domingo, 5 de maio de 2013

Cap. 11



Eu tinha desistido de dormir e aproveitei a manhã para treinar parecer normal. Minha mãe tirou folga no trabalho e ficou me observando o tempo todo. Eu arrumava um pretexto para tocá-la periodicamente para saber se ela estava desconfiando de alguma coisa, ou me achando estranha, mas ela parecia só estar preocupada com o trauma que a morte dos amigos de Rafa poderiam ter me afetado.
Ajudei a limpar a casa e sorria sempre que me lembrava de Victor fazendo isso de forma tão original. Sentia falta dele. Precisei me esforçar para tirá-lo do pensamento várias vezes. Depois de fazer o almoço e almoçar fingi assistir TV com mamãe. Na verdade eu estava louca para sair de casa, queria ir até o mar, mas fiquei com receio de não resistir a treinar meus poderes nele, vendo o que pude fazer com a água do chuveiro, imaginei o que faria no mar. Seria fantástico! Mas não poderia ter ninguém olhando. Victor me preveniu a não deixar ninguém saber o que eu era.
_Acho que vou ver Rafa._ disse depois que nossa conversa banal sobre o assunto do programa de TV.
_Sozinha? Não, você não pode ir. A floresta está cheia de lobos. _ mamãe disse preocupada. A notícia do “massacre” estava em todos os jornais locais e no rádio, como eu previ, eles culparam os lobos.
_Mãe, Rafa precisa do meu apoio._ eu pedi.
_Eu sei filha e sinto muito por ele estar passando por isso, mas é muito perigoso a defesa civil proibiu os passeios na floresta até que eles encontrem os animais que estão atacando as pessoas tão ferozmente. Por favor, Helene me prometa que não vai voltar lá até que seja seguro._ ela segurou minha mão e o desespero de uma mãe temendo por sua filha me desarmou.
_Eu prometo mãe. Só vou lá quando for seguro para mim._ frisei bem o “para mim”, sabia que nenhum lobo me atacaria de novo, nem animal nenhum.
_Assim fico mais tranquila._ ela sorriu e voltou assistir seu programa sobre saúde e beleza.
Já que minha mãe não estava disposta a colaborar tive que fazer do jeito mais difícil. Esperei ela ir dormir para sair sorrateiramente pela noite. Polar a janela já não era um problema antes, muito menos agora. Atravessei a praia e penetrei a floresta. Conhecia bem o caminho, nesses momentos era muito bom ter uma memória infalível. Me lembrava de cada árvore e cada pedra. Em poucos minutos estava na clareira e avistei as primeiras casas. A duas noites atrás eu não podia imaginar que viria a esse lugar por vontade própria. O sentimento desagradável que senti naquele dia voltou com força, mas eu tinha que encontrar Rafa. Parei perto da primeira casa e tentei ouvir algum som que indicasse a presença de alguém, mas o silêncio imperava. Olhei em volta e parecia não haver ninguém por perto. Um cãozinho “vira lata” marrom veio me saudar abanando o rabo e me olhando com ternura. “Olá amiguinho! Você sabe onde Rafa está?” Perguntei para ele em pensamento. Estava quase me sentindo uma louca por ter feito isso quando uma imagem clara de Rafa surgiu na mente do animal. Eu pude vê-lo rodeado por várias pessoas  perto de uma grande fogueira. Julio também estava lá, mas algo na expressão dele me fez sentir pena. O Homem poderoso que eu havia conhecido, estava desmoronado agora. “leve-me até ele” pedi e o cão correu, eu o segui rapidamente. Atravessamos a vila e chegamos em uma espécie de praça. Haviam muito mais casas ali do que eu tinha pensado. Vi o fogo tremulando e o agrupamento de pessoas. O cão não se deteve como eu, ele foi direto até Rafa e latiu a seus pés impaciente. Rafa estranhou sua atitude por um segundo, mas estranhamente, entendeu em seguida e olhou em minha direção. Eu estava distante, mas ele me reconheceu imediatamente. Senti um nó na garganta quando vi seu rosto tão familiar e tão bonito. Quis correr para os seus braços e sentir seu calor e sua proteção que tantas vezes me fizeram felizes, que tantas vezes foram o único conforto que tive. Meu porto seguro, meu amigo, meu amor. Mas eu não podia simplesmente toma-lo para mim naquele momento. Eu não tinha mais nenhum direito sobre ele.
Rafa caminhou lentamente em minha direção. A cada passo meu coração batia mais forte. 

E se ele estivesse com raiva de mim? Agora que a ficha caiu ele deve ter visto que fui a culpada pela tragédia no povo dele. Seu rosto estava composto e firme, não indicava nada, mas fiquei contente por ver que ele parecia forte e seguro, como eu sempre o conheci. Tive medo de encontra-lo abalado e deprimido.
_Helene._ ele disse simplesmente quando parou diante de mim.
_Rafa, eu..._ ia explicar minha presença, que por um segundo pareceu estúpida e intrusa, mas ele me interrompeu com o que eu mais desejava dele. O abraço mais acolhedor que existia na face da Terra.
_Ah Helene, que bom ver você._ ele sussurrou no meu ouvido e todo meu medo foi embora.
_Eu vim por você Rafa, queria te apoiar e ajudar de alguma forma, mas quando te vi percebi que era eu é quem precisava de você... Tanto. Eu... Senti tanto a sua falta._ meus olhos logo estavam transbordando. Tinha acontecido tanta coisa, tudo tinha mudado. Eu tinha mudado, mas nos braços e Rafa eu voltava a ser apenas uma menina frágil e dependente de sua proteção.
 Ficamos ali abraçados não sei por quanto tempo, a chuva começou a cair lentamente, senti seus pingos suaves lavarem as lágrimas do meu rosto. Eu não me importava em me molhar, a chuva também fazia parte de mim, assim como eu dela. Os sentimentos de Rafa se misturavam aos meus, suas lembranças eram na maioria as minhas, mas do ponto de vista dele. Em seus olhos eu parecia mais bonita e encantadora. E ele se lembrava de cada detalhe, cada palavra minha e cada expressão do meu rosto. Rafa adorava o tom da minha voz. Lembrei-me de toda as vezes que ele me incitava a contar uma história de um livro qualquer que eu tinha lido. Eu achava que ele tinha preguiça de ler, mas agora descobria que era só para me ouvir falar por horas e horas. O amor que Rafa tinha por mim era tão puro quanto sua alma. Eu tinha sido sua vida. Tudo que ele viveu tinha sido ao meu redor. Sofri ainda mais quando vi a lembrança de nossa despedida forçada por sua transformação. A visão de mim mesma apavorada com as roupas rasgadas me encolhendo no canto daquela pedra era o maior trauma da vida de Rafa.
_Não Rafa, não pense assim._ falei de repente me afastando do seu abraço para olhá-lo. Ele ficou confuso. Não sabia do meu novo dom_ Não pense que um erro pode apagar tudo de maravilhoso que você foi para mim. Todos os momentos bons que vivemos. Eu também me lembro de tudo e agora que vi como você via eu entendo ainda mais. Ah Rafa! Eu te amo tanto. _eu voltei a abraça-lo. Seu coração retumbava no peito. Seus sentimentos subiram as aturas. Ele estava feliz, mas minhas palavras também doíam em seu peito. Ele sabia que eu não estava ali para escolhe-lo, ele temia mais uma despedida. Nesse momento eu percebi que ele estava certo. Eu estava errando de novo, eu estava sendo egoísta, iria faze-lo sofrer ainda mais.
_Eu te amo Helene._ ele disse, seus sentimentos em perfeita sincronia com suas palavras. Ele não disse “também”, percebi que ele sabia da diferença do meu amor do dele.
_Sinto muito. Por tudo isso._ olhei seus olhos que estavam calmos e compreensivos.
_Você tem dito muito isso ultimamente não tem?_ ele sorriu.
_Sim, eu tenho. Tenho feito muita coisa que não me orgulho. Feito pessoas que eu amo sofrerem. Por mais que eu tente evitar isso, é exatamente isso que eu faço. _ falei desanimada.
_Você é uma tolinha mesmo. Vê tudo e se lembra de tudo, mas não entende nada._ ele secou meus olhos_ Veja, está fazendo chover com seu chorinho manhoso._ olhei a chuva fina e percebi que era verdade. A chuva era por causa das minhas lágrimas. Parei de chorar e a chuva parou na mesma hora_ Viu? Você não pode se culpar pelo efeito que provoca ao seu redor Helene, isso é parte do que você é. Você é um milagre. Sou feliz só por ter conhecido você, não sofro, apenas te desejo mais do que respirar. _Rafa me levantou do chão com seu abraço forte e me beijou ternamente nos lábios_ Não me contenho de felicidade agora, viu?_ ele sorriu maroto e vi o que ele dizia. Deixei-me inundar com aquela felicidade tão genuína.

_Eu interrompi sua reunião. _ falei quando senti que a atenção de Rafa voltava para as pessoas que nos observava a distancia.
_Júlio está renunciando a liderança da matilha a meu favor.
_Você é o alfa agora?
_Ainda não. Estou tentando convencê-lo a não fazer isso. Sou seu sucessor natural, mas ele ainda tem muitos anos antes de passar essa responsabilidade para mim. Eu ainda sou muito jovem e inexperiente, não estou pronto.
_Ele se sente culpado pelo que aconteceu, não é?
_Sim, mas ele pode se recuperar disso, só precisa de algum tempo._ Rafa não tinha nenhuma mágoa de seu líder. Claro que rafa podia entender as razões de Júlio, ele também sentiu na pele a culpa por não ter resistido e ainda amargava a culpa pelas consequências disso, mas mesmo assim senti orgulho dele por ser tão compreensivo.
_Acho que ele não pode Rafa._ busquei seus olhos e os observei enquanto a compreensão chegava neles_ Foram muitas perdas.
_É você tem razão, ninguém se recupera de uma coisa assim.
_Você vai ser um ótimo líder._ disse mesmo sem saber exatamente o que um Lobisomem alfa tinha que fazer. Não importava, Rafa era o melhor entre eles, por isso era um candidato da Pura. Ele seria o melhor alfa também.
_Ouvindo isso de você fica mais fácil de acreditar._ ele abriu mais seu sorriso e vi nele a esperança de que tudo seria melhor a partir daquela hora.
_Preciso ir agora. Já me meti na vida de seu povo por um século.
_Você está bem? Digo com toda essa sua mudança, eu estive preocupado, nossa anciã tem estado muito ocupada consolando as mães que perderam seus filhos na batalha, mas eu consegui alguns minutos com ela e perguntei sobre você, ela disse que seus poderes são inimagináveis agora que é adulta e que pode ser muito perigoso se os humanos descobrirem sobre você. Fiquei preocupado Helene. Precisa tomar cuidado.
_Eu estou bem, não se preocupe. Vou ser cuidadosa. Ninguém vai saber de nada.
_Sabe que estarei sempre a sua espera._ ele beijou as costas da minha mão carinhosamente.
_Eu sei, mas acho melhor ficar distante agora._ meu peito se apertou_ Você sabe, ainda não desisti de ter uma vida humana normal._ aquilo pareceu mais uma piada saindo de minha boca de elfo mestiça. Rafa também percebeu a graça e riu.
_Boa sorte e tenha muito cuidado. Se precisar de mim, não hesite a me procurar.
_Obrigada Rafa, é muito importante para mim ver que você está bem e que não está zangado comigo._ ele gargalhou mais.
_Quem poderia ficar zangado com você sua boba?_ Eu ri junto com ele.
_Até logo._ disse incapaz de dar uma despedida mais definitiva e fui embora sem olhar para trás.
_Tchau._ ouvi sua voz murmurando atrás de mim. A chuva fina voltou a cair e vi que estava chorando de novo.
Quando cheguei de frente para o mar o pranto, assim como a chuva, escorria intensamente pelo meu rosto. Agachei-me na areia e abracei meus joelhos com força. Sentia-me sozinha. Levantei-me e me rendi ao mar. Mergulhei completamente em suas ondas constantes. Era maravilhoso! As águas que me circulavam me acariciavam com carinho e me conduziam em uma dança harmoniosa. Impulsionei-me para mais fundo e viajei pela calma e a paz do fundo do mar. Poderia ficar lá por horas até precisar ir a superfície para respirar. Os peixes vinham nadar ao meu lado. Aquele era meu mundo agora. Pensei em ficar lá para sempre. Habitar naquela calma e beleza sem fim. A tristeza se dissipou do meu peito completamente. Aquela imensidão era compatível com a minha imensidão interior e parecia que tudo fazia sentido em fim. Comecei a me soltar, criar saltos sobre a água e logo estava igual a uma baleia orca fazendo um show em algum parque temático dos EUA.
Em meio  um desses saltos olhei a praia e vi uma pessoa parada me olhando. Eu estava muito longe da costa e não conseguia saber quem era. Arrependi-me da minha exibição descuidada e nadei rapidamente em direção a praia para tentar saber o que aquela pessoa viu e se eu teria que “remediar” as coisas.
_Parece muito divertido _ a voz feminina era doce como de uma dubladora de mocinha de cinema. Cheguei mais perto tentando reconhecer seu rosto. Ela era jovem e tinha a minha altura, seus olhos verdes esmeralda e os cabelos avermelhados, seu sorriso amigável e o olhar inteligente eram muito familiares, mas certamente eu não a conhecia, ela se parecia muito com alguém.
_Eu estava nadando um pouco._ eu disse quando alcancei a areia e saí do mar que se acamou às minhas costas me permitindo sair sem interrupção.
_ Ow! E como você nada bem!_ ela disse sorrindo, mas sem a surpresa que eu esperava encontrar.
_Eu não conheço você, é moradora nova ou turista?_ eu disse tentando ser simpática, mas falhando miseravelmente.
_Ah, me desculpe, eu já conheço você tanto que esqueci que você não me conhece, sou Victória._ ela me ofereceu a mão com um olhar muito significativo.
_Victória?_ eu disse sem pegar a mão dela_ Quer disser... Victor...
_Sim. Sua irmã gêmea._ ela puxou sua mão rejeitada de volta para o lado do seu corpo_ eu pretendia economizar as palavras._ seu sorriso calmo nunca abandonando seu rosto lúcido.
_Irmã gêmea? Victor nunca disse que tinha uma irmã, muito menos que era gêmea. _ eu estava visivelmente confusa.
_Meu irmão não costuma falar muito dele mesmo, você não percebeu? Eu sempre digo a ele que modéstia demais também atrapalha.
_Ele está bem?_ uma súbita preocupação com o motivo da presença de sua irmã aqui me gelou o coração.
_Sim, ele está bem, não se preocupe. _seu olhar me sondava atentamente. Esperei por mais detalhes, mas ela só ficou lá sorrindo para mim.
_Então você sabe sobre mim._ concluí.
_Sei muito mais do que você pode imaginar._ ela gargalhou_ podemos entrar um pouco? Estou sentindo um pouco de frio aqui.
_Claro! Desculpe minha falta de jeito. Tenho estado meio no ar ultimamente._ justifiquei. Era noite alta e os ventos que vinham do mar poderiam ser muito frios a essa hora, mas eu nunca sentia esse tipo de coisa.
Victória me seguiu para casa me observando em cada movimento. Era desconfortável manter a velocidade humana, mais ainda com olhar de alguém grudado em mim. Esforcei-me para ignorar isso e entrei em casa convidando-a em seguida. Eu não estava molhada, tinha comandado cada gota de água para fora de meu corpo, mas ainda sentia o sal incomodando minha pele.
_Você pode esperar um momento até que eu tome um banho? Só levarei um instante.
_Vá em frente, eu lhe espero aqui.
_Ok, fique à vontade, eu já volto._ entrei no meu quarto ainda escutando quando a garota sentou-se no sofá da sala. Será que as surpresas nunca acabariam nessa minha vida? Irmã de Victor? Quem diria? E o que ela queria comigo?
Tomei o banho mais rápido do mundo, não precisava parecer normal já que não estava sendo olhada. Além do mais a garota parecia saber mais do que eu sobre tudo que acontecia comigo.
Voltei para a sala e a garota não estava mais sentada, ela estava no outro canto da sala com um porta-retratos meu na mão. Na foto estavam eu, Rafa e minha mãe. Nossos rostos estavam juntos e todos bronzeados com o Sol da praia. Foi num dos muitos domingos que passamos juntos quando a praia estava deserta com a baixa temporada.
_Esses devem ser Rafael e sua mãe Claudia._ ela acertou.
_Sim. Como sabe dessas coisas? Victor te contou?
_Algumas coisas sim._ ele estava sendo evasiva.
_Quer comer alguma coisa?_ resolvi cuidar melhor da hospitalidade agora, e se ela fosse como seu irmão estaria com fome, sempre com fome. A doce lembrança de Victor na minha cozinha me fez sorrir.
_Gostaria sim, se não for incomodar._ seus olhos brilharam e vi que tinha razão. Eles eram iguais nisso também.
_Então, desde quando está aqui?_ perguntei furtivamente enquanto mexia os ovos na frigideira.
_Ha algumas semanas, eu vim com Victor._ ela observava a comida com ansiedade.
_ E porque não veio me conhecer antes?_ tentei uma conversa leve. Normal.
_Eu não podia interferir._ me virei involuntariamente para olha-la, ela me devolveu o sorriso de sempre. Aquilo estava longe de ser normal.
_ Porque você não quis me tocar Helene? _ seu assunto mudou tão de repente que eu demorei a acompanhar.
_Ah, isso..._ Eu pensei por um instante _ Ainda não sei lidar com as coisas que vejo quando toco nas pessoas.
_ Entendo. _ ela disse refletindo._ Mas de qualquer forma eu só deixaria você ver o que eu quisesse. Nos economizaria tempo.
_Como assim?
_Bom, digamos que eu tenho muito controle sobre minha mente._ ela disse com um sorriso conspirador. Claro, ela era uma extra-humana e se fosse tão cheia de poderes como Victor, claro que ela teria o controle de sua mente.
_Eu prefiro a forma convencional, de qualquer jeito._ ergui os ombros_ Você também lê mentes e cura as pessoas?_ eu perguntei num impulso.
_ Eu posso ouvir pensamentos, mas não tenho o dom da cura que meu irmão tem, esse é um dom muito raro e não tive o privilégio._ ela olhou para as mãos por um momento _ Mas eu fui compensada com outro dom que Victor não tem, eu posso rastrear pessoas. Basta que eu a conheça ou tenha algo delas em minhas mãos e eu posso dizer onde elas estão.
_Isso é muito legal!_ eu disse surpresa_ ninguém pode se esconder de você então, seria muito útil na polícia._ eu brinquei.
_ Foi isso que eu disse ao meu pai, mas ele não me deixou nem chegar perto da carreira policial. _ seu sorriso se iluminou com a lembrança.
Servi os ovos mexidos com molho de tomate, queijo e orégano para ela que comeu com clara satisfação sem parar para dizer nada. Aproveitei que ela finalmente tirou seus olhos de mim e a observei. Ela era a versão feminina de Victor. Linda, pele perfeita num tom rosado e olhos verdes brilhantes. Seus cabelos castanhos claros avermelhados pendendo levemente pelos ombros com um corte natural, mas moderno, assim como o estilo de suas roupas que pareciam de marca. Os tecidos eram finos, mas nada extravagante. Tudo se alinhava perfeitamente nela. Uma segunda pele cor creme de gola redonda e calças legue preta que contornava sua silhueta alongada, e um lenço floral pendendo pelo seu colo que quebrava a neutralidade. Ela era alta, mas incrivelmente delicada. Seus movimentos eram todos leves, harmoniosos. Era uma presença muito agradável. Imaginei que os homens ficariam loucos por ela. 
Fui flagrada em minha análise quando ela terminou e apoiou seus cotovelos na mesa e seu queixo delicado sobre os punhos e fixou seus olhos nos meus.
_Sei que você vai me encher de perguntas, mas gostaria que respondesse apenas uma para mim primeiro._ ela disse deixando escapar uma ponta de ansiedade em sua voz.
_Ok.
_Por que você não escolheu?_ a ansiedade estava muito mais evidente agora. Essa era a pergunta de um milhão de dólares afinal. Esse era o ponto que mudava tudo. Foi isso que criou tantos problemas. E provavelmente era por isso que ela estava aqui.
_Eu não pude._ comecei com o que eu tinha de mais concreto. Apoiei-me no encosto  da cadeira como se pudesse me afastar de seu olhar intenso _ eu amo os três. _ suspirei. Isso não explicava muito, vi no rosto de Victória que ela estava longe de estar satisfeita com minha resposta. Ela esperou por mais_ Eles são diferentes, e os amo de forma diferente também, mas nenhum menos ou mais do que os outros. _ ela continuou esperando por mais, com certeza eu não tinha chegado ao ponto_ Entenda é mais do que atração física... eu realmente os amo. Não poderia escolher um e com isso dizer aos outros que eles não foram bons o bastante. Eu não posso fazer um feliz e deixar os outros dois magoados._ desabafei como nunca tinha feito nem para mim mesma. A expressão no rosto de Victória se clareou e ela parecia entender finalmente.
_Você teme magoar aqueles que você ama. Está se sacrificando por isso._ ela disse mais para ela mesma.
_Não estou me sacrificando._ falei apressada_ Eu também quero ter uma vida normal. Quero viver as coisas que todo mundo vive e eu nunca pude. Quero estudar, ter amigos, trabalhar... até namorar alguém sem ter um fardo de uma profecia nas costas._ me levantei incapaz de continuar sendo encarada por Victória.
_Entendo._ ela disse simplesmente e voltei a olha-la. Era difícil saber se ela entendia, acreditava ou estava simplesmente deixando o assunto de lado. Seu sorriso novamente não entregava nada. _ estou pronta, pode me encher de perguntas agora._ suas palavras mudaram o clima totalmente. Tornando-o mais leve de repente.
_Não quero ser rude, mas por que você está aqui?_ sentei-me em sua frente de novo, mais animada._ ela deu uma gargalhada doce de uma criança em um balanço de parque.
_Você não seria rude, nem se tentasse._ ela se recuperava de seu riso_ eu viria conhecê-la de qualquer forma, mas o concelho me mandou.
_O concelho? Que concelho?
_Sobre o que você e Victor conversavam?_ ele franziu levemente a sobrancelha. Seu rosto incrivelmente jovem ganhando uma seriedade madura por um momento.
_Basicamente, sobre eu não querer ser a Pura._ sorri significativamente para ela. Sua gargalhadinha de menina voltando.
_Sim, sim. Imagino. Então, o nós temos um concelho formado por indivíduos de todas as raças da Terra, você sabe, as sub-raças humanas. O concelho serve para criar e fazer valer as leis que protegem cada uma dessas raças. Eu faço parte do concelho. Sou mais uma cientista do que uma política, mas como sou quem mais sabe sobre a Pura me ofereci para vir até você e lhe apresentar as leis.
_Eu tenho que seguir as leis desse concelho?
_Oh sim! _ ela ficou alarmada_ Entenda Helene você tem poderes que podem ser muito perigosos se for usado levianamente. As outras Puras, quando escolhiam seus parceiros, eram incorporadas automaticamente no esquema por eles mesmos, mas no seu caso é diferente, estamos nos reunindo constantemente para decidirmos o que fazer com relação a isso e a primeira decisão foi de que você precisava de uma tutora e aqui estou. Sabemos que teremos que fazer algumas adequações nas leis para você, mas ainda não temos nada decidido. Tenho que me reportar ao concelho diariamente para atualizá-los sobre seus progressos na adaptação a nova vida e as suas necessidades.
_Está me dizendo que tenho um conselho cheio de estranhos decidindo sobre a minha vida nesse exato momento?_ minha voz subiu uma oitava.
_Helene, não é assim, estamos todos procurando nos adaptar, a situação das sub-raças é delicada, se não fosse por nossa organização não existiríamos mais...
_E se eu não quiser suas regras?_ esbravejei interrompendo o que ela dizia.
_Por favor, Helene, me perdoe! _ ela segurou minhas mãos e se inclinou na minha frente com submissão quase se ajoelhando. Sua reação foi tão inesperada que dissipou minha irritação na mesma hora. Logo as imagens de suas memórias vieram em minha mente. Homens e mulheres cochichando com as expressões preocupadas. Um Homem enorme presidia a reunião e batia um pequeno martelo de juiz em um púlpito, pedindo ordem ,mas era em vão, ninguém parecia ouvi-lo. As vozes ficavam cada vez mas exaltadas, eu podia ouvir alguém perguntar ao meu lado se seria o fim para eles, para o mundo...
Soltei a mão de Victoria e me afastei dela assombrada.
_Eu não quero fazer mal a ninguém_ eu disse a encarando já do outro lado da cozinha, sem me lembrar de ter ido até lá.
_Estão todos com muito medo. Entenda, isso nunca aconteceu antes, a Pura é sagrada, quero dizer, você é quase uma divindade e não podemos controlá-la, nem se quiséssemos _ ela balançou a cabeça rindo de suas próprias palavras_ claro que não podemos controlá-la, é você que pode controlar quase tudo, ou tudo, não sabemos.  O fato é que sua mudança de rumo deixou a sociedade sobrenatural alarmada. Os humanos já são a maioria esmagadora no mundo e sua crueldade e desrespeito tem sido uma ameaça real para nós há séculos. Veja a extinção dos vampiros, por exemplo, todos temem que aconteçam o mesmo com os outros.
_Os vampiros não estão extintos._ eu atirei me lembrando subitamente de Sebastian e sendo atingida pela amargura de vê-lo partir _ Pelo menos, não completamente._ conclui tristemente._ Victoria me observou calada. Eu engoli duramente_ Mas eu entendo o que você quer dizer. Sobre tudo em fim._ lutei para fazer minha voz parecer plana, mas estava sufocada com a sua afirmação da extinção da raça de Sebastian. Eu não conheci outros vampiros, mas podia dizer que o que eu conheci não merecia ser extinto do planeta. Sequei uma lágrima que quase escapou dos meus olhos.
_Eu não consegui dizer antes, as leis são para nos proteger dos humanos, por isso seríamos eternamente gratos se você as conhecessem e as observassem. Claro que como eu disse, terá situações em que você vai precisar excedê-las para sua sobrevivência.
_Claro. Eu não quero prejudicar ninguém, eu só achei estranho ter estranhos decidindo os meus passos. Mas entendi agora a preocupação de vocês. _ minha voz estava morta e me senti cansada de repente. Não queria pensar mais sobre aquilo naquele momento.
_Posso ficar aqui?_ Victória deu seu melhor sorriso maroto.
_Claro. _Respondi confusa. Tinha certeza que se ela estava aqui há algumas semanas deveria estar hospedada em algum hotel, então porque ela queria ficar em minha casa?
Minha casa era pequena e tinha apenas dois quartos, o meu e o de minha mãe que já estava dormindo a horas. Eu ofereci meu quarto, mas ela pareceu quase ofendida quando eu o fiz, então não insisti. Era constrangedor colocar aquela boneca de porcelana gigante para dormir em um colchonete na sala, mas ela não parecia se incomodar.
_Boa noite!_ eu disse depois de me certificar que ela não precisava de mais nada. Ela tinha trazido uma pequena maleta com todos os objetos pessoais que se necessitava para passar uma noite fora, então só lhe forneci a roupa de cama e o colchão.
_Boa noite! _ ela respondeu contente enquanto se virava no travesseiro.
Entrei no meu quarto e fechei a porta, me demorando um instante, encostada nela. “Uma divindade” ela havia dito. Como eu disse as novidades ficavam cada vez melhores. Bufei com o pensamento e tentei limpá-lo por pelo menos essa noite. Já era madrugada e um pouco de sono me faria bem.
Nem de longe aquilo era o tipo de sono que eu esperava. Meu corpo dormiu tranquilamente nos meus lençóis, mas a inconsciência que eu tanto almejava era um luxo que eu não teria mais. Tive essa certeza no momento em que dormi e me vi pairando pelo quarto plenamente alerta e vendo claro como o dia meu corpo deitado em minha cama. Constatei com pesar que nunca mais poderia fugir dos meus problemas mergulhando em uma boa noite de sono.
Rondei, flutuando pela casa como um espectro. Vi Victória dormindo como um bebê e isso me deu alguma tranquilidade. Eu gostava dela. Não sabia se era pela sua semelhança com Victor ou por sua áurea leve e amiga. Com certeza era pelas duas coisas.
O dia amanheceu logo e me peguei em dúvida de como voltaria para meu corpo e como saberia se ele já estava descansado o bastante. Eu não o sentia de nenhuma forma. Cheguei a ter medo de estar morta, mas eu o via respirar normalmente na minha cama, então me prostrei ao seu lado e esperei.
Um barulho na cozinha chamou minha atenção, mas no mesmo instante em que eu estava olhando para a porta, estava de volta no meu corpo que despertava sonolento. Estiquei minhas pernas para perceber que elas estavam com as forças renovadas, me agarrei ao travesseiro absorvendo o prazer perdido daquele conforto sonolento. Senti o sono me expulsando do corpo novamente e me forcei para voltar. Era frustrante. Toda a conversa da noite anterior com Victória estava viva e revivida na minha mente e os sentimentos que a menção dos vampiros que me lembrou de Sebastian também. Cada célula do meu corpo relembrava dele, seu cheiro seu calor, seu toque, seus lábios... o temido calor começou a vir para a borda e eu me levantei rapidamente me abanando. Andei pelo quarto tentando me recompor. Fui até o banheiro e me joguei no chuveiro. Quantos banhos a mais eu tomaria em minha vida a partir de agora? Perguntei enquanto sentia a água fria abrandando a temperatura da minha pele, mas fazendo pouco pelo meu interior. Já era difícil sem pensar em Sebastian, ficava impossível me controlar com ele tatuado na minha mente.
Desisti do banho e saí para a cozinha, eu me distrairia com minha nova convidada. Ela já estava de pé na cozinha. Tinha um cheiro de coisas queimando e fumaça por todo lugar.



2 comentários:

  1. nao sei oque dizer desse capitulo,,,,,,,,me deixou confusa,,,seus poderes me pegaram de surpresa,,,,ela ter deixado os tres ,,,estou pensando a respeito,,,,,,mas eu gostei tira um pouco o drama de quem eu fico,,,continue assim ESTA MUITO BOM♥

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  2. Oi Patricia! Estou de volta. Pretendo escrever mais um cap. e postar ainda essa semana. Espero que continue acompanhando, sua opinião é muito importante. Bjss

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