segunda-feira, 4 de março de 2013

Cap. 7


_Eu não poso fazer isso._ eu disse depois de longos minutos abrigada nos braços de Victor e chorando baixinho.
_Helene, você terá tempo. Não precisa se preocupar com isso agora. Ainda nem completou a idade certa. Talvez tudo fique mais claro depois.
_Não vejo como isso pode mudar. Essa coisa de ser A Pura não é para mim Victor. Eu não posso fazer isso. _ Levantei-me secando meus olhos. Eu estava decidida. Iria com Sebastian procurar a bruxa. _Preciso arrumar umas coisas. Vou procurar a solução. Não posso ficar aqui sentindo o peso de uma responsabilidade pesada demais para mim e me lamentando. Vocês poderão ter outra Pura daqui a cem anos. _ eu andava de um lado para outro no quarto. Tentando me recompor. Tentando me convencer_ Sim. Cem anos não parece fazer muita diferença para vocês, de qualquer modo. _ Victor me observava sem dizer nada. Ele parecia tentar me compreender, mas sem muito sucesso.
Saí do quarto sem dizer mais nada e sem olhar para Victor. Tomei um banho frio e fui para a cozinha. Fiz café e coloquei a mesa para nós dois. Ele não demorou a me acompanhar, mas ainda permanecia calado, me observando como se eu estivesse passando por um momento de insanidade. Sem parar muito para pensar, comecei a fazer as tarefas da casa. Liguei o rádio que estava tocando uma música da Beyonce que não sabia o que dizia, mas que tinha um ritmo bom. Lutei para esvaziar minha mente o quanto pude. Eu só tinha que pensar nas coisas práticas agora. Deixar a casa arrumada para minha mãe parecia ser apropriado. Fazer as malas seria simples já que eu não importava para onde iríamos, as roupas seriam as mesmas. O mais difícil seria preparar a minha mãe para minha viagem. Ela não ia receber isso com muito boa vontade. Eu tinha certeza disso. Eu já era maior de idade, mas nunca tinha ficado nem um só dia longe de casa. E agora iria, talvez para outro país, com dois homens estranhos. Parecia loucura até para mim.
_Quer ajuda?_ tomei um susto quando Victor resolveu me lembra de que ele estava ali. _Eu posso lavar a louça. _ ele estava se divertindo.
_Não se preocupe com isso. Eu dou conta.
_Sim, mas eu sou mais rápido. _ ele deu um sorriso torto que me distraiu com sua beleza. No segundo seguinte a pia estava completamente limpa e as louças empilhadas o escorredor. Ele surgiu na minha frente de novo enquanto eu ainda estava de boca aberta olhando a pia. _ Se eu limpar o chão também você pode voltar a olhar para mim de novo? _ eu olhei confusa para ele. Ele achava que eu o estava ignorando? Ele não esperou minha resposta. Apenas vi um vulto passar por mim duas vezes e alguns móveis saírem dos seus lugares como se estivessem voando sozinhos. No momento seguinte a sala estava modificada. Ele tinha limpado tudo. O chão estava úmido e cheirando a desinfetante e tinha mudado todos os móveis de lugar. _Gosto mais assim. O que acha? _ o sorriso de derreter geleiras ainda estava lá. Eu não pude deixar de sorrir para ele também. Seus olhos brilharam e ele envolveu seus braços em minha cintura.
_Você ganharia muito dinheiro como faxineiro. Poderia limpar todas as casas da cidade em um dia. _ eu brinquei, muito confortável com sua aproximação repentina.
_É uma possibilidade. _ ele riu. Se isso te fizer sorrir assim, posso até limpar todas as casas do país._ eu corei.
_Também sabe cozinhar?_ brinquei para me distrair da timidez. 
_ Nessa função você é muitas vezes melhor do que eu.
_Bom saber que tenho alguma vantagem.
_Você tem toda vantagem._ ele estava sério agora e seus olhos estavam mais intensos nos meus. Eu senti arder mais a necessidade de ser tocada por Sebastian onde ele ainda não tinha feito. Eu estava tendo sucesso em ignorar aquela cessação até naquele momento.
_Vou fazer o almoço então. _ me afastei dele e voltei para a cozinha, sem nenhuma esperança de que ele não teria percebido o motivo da minha mudança de humor repentina.
Depois que almoçamos Victor saiu por exatos seis minutos para ir ao seu hotel, tomar banho e trocar de roupas. Eu enchi uma mala com as roupas que mais usava, não importava se era inverno ou verão. As temperaturas ambientes não me afetavam. Eu apenas percebia as suas mudanças, mas o meu corpo se adaptava instantaneamente. Coloquei uma necesser com produtos de higiene pessoal e alguns calçados também. Quando minha mãe chegou do trabalho eu estava ansiosa. Com medo de ela proibir que eu fosse.
_Por favor, fique aqui. _ pedi a Victor que ficasse no um quarto enquanto eu falava com minha mãe.
_Tem certeza que quer fazer isso Helene? _ sua voz estava calma.
_Sim. É a única coisa que tenho certeza agora. _ Disse e fui encontrar minha mãe na cozinha.
_ Oi mãe. _ eu saudei e fui ao seu encontro para um abraço. Ela me abraçou de volta, um tanto surpresa.
_Oi filha. O que foi?_ ela me afastou para ver meus olhos úmidos. Sua testa franziu_ Ei querida, qual é o problema?
_Problema nenhum, mãe. Eu acho que é justamente o contrário. Acho que posso encontrar a solução. _ mamãe continuava confusa e assustada.
_Como assim? Solução de que Helene?
_Você sabe mãe. Desse problema que eu tenho. Sebastian conhece alguém que pode me curar.
_Conhece?_ ela se iluminou. _ Quem?
_É alguém que lida com coisas sobrenaturais como essa. _ eu não podia usar o termo bruxa que ele usava. Isso iria assustar minha mãe com certeza. _Eu estou com muita esperança que dê certo. _ incentivei sua animação.
_Você acha? Então onde essa pessoa está? _ Opa! Esse detalhe eu não tinha.
_Em Paris._ A voz aveludada de Sebastian surgiu na porta da frente. _Desculpe a invasão. A porta estava aberta._ ele sorriu para minha mãe.
_Paris. _ ela repetiu tentando acreditar. _ Você terá que ir a Paris?
_Sim. Nós partiremos hoje à noite._ Sebastian caminhou casualmente para dentro da casa. Eu quis enforca-lo por estar assustando minha mãe com aquelas afirmações de que iria me levar sem nem esperar pelo seu consentimento. Mas ele olhava fixamente para ela que não reagia como eu esperava. Ela parecia aceitar tudo que ele dizia. Ele a estava hipnotizando. Eu tinha certeza.
_Isso não é necessário Sebastian._  aquilo era revoltante.
_Sim é. _ ele disse para mim. Mamãe permanecia com seu olhar perdido nos dele. _Ela iria querer ir com você e isso não seria seguro para ela. Quanto menos ela souber melhor. Pensei nisso por um momento. Ele tinha razão. Eu não tinha pensado nisso. Ela iria querer ir comigo aonde eu fosse. _Não se preocupe Claudia, Helene estará segura comigo. _ ele tinha se voltado para mamãe de novo. Ela piscou os olhos e sorriu satisfeita. Isso teria passado despercebido para qualquer pessoa menos atenta.
_Então está bem. Traga-me um presente de lá filha._ ela disse e foi para seu quarto tranquilamente.
_Você é mesmo assustador._ eu disse olhando de boca aberta para Sebastian. Ele sorriu com um canto da boca, sarcástico.
_Você ainda não sabe o quanto. _ seus olhos se apertaram enquanto ele me olhou dos pés a cabeça. Eu tive dificuldade para engolir o nó da minha garganta. Desviei meus olhos dele para não começar a ferver.
_Paris? _ tentei levar o clima da conversa para um menos perigoso.
_Katherine gosta das luzes._ Seu olhar se virou para a porta do meu quarto. Victor estava encostado lá agora, com seus braços cruzados sobre o peito e com cara de poucos amigos. Essas aparições repentinas deles estavam me deixando tonta. Sebastian o ignorou completamente_ Está pronta?_ ele perguntou para mim.
_Eu acho que sim, mas eu não tenho dinheiro nem um passaporte. Como poderei viajar para outro país?_ ele alcançou o bolso interno de seu casaco e retirou um pacote gordo de papel pardo e entregou para mim.
_Aí tem dinheiro e todos os documentos que precisa.
_Como conseguiu isso? _Os documentos tinham meu nome e minha foto, e o dinheiro seria suficiente para eu ficar um ano lá.
_Tenho muitos contatos. E tenho mais uma coisa para você também. _ ele saiu e voltou em um sopro. Entregou-me uma sacola grande.
_O que é isso?
_Olhe._ Abri a sacola e retirei um grande tecido negro de lá. Quando o abri dei uma rizada involuntária. Era uma burca. Uma daquelas roupas que as mulçumanas usam que só ficam com os olhos de fora. _Acho que é o único jeito seguro de você sair às ruas. _ ele me explicou, talvez estranhando minha reação exagerada.
_Rafa me disse uma vez que eu devia andar com uma burca, mas eu nunca considerei isso a sério. É ridículo!_ eu ainda estava rindo descontroladamente. Victor só observava encostado na porta, sem dizer nada.
_Eu achei que a ideia do cachorro não era de toda ruim._ Sebastian disse, lembrando-me que ele estava ouvindo naquele dia. Isso me trouxe outras lembranças menos agradáveis e eu parei de rir na mesma hora. _Você vai usar?
_Vou pensar sobre isso._ coloquei a roupa estranha de volta na sacola e entrei no meu quarto passando por Victor que olhava fixamente para Sebastian. Ele parecia mortal.
Eu estava muito nervosa. O avião começou a se mover de vagar, mas logo ele estava muito veloz e eu podia sentir que ele ia deixar o chão. Olhei primeiro para Victor que estava ao meu lado direito e depois para Sebastian do meu lado esquerdo. Victor sentiu meu nervosismo e segurou minha mão. Agarrei-me em sua mão como se ele pudesse salvar minha vida. Eu não estava preocupada em parecer uma covarde. Eu era uma covarde e estava morrendo de medo.
Sebastian olhou para mim com uma expressão indecifrável, mas vi seus olhos descerem rapidamente para minha mão atada à de Victor e depois virar seu rosto com desdém.
Eu estava toda coberta pela abominável vestimenta. Depois de muito tumulto no aeroporto com todos os homens parando na nossa frente para me olhar e tentando de alguma forma se aproximar de mim, eu cedi e deixei Sebastian me vestir a burca horrorosa.
Minhas mãos estavam geladas, mas não era pelo ar condicionado em potência máxima que o avião estava. Eram meus nervos que não me permitiam parar de tremer.
_Pessoas voam em aviões todos os dias._ Sebastian disse pra mim tranquilamente.
_E às vezes elas morrem quando algum deles cai._ minha voz estava tremendo e ficou ainda pior quando eu disse essas palavras. Victor acariciou minha mão um pouco mais. Seu olhar era compreensivo e encorajador.
_Esse avião não vai cair Helene._ Sebastian afirmou.
_Quem te garante isso? Você é vidente?_ ele podia ser. Eu ainda sabia muito pouco sobre eles.
_Não. Mas Victor é. _ ele olhou para Victor com seu meio sorriso. Eu também me virei para ele imediatamente.
_Eu não posso ver nenhum futuro relacionado com a Pura._ ele explicou.
_Eu não sabia que você podia ver o futuro._ eu atirei me sentindo um pouco traída.
_Isso não faz nenhuma diferença para você. _ ele disse sorrindo. Eu tinha que aceitar que fazia sentido.
_Então votamos a mesma situação. Ninguém pode garantir que esse avião não vai... _ não consegui dizer a palavra perturbadora de novo.
_Mesmo se ele caísse, você acha que eu deixaria que você se ferisse Helene?_ Sebastian disse impaciente.
 _O que você poderia fazer Sebastian? _ eu quase gritei. Ele riu.
_Tirar você antes que ele batesse no chão, por exemplo._ ele estava se divertindo às minhas custas. Eu o encarei, chocada. Nesse momento o avião deu uma sacudida e eu abafei um grito com minha mão livre.
A viagem foi longa e desgastante. Foi um alívio quando finalmente estávamos em Paris e não tínhamos que entrar em mais nenhum avião.
_Você está bem?_ Victor perguntou quando me ajudava a me soltar do sinto.
_Eu nunca mais quero entrar em um avião na minha vida._ eu me lamentei.
_Entendo que vai querer voltar de navio então._ Sebastian debochou. Eu não tinha pensado na volta. Isso fez meu coração disparar de novo. Sebastian percebeu e fez uma careta de desgosto. Ele fez menção de se aproximar de mim, mas Victor já estava ao meu redor, me abraçando e me conduzindo para fora do avião.
 A cidade era mesmo muito bonita. Muito iluminada e ampla. Fomos para um hotel que me pareceu muito luxuoso, apesar de Sebastian me garantir que era discreto para evitar muita atenção em mim. Ele pegou três quartos que já estavam reservados. Eu me sentia uma extraterrestre com aquela roupa preta que me cobria dos pés a cabeça, enquanto as lindas mulheres, esbeltas e elegantes passavam por nós. Eu nunca me senti tão estranha e nunca desejei tanto não ser. Eu queria poder andar bonita e arrumada como aquelas Francesas. Eu queria poder usar maquiagens e penteados. Eu queria poder me sentir realmente bonita sem causar a terceira guerra mundial.
Meus dois protetores me levaram até o meu quarto. Sebastian entrou primeiro e olhou por todos os cantos da grande suíte que parecia ser maior do que minha casa toda. Victor ficou na porta comigo. Ele continuava com aquele olhar compreensivo e paciente de sempre, mas eu sabia que havia muito mais lá. Ele estava triste. Mas ele estava respeitando minha decisão e acatando as atitudes de Sebastian que me levariam para longe dos dois. De alguma forma eu entendia que essa era a reação esperada para Victor. Ele era um perfeito cavalheiro. Amável e respeitador. E acima de tudo ele me amava e queria que eu fosse feliz. Mas o que eu ainda não tinha entendido era o porque de Sebastian estar fazendo aquilo. Ele não era tão altruísta.
_Descanse. Se precisar de alguma coisa estou no quarto em frente._ Victor me garantiu.
_Obrigada. _Eu disse sinceramente. Olhando na profundidade de seus olhos. _ obrigada por isso Victor. Sei que não é uma coisa fácil para você._ ele só acenou com a cabeça e saiu dando uma última olhada, menos amigável para Sebastian que estava atrás de mim, dentro do quarto nos olhando.
_Estou indo também. _ ele já ia passando por mim, mas eu o segurei.
_Espere. Eu quero falar com você._ ele me olhou com os olhos apertados, buscando ler os meus. _Você pode ficar por alguns minutos? _ eu caminhei até a grande janela com vista para as luzes da cidade, retirei a burca asfixiante e esperei que ele me seguisse. Ele se demorou um pouco, mas por fim fechou a porta atrás dele e veio até mim.
_O que você quer conversar Helene. Já não temos tudo decidido? Ou você mudou de ideia?_ ele estava irritado. Eu vacilei um pouco, mas me virei para encará-lo.
_Eu não mudei de ideia.
_Então o que é?
_Eu quero saber por que você está fazendo isso. Não faz nenhum sentido. Você dentre todos devia querer mais ficar com a Pura para poder refazer sua raça. Eu não acho que isso seja uma coisa fácil de abrir mão assim como você está fazendo. _Ele arregalou os olhos para mim. _Eu sei que você é o único vampiro que existe, sei que você nunca conheceu nenhum dos seus parentes. Victor me disse. _ ele ficou ainda mais furioso. Ele bufou e veio para mim com passos largos.
_E você acha que é isso que eu quero? Refazer minha raça?_ ele quase rosnava no meu rosto.
_Sim. Eu acho que você deveria querer isso. É muito justo._ eu disse docemente. Tentando acalma-lo, mas não teve o efeito que eu esperava. Ele segurou ambos dos meus braços com firmeza e puxou meu corpo para o seu em um só movimento.
_Você quer saber o que eu quero Helene? Vou dizer o que quero. Eu quero estar entre suas pernas abertas, ouvindo seus gritos de prazer enquanto eu mergulho completamente em você até me perder. Eu quero enfiar minhas presas em seu lindo pescoço moreno e sentir o gosto doce do seu sangue deslizando na minha língua e me inundando com seu poder. É isso que eu quero._ meu corpo reagiu imediatamente às suas palavras. Era exatamente o que eu queria também naquele momento. Senti meu sangue ferver como só fazia quando eu estava nos braços dele. Eu só não avancei sobre ele porque estava muito presa em suas mãos firmes que me mantinham imóvel. _ Eu estou me lixando para minha raça, Helene. Eu não estou nem aí se eles foram estúpidos o suficiente para morrerem todos de uma vez. É sinal que não merecia existir mesmo. Talvez eu também não mereça. Só sou teimoso demais para aceitar isso. _Ele me olhou um pouco mais com seus olhos intensos e depois me soltou e deu dois passos para trás com a mandíbula apertada, como se fizesse muito esforço para me deixar. Eu quis alcançá-lo, mas algo em seus olhos me conteve. _ Quer saber o que é justo? É justo que você escolha o Victor, assim como as últimas Puras vem fazendo há muitos séculos, com exceção da que eu matei. _ ele fez uma careta. Suas palavras doíam com uma navalha atravessando meu peito_ É por isso que sua raça está cada vez mais forte. É por isso que Victor é tão cheio de si. _ ele levantou uma sobrancelha_ Eles têm uma ainda entre eles agora mesmo, casada com um de seus líderes. E é por isso que eu farei o que você me pediu. É porque não tem nenhum sentido você não ser o que você quer. Não é como se você fosse fazer alguma diferença quando você escolher o Ultra-humano que já tem uma Pura lá. _Eu estava de boca aberta.
_Isso... quero dizer. Como você sabe... e se eu não escolhesse ele?_ eu estava confusa.
_Ora Helene. Seja lá quem for que criou essa coisa toda devia prever a seleção natural. Ele deu uma chance a nós, vampiros e lobisomens, mas a Pura ia acabar por fazer a escolha mais lógica no fim das contas. O Ultra-humano é mais semelhante a você. Sua vida não teria que mudar em nada para ficar com ele. Ao contrário de nós. Se você escolhesse o lobisomem teria que aturar aquele monstro horroroso e viver junto com sua matilha e suas famílias. Eles nunca se separam. E se você escolhesse a mim... bom isso seria ainda pior. _ ele fez uma careta e deu as costas para mim caminhando para a porta, mas parou antes de alcança-la. Eu não encontrava minha voz, nem minhas pernas, mas eu não podia deixa-lo ir sem me explicar o resto.
_O que?_ eu gaguejei _ O que seria pior se eu te escolhesse Sebastian?
_Você seria minha parceira de sangue para sempre. E só poderia ter filhos como eu, Vampiros._ sua voz era quase um sussurro. Um grande nó se formou na minha garganta e lágrimas verteram dos meus olhos. _ Tenho certeza que você não ia querer isso, como provavelmente as outras não quiseram. É por isso que nós estamos extintos agora. Seleção natural. _ ele me olhou brevemente com uma máscara de indiferença e sumiu, sem que eu pudesse vê-lo abrir ou fechar a porta.
_Victor! Victor!_ eu gritava.
_Helene, calma. Eu estou aqui._ ele estava me segurando e me levantando do chão, onde eu nem percebi que tinha agachado. Ele me levou para me sentar na cama. Lágrimas grossas obscureciam minha visão.
_É verdade?_ eu pedi_ É verdade o que ele disse?_ eu sabia que Victor teria ouvido tudo. Ele já tinha me garantido que não confiava em Sebastian para me deixar sozinha com ele.
_É uma parte da verdade sim._ ele disse me apoiando em seu peito e acariciando meus cabelos. _ mas ele não devia ter dito isso a você assim. Eu sinto muito.
_ Que parte da verdade falta Victor? _ eu exigi me movendo um pouco para longe de seus carinhos. Eu estava chorando dolorosamente e muito confusa. Sentia-me enganada de alguma forma.
_Falta a parte que a raça dele pode ter sido extinta pelos humanos. Ninguém sabe ao certo, mas foi o que provavelmente aconteceu.
_Como assim?
_A raça vampira não têm fêmeas, então você imagina o quanto eles são dependentes das fêmeas humanas. Precisam delas para se alimentarem, como você já sabe, e também para se reproduzirem como pode imaginar. Acontece que mais ou menos na idade média, os humanos ficaram descontentes com os vampiros roubando suas mulheres. Elas simplesmente se apaixonavam por eles quando eram mordidas. E alguns vampiros não respeitavam os laços do matrimonio humano ao fazer suas escolhas. Isso causava o fim dos casamentos e enfureciam os maridos que se sentiam profundamente ofendidos com a traição. Por isso eles criaram uma grande revolução contra os vampiros. Eles tratavam deles como demônios nas igrejas e organizaram cruzadas de caça ao vampiro. Criaram mitos que quem fosse mordido viraria uma criatura das trevas, já que os vampiros não podiam sair ao sol. De algum jeito eles descobriram que o cheiro do alho repelia os vampiros e as mulheres passaram a andar cobertas de alho o tempo todo. Vampiros famintos se revoltaram e começaram a matar humanos indiscriminadamente, intensificando ainda mais a imagem de monstros que haviam criado. Por fim, sem as mulheres humanas para se alimentarem e se reproduzirem, e sendo caçados até a morte, eles foram ficando cada vez mais raros...
_ Até que só restou um._ conclui.
_Ninguém tem muita certeza, mas é o que deduzimos.
_Mas e quanto a Pura?
_ A Pura é criada entre os humanos, então ela também passou a ser educada para desprezar os vampiros e os lobisomens. Esses últimos por motivos diferentes._ ele franziu a testa e continuou_  Mas nisso Victor pode ter razão. Nós Ultra-humanos viemos tendo essa vantagem há muito tempo._  olhei seus olhos calmos e seu belo rosto diante de mim e entendi que fazia sentido. Além de ser magnificamente lindo, gentil e cavalheiro. Ele era também o mais “normal” dos três. Ele não se transformava em um monstro e nem bebia sangue. Mas ainda assim eu não estava certa que abriria mão do que os outros tinham para ficar com ele. Eu não sabia como eu poderia fazer tal escolha por nenhum dos três.
_Como é feita a escolha Victor? Eu tenho apenas que dizer que escolho esse ou aquele?
_Não é assim. Nossa Pura diz que no momento certo seu coração escolhe e nada mais importa além do seu escolhido. Nenhum dos outros dois faz nenhuma diferença. Uma grande claridade envolve o ser amado e nunca o abandona. Ele será sempre luz para seus olhos e felicidade para seu coração._ Victor descrevia as palavras com muita emoção na voz. Era algo muito sagrado para ele. _ Não será sua mente que vai decidir por esse ou por aquele Helene. Será seu coração quem vai apontar quem ele quer. _ isso me deu algo para pensar. Talvez não fosse tão difícil então. Eu só teria que esperar para ver o que acontece. Isso diminuiu um pouco a pressão no meu peito, mas quando eu me lembrei do brilho dos olhos redondos e castanhos de Rafa na noite em que ele voltou a me encontrar na praia, e do rosto arrasado de Sebastian ao me dar uma última olhada antes de sumir inexplicavelmente pela porta, eu reconheci que não seria nada fácil. Eu não podia ser feliz causando aquele tipo de dor àqueles homens que me amavam tanto.
_Eu não quero escolher._ afirmei e me levantei da cama num impulso insano. _ eu não vou fazer isso. Eu vou sair dessa situação. Não vou escolher nenhum de vocês e deixar os outros dois infelizes. Nenhum de vocês merece ser desprezado. _ eu dizia tudo de uma vez. Victor me observava espantado.
_Então você vai desprezar os três? _ Victor aproveitou uma pequena pausa da correnteza de minhas palavras.
_Eu não vou desprezar ninguém. Não vou escolher, então não terá desprezo algum. Ficarei sozinha. _ isso pareceu incoerente até para mim, mas era a melhor solução disponível .
_Tudo bem Helene. Venha cá._ Victor pegou minha mão tremente e me puxou para cama novamente_ Você precisa descansar. _ eu não resisti. As lágrimas estavam se formando de novo em meu peito e eu entendi que devia ser por causa do cansaço. Amanhã eu iria ver a bruxa de Sebastian e ela resolveria toda essa bagunça que era minha existência. Com esse pensamento eu me deitei nos braços quentes e protetores de Victor e deixei a inconsciência tomar conta de mim.
Estiquei meu corpo na cama grande do hotel. Eu nem tinha aberto meu olhos e minha mente ávida já tinha toda lembrança da noite anterior estalando na minha cabeça.
_Bom dia!_ não era a voz que eu esperava então abri meus olhos rapidamente para encarar um Sebastian banhado e cheiroso a meio quarto de distancia de mim, sentado em uma cadeira de tecido claro. Ele tinha um sorriso fraco que não tocava seus olhos.
_Onde está Victor? _ eu estranhei não vê-lo já que eu tinha dormido em seus braços.
_Eu pedi educadamente que ele me deixasse a sós com você um pouco._ seu sorriso travesso indicava que o pedido não devia ter sido tão educado assim. _Eu bocejei e esfreguei meus olhos úmidos. Eu precisava de um banho.
_Eu te fiz chorar de novo. _Sebastian estava sério agora. Eu voltei minha atenção para ele._ Eu não me sinto bem com isso, quero que saiba.
_Eu sei._ eu disse baixinho.
_Não queria que nosso último tempo juntos fosse assim. Gostaria que você tivesse uma lembrança um pouco melhor de mim. _ ele suspirou fundo _ Eu sempre estrago a coisa toda. _ ele disse sem afetação. Era apenas uma conclusão simples_ Eu gostaria de fazer isso diferente com você, mas não consegui._ ele levantou os ombros brevemente_ Quero dizer que sinto muito. _Aquilo era um pedido de desculpas junto com as despedidas. Meu coração doeu.
_Sebastian, eu... _ minha voz ficou presa na garganta. Não que eu soubesse o que dizer a ele, mas eu queria poder dizer alguma coisa que tirasse aquela dor dele. Aquela dor de mim.
_Você não vai chorar de novo, não é. _ ele se levantou e caminhou até a minha cama_ É justamente disso que estou falando. Eu só faço você ficar triste e eu não quero fazer isso.
_Não é você que me faz ficar triste Sebastian. É essa loucura toda._ Sebastian sentou-se do lado da cama e tocou meu rosto. As partes do meu corpo que ainda queimavam, arderam de desejo por receber aquelas mãos.
_Sabe por que eu te trouxe aqui para tentar que Katherine te ajude de algum modo a deixar de ser a Pura? E sabe por que Victor também está aceitando isso tão calado?_ a pergunta veio cheia de significado.
_Porque vocês estão respeitando minhas escolhas?_ ele sorriu e tocou meu rosto ainda mais docemente.
_Sua escolha seria por um de nós e essa é a que mais gostaríamos de respeitar, mas não. Não é por isso. _ ele tocou meus lábios com as pontas de seus dedos_ Você raramente sorri Helene. Está tão infeliz que chega ser doloroso. Sua alma sofre e podemos sentir. Tem algo errado com isso. As Puras eram para serem as mulheres mais felizes que existem. Elas sorriem sempre e seus corações estão sempre cheios com a claridade da alegria. Mas com você não é assim. _eu entendi o que ele dizia. Eu me sentia infeliz na maior parte do tempo, mas como poderia ser diferente dado ao nível de solidão e frustração que era minha vida. Como as outras poderiam estar felizes com isso. Eu não queria gastar meu tempo com aquelas perguntas. Eu só queria sentir o toque quente da mão de Sebastian em mim. _Preciso ficar longe para conversar com você. Eu te distraio tão facilmente. _ percebi que tinha fechado os olhos e estava inclinando meu rosto para sua mão. _ É tão adorável. _ ele disse com sua voz de veludo.
_Porque isso é tão forte com você? _ tive coragem de perguntar.
_O desejo físico, você diz?
_Sim. _ senti meu rosto esquentar de vergonha. Ele sorriu em reconhecimento.
_É um efeito natural dos vampiros sobre as mulheres. _ ele disse simplesmente. Lembrei-me que Victor tinha mencionado que as mulheres se apaixonavam pelo vampiro que as mordia. Na hora eu não dei atenção a esse detalhe, mas agora isso me incomodou. Na verdade isso me chateou bastante. Quantas mulheres Victor deveria já ter mordido na sua longa vida? E todas se apaixonaram por ele? Eu enrijeci. Sebastian percebeu e me olhou com curiosidade. _ O que foi?
_ Com que frequência você... tem que beber sangue?_ consegui dizer.
_Não entendo porque quer saber sobre isso. _ ele escorregou. Isso me deixou ainda mais tensa.
_Você pode me responder ou não?_ disse zangada e me afastei de sua mão.
_Isso depende muito Helene.
_Depende de que?_ eu não ia desistir. Eu queria saber o quanto mal isso seria.
_Eu já fiquei com sede por meses e não morri, embora tenha ficado terrivelmente fraco, mas uma vez por semana é o mais confortável para mim. _ ele explicou.
_E você está confortável agora?
_Temo que não._ ele sorriu entendendo onde eu queria chegar. A resposta dele me deu certo alívio, mas não tanto.
_Victor disse que a mordida de um vampiro era algo sensual e também disse que as mulheres sempre se apaixonavam pelo vampiro que a mordia. _ eu expliquei.
_Sim. É verdade. E é verdade também que Victor não tem mais nada para fazer se não falar sobre mim. _ ele riu sarcástico.
_Ele não fez por mal._ Sebastian fez outra careta de desdém. Seu rosto era tão perfeito que não havia careta que conseguisse esconder sua beleza.
_Então você chegou à conclusão óbvia?
_Qual conclusão óbvia?_ ele me confundiu. Eu estava perdendo alguma coisa.
_Sempre me alimento em meio a uma relação sexual. Não existe possibilidade de uma exceção. _Aquilo me pegou fora de guarda. Eu não tinha alcançado aquela conclusão óbvia de jeito nenhum. E por algum motivo aquilo tinha sido a pior revelação de todas.
_ Todas ás vezes. _ eu murmurei sentindo um abismo no meu peito. Ele assentiu com a cabeça levemente e mediu minha reação.
_Você sentiu Helene. Quando eu te beijei. Você quis que eu a mordesse não foi? Viu como funciona, uma coisa está estritamente ligada na outra._ minha cabeça rodou. Eu quis bater nele. Era irracional, mas eu queria bater muito nele. Estava louca de raiva.
_Pare de falar isso!_ eu gritei._ Quero que fique longe de mim!
_O que foi? Eu não entendo Helene , por que está tão furiosa?_ ele tentou me tocar.
_Sai de perto de mim Sebastian! _ eu me afastei dele e saí da cama para topar direto em seu corpo na minha frente, me sustentando.
_Só me diga o que foi que eu fiz de errado._ sua voz estava rouca, mas plana.
_Solta ela Sebastian_ Victor estava diante de nós_ Você não a ouviu mandar você sair.
_Não se meta nisso agora Victor._ Sebastian rosnou ainda me segurando_ Não vou a nenhum lugar até que ela me diga por que está com raiva de mim.
_Ela está chocada com o grau de libertinagem de sua vida sexual. _Victor atirou sem meias palavras. Sebastian me soltou e caminhou em direção a Victor que não se moveu em nenhum centímetro apesar da postura ameaçadora de Sebastian. Eles se encararam com os corpos vibrando de fúria.
_Do que você está falando Victor? Você e esses Ultra-humanos nem sabem o que é ter uma vida sexual. É por isso que ainda não superaram os humanos em número. Estão sempre tão voltados para sua ciência e suas habilidades que se esquecem de engravidar suas mulheres?
_Não fale besteira vampiro idiota! Quem é o ignorante aqui agora? Você não sabe que as Mulheres Ultra só concebem um filho a cada dez anos.
_E deve ser com essa frequência que vocês tocam nelas, por isso elas eram tão loucas por vampiros. E deve ser por isso que vocês se juntaram aos humanos para acabar com eles. _ encarei Victor na mesma hora. Ele me olhou também.
_Isso não está confirmado. Sabemos apenas que nós não apoiamos os vampiros, mas não que tenhamos lutado contra eles.
_Não sabem? Deve ser porque não ficou nenhum para contar a história completa._ Os dois estavam muito perto de uma briga agora. Eu podia sentir a cada batida do meu coração acelerado que eles iam se atingir a qualquer momento e seria horrível.
_Parem com isso agora!_ eu gritei. _Não há nenhum motivo para brigas. Eu quero os dois fora do meu quarto agora!_ eles se viraram ambos surpresos para mim. _Saiam. _eu disse mais baixo. Eles se encararam por mais um momento. Um parecia esperar o outro sair primeiro. Sebastian foi o que se moveu primeiro. Vi a frustração vincar seu belo rosto de novo. Victor saiu em seguida.
Corri para o chuveiro tirando minhas roupas pelo caminho como se pudesse tirar tudo junto. Toda situação embaraçosa e as imagens de Sebastian cercado por mulheres implorando por ele. Essas imagens me infringiam uma dor funda no centro do meu corpo. Uma dor forte e cortante.

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