depois de amanhã. Será que eu mudaria depois que completasse vinte e um anos?
Quando finalmente minha mãe me deixou sozinha no quarto eu me joguei na cama e me rendi ao desanimo. A atmosfera pesada sobre mim, era o que me deixava cansada. Eu não tinha me arrependido de ter feito nada, sabia que era tudo parte do que era necessário para conseguir a vida que eu queria, mas ainda assim, sentia os efeitos da energia escura que Katherine me envolveu. E também sentia a profunda solidão por ter liberado meus pretendentes. Essa última era a pior. O vazio que tinha por dentro me consumia completamente agora. O ar entrava em meus pulmões que pareciam grandes demais. Meu coração batia muito leve, como se estivesse completamente vazio.  O sentimento era muito ruim.
Percebi que ficar deitada sem dormir não estava me fazendo descansar, só me concentrava no mal estar que estava sentindo, então me levantei para ir tomar banho e poder dormir. Torcia para que conseguisse. Fui até o armário e peguei uma camisola de ceda que tinha visto na vitrine de uma loja cara de Paris e tinha me apaixonado. Ela era longa justa ao corpo. Sua cor era de um vermelho profundo e fascinante. Victor insistiu para que eu experimentasse. Eu nem queria entrar na loja, claro, o luxo era intimidador demais, mas ele não me deixou sair de lá sem me presentear com ela. Decidi usá-la na minha primeira noite em casa, na minha nova vida.
Dessa vez a água não me ajudou muito. Eu estava  realmente cansada e angustiada. A dúvida de se minha decisão tinha sido a coisa certa ou não, me torturava cada vez mais. Mas como Victor disse, era no que eu acreditava e não podia agir de outra forma. Saí do banheiro secando os camelos com uma toalha.
_Helene._ tomei um susto e me virei imediatamente para a janela. Rafael estava lá parado com o rosto mais tenso que já tinha visto nele, salvo aquele dia da transformação. Quis tirar aquela imagem da minha cabeça e recebe-lo amigavelmente, mas sua expressão sombria não me permitiu isso.
_Rafael, o que está fazendo aqui?
_Preciso falar com você, é muito sério. _ ele me olhava com o rosto contraído, como se não estivesse me reconhecendo.
_O que há de errado com você?_ perguntei confusa e com medo.
_Eu é que pergunto, o que diabos fizeram com você? _ ele rosnou. Entendi que de alguma forma ele podia ver o bloqueio escuro a minha volta. _ Júlio tinha razão. Poluíram você! Mas por que fizeram isso?
_Ninguém me poluiu Rafa, eu pedi para que me ajudassem a ser normal e esse foi o único jeito._ expliquei sem vontade e voltei ao banheiro para pendurar minha roupa. Quando me vi no espelho lembrei que estava naquela camisola absurdamente sensual e fiquei constrangida por Rafa ter me visto assim. Tinha que pedir para ele ir embora, afinal já era tarde e eu estava cansada da viagem, mas antes eu queria saber por que ele tinha invadido meu quarto, ele não costumava fazer isso, era um hábito de Sebastian. Sacudi minha cabeça para me livrar desse pensamento_ E quem é Júlio?_ voltei para o quarto, me sentei na cama e me cobri com a colcha.
_Júlio é o lobo Alfa. _ ele vacilou um pouco e caminhou na minha direção_ Helene o que fizeram com você foi errado, transgrediram todas as regras que envolvem a Pura. Júlio não vai permitir isso e eu tive que implorar para vir falar com você antes dele. Entenda eu tenho que obedecê-lo, não tenho escolha.
_Ele virá aqui falar comigo? Falar o que?_ eu o encarei confusa_ Rafa depois de tanto tempo sem ver você e quando aparece é com essa conversa?
_Helene, é sério. Eu vim falar com você, mas ele vai leva-la, querendo ou não. _ seu rosto estava contrariado.
_Me levar para onde?
_Não se preocupe ninguém vai te machucar. Ele apenas quer garantir que a Pura cumpra seu destino.
_Eu não vou a lugar nenhum Rafa, eu não quero cumprir nenhum destino da Pura. Fui à Paris para encontrar a bruxa que podia mudar tudo. Não quero escolher nenhum de vocês. Eu não quero._ eu estava desesperada e irritada. Quem esse tal Júlio alfa não sei do que, pensava que era para interferir na minha vida.
_Não terá que escolher mais._ Rafa disse cuidadosamente_ Júlio sabe que você dispensou os outros, nós temos uma anciã, esposa de um dos lobos que tem poderes e pôde ver tudo o que você fez. Ela disse que agora você só tem uma escolha, eu._ vi um brilho fraco nos olhos dele_ Então quando você completar vinte e um anos me escolherá e poderemos purificar nossa raça. Isso é muito importante para a matilha.
_Isso é um absurdo! Eu não posso dispensar você, então será meu escolhido? _ eu gritei.
_É no que todos lá acreditam._ ele estava constrangido.
_Rafa, eu sei que você gosta de mim, mas não acredito que usaria desse tipo de artifício para que eu fique com você.
_Eu nunca faria isso Helene, mas não estou no comando, eu tenho que obedecê-lo. Peço que venha comigo, antes que eles venham aqui para leva-la contra sua vontade. Os lobisomens não são maus, mas eles são muito facilmente irritáveis e estão aborrecidos com a sua atitude. Sentem-se prejudicados pela Pura já por séculos, quando elas não os escolhiam, agora você abre mão de tudo nos tirando outra chance. Não vão deixar. Eu sinto muito.
_Está me dizendo que se eu não for por vontade própria eles vão me sequestrar?_ mal terminei a frase e ouvi um uivo alto do lado de fora da casa e meu corpo estremeceu.
_Helene, precisamos ir. Será melhor não envolver sua mãe nisso._ minha mãe, eu pensei, ela deve ter ouvido o lobo.
_Meu Deus! Mande-o embora.
_Não posso. Só vão sair daqui com você.
_Por que tenho que ir junto? O que eles querem?
_Querem garantir que você esteja perto de mim para me escolher, por que se você for para longe isso pode nunca acontecer.
_Isso não é justo Rafa!
_Eu sei. Eu sinto muito, mas te imploro Helene. _ Rafa veio em minha direção, mas antes que ele chegasse, um homem enorme surgiu no meu quarto. Ele era mais moreno do que Rafa e duas vezes maior em musculatura. Eu tremi quando o vi caminhando até mim. Ele não disse nada apenas me apanhou nos braços como se eu fosse uma boneca de pano e me levou para a janela.
_Me solta! _ eu gritei, mas me arrependi. Se minha mãe ouvisse ela viria ver o que estava acontecendo e eles poderiam fazer algo com ela.
_Júlio, eu a levo, eu disse que levaria._ Rafa pediu enérgico, mas com respeito.
_Demora demais. Não temos a noite toda. _ ele me segurou possessivamente e quando ele me olhou vi o desejo nos olhos dele. Seu rosto era vincado e duro. Podia dizer que era jovem, mas a rigidez de suas expressões o tornava sério como um homem velho. Era de uma beleza forte e rude. _tive medo. Muito medo. Ele estava me tocando, então o feitiço não me protegia dele. O que aquele homem gigante faria comigo?
Ele não se demorou com conversas. Com um movimento rápido me levou para fora da janela e correu comigo em seus braços para as pedras. Agarrei-me em seu corpo instintivamente, com medo da velocidade que ele corria. Estava apavorada demais para falar alguma coisa. Desejei não ter colocado aquela camisola, a seda roçava na minha pele e nos braços fortes de Júlio. Eu podia sentir a provocação que aquele tecido fino fazia nele, mas ele resistia. Existia uma firme determinação dentro daquele homem. Mas até quando ele aguentaria? Isso era difícil saber.
 Meu único conforto era ver Rafa correndo ao nosso lado o tempo todo. Subíamos e descíamos no meio a um matagal que eu nem sabia que existia ali. Aos poucos percebi que não estávamos sós, passos pesados e sons de rosnados estranhos estavam a nossa volta. Era assustador. Imaginei outros lobisomens, mas eles deveriam estar totalmente transformados escondidos na escuridão da mata.
Não sei por quanto tempo fui carregada. Pareceu uma eternidade. Eu queria gritar, mas não conseguia. Sentia-me estranhamente presa nos braços daquele homem estranho e medonho.
Chegamos a uma espécie de clareira e logo vi luzes acesas e as sombras de pequenas casas. Júlio me levou até uma delas e me colocou em um quarto que tinha uma cama de solteiro e uma mesinha apenas. Rafa entrou junto conosco e não tirava os olhos de mim nem por um segundo.
_Ela ficará aqui. Amanhã Dona Berta virá retirar o feitiço.
_Não._ disse tentando me levantar, mas estava tonta e fraca_ o Homem rude só olhou para mim por um segundo, mas ele me ignorava o tempo todo.
_Ela não vai tentar fugir. Não terá forças para isso. A escuridão a sua volta lhe consome a cada hora. Mas você Rafael, nem pense em tentar leva-la. A casa está cercada e as consequências não seriam boas para você se tentasse. _ Rafael o encarou furioso, mas algo no olhar firme de Júlio o fez baixar o olhar lentamente.
_Helene, me perdoe._ Rafa se abaixou perto da cama quando ficamos a sós_ Tiraria você daqui se pudesse, eu juro.
_Eu não entendo Rafa, eles não têm o direito de fazer isso comigo._ minha cabeça girou ainda mais com minhas palavras e eu tive que me deitar. O travesseiro tinha o cheiro de Rafa, então imaginei que deveria ser onde ele dormia agora que morava junto com a matilha. Seu cheiro gostoso e familiar me acalmou.
_Eles pensam que tem esse direito. Eu sinto muito.
_Você não pode se negar... a ficar comigo?_ eu me esforcei a dizer, minha consciência quase se perdendo.
_Como eu me negaria a você? Seria como arrancar o meu coração._ ouvi sua voz sumindo e afundei na inconsciência.
Liberta! Limpa! Vá embora toda sombra!”
Uma voz rouca e firme penetrou em meus sonhos confusos e me trouxe lentamente de volta a vigília. Abri os olhos, piscando várias vezes para focar as imagens. O quarto estava escuro, a luz fraca que vinha da janela era insuficiente para me permitir distinguir todas as formas, Imaginei que estivesse quase amanhecendo, mas mesmo com pouca luz, pude ver que a pessoa ao lado da cama, que falava com tanta propriedade, era uma mulher pequena e idosa. Ela tinha cabelos muito escuros, curtos ou presos, e sua pele apresentava rugas finas em volta dos olhos que permaneciam fechados enquanto ela fazia uma espécie de oração, com as mãos estendidas em direção ao meu corpo deitado.  

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