Eu tinha
desistido de dormir e aproveitei a manhã para treinar parecer normal. Minha mãe
tirou folga no trabalho e ficou me observando o tempo todo. Eu arrumava um
pretexto para tocá-la periodicamente para saber se ela estava desconfiando de
alguma coisa, ou me achando estranha, mas ela parecia só estar preocupada com o
trauma que a morte dos amigos de Rafa poderiam ter me afetado.
Ajudei a
limpar a casa e sorria sempre que me lembrava de Victor fazendo isso de forma
tão original. Sentia falta dele. Precisei me esforçar para tirá-lo do
pensamento várias vezes. Depois de fazer o almoço e almoçar fingi assistir TV com mamãe. Na verdade eu estava louca para sair de casa, queria ir até o mar,
mas fiquei com receio de não resistir a treinar meus poderes nele, vendo o que
pude fazer com a água do chuveiro, imaginei o que faria no mar. Seria
fantástico! Mas não poderia ter ninguém olhando. Victor me preveniu a não
deixar ninguém saber o que eu era.
_Acho que vou
ver Rafa._ disse depois que nossa conversa banal sobre o assunto do programa de
TV.
_Sozinha?
Não, você não pode ir. A floresta está cheia de lobos. _ mamãe disse
preocupada. A notícia do “massacre” estava em todos os jornais locais e no
rádio, como eu previ, eles culparam os lobos.
_Mãe, Rafa
precisa do meu apoio._ eu pedi.
_Eu sei filha
e sinto muito por ele estar passando por isso, mas é muito perigoso a defesa
civil proibiu os passeios na floresta até que eles encontrem os animais que
estão atacando as pessoas tão ferozmente. Por favor, Helene me prometa que não
vai voltar lá até que seja seguro._ ela segurou minha mão e o desespero de uma mãe
temendo por sua filha me desarmou.
_Eu prometo
mãe. Só vou lá quando for seguro para mim._ frisei bem o “para mim”, sabia que
nenhum lobo me atacaria de novo, nem animal nenhum.
_Assim fico
mais tranquila._ ela sorriu e voltou assistir seu programa sobre saúde e
beleza.
Já que minha
mãe não estava disposta a colaborar tive que fazer do jeito mais difícil.
Esperei ela ir dormir para sair sorrateiramente pela noite. Polar a janela já
não era um problema antes, muito menos agora. Atravessei a praia e penetrei a
floresta. Conhecia bem o caminho, nesses momentos era muito bom ter uma memória
infalível. Me lembrava de cada árvore e cada pedra. Em poucos minutos estava na
clareira e avistei as primeiras casas. A duas noites atrás eu não podia imaginar
que viria a esse lugar por vontade própria. O sentimento desagradável que senti
naquele dia voltou com força, mas eu tinha que encontrar Rafa. Parei perto da
primeira casa e tentei ouvir algum som que indicasse a presença de alguém, mas
o silêncio imperava. Olhei em volta e parecia não haver ninguém por perto. Um
cãozinho “vira lata” marrom veio me saudar abanando o rabo e me olhando com
ternura. “Olá amiguinho! Você sabe onde Rafa está?” Perguntei para ele em
pensamento. Estava quase me sentindo uma louca por ter feito isso quando uma
imagem clara de Rafa surgiu na mente do animal. Eu pude vê-lo rodeado por
várias pessoas perto de uma grande
fogueira. Julio também estava lá, mas algo na expressão dele me fez sentir
pena. O Homem poderoso que eu havia conhecido, estava desmoronado agora. “leve-me até ele” pedi e o cão correu, eu o segui rapidamente. Atravessamos a vila
e chegamos em uma espécie de praça. Haviam muito mais casas ali do que eu tinha
pensado. Vi o fogo tremulando e o agrupamento de pessoas. O cão não se deteve
como eu, ele foi direto até Rafa e latiu a seus pés impaciente. Rafa estranhou
sua atitude por um segundo, mas estranhamente, entendeu em seguida e olhou em
minha direção. Eu estava distante, mas ele me reconheceu imediatamente. Senti
um nó na garganta quando vi seu rosto tão familiar e tão bonito. Quis correr
para os seus braços e sentir seu calor e sua proteção que tantas vezes me
fizeram felizes, que tantas vezes foram o único conforto que tive. Meu porto
seguro, meu amigo, meu amor. Mas eu não podia simplesmente toma-lo para mim
naquele momento. Eu não tinha mais nenhum direito sobre ele.
Rafa caminhou
lentamente em minha direção. A cada passo meu coração batia mais forte.
E se
ele estivesse com raiva de mim? Agora que a ficha caiu ele deve ter visto que
fui a culpada pela tragédia no povo dele. Seu rosto estava composto e firme,
não indicava nada, mas fiquei contente por ver que ele parecia forte e seguro,
como eu sempre o conheci. Tive medo de encontra-lo abalado e deprimido.
_Helene._ ele
disse simplesmente quando parou diante de mim.
_Rafa, eu..._
ia explicar minha presença, que por um segundo pareceu estúpida e intrusa, mas
ele me interrompeu com o que eu mais desejava dele. O abraço mais acolhedor que
existia na face da Terra.
_Ah Helene,
que bom ver você._ ele sussurrou no meu ouvido e todo meu medo foi embora.
_Eu vim por
você Rafa, queria te apoiar e ajudar de alguma forma, mas quando te vi percebi
que era eu é quem precisava de você... Tanto. Eu... Senti tanto a sua falta._
meus olhos logo estavam transbordando. Tinha acontecido tanta coisa, tudo tinha
mudado. Eu tinha mudado, mas nos braços e Rafa eu voltava a ser apenas uma
menina frágil e dependente de sua proteção.
Ficamos ali abraçados não sei por quanto tempo, a chuva começou a cair lentamente, senti seus pingos suaves lavarem as lágrimas do meu rosto. Eu não me importava em me molhar, a chuva também fazia parte de mim, assim como eu dela. Os sentimentos de Rafa se misturavam aos meus, suas lembranças eram na maioria as minhas, mas do ponto de vista dele. Em seus olhos eu parecia mais bonita e encantadora. E ele se lembrava de cada detalhe, cada palavra minha e cada expressão do meu rosto. Rafa adorava o tom da minha voz. Lembrei-me de toda as vezes que ele me incitava a contar uma história de um livro qualquer que eu tinha lido. Eu achava que ele tinha preguiça de ler, mas agora descobria que era só para me ouvir falar por horas e horas. O amor que Rafa tinha por mim era tão puro quanto sua alma. Eu tinha sido sua vida. Tudo que ele viveu tinha sido ao meu redor. Sofri ainda mais quando vi a lembrança de nossa despedida forçada por sua transformação. A visão de mim mesma apavorada com as roupas rasgadas me encolhendo no canto daquela pedra era o maior trauma da vida de Rafa.
_Não Rafa, não pense assim._ falei de repente me afastando do seu abraço para olhá-lo. Ele ficou confuso. Não sabia do meu novo dom_ Não pense que um erro pode apagar tudo de maravilhoso que você foi para mim. Todos os momentos bons que vivemos. Eu também me lembro de tudo e agora que vi como você via eu entendo ainda mais. Ah Rafa! Eu te amo tanto. _eu voltei a abraça-lo. Seu coração retumbava no peito. Seus sentimentos subiram as aturas. Ele estava feliz, mas minhas palavras também doíam em seu peito. Ele sabia que eu não estava ali para escolhe-lo, ele temia mais uma despedida. Nesse momento eu percebi que ele estava certo. Eu estava errando de novo, eu estava sendo egoísta, iria faze-lo sofrer ainda mais.
Ficamos ali abraçados não sei por quanto tempo, a chuva começou a cair lentamente, senti seus pingos suaves lavarem as lágrimas do meu rosto. Eu não me importava em me molhar, a chuva também fazia parte de mim, assim como eu dela. Os sentimentos de Rafa se misturavam aos meus, suas lembranças eram na maioria as minhas, mas do ponto de vista dele. Em seus olhos eu parecia mais bonita e encantadora. E ele se lembrava de cada detalhe, cada palavra minha e cada expressão do meu rosto. Rafa adorava o tom da minha voz. Lembrei-me de toda as vezes que ele me incitava a contar uma história de um livro qualquer que eu tinha lido. Eu achava que ele tinha preguiça de ler, mas agora descobria que era só para me ouvir falar por horas e horas. O amor que Rafa tinha por mim era tão puro quanto sua alma. Eu tinha sido sua vida. Tudo que ele viveu tinha sido ao meu redor. Sofri ainda mais quando vi a lembrança de nossa despedida forçada por sua transformação. A visão de mim mesma apavorada com as roupas rasgadas me encolhendo no canto daquela pedra era o maior trauma da vida de Rafa.
_Não Rafa, não pense assim._ falei de repente me afastando do seu abraço para olhá-lo. Ele ficou confuso. Não sabia do meu novo dom_ Não pense que um erro pode apagar tudo de maravilhoso que você foi para mim. Todos os momentos bons que vivemos. Eu também me lembro de tudo e agora que vi como você via eu entendo ainda mais. Ah Rafa! Eu te amo tanto. _eu voltei a abraça-lo. Seu coração retumbava no peito. Seus sentimentos subiram as aturas. Ele estava feliz, mas minhas palavras também doíam em seu peito. Ele sabia que eu não estava ali para escolhe-lo, ele temia mais uma despedida. Nesse momento eu percebi que ele estava certo. Eu estava errando de novo, eu estava sendo egoísta, iria faze-lo sofrer ainda mais.
_Eu te amo
Helene._ ele disse, seus sentimentos em perfeita sincronia com suas palavras.
Ele não disse “também”, percebi que ele sabia da diferença do meu amor do dele.
_Sinto muito.
Por tudo isso._ olhei seus olhos que estavam calmos e compreensivos.
_Você tem
dito muito isso ultimamente não tem?_ ele sorriu.
_Sim, eu
tenho. Tenho feito muita coisa que não me orgulho. Feito pessoas que eu amo
sofrerem. Por mais que eu tente evitar isso, é exatamente isso que eu faço. _ falei
desanimada.
_Você é uma
tolinha mesmo. Vê tudo e se lembra de tudo, mas não entende nada._ ele secou
meus olhos_ Veja, está fazendo chover com seu chorinho manhoso._ olhei a chuva
fina e percebi que era verdade. A chuva era por causa das minhas lágrimas.
Parei de chorar e a chuva parou na mesma hora_ Viu? Você não pode se culpar
pelo efeito que provoca ao seu redor Helene, isso é parte do que você é. Você é
um milagre. Sou feliz só por ter conhecido você, não sofro, apenas te desejo
mais do que respirar. _Rafa me levantou do chão com seu abraço forte e me
beijou ternamente nos lábios_ Não me contenho de felicidade agora, viu?_ ele
sorriu maroto e vi o que ele dizia. Deixei-me inundar com aquela felicidade tão
genuína.
_Eu
interrompi sua reunião. _ falei quando senti que a atenção de Rafa voltava para
as pessoas que nos observava a distancia.
_Júlio está
renunciando a liderança da matilha a meu favor.
_Você é o
alfa agora?
_Ainda não.
Estou tentando convencê-lo a não fazer isso. Sou seu sucessor natural, mas ele
ainda tem muitos anos antes de passar essa responsabilidade para mim. Eu ainda
sou muito jovem e inexperiente, não estou pronto.
_Ele se sente
culpado pelo que aconteceu, não é?
_Sim, mas ele
pode se recuperar disso, só precisa de algum tempo._ Rafa não tinha nenhuma
mágoa de seu líder. Claro que rafa podia entender as razões de Júlio, ele também
sentiu na pele a culpa por não ter resistido e ainda amargava a culpa pelas
consequências disso, mas mesmo assim senti orgulho dele por ser tão
compreensivo.
_Acho que ele
não pode Rafa._ busquei seus olhos e os observei enquanto a compreensão chegava
neles_ Foram muitas perdas.
_É você tem
razão, ninguém se recupera de uma coisa assim.
_Você vai ser
um ótimo líder._ disse mesmo sem saber exatamente o que um Lobisomem alfa tinha
que fazer. Não importava, Rafa era o melhor entre eles, por isso era um
candidato da Pura. Ele seria o melhor alfa também.
_Ouvindo isso
de você fica mais fácil de acreditar._ ele abriu mais seu sorriso e vi nele a
esperança de que tudo seria melhor a partir daquela hora.
_Preciso ir
agora. Já me meti na vida de seu povo por um século.
_Você está
bem? Digo com toda essa sua mudança, eu estive preocupado, nossa anciã tem
estado muito ocupada consolando as mães que perderam seus filhos na batalha,
mas eu consegui alguns minutos com ela e perguntei sobre você, ela disse que
seus poderes são inimagináveis agora que é adulta e que pode ser muito
perigoso se os humanos descobrirem sobre você. Fiquei preocupado Helene.
Precisa tomar cuidado.
_Eu estou
bem, não se preocupe. Vou ser cuidadosa. Ninguém vai saber de nada.
_Sabe que
estarei sempre a sua espera._ ele beijou as costas da minha mão carinhosamente.
_Eu sei, mas
acho melhor ficar distante agora._ meu peito se apertou_ Você sabe, ainda não
desisti de ter uma vida humana normal._ aquilo pareceu mais uma piada saindo de
minha boca de elfo mestiça. Rafa também percebeu a graça e riu.
_Boa sorte e
tenha muito cuidado. Se precisar de mim, não hesite a me procurar.
_Obrigada
Rafa, é muito importante para mim ver que você está bem e que não está zangado
comigo._ ele gargalhou mais.
_Quem poderia
ficar zangado com você sua boba?_ Eu ri junto com ele.
_Até logo._
disse incapaz de dar uma despedida mais definitiva e fui embora sem olhar para
trás.
_Tchau._ ouvi
sua voz murmurando atrás de mim. A chuva fina voltou a cair e vi que estava
chorando de novo.
Quando
cheguei de frente para o mar o pranto, assim como a chuva, escorria
intensamente pelo meu rosto. Agachei-me na areia e abracei meus joelhos com
força. Sentia-me sozinha. Levantei-me e me rendi ao mar. Mergulhei
completamente em suas ondas constantes. Era maravilhoso! As águas que me
circulavam me acariciavam com carinho e me conduziam em uma dança harmoniosa.
Impulsionei-me para mais fundo e viajei pela calma e a paz do fundo do mar.
Poderia ficar lá por horas até precisar ir a superfície para respirar. Os
peixes vinham nadar ao meu lado. Aquele era meu mundo agora. Pensei em ficar lá
para sempre. Habitar naquela calma e beleza sem fim. A tristeza se dissipou do
meu peito completamente. Aquela imensidão era compatível com a minha imensidão
interior e parecia que tudo fazia sentido em fim. Comecei a me soltar, criar
saltos sobre a água e logo estava igual a uma baleia orca fazendo um show em algum
parque temático dos EUA.
Em meio um desses saltos olhei a praia e vi uma
pessoa parada me olhando. Eu estava muito longe da costa e não conseguia saber
quem era. Arrependi-me da minha exibição descuidada e nadei rapidamente em
direção a praia para tentar saber o que aquela pessoa viu e se eu teria que
“remediar” as coisas.
_Parece muito
divertido _ a voz feminina era doce como de uma dubladora de mocinha de cinema.
Cheguei mais perto tentando reconhecer seu rosto. Ela era jovem e tinha a minha
altura, seus olhos verdes esmeralda e os cabelos avermelhados, seu sorriso
amigável e o olhar inteligente eram muito familiares, mas certamente eu não a
conhecia, ela se parecia muito com alguém.
_Eu estava
nadando um pouco._ eu disse quando alcancei a areia e saí do mar que se acamou
às minhas costas me permitindo sair sem interrupção.
_ Ow! E como
você nada bem!_ ela disse sorrindo, mas sem a surpresa que eu esperava
encontrar.
_Eu não
conheço você, é moradora nova ou turista?_ eu disse tentando ser simpática, mas
falhando miseravelmente.
_Ah, me
desculpe, eu já conheço você tanto que esqueci que você não me conhece, sou
Victória._ ela me ofereceu a mão com um olhar muito significativo.
_Victória?_
eu disse sem pegar a mão dela_ Quer disser... Victor...
_Sim. Sua
irmã gêmea._ ela puxou sua mão rejeitada de volta para o lado do seu corpo_ eu
pretendia economizar as palavras._ seu sorriso calmo nunca abandonando seu
rosto lúcido.
_Irmã gêmea?
Victor nunca disse que tinha uma irmã, muito menos que era gêmea. _ eu estava visivelmente
confusa.
_Meu irmão
não costuma falar muito dele mesmo, você não percebeu? Eu sempre digo a ele que
modéstia demais também atrapalha.
_Ele está
bem?_ uma súbita preocupação com o motivo da presença de sua irmã aqui me gelou
o coração.
_Sim, ele
está bem, não se preocupe. _seu olhar me sondava atentamente. Esperei por mais
detalhes, mas ela só ficou lá sorrindo para mim.
_Então você
sabe sobre mim._ concluí.
_Sei muito
mais do que você pode imaginar._ ela gargalhou_ podemos entrar um pouco? Estou
sentindo um pouco de frio aqui.
_Claro!
Desculpe minha falta de jeito. Tenho estado meio no ar ultimamente._
justifiquei. Era noite alta e os ventos que vinham do mar poderiam ser muito
frios a essa hora, mas eu nunca sentia esse tipo de coisa.
Victória me
seguiu para casa me observando em cada movimento. Era desconfortável manter a
velocidade humana, mais ainda com olhar de alguém grudado em mim. Esforcei-me para
ignorar isso e entrei em casa convidando-a em seguida. Eu não estava molhada,
tinha comandado cada gota de água para fora de meu corpo, mas ainda sentia o
sal incomodando minha pele.
_Você pode
esperar um momento até que eu tome um banho? Só levarei um instante.
_Vá em
frente, eu lhe espero aqui.
_Ok, fique à
vontade, eu já volto._ entrei no meu quarto ainda escutando quando a garota
sentou-se no sofá da sala. Será que as surpresas nunca acabariam nessa minha
vida? Irmã de Victor? Quem diria? E o que ela queria comigo?
Tomei o banho
mais rápido do mundo, não precisava parecer normal já que não estava sendo
olhada. Além do mais a garota parecia saber mais do que eu sobre tudo que
acontecia comigo.
Voltei para a
sala e a garota não estava mais sentada, ela estava no outro canto da sala com
um porta-retratos meu na mão. Na foto estavam eu, Rafa e minha mãe. Nossos
rostos estavam juntos e todos bronzeados com o Sol da praia. Foi num dos muitos
domingos que passamos juntos quando a praia estava deserta com a baixa
temporada.
_Esses devem
ser Rafael e sua mãe Claudia._ ela acertou.
_Sim. Como
sabe dessas coisas? Victor te contou?
_Algumas
coisas sim._ ele estava sendo evasiva.
_Quer comer
alguma coisa?_ resolvi cuidar melhor da hospitalidade agora, e se ela fosse
como seu irmão estaria com fome, sempre com fome. A doce lembrança de Victor na
minha cozinha me fez sorrir.
_Gostaria
sim, se não for incomodar._ seus olhos brilharam e vi que tinha razão. Eles
eram iguais nisso também.
_Então, desde
quando está aqui?_ perguntei furtivamente enquanto mexia os ovos na frigideira.
_Ha algumas semanas,
eu vim com Victor._ ela observava a comida com ansiedade.
_ E porque
não veio me conhecer antes?_ tentei uma conversa leve. Normal.
_Eu não podia
interferir._ me virei involuntariamente para olha-la, ela me devolveu o sorriso
de sempre. Aquilo estava longe de ser normal.
_ Porque você
não quis me tocar Helene? _ seu assunto mudou tão de repente que eu demorei a
acompanhar.
_Ah, isso..._
Eu pensei por um instante _ Ainda não sei lidar com as coisas que vejo quando
toco nas pessoas.
_ Entendo. _
ela disse refletindo._ Mas de qualquer forma eu só deixaria você ver o que eu
quisesse. Nos economizaria tempo.
_Como assim?
_Bom, digamos
que eu tenho muito controle sobre minha mente._ ela disse com um sorriso
conspirador. Claro, ela era uma extra-humana e se fosse tão cheia de poderes
como Victor, claro que ela teria o controle de sua mente.
_Eu prefiro a
forma convencional, de qualquer jeito._ ergui os ombros_ Você também lê mentes
e cura as pessoas?_ eu perguntei num impulso.
_ Eu posso
ouvir pensamentos, mas não tenho o dom da cura que meu irmão tem, esse é um dom
muito raro e não tive o privilégio._ ela olhou para as mãos por um momento _
Mas eu fui compensada com outro dom que Victor não tem, eu posso rastrear
pessoas. Basta que eu a conheça ou tenha algo delas em minhas mãos e eu posso
dizer onde elas estão.
_Isso é muito
legal!_ eu disse surpresa_ ninguém pode se esconder de você então, seria muito
útil na polícia._ eu brinquei.
_ Foi isso
que eu disse ao meu pai, mas ele não me deixou nem chegar perto da carreira policial.
_ seu sorriso se iluminou com a lembrança.
Servi os ovos
mexidos com molho de tomate, queijo e orégano para ela que comeu com clara
satisfação sem parar para dizer nada. Aproveitei que ela finalmente tirou seus
olhos de mim e a observei. Ela era a versão feminina de Victor. Linda, pele
perfeita num tom rosado e olhos verdes brilhantes. Seus cabelos castanhos
claros avermelhados pendendo levemente pelos ombros com um corte natural, mas
moderno, assim como o estilo de suas roupas que pareciam de marca. Os tecidos
eram finos, mas nada extravagante. Tudo se alinhava perfeitamente nela. Uma
segunda pele cor creme de gola redonda e calças legue preta que contornava sua
silhueta alongada, e um lenço floral pendendo pelo seu colo que quebrava a
neutralidade. Ela era alta, mas incrivelmente delicada. Seus movimentos eram
todos leves, harmoniosos. Era uma presença muito agradável. Imaginei que os
homens ficariam loucos por ela.
Fui flagrada
em minha análise quando ela terminou e apoiou seus cotovelos na mesa e seu
queixo delicado sobre os punhos e fixou seus olhos nos meus.
_Sei que você
vai me encher de perguntas, mas gostaria que respondesse apenas uma para mim
primeiro._ ela disse deixando escapar uma ponta de ansiedade em sua voz.
_Ok.
_Por que você
não escolheu?_ a ansiedade estava muito mais evidente agora. Essa era a
pergunta de um milhão de dólares afinal. Esse era o ponto que mudava tudo. Foi
isso que criou tantos problemas. E provavelmente era por isso que ela estava
aqui.
_Eu não
pude._ comecei com o que eu tinha de mais concreto. Apoiei-me no encosto da cadeira como se pudesse me afastar de seu
olhar intenso _ eu amo os três. _ suspirei. Isso não explicava muito, vi no
rosto de Victória que ela estava longe de estar satisfeita com minha resposta.
Ela esperou por mais_ Eles são diferentes, e os amo de forma diferente também,
mas nenhum menos ou mais do que os outros. _ ela continuou esperando por mais,
com certeza eu não tinha chegado ao ponto_ Entenda é mais do que atração física...
eu realmente os amo. Não poderia escolher um e com isso dizer aos outros que
eles não foram bons o bastante. Eu não posso fazer um feliz e deixar os outros
dois magoados._ desabafei como nunca tinha feito nem para mim mesma. A
expressão no rosto de Victória se clareou e ela parecia entender finalmente.
_Você teme
magoar aqueles que você ama. Está se sacrificando por isso._ ela disse mais
para ela mesma.
_Não estou me
sacrificando._ falei apressada_ Eu também quero ter uma vida normal. Quero
viver as coisas que todo mundo vive e eu nunca pude. Quero estudar, ter amigos,
trabalhar... até namorar alguém sem ter um fardo de uma profecia nas costas._
me levantei incapaz de continuar sendo encarada por Victória.
_Entendo._
ela disse simplesmente e voltei a olha-la. Era difícil saber se ela entendia,
acreditava ou estava simplesmente deixando o assunto de lado. Seu sorriso
novamente não entregava nada. _ estou pronta, pode me encher de perguntas
agora._ suas palavras mudaram o clima totalmente. Tornando-o mais leve de
repente.
_Não quero
ser rude, mas por que você está aqui?_ sentei-me em sua frente de novo, mais
animada._ ela deu uma gargalhada doce de uma criança em um balanço de parque.
_Você não
seria rude, nem se tentasse._ ela se recuperava de seu riso_ eu viria
conhecê-la de qualquer forma, mas o concelho me mandou.
_O concelho?
Que concelho?
_Sobre o que
você e Victor conversavam?_ ele franziu levemente a sobrancelha. Seu rosto
incrivelmente jovem ganhando uma seriedade madura por um momento.
_Basicamente,
sobre eu não querer ser a Pura._ sorri significativamente para ela. Sua
gargalhadinha de menina voltando.
_Sim, sim.
Imagino. Então, o nós temos um concelho formado por indivíduos de todas as
raças da Terra, você sabe, as sub-raças humanas. O concelho serve para criar e
fazer valer as leis que protegem cada uma dessas raças. Eu faço parte do
concelho. Sou mais uma cientista do que uma política, mas como sou quem mais
sabe sobre a Pura me ofereci para vir até você e lhe apresentar as leis.
_Eu tenho que
seguir as leis desse concelho?
_Oh sim! _
ela ficou alarmada_ Entenda Helene você tem poderes que podem ser muito
perigosos se for usado levianamente. As outras Puras, quando escolhiam seus
parceiros, eram incorporadas automaticamente no esquema por eles mesmos, mas no
seu caso é diferente, estamos nos reunindo constantemente para decidirmos o que
fazer com relação a isso e a primeira decisão foi de que você precisava de uma
tutora e aqui estou. Sabemos que teremos que fazer algumas adequações nas leis
para você, mas ainda não temos nada decidido. Tenho que me reportar ao concelho
diariamente para atualizá-los sobre seus progressos na adaptação a nova vida e
as suas necessidades.
_Está me
dizendo que tenho um conselho cheio de estranhos decidindo sobre a minha vida
nesse exato momento?_ minha voz subiu uma oitava.
_Helene, não
é assim, estamos todos procurando nos adaptar, a situação das sub-raças é
delicada, se não fosse por nossa organização não existiríamos mais...
_E se eu não
quiser suas regras?_ esbravejei interrompendo o que ela dizia.
_Por favor,
Helene, me perdoe! _ ela segurou minhas mãos e se inclinou na minha frente com submissão quase se ajoelhando. Sua reação foi tão inesperada que dissipou minha
irritação na mesma hora. Logo as imagens de suas memórias vieram em minha mente.
Homens e mulheres cochichando com as expressões preocupadas. Um Homem enorme
presidia a reunião e batia um pequeno martelo de juiz em um púlpito, pedindo
ordem ,mas era em vão, ninguém parecia ouvi-lo. As vozes ficavam cada vez mas exaltadas, eu
podia ouvir alguém perguntar ao meu lado se seria o fim para eles, para o
mundo...
Soltei a mão
de Victoria e me afastei dela assombrada.
_Eu não quero
fazer mal a ninguém_ eu disse a encarando já do outro lado da cozinha, sem me
lembrar de ter ido até lá.
_Estão todos
com muito medo. Entenda, isso nunca aconteceu antes, a Pura é sagrada, quero
dizer, você é quase uma divindade e não podemos controlá-la, nem se quiséssemos _ ela balançou a
cabeça rindo de suas próprias palavras_ claro que não podemos controlá-la, é
você que pode controlar quase tudo, ou tudo, não sabemos. O fato é que sua mudança de rumo deixou a
sociedade sobrenatural alarmada. Os humanos já são a maioria esmagadora no mundo e sua
crueldade e desrespeito tem sido uma ameaça real para nós há séculos. Veja a
extinção dos vampiros, por exemplo, todos temem que aconteçam o mesmo com os
outros.
_Os vampiros
não estão extintos._ eu atirei me lembrando subitamente de Sebastian e sendo
atingida pela amargura de vê-lo partir _ Pelo menos, não completamente._ conclui
tristemente._ Victoria me observou calada. Eu engoli duramente_ Mas eu entendo
o que você quer dizer. Sobre tudo em fim._ lutei para fazer minha voz parecer
plana, mas estava sufocada com a sua afirmação da extinção da raça de
Sebastian. Eu não conheci outros vampiros, mas podia dizer que o que eu conheci
não merecia ser extinto do planeta. Sequei uma lágrima que quase escapou dos
meus olhos.
_Eu não
consegui dizer antes, as leis são para nos proteger dos humanos, por isso
seríamos eternamente gratos se você as conhecessem e as observassem. Claro que
como eu disse, terá situações em que você vai precisar excedê-las para sua
sobrevivência.
_Claro. Eu
não quero prejudicar ninguém, eu só achei estranho ter estranhos decidindo os
meus passos. Mas entendi agora a preocupação de vocês. _ minha voz estava morta
e me senti cansada de repente. Não queria pensar mais sobre aquilo naquele
momento.
_Posso ficar
aqui?_ Victória deu seu melhor sorriso maroto.
_Claro.
_Respondi confusa. Tinha certeza que se ela estava aqui há algumas semanas
deveria estar hospedada em algum hotel, então porque ela queria ficar em minha
casa?
Minha casa
era pequena e tinha apenas dois quartos, o meu e o de minha mãe que já estava
dormindo a horas. Eu ofereci meu quarto, mas ela pareceu quase ofendida quando
eu o fiz, então não insisti. Era constrangedor colocar aquela boneca de
porcelana gigante para dormir em um colchonete na sala, mas ela não parecia se
incomodar.
_Boa noite!_
eu disse depois de me certificar que ela não precisava de mais nada. Ela tinha
trazido uma pequena maleta com todos os objetos pessoais que se necessitava
para passar uma noite fora, então só lhe forneci a roupa de cama e o colchão.
_Boa noite! _
ela respondeu contente enquanto se virava no travesseiro.
Entrei no meu
quarto e fechei a porta, me demorando um instante, encostada nela. “Uma
divindade” ela havia dito. Como eu disse as novidades ficavam cada vez
melhores. Bufei com o pensamento e tentei limpá-lo por pelo menos essa noite.
Já era madrugada e um pouco de sono me faria bem.
Nem de longe
aquilo era o tipo de sono que eu esperava. Meu corpo dormiu tranquilamente nos
meus lençóis, mas a inconsciência que eu tanto almejava era um luxo que eu não
teria mais. Tive essa certeza no momento em que dormi e me vi pairando pelo quarto
plenamente alerta e vendo claro como o dia meu corpo deitado em minha cama.
Constatei com pesar que nunca mais poderia fugir dos meus problemas mergulhando
em uma boa noite de sono.
Rondei,
flutuando pela casa como um espectro. Vi Victória dormindo como um bebê e isso
me deu alguma tranquilidade. Eu gostava dela. Não sabia se era pela sua
semelhança com Victor ou por sua áurea leve e amiga. Com certeza era pelas duas
coisas.
O dia
amanheceu logo e me peguei em dúvida de como voltaria para meu corpo e como
saberia se ele já estava descansado o bastante. Eu não o sentia de nenhuma
forma. Cheguei a ter medo de estar morta, mas eu o via respirar normalmente na
minha cama, então me prostrei ao seu lado e esperei.
Um barulho na
cozinha chamou minha atenção, mas no mesmo instante em que eu estava olhando
para a porta, estava de volta no meu corpo que despertava sonolento. Estiquei
minhas pernas para perceber que elas estavam com as forças renovadas, me
agarrei ao travesseiro absorvendo o prazer perdido daquele conforto sonolento.
Senti o sono me expulsando do corpo novamente e me forcei para voltar. Era
frustrante. Toda a conversa da noite anterior com Victória estava viva e
revivida na minha mente e os sentimentos que a menção dos vampiros que me
lembrou de Sebastian também. Cada célula do meu corpo relembrava dele, seu
cheiro seu calor, seu toque, seus lábios... o temido calor começou a vir para a
borda e eu me levantei rapidamente me abanando. Andei pelo quarto tentando me
recompor. Fui até o banheiro e me joguei no chuveiro. Quantos banhos a mais eu
tomaria em minha vida a partir de agora? Perguntei enquanto sentia a água fria
abrandando a temperatura da minha pele, mas fazendo pouco pelo meu interior. Já
era difícil sem pensar em Sebastian, ficava impossível me controlar com ele
tatuado na minha mente.
Desisti do
banho e saí para a cozinha, eu me distrairia com minha nova convidada. Ela já
estava de pé na cozinha. Tinha um cheiro de coisas queimando e fumaça por todo
lugar.
nao sei oque dizer desse capitulo,,,,,,,,me deixou confusa,,,seus poderes me pegaram de surpresa,,,,ela ter deixado os tres ,,,estou pensando a respeito,,,,,,mas eu gostei tira um pouco o drama de quem eu fico,,,continue assim ESTA MUITO BOM♥
ResponderExcluirOi Patricia! Estou de volta. Pretendo escrever mais um cap. e postar ainda essa semana. Espero que continue acompanhando, sua opinião é muito importante. Bjss
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