_Sebastian! _
chamei baixinho, certa que ele podia me ouvir.
Nada. Ele não reapareceu feito um fantasma, como
costumava fazer sempre que eu mencionava o nome dele nesses últimos dois dias.
_Sebastian! _ chamei de novo e esperei. Ele
não veio_ Ela te pediu, não foi?_ sussurrei a dúvida que estava sufocando meu
peito_ Quando você beijou a outra Pura, ela te pediu que a mordesse, foi por
isso que você fez? _ me senti mais louca do que nunca falando sozinha, mas ele
estava ouvindo, eu tinha certeza.
_Sim. _ sua voz
vinha de perto da janela. Ele estava gloriosamente transformado em um vampiro.
Com seus olhos negros como a noite e o rosto mais sombrio que eu já tinha
visto. Suas presas mal podiam ser contidas por seus lábios. Cada célula do meu
corpo o desejou como quem deseja água no deserto_ E ela morreu._ sua voz era seca
e profunda.
_Me desculpe.
_ eu me senti uma completa idiota. Por que eu tinha feito aquilo? Na verdade eu
sabia exatamente porque tinha feito aquilo. Não poderia evitar. Estava louca
para fazer tudo de novo.
_Vou leva-la
até Katharine. Pediremos a ela um feitiço que te liberte de tudo isso. Que faça
com que você possa ter uma vida humana normal. _ ele estava sério como nunca o
tinha visto. Meu peito se apertou dolorosamente. Eu queria ser livre. Era o que
mais queria, mas aquelas palavras vindas de Sebastian naquele momento me
atingiram como o mais cruel desprezo.
_Por que...
Vai fazer isso? _minha voz saiu falhando.
_Porque é o
que você quer. E vejo que será melhor para você. _ ele ainda era duro e
inflexível. Não percebi que estava chorando até que minha visão ficou embaçada
com as lágrimas. _Você ainda quer?
_Sim._ fui
capaz de dizer.
_Prepare-se
para viajar amanhã. Teremos pouco tempo antes do seu aniversário._ ele disse e
desapareceu de novo me deixando chorando sozinha no quarto.
O dia demorou
a chegar. Eu devo ter chorado a noite inteira. Não sei exatamente quando a
exaustão me venceu e eu adormeci, mas já estava escutando o canto dos pássaros
lá fora. Movi-me na cama, mas meu travesseiro estava diferente. Era diferente
porque não era meu travesseiro. Eu estava deitada sobre no peito de alguém.
“Sebastian”, abri meus olhos rapidamente. Cheia de esperanças.
_Bom dia. _ a
voz de Victor estava incerta e tinha uma expressão desconfiada no rosto. Ele
esperou que eu me recuperasse da surpresa ao vê-lo.
_Como entrou
aqui?_ eu disse rouca pelo sono. Eu já tinha me acostumado com Sebastian
surgindo e desaparecendo no meu quarto, mas não imaginei que Victor também
faria isso.
_O que ele
fez a você?_ Victor não se deu ao trabalho de me responder. Estava furioso.
_Ele não me
fez nada.
_Você chorou
a noite toda Helene. Eu não acho que isso seja nada!
_Eu não quero
fazer parte disso e ele vai me levar até a bruxa que pode me deixar livre.
Deixar todos nós livres. _ eu me levantei e fui abrir a janela. Torcendo para
que o ar da manhã desfizesse o nó que se formava novamente em minha garganta.
Victor estava lá antes de mim. Ele também era muito veloz. Parei de repente com
o susto. Ele estava petrificado como uma estátua de Adônis na minha frente.
_Ele não vai
te levar a lugar nenhum!_ ele quase gritou.
_Você não
pode me impedir. Não te devo nenhuma obediência Victor._ eu estava furiosa
agora também.
Como aqueles homens chegavam do nada,
invadindo minha vida e do dia para noite queriam mandar em mim? Coloquei minhas
mãos na cintura e o encarei.
_Tem razão.
Não posso te impedir._ ele disse firme. Sua boca formando uma linha fina. Eu
podia sentir sua raiva. Sua indignação. _ Mas até onde você acha que pode se
afastar de mim? E quanto tempo acha que poderia passar sem a minha presença? _
aquilo me confundiu. Minha raiva perdeu terreno. O que ele queria dizer com
isso? Victor cruzou os braços frente ao peito e esperou. Seus olhos ainda
estavam furiosos. _ Quando diz que estamos presos a você e você a nós, não
imagina o quanto, não é? Você pensa mesmo que eu abriria mão de estar com você
todas as noites em favor do Sebastian e vice e versa, por bondade e
cavalheirismo? Não pode imaginar a tortura que é ficar lá fora, sabendo que ele
está aqui com você?_ minha raiva cedeu completamente. Eu estive tão absorta por
sensações novas e todas essas histórias que eu não tinha pensado realmente
neles. Em como eles sentiam aquela “competição”. Aquela candidatura esquisita,
que nem eu, nem eles escolheram.
_Por que
então? _ perguntei confusa. Com medo da resposta que eu sabia que viria.
_Você não
pode ser privada da companhia de nenhum de nós por muito tempo. Mas eu acho que
você já adivinhou isso não foi?_ ele disse ainda zangado.
A coisa era
pior do que eu tinha pensado. Eu estava mesmo presa a eles! Eu queria gritar.
Meu rosto caiu e voltei a me sentar na cama com medo que minhas pernas
falhassem e eu caísse.
_Isso é uma
droga!_ murmurei em uma conclusão doentia.
_Uma droga? _
ele bufou _ Como pode dizer isso?
_Você gosta
de ser um prisioneiro contra sua vontade? _ cuspi as palavras.
_Na verdade
sim. É uma honra ser escolhido._ ele estava confuso. Eu não tinha levado isso
em consideração também. Ser escolhido para servir de opção para a Pura
significava que ele era o melhor de sua raça.
_Então tudo
se trata de orgulho masculino?_ aquilo não estava ficando melhor.
_Não tudo.
Tente entender Helene. Nós crescemos ouvindo lendas sobre A Pura e contos
heroicos dos seus predestinados. Todos sonham em ser escolhidos e ter uma
chance de realizar o feito máximo de sua raça. Purificá-la, fortalece-la. O
escolhido de uma Pura é um herói para os seus sim, mas não é só isso. É também
a garantia de uma felicidade quase eterna para os dois. Uma união perfeita para
o resto da vida. O que no nosso caso seria muito mais longa do que dos humanos
comuns. Você ainda não percebeu Helene? _ sua emoção tinha mudado de fúria para
paixão. Eu a via queimar em seus olhos quando se aproximou de mim lentamente.
_Você não entendeu que eu a amo? Nos três a amamos verdadeiramente. Daríamos
nossas vidas por você, mesmo sem nenhuma garantia de sermos escolhidos. Isso
não é o que mais importa. O que mais importa é você. A sua existência é algo
maravilhoso. É a esperança de tempos melhores na Terra para as três raças que
foram excluídas pelos humanos. Você é a única chance que temos de reestabelecer
o equilíbrio e voltar a sermos aceitos no mundo. Sem nenhum perigo ou
discriminação. Um mundo de liberdade e igualdade para todos. Sem segredos e
mistérios ocultos. Só paz. _ ele respirou profundamente _ Por tudo isso que te
amamos e te protegemos. Não é só pelo desejo sexual ou por sua beleza
inigualável. É muito mais pelo o que você representa.
Agora eu
estava chocada. Meu grito que estava preso na garganta emudeceu.
Victor
segurou ambos os lados do meu rosto e encostou sua testa na minha.
_Não sabe o
quanto é preciosa para mim e para tantos? _Suas mãos acariciavam meu rosto com
ternura. Ele suspirou e fechou os olhos. Quando os abriu ele se afastou de mim
um passo. _ Mas mesmo assim, se quiser tentar abrir mão de tudo, eu não poderei
impedir. Você ainda tem seu livre arbítrio.
_Eu não sei o
que pensar._ consegui dizer. Minha cabeça estava rodando.
_Talvez o seu
lado humano fale mais alto e você queira viver entre eles. Isso nunca aconteceu
pelo que eu sei, mas poderia ser uma primeira vez. _ ele parecia resignado.
_E você não
iria me impedir? _ eu confirmei.
_Não. _ ele
respondeu curtamente.
_Mesmo se eu
tivesse que ir para longe?
_ Eu iria com
você. Nunca te deixaria sozinha com Sebastian por qualquer espaço de tempo._
evitei pensar muito sobre isso. Não queria imaginar que Victor ficasse me
vigiando quando eu estava com Sebastian.
_E Rafa? Ele
também não é preso a mim, ou eu a ele?
_Sua ligação
com o lobisomem é formada pelo sentimento de amizade e familiaridade. Ele já
teve o privilégio de passar anos na sua companhia. _ seus olhos brilharam e vi
a sombra de um sorriso em seus lábios _ Eu penso que ele recebe essa vantagem
por que é o que tem mais desvantagem, com sua natureza mais agressiva e sua
inexperiência de vida. Assim ele tem a oportunidade de ter mais do seu afeto e
garantir sua gratidão e ficamos mais em pé de igualdade. Gosto de pensar neles
como bons cães de guarda também. Livrando-a de todos os humanos que fossem inconvenientes.
_ele parecia curtir algum tipo de piada secreta _ Você sentirá falta dele se
ficar muito tempo longe, mas não seria a mesma coisa do que se fosse eu ou o
Sebastian. Tudo com nós dois lhe parecerá mais forçado e mais intenso, eu acho.
Pelo menos é o que pude perceber com a experiência que tive antes. As lendas
não falam muita sobre isso. Elas estavam mais focadas nas regras práticas e nos
feitos heroicos dos escolhidos ao lutarem para proteger A Pura._ ele olhava
para o nada, lembrando. Vi quando ele franziu a testa suavemente.
Eu o
observava atentamente, tentando absorver o que ele me dizia. Lutando para
compreender o que significava para ele e para os outros, toda aquela trama do
destino que eu achava tão absurda e inaceitável. Ele parou e voltou seus olhos
verdes para mim. Eles estavam cheios de sentimento. Era aquele mesmo sentimento
que eu tinha visto nos olhos dos três e que diferenciava o desejo deles do dos
outros homens que me viam. Aquele olhar que encontrava em Rafa todas as manhãs.
O olhar que vi nos olhos de Sebastian na primeira noite, ainda naquela pedra, e
que eu comparei com o olhar da minha mãe. Era amor o que tinha nos olhos deles.
Eu pude perceber agora. Eles me amavam verdadeiramente como Victor me disse.
Muito além do desejo. Era por esse amor que Rafa cuidou de mim por tantos anos,
abdicando de sua própria juventude para me proteger e ser meu amigo, sem exigir
nada em troca. Era por esse amor que Victor abriria mão da chance de ser o
escolhido e me levar como uma preciosa deusa salvadora para o seu povo, apenas
por pensar que não estaria me fazendo feliz. Também foi por esse amor que Sebastian
tinha me deixado ontem com a promessa de levar até a bruxa, para que assim eu
tivesse uma chance de me libertar. Ele me deixou para me proteger do perigo. Do
perigo que ele mesmo era para mim.
Meu coração disparou. Eu queria poder
retribuir os três. Fazê-los felizes. Eu me sentia tão ligada a eles de maneiras
tão diferentes, mas nenhuma menos intensa ou passível de ser descartada. Os
três me amavam e eram capazes de dar suas vidas para me proteger. O que no meu
caso era mesmo necessário, levando em conta a minha condição de chamariz de
machos enlouquecidos. Mas cada um possuía particularidades ímpares que os
tornavam especiais ao meu sentimento. Rafa era como Victor disse. Familiar,
confidente. Meu parceiro de toda uma vida em que eu dependi tanto dele, mas que
agora eu não sentia plenamente confiante, depois daquele ataque e de ver aquela
fera em que ele se transformou. Victor já me passava toda a confiança que eu tinha
perdido em Rafael. Ele era estável, agradável, cavalheiro... um perfeito
príncipe de contos de fadas. Já Sebastian... esse chegava a ser irritante,
impulsivo e voraz. Mas o desejo carnal que eu sentia por ele, e o prazer que
ele podia proporcionar, eram de longe, inigualáveis.
Não havia
nenhuma chance de preterir dois deles em benefício de um só. Eu não poderia
escolher. Essa era minha decisão final.
Luh, estou cada vez mais curiosa. A hitoria esta ficando incrivel e viciante,. Sera que helene vai escolher um deles? quero muito saber. (lari)
ResponderExcluirÉ Lari, parece impossível escolher um deles né rsrs vamos ver como ela vai resolver isso... Bjinho querida!
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