terça-feira, 19 de março de 2013

Cap. 8


O banho me ajudou a colocar meus nervos no lugar. Eu não tinha motivos para estar tão... enciumada. Essa é a palavra que eu demorei a admitir, mas não tinha outra que se explicasse a minha reação, mesmo sendo irracional, afinal, por que eu ficaria com ciúmes de um homem que estava prestes a abrir mão?
 Saí do banheiro e me vesti. Fiquei mais desanimada quando imaginei que os dois provavelmente estariam me espreitando, ansiosos por alguma atitude minha. Eu os havia expulsado, então eles iriam esperar para serem convidados de novo. Até Sebastian que poderia ser considerado rude ás vezes, respeitava esse ponto.
Respirei fundo e busquei alguma força invisível que me ajudasse a consertar aquela bagunça que eu tinha feito. Sentei-me na cama e senti meu coração acelerar. Respirei novamente e o acalmei um pouco antes de chamar.
_Sebastian, pode vir aqui um minuto, por favor?_ eu disse baixo. Sabia que de alguma forma ele podia me ouvir. Ele não demorou dois segundos para se materializar diante de mim. Seu rosto estava tenso, ansioso. _ Quero pedir desculpas. _ falei antes de minha voz sumir ou dele me desviar do meu objetivo, como ele sempre fazia.
_O que foi aquilo? Foi o que Victor disse? Você ficou escandalizada com... _ ele franziu o rosto com alguma amargura.
_Não. Escandalizada não. _ eu baixei meus olhos desviando dos dele. Ele suspirou de frustração com eu previ que ele fizesse por eu estar escondendo meus olhos dos dele _ Eu fiquei com ciúmes, eu acho._ confessei envergonhada.
_Ciúmes? _ ele se inclinou para baixo e buscou meu rosto com sua mão puxando-o para encará-lo. _Você estava com ciúmes de mim?_ isso parecia ser divertido para ele. Eu apenas confirmei com a cabeça. O que mais ele queria? Eu já estava admitindo não estava? Ele precisava tripudiar? Seu sorriso iluminou brevemente seu rosto antes dele colocar a expressão presumida que lhe era mais familiar_ Ás vezes eu me perco no tempo. Isso acontece quando se é tão velho. _ ele brincou.
_Não entendo o que você quer dizer.
_Ha alguns séculos, as mulheres eram muito mais tolerantes com a sexualidade masculina. A sociedade era mais permissiva para os homens, você sabe. É um contra senso. As mulheres conquistaram tanta liberdade sexual, mas sonham com parceiros puros e fieis. Pura contradição. _ele estava divagando.
_Você acha errado ser fiel?_ o ultraje saiu forte na minha voz.
_ Claro que não. Eu nunca fui fiel a uma mulher no entanto, mas acho a ideia muito interessante. O que eu não entendo é como as mulheres querem seus maridos fieis quando há tantas outras disponíveis e liberais para ele. Torna-se muito difícil._ seu divertimento era ofensivo.
_Difícil! _eu gritei. Estava furiosa de novo_  Você seduz as mulheres, transa e se alimenta delas, deixando-as loucamente apaixonadas por você, separadas de seus maridos e com suas famílias desfeitas e ainda acha isso normal? O que você é? Um canalha! _ Eu estava explodindo de raiva, mas senti na expressão dele que tinha ido longe demais, me arrependi logo que as palavras saíram. Ele me olhou confuso.
_Canalha? Essa é a definição de um homem desonesto e mentiroso. Eu não acho que seja o meu caso. Eu nunca fiz essas coisas que me acusa.
_Não? Então como é que você faz?_ minha voz não estava com a mesma determinação.
_Eu preciso da relação sexual com elas para me alimentar, e consequentemente elas se apaixonam, tentei inúmeras vezes evitar as duas coisas, mas foi impossível, então eu apago as memórias delas depois. Elas não se lembram de mais nada, nem de mim. Sei que parece horrível, mas foi o único jeito que encontrei de não arruinar com a vida delas. _ Sebastian parecia desconfortável, ele não estava acostumado a dar explicações a ninguém estava claro no seu rosto desfeito_ Quanto ás mulheres casadas, _ ele continuou ainda mais constrangido_ não vou mentir e dizer que nunca escolhi uma, mas em alguns lugares não tinha uma boa opção de mulheres iniciadas sexualmente, então entre desonrar uma virgem ou uma mulher casada eu sempre preferi a segunda opção._ ele sorriu como se isso explicasse tudo.
_Nenhuma delas se lembra de nada depois?_ aquilo me fez sentir um pouco melhor, mas só um pouco. Continuava sendo um desrespeito, mas pelo menos ele não tinha uma legião de mulheres loucas por ele espalhadas pelo mundo.
_Sim. Na grande maioria das vezes._ ele franziu o cenho brevemente como se lembrasse de algo desagradável _ Mas nunca jurei amor eterno a ninguém Helene. Até porque eu não posso amar ninguém. _ ele se interrompeu de repente. Seus olhos se tornaram mais escuros. Eu o estava encarando com raiva_ Ninguém além da pura._ ele disse finalmente e caminhou para longe de mim. _Você já está pronta para ir? Essa conversa não está levando a lugar nenhum.
_O que você quer dizer? Por que você não pode?_ eu sabia que tinha mais por trás daquela revelação.
_Isso não importa._ ele disse levantando os ombros, ainda virado de costas para mim. Eu ainda estava irritada, mas curiosa demais para deixar passar. Levantei-me e fui até ele.
_Eu sou a Pura no momento, então acho que isso me importa.
_Você está muito confusa ou distraída demais para perceber coisas que estão bem na sua frente._ ele se virou para me olhar. Eu continuei sem entender, então ele suspirou e continuou_ Eu não sou sua melhor opção da raça dos vampiros Helene. Eu sou sua única opção, sinto muito por isso._ ele mostrou um sorriso amargo_ Os outros Victor e Rafael, quando não forem escolhidos por você, poderão viver suas vidas alegremente. Estarão liberados do vínculo para se apaixonarem e se unirem a outras mulheres. Poderão ser substituídos por outros quando a Pura surgir, mas isso não acontece comigo. Eu estarei sempre à disposição da Pura. Até que ela me escolha, ou até que alguma delas me escolha. Eu não posso amar nenhuma outra mulher. _Fiquei congelada olhando pra ele. Tinha dor e vazio naqueles profundos olhos azuis. Sebastian era uma vítima muito maior que eu daquela trama cruel do destino. Ele não tinha como fugir daquilo. Era um eterno prisioneiro. Eu quis escolhe-lo naquele instante. Eu pensei que se ele não fosse o que mais merecesse, pelo menos era o que mais precisava ser escolhido. Eu busquei meu coração. Tentei ver aquela luz que Victor disse que iluminaria o escolhido. Mas nada. Não aconteceu nada. Ele estava lá olhando desconfiado e inseguro para mim. Sabendo que estava totalmente indefeso e fragilizado com aquela verdade cruel. Talvez eu tenha que completar vinte e um anos para poder fazer a escolha, então eu tinha que esperar, mas isso só aconteceria daqui a três dias.
_Sebastian._ eu murmurei seu nome.
_Vamos logo Helene. Eu já avisei Katherine que estamos indo e ela detesta esperar._ ele recompôs sua máscara de indiferença e seguiu para a porta. Eu fiquei ali parada por um instante. Um cansaço se abateu sobre mim. Eu não tinha o poder para salvar Sebastian, nem a ninguém. Eu tinha que ir ao encontro de quem podia me salvar e era isso que eu ia fazer. Era para isso que eu estava lá. Puxei o ar profundamente e sai do quarto atrás dele.
Victor veio ao meu encontro com um olhar preocupado.
_Se vai abrir mão de escolher entre nós não deveria se inteirar de tantos detalhes. Isso não faz bem a você. Posso ver isso._ ele disse e enquanto pegava na minha mão.
_Eu sei, mas eu precisava saber._ eu estava muito cansada. Cansada como nunca. Minhas energias pareciam ter desaparecido no ar.
_ O clima de Paris é pouco favorável para você. A Pura precisa estar sempre ao Sol e ao ar puro. Também cercada por energias positivas. _a voz de Victor era séria.
_Eu não sabia disso.
_É porque você nunca saiu de Rio das Ostras. Lá tem o clima ideal para você. A energia das pessoas também é melhor. Essa cidade pode ser muito bonita, mas está muito carregada de energias pesadas como ambição e inveja.
_Eu sinto muito Victor._ eu disse e ele soube imediatamente que eu tinha mudado de assunto_ você merece ser escolhido, você sabe. Qualquer mulher ficaria feliz em ficar com você. Eu ficaria feliz em ficar com você. _ Sebastian estava à muitos passos a nossa frente, eu sabia que ele podia ouvir com sua audição sobrenatural, mas eu não teria outra oportunidade de falar com Victor.
_Em uma coisa ele tem razão Helene._ Victor me disse e vi seus olhos brilharem como se estivessem úmidos. _A razão por eu estar permitindo isso é que você não está feliz. A Pura devia ser feliz afinal._ eu assenti com a cabeça. Lagrimas caíram de meus olhos.
Fizemos uma breve viagem de carro. Ninguém disse nada durante o caminho. Todos pareciam imersos em seus próprios pensamentos.
A casa de Katherine era imponente do portão até as portas largas da entrada. Era tudo muito exageradamente luxuoso. Haviam seguranças e empregados uniformizados por todos os lados. Como se ela precisasse encher a casa de serviçais para não ficar completamente sozinha. O portão eletrônico se abriu logo que chegamos à entrada e quando descemos do carro no grandioso jardim que rodeava a mansão, fomos recebidos por um mordomo perfeitamente alinhado à porta da frente. Ele nos informou que Katherine nos aguardava e nos guiou pela mansão ostentosa.
_Sebastian! _uma voz feminina sedutora e ansiosa atravessou a grande sala. Katherine apareceu vestida em um vestido longo preto com um caimento perfeito em seu corpo curvilíneo. Seus cabelos eram de um marrom amendoado muito brilhante. As maças de seu rosto eram arredondadas como se não tivesse ainda chegado a idade adulta, sua pele era muito clara e os lábios tinham um bonito formato de coração. Definitivamente não era o que eu esperava de uma bruxa. Ela caminhou determinada até ele e o beijou calorosamente no rosto, depois de Sebastian ter desviado sua boca da dela.
_Como vai Katherine? Muitas poções mágicas no seu caldeirão?_ Sebastian sorria fracamente para sua tão calorosa recepção.
_Nem tanto como antes meu querido. As coisas andam muito entediantes ultimamente, ou estavam até agora. _os olhos dela brilhavam para Sebastian. Ela era louca por ele. Estava estampado na sua cara. Aquilo realmente me incomodou, mas eu fingi ignorar.
_Katherine, essa é Helene._ ele se desviou dela para apontar para mim.
_Oh, sim. A Pura._ ela olhou sem vontade para mim, mas colocou um sorriso amigável e encantador no seu rosto de boneca. Seus olhos tinham o mesmo tom achocolatado de seus cabelos._ Como vai Helene?
_Bem, obrigada. _ eu disse com cordialidade forçada. Eu não estava nada bem. Por isso estava lá desesperada por alguma espécie de solução para o meu problema.
_E aquele é Victor._ ele disse simplesmente como se ela já soubesse de quem se tratava. Ela sorriu brevemente para Victor com o reconhecimento que eu adivinhei. Ele apenas acenou uma vez com a cabeça e se moveu sutilmente para mais perto de mim. O clima não poderia estar mais tenso.
_Então, o que você precisa de mim, querido Sebastian?_ ela estava toda derretida sobre ele de novo.
_Helene não quer ser a Pura._ vi uma sombra de desgosto no seu rosto, mas logo ele a disfarçou _ O que você pode fazer sobre isso?
_Não quer!_ Ela parecia incrédula, mas quase saltitou de animação. Sebastian esperou a resposta de sua pergunta com visível impaciência.
_Ela quer ter uma vida normal entre os humanos. _ ele explicou_ Mas para isso ela precisa se desligar de nós e deixar de atrair todos os homens que olham para ela.
_ Bom. _ ela pensou _ Eu não posso mudar o DNA dela, mas posso fazer alguns arranjos._ ela se aproximou de mim com olhar especulativo. _Um feitiço de bloqueio vai resolver os problemas com os homens, mas isso iria bloquear para todos, não terá como ser atraente para um e não para outro. Porém, se você tocar em um homem ele sentirá a atração, porque estará ultrapassando os limites do bloqueio. Você me compreende?_ ela me perguntou como se eu fosse uma deficiente mental.
_Eu entendo, e não me importo.
_Perfeito! _ ela bateu as palmas
_Quanto a nós? _ Sebastian perguntou cortante.
_Quanto a vocês eu não posso interferir. Só ela pode dispensar seus pretendentes. Basta que ela diga sinceramente que estão dispensados e vocês estarão livres para ir.
Olhei para Sebastian que não alterou nem uma vírgula de sua máscara fria. Victor permanecia imóvel ao meu lado também, mas seu olhar era de desolação.
_Assim está bom para você Helene?_ Sebastian me perguntou como se fosse sobre o cardápio do almoço. Meu coração doía. Só consegui acenar com a cabeça. Seus olhos frios ficaram intensos por um milésimo de segundo antes que eles se desviassem de mim e voltassem para a “bruxa”. _Faça.
Katherine se aproximou mais de mim e fez um gesto para que Victor se afastasse. Ele resistiu então ela sorriu falsamente amável.
_É muito simples, não vou machuca-la._ ele cedeu dando um passo para trás._ Feche seus olhos querida. _ eu estava com medo, mas obedeci.
Não sei o que ela fez, mas podia ouvir um sussurrar de palavras estranhas que pareciam latim. Sua voz de criança, aos poucos foi ficando mais alta e mais forte. As frases desconhecidas saíam cada vez mais rápidas e intensas. Muitos minutos foram se passando e eu resisti a curiosidade de abrir meus olhos até que Sebastian gritou.
_Katherine, Não!
_Pare!_ era a voz de Victor.
Fiquei assustada e abri os olhos a tempo de ver os dois avançarem na direção de Katherine e serem lançados na parede a metros de onde estavam. Quando olhei assustada para Katherine ela tinha os olhos vermelhos e brilhantes. Ela continuava pronunciando seu ritual, mas agora sua voz era desumanamente rouca. Voltei a procurar Victor e Sebastian e os vi tentando se levantar no fundo da sala. Eu estava apavorada. Seja lá o que ela estava fazendo comigo não era bom. Tentei me mover, mas não consegui. Tudo aconteceu muito rápido e Katherine silenciou e fechou seus olhos. Estava acabado.
_Você usou magia negra Katherine!_ Sebastian acusou sufocado e furioso.
_Foi preciso. A magia branca não quis interferir com a Pura._ ela disse docemente, como uma criança que justifica uma arte. _Não se preocupe. O feitiço não tocará nela, apenas formará um bloqueio a sua volta. Eu sinto muito por ter que empurrar você “mon cherie’’, mas não pode me interromper no meio de um feitiço. _ ela foi até Sebastian, que ainda buscava por equilíbrio se apoiando na parede, e acariciou seu rosto._ Você me perdoa meu querido?_ ele a ignorou, seus olhos estavam fixos em meu rosto.
_Isso irá enfraquecê-la._ Victor se levantou também com dificuldade e caminhou resoluto para o meu lado_ Tire isso dela agora!
_Como se sente Helene?_ ela se virou para mim inocentemente.
_Eu me sinto um pouco estranha, mas não é muito ruim._ eu disse _É como se o céu estivesse nublado para chuva._ foi a melhor explicação que consegui para como eu me sentia.
_Viu? _ela ergueu os ombros_ Não é tão ruim. Com certeza é melhor do que ter o risco de ser estuprada em cada esquina. _ isso me fez estremecer, mas era verdade. _Vamos fazer um teste._ ela caminhou em direção a um aparelho de telefone que estava sobre um criado mudo e apertou um só botão.
_”Sim senhora”_ a voz saiu do aparelho.
_ Quero todos os guardas na minha sala agora._ ela ordenou a quem quer que tenha atendido. Eu estremeci. Tinha visto pelo menos uma dezena de homens no jardim da casa. Victor estava mais perto e Sebastian também surgiu ao meu lado com cara de poucos amigos. Eles não estavam satisfeito e olhavam furiosamente para Katherine, mas não podiam impedi-la. Ela era muito poderosa. Essa conclusão me fez ter mais medo ainda. Se eles não podiam me proteger dela ninguém mais poderia.
Não demorou para a sala começar a ser invadida por vários homens enormes e fortemente armados. Como eu temia eles eram muitos. A sala espaçosa da mansão logo estava cheia demais. Eles não conseguiam entrar sem se esbarrar uns nos outros. Os únicos espaços que eles evitavam fechar eram a nossa frente e ao redor de Katherine.  Victor e Sebastian me levaram para um canto da parede e se colocaram na minha frente. Katherine olhava para nós com uma espécie de diversão no rosto. Eu definitivamente não gostava dela. Eu nunca odiei ninguém na minha vida, nem o homem que me atacou aos doze anos, mas eu seria facilmente capaz de odiar aquela figura infantilizada diante de mim.
_Muito bem._ ela disse quando todos pareciam ter chegado. Eles olhavam para nós com interesse e curiosidade. Provavelmente estariam se perguntando se nós poderíamos ser a ameaça responsável por uma convocação em massa da segurança. _Agora meninos, deem uma boa olhada para essa moça._ Katherine disse aos seguranças_ Deixem que eles a vejam rapazes._ ela repreendeu a Victor e Sebastian que estavam impedindo a visão dos guardas. Eles esperaram por um longo minuto olhando fixamente para a multidão masculina armada enchendo a sala. A bruxa suspirou impaciente, então como se eles entendessem isso como uma ameaça eles abriram um breve espaço entre eles para que eu pudesse ser vista. Os olhares, agora ainda mais curiosos, me mediram da cabeça aos pés, mas não havia nenhum sinal de maior interesse neles.
_Viram!_ Katherine gritou como uma adolescente empolgada. _Nadinha. Eu disse a vocês!_ estão dispensados meus meninos. Voltem a me proteger lá fora. _ ela disse num ótimo humor.
Victor e Sebastian relaxaram um pouco.  Katherine caminhou na minha direção e segurou na minha mão me distanciando de Victor.
_Agora você só precisa dispensar Sebastian. Faça agora._ ela disse sem conseguir disfarçar seu temperamento tão bem como tentou. Eu estava bem na frente dele, olhando seus escuros olhos azuis. Meu coração vacilou, eu não achava que teria coragem de desprezá-lo. Isso era tudo o que eu não queria fazer desde o início. E estava claro para mim que Katherine estava fazendo tudo àquilo para ficar com ele. Era ele que ela queria o tempo todo.
_Sebastian_ por um momento eu esqueci tudo a minha volta. Só existia eu e ele naquela sala _ Eu acho que não posso fazer isso. _ disse insegura. Ele me olhava intensamente. Suas verdadeiras emoções estavam escondidas atrás de seu olhar frio, mas ele não podia esconder todas. Eu via lampejos de sentimentos que não podia discernir, mas que imaginava que seria de frustração e dor.
_Somente faça o que tem que fazer Helene._ sua voz de veludo era quase um sussurro. Vacilei um pouco mais. Senti lágrimas descerem quentes no meu rosto.
_Eu não posso magoar você dessa maneira. Eu não consigo.
_Você não está magoando ninguém Helene. _ agora ele estava seco e duro _ Eu também quero ser livre disso. Faça agora! _Suas palavras duras me cortaram ao meio. Eu estava despedaçada. Foi ele quem me dispensou no final das contas.
_Sebastian! _ Victor parecia rosnar o nome dele em aviso.
_Não. Tudo bem Victor. Ele tem razão. Ele merece uma Pura de verdade, uma que esteja feliz em fazer tudo direito e não uma com defeito como eu. _ Sebastian apertou tanto a mandíbula que parecia que iria se partir, mas ele não disse nada. Apenas sustentou meu olhar e esperou._ Sebastian eu dispenso você. Está livre de qualquer vínculo comigo. _Minhas palavras foram sinceras, vinda da amargura que estava meu coração. Imediatamente eu me senti diferente em relação a ele. Era como se um cabo invisível que nos ligava estivesse sido rompido e o calor da necessidade que sentia constantemente, pedindo seu toque tinha desaparecido como mágica. A dor no meu peito também foi diminuindo na medida em que eu percebia que estava livre.
_Está feito. Agora vocês podem ir embora. _Katherine foi para o lado de Sebastian e segurou seu braço protetoramente.
Ele iria ficar com ela! A confirmação caiu como um tijolo na minha cabeça. Sebastian continuava estático e tenso na minha frente. Enquanto minhas lágrimas secavam ele continuava me olhando como se nada tivesse mudado para ele.
_Vamos Helene, vou te levar para casa._ Victor segurou meu braço gentilmente. Eu não fui capaz de dizer nenhuma palavra. Desolação era a palavra para meu estado. _Vamos._ Victor me conduziu lentamente para a porta quando ele viu que eu não reagia. Sebastian ainda me olhava com seus olhos ainda mais escuros. Eu podia achar que ele estava quase transformado, mas não tinha certeza. Eu só conseguia pensar que eu estava me despedindo definitivamente dele e não conseguia dizer nada, nem um adeus.
Quando passamos pela porta, eu não podia mais vê-lo e as lágrimas voltaram com mais força. Victor abriu a porta do carro e me colocou dentro. O pranto desesperado que eu estava sufocando veio com força total enquanto o carro saía lentamente da propriedade de Katherine.
Victor dividia sua atenção entre mim e a direção do carro. Não sei quanto tempo passou e estávamos no hotel de novo. Subimos pelo elevador de serviço que subia da garagem e não fui vista em completo desespero.
_Ele ficou lá. Ela queria ele Victor._ eu disse em meio aos soluços.
_É, ela queria. Foi uma troca.
_Ele se ofereceu em troca? Por quê ele faria isso?
_Pelo que eu pude tirar dos pensamentos dele, ele a mordeu quando não sabia que ela era uma bruxa. Ela poderia tê-lo repelido facilmente, mas por algum motivo ela não o fez. Ela deixou que ele se alimentasse dela e quando ele foi apagar sua memória ela não permitiu.
_Ela pode impedir?
_As bruxas podem fazer quase tudo Helene. Ela só não conseguiu fazer que Sebastian se apaixone por ela, porque ele tem uma força maior que o subjuga.
_A Pura._ eu conclui.
_Sim. Por muitos anos ela vem tentando que ele fique com ela e fazendo tudo que ele pede por alguns momentos juntos. Ele ficou por algum tempo com ela, mas ele sempre vai embora.
_Porque ele não pode amá-la. Tudo  faz sentido agora _Eu fiz tudo errado Victor. É tudo culpa minha.
_Não fique assim Helene, você merece ser feliz. Sebastian estará bem, ele superou o que fez com a outra Pura e aquilo foi de longe muito pior, ele vai superar isso também. _Victor secou uma lágrima do meu rosto com as costas de sua mão_ Ele pode esperar.
_Sim. E você pode ser livre._ Eu suspirei e olhei seus bonitos olhos verdes.
_Eu não quero ser livre.
_Mas você merece. Você e Rafa merecem poder ir adiante e ter uma vida normal e feliz.
_Assim como você?_ ele sorriu resignado.
_Sim assim como eu. _Segurei a mão dele entre as minhas_ Você ainda vai me levar para casa depois de ser livre?
_É claro._ ele sorriu seu melhor sorriso, aquele de derreter corações, e isso me fez balançar na minha decisão. Ele era tão perfeitamente encantador. _Mas acho que você não deveria querer ir embora tão rápido. Pelo que eu sei sua mãe está esperando um presente e você tem dinheiro de sobra para gastar antes de voltar para casa.
_Tem razão. Eu preciso desesperadamente de roupas novas._ a esperança de uma vida nova brilhou dentro de mim. Ele tinha razão, afinal, tinha uma razão para eu ter feito aquilo tudo. Eu teria uma bela vida cheia de potencial, como todo mundo. Eu puxei o ar novamente enchendo meus pulmões, fechei e abri meus olhos. _Victor eu te dispenso de qualquer compromisso comigo. Você está livre. _novamente senti a ligação se desfazer. Uma sensação de liberdade tomou todo meu ser. Victor piscou os olhos algumas vezes e depois sorriu.
_Está feito. Sinto-me diferente agora._ ele disse sorrindo.
_Você não me odeia não é?_ eu brinquei, mas por um momento senti medo de que desfeito o encanto ele pudesse me desprezar completamente.
_Sua boba. Você continua muito encantadora para mim. Somente tenho abertas as algemas. _ ele riu alto e eu ri junto, aliviada.

Paris era como eu nunca poderia imaginar. Lindíssima! Ela tinha uma mistura harmoniosa do antigo e do moderno. O clima era de ostentação e ambição sim, mas também era de romantismo e sofisticação. Victor conhecia cada loja, cada museu e cada esquina. Passamos o dia e o princípio da noite fazendo compras, além do exagero de dinheiro que Sebastian me deu Victor ainda me encheu de presentes e não me deixou pagar quase nada. Visitamos lugares lindos. A Torre Eiffel não perdia em nada para sua fama. Era magnifica.
_Está pronta para ir amanhã ou quer passar mais um dia?_ ele me perguntou quando eu me joguei, exausta na cama do meu quarto no hotel.
_Preciso ir pra casa. Mamãe deve estar preocupada. Quero resolver logo as coisas com Rafa também, ele precisa ficar livre das minhas algemas._ brinquei_ E me sinto um pouco estranha aqui também, como você disse._ Victor acatou minhas palavras, mas pareceu preocupado com alguma coisa. Sentei-me na cama e encarei.
_O que foi?
_Sua ligação com o lobisomem não é como a nossa.
_Sim, você me disse isso._ eu ainda estava confusa.
_Então, você se lembra de que eu disse que sua ligação com ele é baseada na amizade e na necessidade de proteção da Pura. Do contrário, você não poderia estar assim tão longe dele?
_Sim._ eu me lembrava disso, então estava óbvio_ Eu não vou poder libertá-lo de mim.
_Não porque ele não está realmente preso a você. Vocês construíram a ligação. É a mais verdadeira.
_ O que ou fazer com relação a ele?
_Bom, eu acho que quando ele perceber que você não o ... ama, do jeito certo_ ele procurou as palavras_ e que não precisa de sua proteção, ele irá seguir sua vida. Assim como um amigo de infância apaixonado faz quando não é correspondido.
_Não tenho ideia de como ele vai reagir a tudo isso. Espero que ele seja tão compreensivo quanto você. _ eu sorri em agradecimento mudo.
_Nunca vai encontrar nenhum homem tão compreensivo quanto eu, minha querida._ ele brincou sorrindo de volta.
_Preciso de um banho e cama._ suspirei.
_Minha deixa para ir pro meu quarto?
_Sinto muito, mas sim.
_Tá certo. Boa noite então._ ele se inclinou sobre mim e me deu um beijo breve na testa.
_Boa noite e obrigada por tudo hoje. Foi tudo maravilhoso graças a você._ ele assentiu com a cabeça e saiu. Eu ainda fiquei mais alguns minutos esticada na minha cama, sentindo meus membros rígidos. Quando finalmente me senti sozinha, um vazio escuro e frio começou a crescer dentro de mim. Era uma sensação estranha e muito desagradável. Levantei-me em um impulso e fui para o banho, tentando me distrair daquele sentimento. A super ducha quente do hotel, caiu como uma luva no meu corpo cansado e tenso. Quando deitei na cama de novo emergi em um sono sem sonhos.
Eu tinha muitas opções de roupas para usar na viagem de volta. Aquilo era empolgante. Minhas novas malas estavam cheias de roupas de grifes francesas que eu nunca  nem tinha ouvido falar. Resolvi vestir uma causa cigarrete preta e uma blusa de seda branca, com botões na frente. Era sensual, mas discreta. Eu ainda não me sentia totalmente segura. Deixar meus cabelos soltos caindo pelas costas foi o que me deu mais prazer. Era o que eu mais gostava em mim. Meus cabelos totalmente negros, levemente ondulados, pareciam um véu exótico cobrindo sorrateiramente parte do meu rosto e contrastando com o azul dos meus olhos. Adorava senti-los voando ao meu redor quando caminhava. E isso também era um luxo que eu não podia desfrutar antes.
Eu estava ainda distraída em frente ao espelho quando ouvi duas batidas leves na porta. Em seguida Victor entrou com uma bandeja enorme nas mãos.
_Vim tomar o café da manhã com você._ ele dizia enquanto entrava, mas quando ele parou os olhos em mim, pareceu ter perdido seu primeiro raciocínio. _Meu Deus você está linda!
_Acha que devo me trocar?_ perguntei assustada. Ele riu alto.
_Não seja absurda Helene._ eu ri junto com ele.
_É força do hábito. 

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