“Entidades de luz, limpem a Pura. Façam que
tudo volte a ser bom.”
Ela
continuava dizendo e repetindo cadenciadamente. Uma sensação diferente vinha
crescendo em mim. Eu ainda não estava totalmente desperta, mas eu sabia o que
estava acontecendo. Aquela mulher estava retirando o feitiço de bloqueio.
_Não! _Eu
pulei da cama e colei meu corpo junto a parede.
_Fique
quieta!_ uma voz rude gritou e logo a reconheci. Júlio saiu do lado escuro do
quarto e veio até mim._ Volte para a cama e fique quieta!_ ele pegou no meu
braço e me puxou com mais força que o necessário. Caí na cama sem equilíbrio.
Meu coração aos pulos com o medo daquele homem grosseiro.
_Não toque
nela Júlio._ Rafa abriu a porta e entrou no quarto trazendo a brisa fria da
madrugada com ele.
_Rafa! Por
favor, faça eles pararem com isso. Por favor, por favor, parem.
_Júlio! Você
não vê que ela não quer estar aqui e não quer nada disso? Deixe-a ir embora, eu
te imploro. Não quero que seja assim, não quero que ela seja forçada a ficar
comigo._ Rafa disse para Júlio com voz firme, mas respeitosa.
_Não importa
o que você ou ela quer. Todos devem cumprir seus destinos para que o equilíbrio
não se perca.
_O destino
dela é escolher, mas que escolha ela está tendo agora?_ Rafa revidou sua
postura assumindo uma tendência ao enfrentamento.
_Ela escolheu
dispensar os outros. Não fomos nós que fizemos isso, foi escolha dela. E não
aceito, mas nenhuma discursão sobre isso. _Júlio se colocou bem na frente de
Rafa, seu tamanho avantajado cobrindo totalmente meu defensor.
_Não briguem,
não briguem, por favor, eu só quero ir embora._ coloquei minha cabeça entre as
mãos. Sentia-me fraca de novo. Incapaz de raciocinar uma maneira de sair
daquela situação.
_Xiii. Calma
menina._ a mulher sentou-se ao meu lado e segurou minha mão. Seu toque era de
alguma forma, acolhedor e calmante_ Não vamos te fazer mal, pelo contrário,
queremos te ajudar.
_Não preciso
de nenhuma ajuda. Só preciso que me deixem em paz._ eu reclamei, mas não
consegui gritar com ela. Algo em sua presença e em seus olhos era muito bom e
sincero. E intimidador também.
_Olhe bem
para você. Está envolta em negras nuvens. Precisa ser limpa. Essas trevas estão
te fazendo mal, querida.
_Não, não
estão. Pela primeira vez na vida eu pude caminhar pelas ruas sem ser perseguida
por homens estranhos. Pela primeira vez na vida pude conhecer um namorado da
minha mãe sem acabar tudo em desgraça e tristeza. Pela primeira vez eu me sinto
uma pessoa normal e feliz. Não quero tirar o feitiço que me liberta, não
quero._ eu estava chorando. Implorando para aquelas pessoas estranhas que não
sabiam nada do sofrimento que eu vivia, mas que eu torcia para que me
compreendessem.
_Mas você é a
Pura, tudo isso faz parte do que você é. Vai ficar melhor depois que escolher
seu parceiro.
_Não quero
ser obrigada a escolher parceiro nenhum. Quero viver livre de toda essa coisa!_
disse com tanta determinação que a doce mulher fixou os olhos em mim.
_Você não
quer? Como pode não querer ser a maior das agraciadas da criação?
_Agraciada?
Não sou agraciada! Sou infeliz, isso que sou. Quero ser normal, pelo amor de
Deus!
_Chega dessa
conversa inútil._ Júlio rosnou_ O dia já amanhece e o feitiço deve ser quebrado
para não interferir na natureza da Pura. Amanhã ela deverá escolher Rafael para
ser seu companheiro._ A pequena senhora baixou levemente o rosto em claro sinal
de respeito e obediência àquele ser repugnante que era o líder daquele povo que
ela fazia parte. Ela se levantou e voltou ao seu ritual de orações.
_Não, por
favor, não._ eu pedi e tentei sair da cama de novo.
_Segure-a
Rafael, ou eu mesmo o farei._ Júlio ordenou. Rafa veio até mim com o rosto
mortificado. Ele segurou meu braço e me forçou a sentar na cama. Ele não olhava
no meu rosto. E não disse nada. Só me segurava de forma que eu não podia sonhar
em me soltar.
O Sol subiu
lentamente e seus raios surgiam renovadores através da janela aberta. As
orações repetidas se intensificaram e vi com lágrimas nos olhos quando uma
fumaça escura começou a girar a minha volta e se desfizeram no espaço.
_Está livre.
_a mulher disse e abriu os olhos. Ela me olhou brevemente, observando minha
miserável tristeza e depois saiu do quarto. Júlio também me olhava, mas seu
olhar flamejava desejo e espanto. Rafa o encarava com desconfiança e ameaça.
Ele já tinha me defendido muitas vezes de homens que me olhavam com aquele tipo
de olhar. Vi naquele momento que tudo estava de volta. Tinha sido doce e breve
minha esperança de ser feliz.
_Fique com
ela. Não deixarei ninguém entrar e não a deixe sair. A matilha não pode vê-la._
ele disse e com muito esforço se virou e saiu do quarto fechando a porta trás
de si.
_Sinto
muito._ Rafa murmurou ainda sem olhar para mim_ Sinto-me envergonhado pelo meu povo
estar fazendo isso._ Eles não entendem que há algo diferente com você.
_Diferente?_
Sebastian sempre me dizia que eu era diferente das outras, mas eu não
considerei que Rafa também acharia _ Como diferente?
_Pelo que me
informei das histórias das outras Puras elas podiam viver normalmente entre os
humanos. Elas despertavam atração nos homens e tinham alguns inconvenientes, mas
não era nada tão violento como é com você. Ninguém poderia suportar a vida que
você suporta Helene, eu entendo isso. Sei que é por isso que quis se livrar de
tudo. Está sendo fortemente torturada desde a puberdade. Eu tentei explicar
isso para Júlio. Eu contei com que violência eu a ataquei, mas ele não me ouve
e nem considera nada que não leve a seu objetivo.
_Não é sua
culpa. A culpa é minha por não querer assumir o que eu sou. Eu estraguei tudo,
mas acho que só tenho que me conformar agora. Não poderei ter a vida que
sonhava, mas eu sei que você me fará feliz também. _eu disse secando minhas
lágrimas e tentando me convencer de minhas próprias palavras.
_Farei tudo
para que seja feliz Helene.
O dia se
arrastava devagar. Passei meu tempo entre choros e comidas caseiras que me
serviam no quarto. Rafa nunca esteve tão calado. Ele parecia mais envelhecido e
acabrunhado. Eu sabia que ele se sentia muito mal pelo seu papel nessa história
toda.
_Helene, eu
tenho uma coisa para te falar e estou o dia todo me consumindo com isso. Porque
eu não sei se deveria dizer. As consequências podem ser muito ruins, mas me
sinto um canalha em te esconder essa informação. _ eu estava olhando pela
fresta da janela com cuidado para não ser vista, quando Rafa pegou minhas mãos,
ele parecia aflito.
_O que é
Rafa?_ ele suas sobrancelhas estavam unidas e vincadas. Ele procurava as
palavras. Aquilo me deixou ainda mais nervosa_ Fala logo, o que foi?
_É que você
dispensou os outros pretendentes, mas o que você não sabe é que do mesmo jeito
que você os rejeitou, pode chama-los de volta._ ele disse com dificuldade.
_Está dizendo
que posso ligar eles a mim de novo?
_Sim, na hora
que quiser antes de fazer sua escolha. Eu descobri isso ouvindo uma conversa da
anciã com Júlio. Ela disse que você poderia convoca-los outra vez e eles viriam
de onde estivessem ao seu encontro, como seguindo o canto da sereia. Júlio não
gostou muito dessa informação, então mandou que ela guardasse segredo. Ele sabe
que eu sei, porque pode ler meus pensamentos, mas ele pensou que eu não seria
idiota o bastante para te contar._ eu olhei nos profundos olhos castanhos de
Rafa. Ele estava me devolvendo o direito de escolher, mesmo que isso pudesse
significar me perder. Senti uma profunda comoção por sua atitude.
_Porque eu
faria isso Rafa? Sempre foi você quem mais me mereceu. Acho até que você merece
alguém melhor do que eu, mas sei que a mim que você quer. _ eu toquei seu rosto
com carinho_ E mesmo assim, age sem nenhum egoísmo. Eu te amo Rafa, por isso e
por todas as demonstrações que vem me dando ao longo de todos esses anos, do
homem maravilhoso que você é. Não vou convocar os outros. Já me despedi deles.
Desejo profundamente que eles encontrem a felicidade, por que também merecem,
mas eu ficarei aqui com você.
_Ah Helene.
Eu te amo!_ Rafa me tomou em seus braços e me beijou. Seu calor me envolveu e logo
meu corpo reagia a sua paixão. Seus lábios se moviam nos meus com determinação
devoradora. Suas mãos apertavam meu corpo contra o seu me fazendo sentir seus
músculos duros se tencionando cada vez mais. _É cada vez mais insuportável
resistir a você Helene. Quero que seja minha. Para sempre. _ ele murmurou com a
voz rouca pelo desejo. Rafa me levantou do chão em seu abraço e me levou até a
cama. Senti o colchão tocar as minhas pernas antes dele me deitar de costas e
me cobrir com seu corpo. Olhei em seu rosto e percebi que ele estava fora de
si. Seus movimentos cadenciados eram espontâneos demais e estavam ficando cada
vez menos gentis. Lembrei-me do dia em que ele me atacou e minha excitação
sumiu instantaneamente.
_Rafa. Acho
melhor pararmos agora._ pedi tentando me afastar dele.
_Você é minha
Helene. Quero ter você agora._ ele me prendeu novamente.
_Escute. Eu
ainda não te escolhi. Preciso ter a idade certa. Só amanhã a terei.
_Helene eu
preciso de você._ ele voltou a me beijar, mas o rejeitei. Suas mãos corriam
pela lateral de meu corpo e me faziam sentir-me cada vez mais desconfortável
com a lembrança que me traziam. _ Você está tão linda!_ De novo eu me arrependi
da camisola.
_Pare com
isso Rafa. _ tentei me levantar e para minha surpresa ele deixou. Caminhei
irritada para o outro lado do quarto e ele continuou deitado com o rosto no travesseiro.
_Você não me
quer por que não está pronta, ou por que não me perdoou pelo que eu fiz._ ele
disse virando o rosto para me olhar.
_Eu não sei
Rafa. Eu já perdoei você, mas quando me toca as lembranças e o medo vem à tona
de novo._ eu disse cuidadosamente. Não queria magoá-lo.
_Sabe de uma
coisa, o que eu fiz foi horrível, você nunca me escolheria se a situação fosse
diferente. Não importa o quanto você goste de mim, ou seja grata. _ ele afundou
o rosto no travesseiro de novo. _ A marca de decepção que eu deixei está aí, em
seu coração, nada vai mudar isso._ sua voz saiu abafada.
_Não diga
isso Rafa, eu só estou confusa e assustada, afinal estou aqui contra minha
vontade e estou...
_Triste._ ele
completou minha frase voltando a me olhar, mas a tristeza estava em seus
próprios olhos. Suspirei fundo. Eu não tinha nada para dizer que o fizesse se
sentir melhor. Caminhei de novo até a pequena fresta da janela, mas quando
olhei o que vi me assustou. Os olhos de Júlio estavam lá bem próximos à
abertura me observando. Ele se afastou quando foi pego e eu também me afastei
de repente.
_O que foi?_
Rafa se ergueu na cama.
_Júlio estava
nos observando._ minha voz saiu fraca. Eu não queria acreditar que ele
estivesse mesmo fazendo aquilo. Era errado espionar, mas eu senti que
significava algo muito pior. Os olhos que vi estavam insanos.
Com um
barulho seco, a porta se abriu. Rafa estava do meu lado em meio segundo e Júlio
estava na porta.
_Saia Rafael.
Quero falar com ela._ tudo que eu temia aconteceu. O grande macho alfa estava
enlouquecido na minha frente. Instintivamente me escondi atrás de Rafa.
_Não vou
deixar ela sozinha com você Júlio, nem com ninguém._ Rafa estava tremendo, mas
não era de medo. Seu corpo radiava fúria.
_Não discuta
comigo!_ Júlio gritou tão forte que as paredes tremeram.
_Terá que me
matar para tocar nela._ Rafa deu um passo para trás me colocando entre ele e a
janela.
_Se for
preciso eu farei, mas uma ordem minha não pode ser desobedecida, e eu ordeno
que saia agora!_ O alfa usou toda sua autoridade o que fez com que as pernas de
Rafael quase dobraram com o poder dela.
_Sairei._ ele
disse e o gigante enlouquecido sorriu. Meu coração já frenético de pânico disparou
ainda mais. Rafa ia me abandonar ao bel prazer daquele homem rude? Eu me agarrei
mais a ele com desespero, mas ele se moveu se virando para mim _ Tenho que
sair._ ele disse e eu já ia começar a protestar, mas ele me segurou nos braços,
muito rápido, e abriu a janela_ Mas vou te levar comigo._ e estávamos do lado
de fora. Rafa corria mais veloz do que eu achava possível comigo nos braços em
direção à mata. O Urro de raiva de Júlio ecoou nas pedras ao nosso redor.
Rafa
continuou correndo sem nenhum esforço. Era como se eu não pesasse nada, mas seu
rosto estava muito tenso e eu sabia que não estávamos seguros. Depois de poucos
minutos ouvi passos nos seguindo. Os barulhos de mato sendo amaçado com rapidez
vinham de todos os lados. Rafa encontrou uma pequena entrada de uma caverna e
me levou para dentro. O teto de pedra era baixo para Rafa, mas quando ele me
colocou de pé eu não precisei me abaixar como ele fazia. Tinha uns três metros
de profundidade e o fundo era muito escuro, mas Rafa pareceu enxergar bem o
suficiente para caminhar com segurança pelo piso irregular.
_Estamos
cercados. Júlio enlouqueceu. Ele convocou a matilha para nos caçar e agora ele
vai perder o controle de todos eles quando puserem os olhos em você._ Rafa
falou rapidamente seus olhos alternando entre mim e a entrada da caverna.
_Ah meu Deus
Rafa! O que vamos fazer?_ o pânico fez minhas pernas falharem e me apoiei nas
paredes de pedra. Logo precisei me sentar no chão. A imagem de lobisomens
enormes, medonhos e ferozes me caçando rodopiava na minha cabeça.
_Helene,
escute, vou lutar até a morte se for preciso, mas não vou deixar que nenhum
deles toque em você, entendeu._ essa outra imagem de Rafa morrendo para me
defender só me fez ficar ainda pior. Rosnados e uivos aumentavam a cada segundo
do lado de fora. _ Fique aqui. Não
importa o que aconteça não saia, ok!_ eu só concordei com a cabeça.
Rafa se
aproximou da entrada da caverna e a cobriu com seu corpo. Ele estava mudando de
forma e eu não queria olha-lo se transformar naquele monstro horrível. Suas
costas viradas para mim cresciam assombrosamente em largura, e seus braços em
comprimento. Pelos nasciam em todos os seus membros, crescendo rapidamente e
tornando-o escuro como a noite. Em segundos Rafa tinha se tornado um lobisomem
enorme e poderoso. Mas, apesar de sua aparente força descomunal eu sabia que
ele não seria suficiente. Tinham muitos iguais a ele e até mais fortes do lado
de fora que iriam mata-lo. Essa certeza doeu mais do que tudo já havia doido na
minha vida. Ele não teria nenhuma chance lutando sozinho e era tudo culpa
minha. Tudo culpa do meu egoísmo.
Meu coração
desesperado desejou profundamente que Victor e Sebastian estivessem ali também
me protegendo. Eu não sabia se eles também seriam fortes o bastante, mas meu
desejo de tê-los por perto era irracional. Sabia que estavam longe demais para
chegarem a tempo, mas mesmo assim eu os chamei. “Sebastian, quero você de
volta, venha me salvar.” “Victor, quero você de volta, venha, por favor.”
Chorei baixinho e continuei repetindo como uma oração. Depois resolvi fazer
realmente uma oração pedindo àquele mesmo deus que fez toda aquela trama na
minha vida, tivesse piedade de mim e me perdoasse por negar o meu papel e
salvasse a mim e ao Rafa. Se ele não pudesse me salvar, que salvasse ao Rafa
que não merecia morrer daquele jeito. Era isso! Eu não merecia nenhuma
salvação. Não podia deixar que um inocente pagasse no meu lugar. Precisava
fazer alguma coisa. Eu tinha causado aquilo, teria que sofrer as consequências.
Estava decidida a me entregar e poupar a vida
de Rafa, mas sabia que ele não deixaria. Tinha que bolar um plano. Uma
determinação cresceu dentro de mim, retirando meu medo. Senti-me forte quando
decidi que minha vida não estava valendo a pena ser defendida por alguém muito
melhor do que eu. Afinal eu não era a Pura que todos esperavam ansiosos para estabelecer
o equilíbrio das raças. Até ali eu estava sendo apenas uma mulher fraca,
covarde e egoísta.
Levantei-me
com firmeza e caminhei até o lobo de pé na minha frente. Ele percebeu minha
aproximação e ficou mais tenso.
_Diga a eles
que eu irei, mas só aceito sair daqui com o Alfa, Júlio._ eu disse decidida
para Rafa. Ele rosnou e me olhou com seus grandes olhos negros e brilhantes.
Seu rosto estava desfigurado, mas agora que o olhava sem medo, percebi que
preservava muitos dos seus traços._ Faça isso Rafa, por favor.
_Estou aqui._
A voz alta e rude de Júlio reverberou na caverna e ele estava na porta bem
diante de Rafa e de mim.
_Precisa
afastar os outros antes de me tirar daqui, ou vão atacar você também._ eu disse
a ele com firmeza.
_Eles são a
minha matilha, não vão me atacar._ ele falou em tom de zombaria.
_Para um
líder você não é muito inteligente._ eu revidei_ Se até você está se esquecendo
dos seus propósitos por causa da atração da Pura, por que acha que com os
outros será diferente? _ ele arregalou os olhos para mim_ Eles ainda não me
viram, mas se verem vão matar você. _ minhas palavras o atingiram como um
golpe. Ele franziu o cenho e voltou para fora. Rafa acompanhava cada movimento
dele, mas me deu um breve olhar de admiração por minha coragem. Ouvi as ordens
para que a matilha se afastasse e depois ele voltou impaciente para nós. Rafa
não sedia em sua posição na minha frente.
_Você vem
comigo._ ele disse em tom possessivo e deu um passo em minha direção. Rafa
rosnou e o enfrentou mais.
_Rafa, deixe.
Ele não vai me machucar._ eu menti _ Vai ficar tudo bem._ eu toquei seu rosto
de fera vendo nele apenas o que ainda havia do meu amigo, que eu amava tanto_
Confie em mim e, por favor, fique vivo para mim.
_Não!_ ele
disse em um rosnado. Júlio rosnou também, mas rafa o ignorou, apenas olhava
furioso para mim.
_Me deixe ir
com ele Rafa_ eu estava apavorada com a iminência de uma briga dos dois _ Ele
só quer me tocar, como você fez! _ eu gritei _ E sendo ele o alfa tem mais
direito sobre mim do que você._ aquelas palavras doeram nele, eu sabia, mas
doeu muito mais em mim. Eu sabia que era o único jeito de convencê-lo a me
deixar ir.
Rafa rosnou e uivou alto. Depois ele falou
algo com Júlio na sua linguagem de lobisomem. Júlio não tirava os olhos
cobiçosos de mim, mas pareceu abalado com seja lá o que foi que Rafa lhe disse.
Rafa saiu da minha frente e gemeu quando Júlio me pegou nos braços e me levou
para dentro da mata correndo em sua velocidade desumana. Em poucos minutos
estávamos em outra casa. Era mais uma cabana feita de madeiras roliças, encostada
em uma grande pedra e longe de tudo. Só havia mato e pedras ao redor.
Ele entrou na
cabana aberta ainda me carregando. Era apenas um cômodo e não tinha móveis no
interior, apenas uma esteira de palha gasta no chão e uma lamparina apagada no
canto da parede. A noite já tinha caído ha algumas horas e só o brilho da lua
ainda cheia deixava ver algumas formas, mas quando ele fechou a porta atrás de
si, a pouca luz que entrava entre uma madeira e outra era muito insignificante
para ajudar a manter minha coragem. Eu sabia o que viria agora. Teria que ser
forte para suportar o que aquele homem faria comigo e quem sabe sobreviver até
o dia seguinte. Por um momento pensei se Rafa ainda iria me querer depois
disso. Na verdade eu nem sabia se a Pura ainda poderia escolher alguém depois
que sua pureza fosse roubada.
_O que Rafa
lhe disse._ eu perguntei quando ele me colocou no chão. Eu me agarrei à
esperança de distraí-lo.
_Disse que me
mataria se eu a ferisse.
_E você
sentiu medo dele? Eu vi que ficou abalado.
_Eu vejo
através dele. E vi que dizia a verdade. Seria uma luta onde apenas um
sobreviveria._ ele disse distraidamente enquanto me olhava. Percebi que, de
tanto ser carregada aos trancos, minha camisola tinha sido rasgada e o decote
no meu peito estava ainda maior, quase revelando meus seios. Aprecei-me a
fechá-la com ambas as mãos.
_Sabe que
pode resistir se quiser.
_Não acho que
possa._ ele deu mais um passo na minha direção. Eu já estava quase encostada na
parede tentando me afastar dele._ Estou lutando bastante para segurar meus
impulsos que certamente iriam te machucar. _ ele esboçou um sorriso maligno.
_Rafa vem
resistindo a isso a vida toda, ele não é mais forte do que você._ apelei para
seu orgulho.
_Ele teve
tempo para se acostumar, mas mesmo assim ele falhou, não falhou?_ ele mediu
minha reação.
_Só quando se
transformou. Ele perdeu o controle por um momento._ Júlio me imprensou na
parede e colocou ambos os braços dos meus lados encostando suas palmas nas
madeiras redondas.
_Sabe de uma
coisa você tinha razão. Não devíamos ter tirado a escuridão que rodeava você.
_sua respiração pesada estava em meu rosto.
_Não faça
isso Júlio. Você é o alfa, tem responsabilidades com seu povo. Vai arruinar a
melhor oportunidade de a Pura escolher um lobisomem. Você não quer fazer isso.
_ ele puxou o ar pelo nariz e fechou os olhos como se saboreasse meu cheiro.
_Tudo que eu
quero agora é estar dentro de você._ apertei meus olhos esperando o inevitável,
mas um barulho surdo me fez abri-los novamente.
_Uma ova que
você vai. _Milagrosamente Sebastian estava dentro da cabana puxando o corpo de
Júlio como se fosse um boneco de pano, deu-lhe uma joelhada no abdômen e o jogou
contra a outra parede. O telhado de palha tremeu como se fosse cair com o
impacto. O Homem enorme que me aterrorizava estava agora se contorcendo no
chão. Na fraca luz que agora entrava pela porta eu vi o sangue escuro
espirrando por sua boca.
_Helene, você
está bem?_ Sebastian segurou meu rosto e olhou por todo meu corpo procurando
por ferimentos.
_Eu estou
bem, mas como chegou tão rápido?_ um misto de confusão, medo e extrema
felicidade, me invadiram.
_Eu estava
perto, sempre. _ Belo traje para um sequestro. _ ele observou sarcástico.
_Eu não tive
tempo de me trocar, mas você... Você estava com Katherine na França. _minha
mente não acreditava no que meus olhos viam._ Você ficou lá, com ela._ uma
ponta de ressentimento escapou em minha voz.
_Não acho que
seja hora de ter ciúmes, querida. Você me chamou e estou aqui._ ele estava
divertido e mesmo naquela situação aquilo me irritou.
_Você tem
que ir embora, tem muitos deles Sebastian, muitos deles.
_Vamos embora
em um minuto._ ele se virou para Júlio que se levantava e se recuperava do
impacto.
_Você é o
vampiro._ Júlio estava surpreso e quase maravilhado por ver Sebastian.
_Que bom que
já me conhece, assim podemos dispensar as apresentações. Vim buscar Helene e
não quero ter que machucar ninguém.
_Machucar?_
Júlio bufou_ Quem tem que se preocupar em se machucar aqui é você vampiro. Não
vai levar a Pura a lugar nenhum. _ os olhos ferozes estavam em mim de novo. Meu
corpo tremeu com medo.
_Quem vai me
impedir, você e mais quantos?_ Sebastian desafiou.
_Eu e mais
vinte e cinco, se não contar o Rafael que está muito rebelde nesse momento._
ele sorriu sorrateiramente e se transformou em uma besta bem na nossa frente em
menos de um segundo. Sebastian me protegeu ainda mais com seu corpo enquanto o
lobisomem uivava tão alto que meu ouvido doeu. Ele estava chamando os outros
lobos eu sabia disso.
_A conversa
está boa, mas é melhor agente ir agora._ Sebastian e me pegou nos braços e passou
como um vento pela porta da cabana.
Não fomos
muito longe, estávamos cercados de monstros enormes bem antes de sairmos da
clareira. Sebastian me colocou no chão com cuidado, medindo cada movimento e
observando cada um dos lobisomens que nos rodeavam rosnando e furiosos. Eles se
aproximavam lentamente. Seus olhos estavam queimando em mim, tarde demais para
evitar o pior. Todas aquelas feras tinham apenas um objetivo agora, me pegar.
Mas eles hesitavam olhando para Sebastian. Imaginei que eles também reconheciam
o que ele era, assim como Júlio e sentiam-se intimidados. Porém eles eram
muitos e Sebastian era apenas um. Eu tinha visto que ele era muito forte já que
abateu Júlio com tanta facilidade, mas mesmo se ele vencesse àquela briga, não
seria antes que algum deles aproveitasse sua distração e me pegasse.
_Temos que
sair daqui, não posso lutar e te proteger ao mesmo tempo._ Sebastian sussurrou
para mim, confirmando o que eu tinha pensado. Um dos lobisomens se aproximou
mais. Eu me assustei com sua ousadia, mas logo reconheci que era Rafa. Ele veio
em nossa direção, mas logo assumiu a postura de me defender, se virando para
enfrentar os outros. _Ah! O mocinho resolveu aparecer._ Sebastian também o
reconheceu. Os outros ainda nos observavam e rosnavam, mas vi nos olhos
flamejantes deles que a fúria crescia e não iam tardar muito até atacarem. Um
lobisomem ainda maior surgiu entre eles e não tive dúvida que se tratava do
grande macho alfa. Júlio caminhava entre os outros que não lhe davam nenhuma
atenção. Como eu temia.
_Rafa,
Sebastian isso não tem como ficar pior, vocês vão morrer se tentarem me
defender, me entregue e vão embora, serei só eu e não nós três. _ eu pedi. A
coisa que eu mais temia naquele momento era ver os dois caírem mortos aos meus
pés.
_O que
fizeram com você aqui além de acabarem com a proteção que eu arrumei para você?
Tiraram seu juízo também?_ Sebastian atirou mal humorado.
Com um rugido
feroz um dos lobisomens se atirou sobre nós. No mesmo instante os outros também
tomaram a coragem. Em segundos tudo o que podia ver ao meu redor eram corpos
enormes colidindo uns nos outros. Rafa mordia e dilacerava os outros em cenas
de puro terror. Sebastian fazia movimentos rápidos, mas harmoniosos como em uma
dança, e arrancava os membros dos monstros, lançando-os pelo ar. Ouvia gritos
apavorados e levei algum tempo para perceber que eram meus. Todos os lobos vinham
em minha direção e eram desviados de mim sempre no último segundo por um dos
meus dois guerreiros protetores. Gritei ainda mais alto guando senti braços em
volta da minha cintura me puxando com força.
_Calma, sou
eu._ Victor me levou para fora do tumulto e me escondeu entre duas pedras. Os
outros dois lhe davam cobertura lutando com os que tentavam nos seguir.
_Victor! _
fui capaz de dizer. Alivio transbordava em minha voz rouca pelos gritos.
_Desculpe a
demora, eu estava dentro do avião quando ouvi seu chamado. Tive que esperar
pousar e pegar outro de volta. Você está ferida?_ ele também me inspecionou
detalhadamente.
_Eu estou
bem, mas e eles? _ me virei para observar a briga e me dei conta que estava
tremendo muito, porque a minha visão estavam distorcidas. A briga continuava
ferrenha. Os sons de agonia se misturavam grunhidos de raiva. Não dava para
saber exatamente o que estava acontecendo agora que estava longe, eu não distinguia
mais Rafa em meio aos outros e não podia discernir se Sebastian estava vencendo
ou perdendo as batalhas. _Eu não posso ficar aqui e deixar eles morrerem, eu
não posso. _ comecei a chorar.
_Helene,
escute, eu tenho que te levar para um lugar seguro. Eles vão ficar bem, agora
precisamos aproveitar que temos vantagem para sairmos daqui._ Victor olhava em
volta escolhendo a melhor direção a tomar.
_Não.
_ eu gritei_ Não vou deixa-los morrer!_ puxei meu braço de sua mão e caminhei
determinada, em direção ao confronto.
_Pare!
O que está fazendo?_ Victor me pegou de volta.
_Me
solta Victor. _ minha voz era diferente
quando ordenei. Seus olhos se arregalaram de espanto e eu os fixei impondo
minha vontade. Senti uma força desconhecida crescer no meu interior, como nunca
imaginei que fosse capaz. Esse poder o fez recuar e vi seus olhos cederem
quando finalmente baixou a cabeça respeitosamente e soltou meu braço sem
questionar. Fique maravilhada com o poder que sentia em mim. Caminhei com passos firmes, mas era como se
não sentisse o chão sólido debaixo dos meus pés. Meus pés descalços só sentiam
o deslizar da seda nos tornozelos, como se pisasse em plumas, ou flutuasse.
NOSSA QUE EMOCIONANTE ADOREI,,,MUITO LEGAL ,,,NAO DEMORE PRA ESCREVER O RESTANTE♥
ResponderExcluirEi Patrícia!!!
ResponderExcluirObrigada!!!
Já postei Cap 11, espero que continue gostando. Bjss
http://livroapura.blogspot.com.br/2013/05/cap-11.html