segunda-feira, 15 de abril de 2013

Cap. 10




Entidades de luz, limpem a Pura. Façam que tudo volte a ser bom.”
Ela continuava dizendo e repetindo cadenciadamente. Uma sensação diferente vinha crescendo em mim. Eu ainda não estava totalmente desperta, mas eu sabia o que estava acontecendo. Aquela mulher estava retirando o feitiço de bloqueio.
_Não! _Eu pulei da cama e colei meu corpo junto a parede.
_Fique quieta!_ uma voz rude gritou e logo a reconheci. Júlio saiu do lado escuro do quarto e veio até mim._ Volte para a cama e fique quieta!_ ele pegou no meu braço e me puxou com mais força que o necessário. Caí na cama sem equilíbrio. Meu coração aos pulos com o medo daquele homem grosseiro.
_Não toque nela Júlio._ Rafa abriu a porta e entrou no quarto trazendo a brisa fria da madrugada com ele.
_Rafa! Por favor, faça eles pararem com isso. Por favor, por favor, parem.
_Júlio! Você não vê que ela não quer estar aqui e não quer nada disso? Deixe-a ir embora, eu te imploro. Não quero que seja assim, não quero que ela seja forçada a ficar comigo._ Rafa disse para Júlio com voz firme, mas respeitosa.
_Não importa o que você ou ela quer. Todos devem cumprir seus destinos para que o equilíbrio não se perca.
_O destino dela é escolher, mas que escolha ela está tendo agora?_ Rafa revidou sua postura assumindo uma tendência ao enfrentamento.
_Ela escolheu dispensar os outros. Não fomos nós que fizemos isso, foi escolha dela. E não aceito, mas nenhuma discursão sobre isso. _Júlio se colocou bem na frente de Rafa, seu tamanho avantajado cobrindo totalmente meu defensor.
_Não briguem, não briguem, por favor, eu só quero ir embora._ coloquei minha cabeça entre as mãos. Sentia-me fraca de novo. Incapaz de raciocinar uma maneira de sair daquela situação.
_Xiii. Calma menina._ a mulher sentou-se ao meu lado e segurou minha mão. Seu toque era de alguma forma, acolhedor e calmante_ Não vamos te fazer mal, pelo contrário, queremos te ajudar.
_Não preciso de nenhuma ajuda. Só preciso que me deixem em paz._ eu reclamei, mas não consegui gritar com ela. Algo em sua presença e em seus olhos era muito bom e sincero. E intimidador também.
_Olhe bem para você. Está envolta em negras nuvens. Precisa ser limpa. Essas trevas estão te fazendo mal, querida.
_Não, não estão. Pela primeira vez na vida eu pude caminhar pelas ruas sem ser perseguida por homens estranhos. Pela primeira vez na vida pude conhecer um namorado da minha mãe sem acabar tudo em desgraça e tristeza. Pela primeira vez eu me sinto uma pessoa normal e feliz. Não quero tirar o feitiço que me liberta, não quero._ eu estava chorando. Implorando para aquelas pessoas estranhas que não sabiam nada do sofrimento que eu vivia, mas que eu torcia para que me compreendessem.
_Mas você é a Pura, tudo isso faz parte do que você é. Vai ficar melhor depois que escolher seu parceiro.
_Não quero ser obrigada a escolher parceiro nenhum. Quero viver livre de toda essa coisa!_ disse com tanta determinação que a doce mulher fixou os olhos em mim.
_Você não quer? Como pode não querer ser a maior das agraciadas da criação?
_Agraciada? Não sou agraciada! Sou infeliz, isso que sou. Quero ser normal, pelo amor de Deus!
_Chega dessa conversa inútil._ Júlio rosnou_ O dia já amanhece e o feitiço deve ser quebrado para não interferir na natureza da Pura. Amanhã ela deverá escolher Rafael para ser seu companheiro._ A pequena senhora baixou levemente o rosto em claro sinal de respeito e obediência àquele ser repugnante que era o líder daquele povo que ela fazia parte. Ela se levantou e voltou ao seu ritual de orações.
_Não, por favor, não._ eu pedi e tentei sair da cama de novo.
_Segure-a Rafael, ou eu mesmo o farei._ Júlio ordenou. Rafa veio até mim com o rosto mortificado. Ele segurou meu braço e me forçou a sentar na cama. Ele não olhava no meu rosto. E não disse nada. Só me segurava de forma que eu não podia sonhar em me soltar.
O Sol subiu lentamente e seus raios surgiam renovadores através da janela aberta. As orações repetidas se intensificaram e vi com lágrimas nos olhos quando uma fumaça escura começou a girar a minha volta e se desfizeram no espaço.
_Está livre. _a mulher disse e abriu os olhos. Ela me olhou brevemente, observando minha miserável tristeza e depois saiu do quarto. Júlio também me olhava, mas seu olhar flamejava desejo e espanto. Rafa o encarava com desconfiança e ameaça. Ele já tinha me defendido muitas vezes de homens que me olhavam com aquele tipo de olhar. Vi naquele momento que tudo estava de volta. Tinha sido doce e breve minha esperança de ser feliz.
_Fique com ela. Não deixarei ninguém entrar e não a deixe sair. A matilha não pode vê-la._ ele disse e com muito esforço se virou e saiu do quarto fechando a porta trás de si.
_Sinto muito._ Rafa murmurou ainda sem olhar para mim_ Sinto-me envergonhado pelo meu povo estar fazendo isso._ Eles não entendem que há algo diferente com você.
_Diferente?_ Sebastian sempre me dizia que eu era diferente das outras, mas eu não considerei que Rafa também acharia _ Como diferente?
_Pelo que me informei das histórias das outras Puras elas podiam viver normalmente entre os humanos. Elas despertavam atração nos homens e tinham alguns inconvenientes, mas não era nada tão violento como é com você. Ninguém poderia suportar a vida que você suporta Helene, eu entendo isso. Sei que é por isso que quis se livrar de tudo. Está sendo fortemente torturada desde a puberdade. Eu tentei explicar isso para Júlio. Eu contei com que violência eu a ataquei, mas ele não me ouve e nem considera nada que não leve a seu objetivo.
_Não é sua culpa. A culpa é minha por não querer assumir o que eu sou. Eu estraguei tudo, mas acho que só tenho que me conformar agora. Não poderei ter a vida que sonhava, mas eu sei que você me fará feliz também. _eu disse secando minhas lágrimas e tentando me convencer de minhas próprias palavras.
_Farei tudo para que seja feliz Helene.  
O dia se arrastava devagar. Passei meu tempo entre choros e comidas caseiras que me serviam no quarto. Rafa nunca esteve tão calado. Ele parecia mais envelhecido e acabrunhado. Eu sabia que ele se sentia muito mal pelo seu papel nessa história toda.
_Helene, eu tenho uma coisa para te falar e estou o dia todo me consumindo com isso. Porque eu não sei se deveria dizer. As consequências podem ser muito ruins, mas me sinto um canalha em te esconder essa informação. _ eu estava olhando pela fresta da janela com cuidado para não ser vista, quando Rafa pegou minhas mãos, ele parecia aflito.
_O que é Rafa?_ ele suas sobrancelhas estavam unidas e vincadas. Ele procurava as palavras. Aquilo me deixou ainda mais nervosa_ Fala logo, o que foi?
_É que você dispensou os outros pretendentes, mas o que você não sabe é que do mesmo jeito que você os rejeitou, pode chama-los de volta._ ele disse com dificuldade.
_Está dizendo que posso ligar eles a mim de novo?
_Sim, na hora que quiser antes de fazer sua escolha. Eu descobri isso ouvindo uma conversa da anciã com Júlio. Ela disse que você poderia convoca-los outra vez e eles viriam de onde estivessem ao seu encontro, como seguindo o canto da sereia. Júlio não gostou muito dessa informação, então mandou que ela guardasse segredo. Ele sabe que eu sei, porque pode ler meus pensamentos, mas ele pensou que eu não seria idiota o bastante para te contar._ eu olhei nos profundos olhos castanhos de Rafa. Ele estava me devolvendo o direito de escolher, mesmo que isso pudesse significar me perder. Senti uma profunda comoção por sua atitude.
_Porque eu faria isso Rafa? Sempre foi você quem mais me mereceu. Acho até que você merece alguém melhor do que eu, mas sei que a mim que você quer. _ eu toquei seu rosto com carinho_ E mesmo assim, age sem nenhum egoísmo. Eu te amo Rafa, por isso e por todas as demonstrações que vem me dando ao longo de todos esses anos, do homem maravilhoso que você é. Não vou convocar os outros. Já me despedi deles. Desejo profundamente que eles encontrem a felicidade, por que também merecem, mas eu ficarei aqui com você.
_Ah Helene. Eu te amo!_ Rafa me tomou em seus braços e me beijou. Seu calor me envolveu e logo meu corpo reagia a sua paixão. Seus lábios se moviam nos meus com determinação devoradora. Suas mãos apertavam meu corpo contra o seu me fazendo sentir seus músculos duros se tencionando cada vez mais. _É cada vez mais insuportável resistir a você Helene. Quero que seja minha. Para sempre. _ ele murmurou com a voz rouca pelo desejo. Rafa me levantou do chão em seu abraço e me levou até a cama. Senti o colchão tocar as minhas pernas antes dele me deitar de costas e me cobrir com seu corpo. Olhei em seu rosto e percebi que ele estava fora de si. Seus movimentos cadenciados eram espontâneos demais e estavam ficando cada vez menos gentis. Lembrei-me do dia em que ele me atacou e minha excitação sumiu instantaneamente.
_Rafa. Acho melhor pararmos agora._ pedi tentando me afastar dele.
_Você é minha Helene. Quero ter você agora._ ele me prendeu novamente.
_Escute. Eu ainda não te escolhi. Preciso ter a idade certa. Só amanhã a terei. 
_Helene eu preciso de você._ ele voltou a me beijar, mas o rejeitei. Suas mãos corriam pela lateral de meu corpo e me faziam sentir-me cada vez mais desconfortável com a lembrança que me traziam. _ Você está tão linda!_ De novo eu me arrependi da camisola.
_Pare com isso Rafa. _ tentei me levantar e para minha surpresa ele deixou. Caminhei irritada para o outro lado do quarto e ele continuou deitado com o rosto no travesseiro.
_Você não me quer por que não está pronta, ou por que não me perdoou pelo que eu fiz._ ele disse virando o rosto para me olhar.
_Eu não sei Rafa. Eu já perdoei você, mas quando me toca as lembranças e o medo vem à tona de novo._ eu disse cuidadosamente. Não queria magoá-lo.
_Sabe de uma coisa, o que eu fiz foi horrível, você nunca me escolheria se a situação fosse diferente. Não importa o quanto você goste de mim, ou seja grata. _ ele afundou o rosto no travesseiro de novo. _ A marca de decepção que eu deixei está aí, em seu coração, nada vai mudar isso._ sua voz saiu abafada.
_Não diga isso Rafa, eu só estou confusa e assustada, afinal estou aqui contra minha vontade e estou...
_Triste._ ele completou minha frase voltando a me olhar, mas a tristeza estava em seus próprios olhos. Suspirei fundo. Eu não tinha nada para dizer que o fizesse se sentir melhor. Caminhei de novo até a pequena fresta da janela, mas quando olhei o que vi me assustou. Os olhos de Júlio estavam lá bem próximos à abertura me observando. Ele se afastou quando foi pego e eu também me afastei de repente.
_O que foi?_ Rafa se ergueu na cama.
_Júlio estava nos observando._ minha voz saiu fraca. Eu não queria acreditar que ele estivesse mesmo fazendo aquilo. Era errado espionar, mas eu senti que significava algo muito pior. Os olhos que vi estavam insanos.
Com um barulho seco, a porta se abriu. Rafa estava do meu lado em meio segundo e Júlio estava na porta.
_Saia Rafael. Quero falar com ela._ tudo que eu temia aconteceu. O grande macho alfa estava enlouquecido na minha frente. Instintivamente me escondi atrás de Rafa.
_Não vou deixar ela sozinha com você Júlio, nem com ninguém._ Rafa estava tremendo, mas não era de medo. Seu corpo radiava fúria.
_Não discuta comigo!_ Júlio gritou tão forte que as paredes tremeram.
_Terá que me matar para tocar nela._ Rafa deu um passo para trás me colocando entre ele e a janela.
_Se for preciso eu farei, mas uma ordem minha não pode ser desobedecida, e eu ordeno que saia agora!_ O alfa usou toda sua autoridade o que fez com que as pernas de Rafael quase dobraram com o poder dela.
_Sairei._ ele disse e o gigante enlouquecido sorriu. Meu coração já frenético de pânico disparou ainda mais. Rafa ia me abandonar ao bel prazer daquele homem rude? Eu me agarrei mais a ele com desespero, mas ele se moveu se virando para mim _ Tenho que sair._ ele disse e eu já ia começar a protestar, mas ele me segurou nos braços, muito rápido, e abriu a janela_ Mas vou te levar comigo._ e estávamos do lado de fora. Rafa corria mais veloz do que eu achava possível comigo nos braços em direção à mata. O Urro de raiva de Júlio ecoou nas pedras ao nosso redor.
Rafa continuou correndo sem nenhum esforço. Era como se eu não pesasse nada, mas seu rosto estava muito tenso e eu sabia que não estávamos seguros. Depois de poucos minutos ouvi passos nos seguindo. Os barulhos de mato sendo amaçado com rapidez vinham de todos os lados. Rafa encontrou uma pequena entrada de uma caverna e me levou para dentro. O teto de pedra era baixo para Rafa, mas quando ele me colocou de pé eu não precisei me abaixar como ele fazia. Tinha uns três metros de profundidade e o fundo era muito escuro, mas Rafa pareceu enxergar bem o suficiente para caminhar com segurança pelo piso irregular.
_Estamos cercados. Júlio enlouqueceu. Ele convocou a matilha para nos caçar e agora ele vai perder o controle de todos eles quando puserem os olhos em você._ Rafa falou rapidamente seus olhos alternando entre mim e a entrada da caverna.
_Ah meu Deus Rafa! O que vamos fazer?_ o pânico fez minhas pernas falharem e me apoiei nas paredes de pedra. Logo precisei me sentar no chão. A imagem de lobisomens enormes, medonhos e ferozes me caçando rodopiava na minha cabeça.
_Helene, escute, vou lutar até a morte se for preciso, mas não vou deixar que nenhum deles toque em você, entendeu._ essa outra imagem de Rafa morrendo para me defender só me fez ficar ainda pior. Rosnados e uivos aumentavam a cada segundo do lado de fora. _ Fique aqui.  Não importa o que aconteça não saia, ok!_ eu só  concordei com a cabeça.
Rafa se aproximou da entrada da caverna e a cobriu com seu corpo. Ele estava mudando de forma e eu não queria olha-lo se transformar naquele monstro horrível. Suas costas viradas para mim cresciam assombrosamente em largura, e seus braços em comprimento. Pelos nasciam em todos os seus membros, crescendo rapidamente e tornando-o escuro como a noite. Em segundos Rafa tinha se tornado um lobisomem enorme e poderoso. Mas, apesar de sua aparente força descomunal eu sabia que ele não seria suficiente. Tinham muitos iguais a ele e até mais fortes do lado de fora que iriam mata-lo. Essa certeza doeu mais do que tudo já havia doido na minha vida. Ele não teria nenhuma chance lutando sozinho e era tudo culpa minha. Tudo culpa do meu egoísmo.
Meu coração desesperado desejou profundamente que Victor e Sebastian estivessem ali também me protegendo. Eu não sabia se eles também seriam fortes o bastante, mas meu desejo de tê-los por perto era irracional. Sabia que estavam longe demais para chegarem a tempo, mas mesmo assim eu os chamei. “Sebastian, quero você de volta, venha me salvar.” “Victor, quero você de volta, venha, por favor.” Chorei baixinho e continuei repetindo como uma oração. Depois resolvi fazer realmente uma oração pedindo àquele mesmo deus que fez toda aquela trama na minha vida, tivesse piedade de mim e me perdoasse por negar o meu papel e salvasse a mim e ao Rafa. Se ele não pudesse me salvar, que salvasse ao Rafa que não merecia morrer daquele jeito. Era isso! Eu não merecia nenhuma salvação. Não podia deixar que um inocente pagasse no meu lugar. Precisava fazer alguma coisa. Eu tinha causado aquilo, teria que sofrer as consequências.
 Estava decidida a me entregar e poupar a vida de Rafa, mas sabia que ele não deixaria. Tinha que bolar um plano. Uma determinação cresceu dentro de mim, retirando meu medo. Senti-me forte quando decidi que minha vida não estava valendo a pena ser defendida por alguém muito melhor do que eu. Afinal eu não era a Pura que todos esperavam ansiosos para estabelecer o equilíbrio das raças. Até ali eu estava sendo apenas uma mulher fraca, covarde e egoísta.
Levantei-me com firmeza e caminhei até o lobo de pé na minha frente. Ele percebeu minha aproximação e ficou mais tenso.
_Diga a eles que eu irei, mas só aceito sair daqui com o Alfa, Júlio._ eu disse decidida para Rafa. Ele rosnou e me olhou com seus grandes olhos negros e brilhantes. Seu rosto estava desfigurado, mas agora que o olhava sem medo, percebi que preservava muitos dos seus traços._ Faça isso Rafa, por favor.
_Estou aqui._ A voz alta e rude de Júlio reverberou na caverna e ele estava na porta bem diante de Rafa e de mim.
_Precisa afastar os outros antes de me tirar daqui, ou vão atacar você também._ eu disse a ele com firmeza.
_Eles são a minha matilha, não vão me atacar._ ele falou em tom de zombaria.
_Para um líder você não é muito inteligente._ eu revidei_ Se até você está se esquecendo dos seus propósitos por causa da atração da Pura, por que acha que com os outros será diferente? _ ele arregalou os olhos para mim_ Eles ainda não me viram, mas se verem vão matar você. _ minhas palavras o atingiram como um golpe. Ele franziu o cenho e voltou para fora. Rafa acompanhava cada movimento dele, mas me deu um breve olhar de admiração por minha coragem. Ouvi as ordens para que a matilha se afastasse e depois ele voltou impaciente para nós. Rafa não sedia em sua posição na minha frente.
_Você vem comigo._ ele disse em tom possessivo e deu um passo em minha direção. Rafa rosnou e o enfrentou mais.
_Rafa, deixe. Ele não vai me machucar._ eu menti _ Vai ficar tudo bem._ eu toquei seu rosto de fera vendo nele apenas o que ainda havia do meu amigo, que eu amava tanto_ Confie em mim e, por favor, fique vivo para mim.
_Não!_ ele disse em um rosnado. Júlio rosnou também, mas rafa o ignorou, apenas olhava furioso para mim.
_Me deixe ir com ele Rafa_ eu estava apavorada com a iminência de uma briga dos dois _ Ele só quer me tocar, como você fez! _ eu gritei _ E sendo ele o alfa tem mais direito sobre mim do que você._ aquelas palavras doeram nele, eu sabia, mas doeu muito mais em mim. Eu sabia que era o único jeito de convencê-lo a me deixar ir.
 Rafa rosnou e uivou alto. Depois ele falou algo com Júlio na sua linguagem de lobisomem. Júlio não tirava os olhos cobiçosos de mim, mas pareceu abalado com seja lá o que foi que Rafa lhe disse. Rafa saiu da minha frente e gemeu quando Júlio me pegou nos braços e me levou para dentro da mata correndo em sua velocidade desumana. Em poucos minutos estávamos em outra casa. Era mais uma cabana feita de madeiras roliças, encostada em uma grande pedra e longe de tudo. Só havia mato e pedras ao redor.
Ele entrou na cabana aberta ainda me carregando. Era apenas um cômodo e não tinha móveis no interior, apenas uma esteira de palha gasta no chão e uma lamparina apagada no canto da parede. A noite já tinha caído ha algumas horas e só o brilho da lua ainda cheia deixava ver algumas formas, mas quando ele fechou a porta atrás de si, a pouca luz que entrava entre uma madeira e outra era muito insignificante para ajudar a manter minha coragem. Eu sabia o que viria agora. Teria que ser forte para suportar o que aquele homem faria comigo e quem sabe sobreviver até o dia seguinte. Por um momento pensei se Rafa ainda iria me querer depois disso. Na verdade eu nem sabia se a Pura ainda poderia escolher alguém depois que sua pureza fosse roubada.
_O que Rafa lhe disse._ eu perguntei quando ele me colocou no chão. Eu me agarrei à esperança de distraí-lo.
_Disse que me mataria se eu a ferisse.
_E você sentiu medo dele? Eu vi que ficou abalado.
_Eu vejo através dele. E vi que dizia a verdade. Seria uma luta onde apenas um sobreviveria._ ele disse distraidamente enquanto me olhava. Percebi que, de tanto ser carregada aos trancos, minha camisola tinha sido rasgada e o decote no meu peito estava ainda maior, quase revelando meus seios. Aprecei-me a fechá-la com ambas as mãos.
_Sabe que pode resistir se quiser.
_Não acho que possa._ ele deu mais um passo na minha direção. Eu já estava quase encostada na parede tentando me afastar dele._ Estou lutando bastante para segurar meus impulsos que certamente iriam te machucar. _ ele esboçou um sorriso maligno.
_Rafa vem resistindo a isso a vida toda, ele não é mais forte do que você._ apelei para seu orgulho.
_Ele teve tempo para se acostumar, mas mesmo assim ele falhou, não falhou?_ ele mediu minha reação.
_Só quando se transformou. Ele perdeu o controle por um momento._ Júlio me imprensou na parede e colocou ambos os braços dos meus lados encostando suas palmas nas madeiras redondas.
_Sabe de uma coisa você tinha razão. Não devíamos ter tirado a escuridão que rodeava você. _sua respiração pesada estava em meu rosto.
_Não faça isso Júlio. Você é o alfa, tem responsabilidades com seu povo. Vai arruinar a melhor oportunidade de a Pura escolher um lobisomem. Você não quer fazer isso. _ ele puxou o ar pelo nariz e fechou os olhos como se saboreasse meu cheiro.
_Tudo que eu quero agora é estar dentro de você._ apertei meus olhos esperando o inevitável, mas um barulho surdo me fez abri-los novamente.
_Uma ova que você vai. _Milagrosamente Sebastian estava dentro da cabana puxando o corpo de Júlio como se fosse um boneco de pano, deu-lhe uma joelhada no abdômen e o jogou contra a outra parede. O telhado de palha tremeu como se fosse cair com o impacto. O Homem enorme que me aterrorizava estava agora se contorcendo no chão. Na fraca luz que agora entrava pela porta eu vi o sangue escuro espirrando por sua boca.
_Helene, você está bem?_ Sebastian segurou meu rosto e olhou por todo meu corpo procurando por ferimentos.
_Eu estou bem, mas como chegou tão rápido?_ um misto de confusão, medo e extrema felicidade, me invadiram.
_Eu estava perto, sempre. _ Belo traje para um sequestro. _ ele observou sarcástico.
_Eu não tive tempo de me trocar, mas você... Você estava com Katherine na França. _minha mente não acreditava no que meus olhos viam._ Você ficou lá, com ela._ uma ponta de ressentimento escapou em minha voz.
_Não acho que seja hora de ter ciúmes, querida. Você me chamou e estou aqui._ ele estava divertido e mesmo naquela situação aquilo me irritou.
­­_Você tem que ir embora, tem muitos deles Sebastian, muitos deles.
_Vamos embora em um minuto._ ele se virou para Júlio que se levantava e se recuperava do impacto.
_Você é o vampiro._ Júlio estava surpreso e quase maravilhado por ver Sebastian.
_Que bom que já me conhece, assim podemos dispensar as apresentações. Vim buscar Helene e não quero ter que machucar ninguém.
_Machucar?_ Júlio bufou_ Quem tem que se preocupar em se machucar aqui é você vampiro. Não vai levar a Pura a lugar nenhum. _ os olhos ferozes estavam em mim de novo. Meu corpo tremeu com medo.
_Quem vai me impedir, você e mais quantos?_ Sebastian desafiou.
_Eu e mais vinte e cinco, se não contar o Rafael que está muito rebelde nesse momento._ ele sorriu sorrateiramente e se transformou em uma besta bem na nossa frente em menos de um segundo. Sebastian me protegeu ainda mais com seu corpo enquanto o lobisomem uivava tão alto que meu ouvido doeu. Ele estava chamando os outros lobos eu sabia disso.
_A conversa está boa, mas é melhor agente ir agora._ Sebastian e me pegou nos braços e passou como um vento pela porta da cabana.
Não fomos muito longe, estávamos cercados de monstros enormes bem antes de sairmos da clareira. Sebastian me colocou no chão com cuidado, medindo cada movimento e observando cada um dos lobisomens que nos rodeavam rosnando e furiosos. Eles se aproximavam lentamente. Seus olhos estavam queimando em mim, tarde demais para evitar o pior. Todas aquelas feras tinham apenas um objetivo agora, me pegar. Mas eles hesitavam olhando para Sebastian. Imaginei que eles também reconheciam o que ele era, assim como Júlio e sentiam-se intimidados. Porém eles eram muitos e Sebastian era apenas um. Eu tinha visto que ele era muito forte já que abateu Júlio com tanta facilidade, mas mesmo se ele vencesse àquela briga, não seria antes que algum deles aproveitasse sua distração e me pegasse.
_Temos que sair daqui, não posso lutar e te proteger ao mesmo tempo._ Sebastian sussurrou para mim, confirmando o que eu tinha pensado. Um dos lobisomens se aproximou mais. Eu me assustei com sua ousadia, mas logo reconheci que era Rafa. Ele veio em nossa direção, mas logo assumiu a postura de me defender, se virando para enfrentar os outros. _Ah! O mocinho resolveu aparecer._ Sebastian também o reconheceu. Os outros ainda nos observavam e rosnavam, mas vi nos olhos flamejantes deles que a fúria crescia e não iam tardar muito até atacarem. Um lobisomem ainda maior surgiu entre eles e não tive dúvida que se tratava do grande macho alfa. Júlio caminhava entre os outros que não lhe davam nenhuma atenção. Como eu temia.
_Rafa, Sebastian isso não tem como ficar pior, vocês vão morrer se tentarem me defender, me entregue e vão embora, serei só eu e não nós três. _ eu pedi. A coisa que eu mais temia naquele momento era ver os dois caírem mortos aos meus pés.
_O que fizeram com você aqui além de acabarem com a proteção que eu arrumei para você? Tiraram seu juízo também?_ Sebastian atirou mal humorado.
Com um rugido feroz um dos lobisomens se atirou sobre nós. No mesmo instante os outros também tomaram a coragem. Em segundos tudo o que podia ver ao meu redor eram corpos enormes colidindo uns nos outros. Rafa mordia e dilacerava os outros em cenas de puro terror. Sebastian fazia movimentos rápidos, mas harmoniosos como em uma dança, e arrancava os membros dos monstros, lançando-os pelo ar. Ouvia gritos apavorados e levei algum tempo para perceber que eram meus. Todos os lobos vinham em minha direção e eram desviados de mim sempre no último segundo por um dos meus dois guerreiros protetores. Gritei ainda mais alto guando senti braços em volta da minha cintura me puxando com força.
_Calma, sou eu._ Victor me levou para fora do tumulto e me escondeu entre duas pedras. Os outros dois lhe davam cobertura lutando com os que tentavam nos seguir.
_Victor! _ fui capaz de dizer. Alivio transbordava em minha voz rouca pelos gritos.
_Desculpe a demora, eu estava dentro do avião quando ouvi seu chamado. Tive que esperar pousar e pegar outro de volta. Você está ferida?_ ele também me inspecionou detalhadamente.
_Eu estou bem, mas e eles? _ me virei para observar a briga e me dei conta que estava tremendo muito, porque a minha visão estavam distorcidas. A briga continuava ferrenha. Os sons de agonia se misturavam grunhidos de raiva. Não dava para saber exatamente o que estava acontecendo agora que estava longe, eu não distinguia mais Rafa em meio aos outros e não podia discernir se Sebastian estava vencendo ou perdendo as batalhas. _Eu não posso ficar aqui e deixar eles morrerem, eu não posso. _ comecei a chorar.
_Helene, escute, eu tenho que te levar para um lugar seguro. Eles vão ficar bem, agora precisamos aproveitar que temos vantagem para sairmos daqui._ Victor olhava em volta escolhendo a melhor direção a tomar.
_Não. _ eu gritei_ Não vou deixa-los morrer!_ puxei meu braço de sua mão e caminhei determinada, em direção ao confronto.
_Pare! O que está fazendo?_ Victor me pegou de volta.
_Me solta Victor. _  minha voz era diferente quando ordenei. Seus olhos se arregalaram de espanto e eu os fixei impondo minha vontade. Senti uma força desconhecida crescer no meu interior, como nunca imaginei que fosse capaz. Esse poder o fez recuar e vi seus olhos cederem quando finalmente baixou a cabeça respeitosamente e soltou meu braço sem questionar. Fique maravilhada com o poder que sentia em mim.  Caminhei com passos firmes, mas era como se não sentisse o chão sólido debaixo dos meus pés. Meus pés descalços só sentiam o deslizar da seda nos tornozelos, como se pisasse em plumas, ou flutuasse.

2 comentários:

  1. NOSSA QUE EMOCIONANTE ADOREI,,,MUITO LEGAL ,,,NAO DEMORE PRA ESCREVER O RESTANTE♥

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  2. Ei Patrícia!!!
    Obrigada!!!

    Já postei Cap 11, espero que continue gostando. Bjss

    http://livroapura.blogspot.com.br/2013/05/cap-11.html

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