domingo, 5 de maio de 2013

A Pura












Cap. 11



Eu tinha desistido de dormir e aproveitei a manhã para treinar parecer normal. Minha mãe tirou folga no trabalho e ficou me observando o tempo todo. Eu arrumava um pretexto para tocá-la periodicamente para saber se ela estava desconfiando de alguma coisa, ou me achando estranha, mas ela parecia só estar preocupada com o trauma que a morte dos amigos de Rafa poderiam ter me afetado.
Ajudei a limpar a casa e sorria sempre que me lembrava de Victor fazendo isso de forma tão original. Sentia falta dele. Precisei me esforçar para tirá-lo do pensamento várias vezes. Depois de fazer o almoço e almoçar fingi assistir TV com mamãe. Na verdade eu estava louca para sair de casa, queria ir até o mar, mas fiquei com receio de não resistir a treinar meus poderes nele, vendo o que pude fazer com a água do chuveiro, imaginei o que faria no mar. Seria fantástico! Mas não poderia ter ninguém olhando. Victor me preveniu a não deixar ninguém saber o que eu era.
_Acho que vou ver Rafa._ disse depois que nossa conversa banal sobre o assunto do programa de TV.
_Sozinha? Não, você não pode ir. A floresta está cheia de lobos. _ mamãe disse preocupada. A notícia do “massacre” estava em todos os jornais locais e no rádio, como eu previ, eles culparam os lobos.
_Mãe, Rafa precisa do meu apoio._ eu pedi.
_Eu sei filha e sinto muito por ele estar passando por isso, mas é muito perigoso a defesa civil proibiu os passeios na floresta até que eles encontrem os animais que estão atacando as pessoas tão ferozmente. Por favor, Helene me prometa que não vai voltar lá até que seja seguro._ ela segurou minha mão e o desespero de uma mãe temendo por sua filha me desarmou.
_Eu prometo mãe. Só vou lá quando for seguro para mim._ frisei bem o “para mim”, sabia que nenhum lobo me atacaria de novo, nem animal nenhum.
_Assim fico mais tranquila._ ela sorriu e voltou assistir seu programa sobre saúde e beleza.
Já que minha mãe não estava disposta a colaborar tive que fazer do jeito mais difícil. Esperei ela ir dormir para sair sorrateiramente pela noite. Polar a janela já não era um problema antes, muito menos agora. Atravessei a praia e penetrei a floresta. Conhecia bem o caminho, nesses momentos era muito bom ter uma memória infalível. Me lembrava de cada árvore e cada pedra. Em poucos minutos estava na clareira e avistei as primeiras casas. A duas noites atrás eu não podia imaginar que viria a esse lugar por vontade própria. O sentimento desagradável que senti naquele dia voltou com força, mas eu tinha que encontrar Rafa. Parei perto da primeira casa e tentei ouvir algum som que indicasse a presença de alguém, mas o silêncio imperava. Olhei em volta e parecia não haver ninguém por perto. Um cãozinho “vira lata” marrom veio me saudar abanando o rabo e me olhando com ternura. “Olá amiguinho! Você sabe onde Rafa está?” Perguntei para ele em pensamento. Estava quase me sentindo uma louca por ter feito isso quando uma imagem clara de Rafa surgiu na mente do animal. Eu pude vê-lo rodeado por várias pessoas  perto de uma grande fogueira. Julio também estava lá, mas algo na expressão dele me fez sentir pena. O Homem poderoso que eu havia conhecido, estava desmoronado agora. “leve-me até ele” pedi e o cão correu, eu o segui rapidamente. Atravessamos a vila e chegamos em uma espécie de praça. Haviam muito mais casas ali do que eu tinha pensado. Vi o fogo tremulando e o agrupamento de pessoas. O cão não se deteve como eu, ele foi direto até Rafa e latiu a seus pés impaciente. Rafa estranhou sua atitude por um segundo, mas estranhamente, entendeu em seguida e olhou em minha direção. Eu estava distante, mas ele me reconheceu imediatamente. Senti um nó na garganta quando vi seu rosto tão familiar e tão bonito. Quis correr para os seus braços e sentir seu calor e sua proteção que tantas vezes me fizeram felizes, que tantas vezes foram o único conforto que tive. Meu porto seguro, meu amigo, meu amor. Mas eu não podia simplesmente toma-lo para mim naquele momento. Eu não tinha mais nenhum direito sobre ele.
Rafa caminhou lentamente em minha direção. A cada passo meu coração batia mais forte. 

E se ele estivesse com raiva de mim? Agora que a ficha caiu ele deve ter visto que fui a culpada pela tragédia no povo dele. Seu rosto estava composto e firme, não indicava nada, mas fiquei contente por ver que ele parecia forte e seguro, como eu sempre o conheci. Tive medo de encontra-lo abalado e deprimido.
_Helene._ ele disse simplesmente quando parou diante de mim.
_Rafa, eu..._ ia explicar minha presença, que por um segundo pareceu estúpida e intrusa, mas ele me interrompeu com o que eu mais desejava dele. O abraço mais acolhedor que existia na face da Terra.
_Ah Helene, que bom ver você._ ele sussurrou no meu ouvido e todo meu medo foi embora.
_Eu vim por você Rafa, queria te apoiar e ajudar de alguma forma, mas quando te vi percebi que era eu é quem precisava de você... Tanto. Eu... Senti tanto a sua falta._ meus olhos logo estavam transbordando. Tinha acontecido tanta coisa, tudo tinha mudado. Eu tinha mudado, mas nos braços e Rafa eu voltava a ser apenas uma menina frágil e dependente de sua proteção.
 Ficamos ali abraçados não sei por quanto tempo, a chuva começou a cair lentamente, senti seus pingos suaves lavarem as lágrimas do meu rosto. Eu não me importava em me molhar, a chuva também fazia parte de mim, assim como eu dela. Os sentimentos de Rafa se misturavam aos meus, suas lembranças eram na maioria as minhas, mas do ponto de vista dele. Em seus olhos eu parecia mais bonita e encantadora. E ele se lembrava de cada detalhe, cada palavra minha e cada expressão do meu rosto. Rafa adorava o tom da minha voz. Lembrei-me de toda as vezes que ele me incitava a contar uma história de um livro qualquer que eu tinha lido. Eu achava que ele tinha preguiça de ler, mas agora descobria que era só para me ouvir falar por horas e horas. O amor que Rafa tinha por mim era tão puro quanto sua alma. Eu tinha sido sua vida. Tudo que ele viveu tinha sido ao meu redor. Sofri ainda mais quando vi a lembrança de nossa despedida forçada por sua transformação. A visão de mim mesma apavorada com as roupas rasgadas me encolhendo no canto daquela pedra era o maior trauma da vida de Rafa.
_Não Rafa, não pense assim._ falei de repente me afastando do seu abraço para olhá-lo. Ele ficou confuso. Não sabia do meu novo dom_ Não pense que um erro pode apagar tudo de maravilhoso que você foi para mim. Todos os momentos bons que vivemos. Eu também me lembro de tudo e agora que vi como você via eu entendo ainda mais. Ah Rafa! Eu te amo tanto. _eu voltei a abraça-lo. Seu coração retumbava no peito. Seus sentimentos subiram as aturas. Ele estava feliz, mas minhas palavras também doíam em seu peito. Ele sabia que eu não estava ali para escolhe-lo, ele temia mais uma despedida. Nesse momento eu percebi que ele estava certo. Eu estava errando de novo, eu estava sendo egoísta, iria faze-lo sofrer ainda mais.
_Eu te amo Helene._ ele disse, seus sentimentos em perfeita sincronia com suas palavras. Ele não disse “também”, percebi que ele sabia da diferença do meu amor do dele.
_Sinto muito. Por tudo isso._ olhei seus olhos que estavam calmos e compreensivos.
_Você tem dito muito isso ultimamente não tem?_ ele sorriu.
_Sim, eu tenho. Tenho feito muita coisa que não me orgulho. Feito pessoas que eu amo sofrerem. Por mais que eu tente evitar isso, é exatamente isso que eu faço. _ falei desanimada.
_Você é uma tolinha mesmo. Vê tudo e se lembra de tudo, mas não entende nada._ ele secou meus olhos_ Veja, está fazendo chover com seu chorinho manhoso._ olhei a chuva fina e percebi que era verdade. A chuva era por causa das minhas lágrimas. Parei de chorar e a chuva parou na mesma hora_ Viu? Você não pode se culpar pelo efeito que provoca ao seu redor Helene, isso é parte do que você é. Você é um milagre. Sou feliz só por ter conhecido você, não sofro, apenas te desejo mais do que respirar. _Rafa me levantou do chão com seu abraço forte e me beijou ternamente nos lábios_ Não me contenho de felicidade agora, viu?_ ele sorriu maroto e vi o que ele dizia. Deixei-me inundar com aquela felicidade tão genuína.

_Eu interrompi sua reunião. _ falei quando senti que a atenção de Rafa voltava para as pessoas que nos observava a distancia.
_Júlio está renunciando a liderança da matilha a meu favor.
_Você é o alfa agora?
_Ainda não. Estou tentando convencê-lo a não fazer isso. Sou seu sucessor natural, mas ele ainda tem muitos anos antes de passar essa responsabilidade para mim. Eu ainda sou muito jovem e inexperiente, não estou pronto.
_Ele se sente culpado pelo que aconteceu, não é?
_Sim, mas ele pode se recuperar disso, só precisa de algum tempo._ Rafa não tinha nenhuma mágoa de seu líder. Claro que rafa podia entender as razões de Júlio, ele também sentiu na pele a culpa por não ter resistido e ainda amargava a culpa pelas consequências disso, mas mesmo assim senti orgulho dele por ser tão compreensivo.
_Acho que ele não pode Rafa._ busquei seus olhos e os observei enquanto a compreensão chegava neles_ Foram muitas perdas.
_É você tem razão, ninguém se recupera de uma coisa assim.
_Você vai ser um ótimo líder._ disse mesmo sem saber exatamente o que um Lobisomem alfa tinha que fazer. Não importava, Rafa era o melhor entre eles, por isso era um candidato da Pura. Ele seria o melhor alfa também.
_Ouvindo isso de você fica mais fácil de acreditar._ ele abriu mais seu sorriso e vi nele a esperança de que tudo seria melhor a partir daquela hora.
_Preciso ir agora. Já me meti na vida de seu povo por um século.
_Você está bem? Digo com toda essa sua mudança, eu estive preocupado, nossa anciã tem estado muito ocupada consolando as mães que perderam seus filhos na batalha, mas eu consegui alguns minutos com ela e perguntei sobre você, ela disse que seus poderes são inimagináveis agora que é adulta e que pode ser muito perigoso se os humanos descobrirem sobre você. Fiquei preocupado Helene. Precisa tomar cuidado.
_Eu estou bem, não se preocupe. Vou ser cuidadosa. Ninguém vai saber de nada.
_Sabe que estarei sempre a sua espera._ ele beijou as costas da minha mão carinhosamente.
_Eu sei, mas acho melhor ficar distante agora._ meu peito se apertou_ Você sabe, ainda não desisti de ter uma vida humana normal._ aquilo pareceu mais uma piada saindo de minha boca de elfo mestiça. Rafa também percebeu a graça e riu.
_Boa sorte e tenha muito cuidado. Se precisar de mim, não hesite a me procurar.
_Obrigada Rafa, é muito importante para mim ver que você está bem e que não está zangado comigo._ ele gargalhou mais.
_Quem poderia ficar zangado com você sua boba?_ Eu ri junto com ele.
_Até logo._ disse incapaz de dar uma despedida mais definitiva e fui embora sem olhar para trás.
_Tchau._ ouvi sua voz murmurando atrás de mim. A chuva fina voltou a cair e vi que estava chorando de novo.
Quando cheguei de frente para o mar o pranto, assim como a chuva, escorria intensamente pelo meu rosto. Agachei-me na areia e abracei meus joelhos com força. Sentia-me sozinha. Levantei-me e me rendi ao mar. Mergulhei completamente em suas ondas constantes. Era maravilhoso! As águas que me circulavam me acariciavam com carinho e me conduziam em uma dança harmoniosa. Impulsionei-me para mais fundo e viajei pela calma e a paz do fundo do mar. Poderia ficar lá por horas até precisar ir a superfície para respirar. Os peixes vinham nadar ao meu lado. Aquele era meu mundo agora. Pensei em ficar lá para sempre. Habitar naquela calma e beleza sem fim. A tristeza se dissipou do meu peito completamente. Aquela imensidão era compatível com a minha imensidão interior e parecia que tudo fazia sentido em fim. Comecei a me soltar, criar saltos sobre a água e logo estava igual a uma baleia orca fazendo um show em algum parque temático dos EUA.
Em meio  um desses saltos olhei a praia e vi uma pessoa parada me olhando. Eu estava muito longe da costa e não conseguia saber quem era. Arrependi-me da minha exibição descuidada e nadei rapidamente em direção a praia para tentar saber o que aquela pessoa viu e se eu teria que “remediar” as coisas.
_Parece muito divertido _ a voz feminina era doce como de uma dubladora de mocinha de cinema. Cheguei mais perto tentando reconhecer seu rosto. Ela era jovem e tinha a minha altura, seus olhos verdes esmeralda e os cabelos avermelhados, seu sorriso amigável e o olhar inteligente eram muito familiares, mas certamente eu não a conhecia, ela se parecia muito com alguém.
_Eu estava nadando um pouco._ eu disse quando alcancei a areia e saí do mar que se acamou às minhas costas me permitindo sair sem interrupção.
_ Ow! E como você nada bem!_ ela disse sorrindo, mas sem a surpresa que eu esperava encontrar.
_Eu não conheço você, é moradora nova ou turista?_ eu disse tentando ser simpática, mas falhando miseravelmente.
_Ah, me desculpe, eu já conheço você tanto que esqueci que você não me conhece, sou Victória._ ela me ofereceu a mão com um olhar muito significativo.
_Victória?_ eu disse sem pegar a mão dela_ Quer disser... Victor...
_Sim. Sua irmã gêmea._ ela puxou sua mão rejeitada de volta para o lado do seu corpo_ eu pretendia economizar as palavras._ seu sorriso calmo nunca abandonando seu rosto lúcido.
_Irmã gêmea? Victor nunca disse que tinha uma irmã, muito menos que era gêmea. _ eu estava visivelmente confusa.
_Meu irmão não costuma falar muito dele mesmo, você não percebeu? Eu sempre digo a ele que modéstia demais também atrapalha.
_Ele está bem?_ uma súbita preocupação com o motivo da presença de sua irmã aqui me gelou o coração.
_Sim, ele está bem, não se preocupe. _seu olhar me sondava atentamente. Esperei por mais detalhes, mas ela só ficou lá sorrindo para mim.
_Então você sabe sobre mim._ concluí.
_Sei muito mais do que você pode imaginar._ ela gargalhou_ podemos entrar um pouco? Estou sentindo um pouco de frio aqui.
_Claro! Desculpe minha falta de jeito. Tenho estado meio no ar ultimamente._ justifiquei. Era noite alta e os ventos que vinham do mar poderiam ser muito frios a essa hora, mas eu nunca sentia esse tipo de coisa.
Victória me seguiu para casa me observando em cada movimento. Era desconfortável manter a velocidade humana, mais ainda com olhar de alguém grudado em mim. Esforcei-me para ignorar isso e entrei em casa convidando-a em seguida. Eu não estava molhada, tinha comandado cada gota de água para fora de meu corpo, mas ainda sentia o sal incomodando minha pele.
_Você pode esperar um momento até que eu tome um banho? Só levarei um instante.
_Vá em frente, eu lhe espero aqui.
_Ok, fique à vontade, eu já volto._ entrei no meu quarto ainda escutando quando a garota sentou-se no sofá da sala. Será que as surpresas nunca acabariam nessa minha vida? Irmã de Victor? Quem diria? E o que ela queria comigo?
Tomei o banho mais rápido do mundo, não precisava parecer normal já que não estava sendo olhada. Além do mais a garota parecia saber mais do que eu sobre tudo que acontecia comigo.
Voltei para a sala e a garota não estava mais sentada, ela estava no outro canto da sala com um porta-retratos meu na mão. Na foto estavam eu, Rafa e minha mãe. Nossos rostos estavam juntos e todos bronzeados com o Sol da praia. Foi num dos muitos domingos que passamos juntos quando a praia estava deserta com a baixa temporada.
_Esses devem ser Rafael e sua mãe Claudia._ ela acertou.
_Sim. Como sabe dessas coisas? Victor te contou?
_Algumas coisas sim._ ele estava sendo evasiva.
_Quer comer alguma coisa?_ resolvi cuidar melhor da hospitalidade agora, e se ela fosse como seu irmão estaria com fome, sempre com fome. A doce lembrança de Victor na minha cozinha me fez sorrir.
_Gostaria sim, se não for incomodar._ seus olhos brilharam e vi que tinha razão. Eles eram iguais nisso também.
_Então, desde quando está aqui?_ perguntei furtivamente enquanto mexia os ovos na frigideira.
_Ha algumas semanas, eu vim com Victor._ ela observava a comida com ansiedade.
_ E porque não veio me conhecer antes?_ tentei uma conversa leve. Normal.
_Eu não podia interferir._ me virei involuntariamente para olha-la, ela me devolveu o sorriso de sempre. Aquilo estava longe de ser normal.
_ Porque você não quis me tocar Helene? _ seu assunto mudou tão de repente que eu demorei a acompanhar.
_Ah, isso..._ Eu pensei por um instante _ Ainda não sei lidar com as coisas que vejo quando toco nas pessoas.
_ Entendo. _ ela disse refletindo._ Mas de qualquer forma eu só deixaria você ver o que eu quisesse. Nos economizaria tempo.
_Como assim?
_Bom, digamos que eu tenho muito controle sobre minha mente._ ela disse com um sorriso conspirador. Claro, ela era uma extra-humana e se fosse tão cheia de poderes como Victor, claro que ela teria o controle de sua mente.
_Eu prefiro a forma convencional, de qualquer jeito._ ergui os ombros_ Você também lê mentes e cura as pessoas?_ eu perguntei num impulso.
_ Eu posso ouvir pensamentos, mas não tenho o dom da cura que meu irmão tem, esse é um dom muito raro e não tive o privilégio._ ela olhou para as mãos por um momento _ Mas eu fui compensada com outro dom que Victor não tem, eu posso rastrear pessoas. Basta que eu a conheça ou tenha algo delas em minhas mãos e eu posso dizer onde elas estão.
_Isso é muito legal!_ eu disse surpresa_ ninguém pode se esconder de você então, seria muito útil na polícia._ eu brinquei.
_ Foi isso que eu disse ao meu pai, mas ele não me deixou nem chegar perto da carreira policial. _ seu sorriso se iluminou com a lembrança.
Servi os ovos mexidos com molho de tomate, queijo e orégano para ela que comeu com clara satisfação sem parar para dizer nada. Aproveitei que ela finalmente tirou seus olhos de mim e a observei. Ela era a versão feminina de Victor. Linda, pele perfeita num tom rosado e olhos verdes brilhantes. Seus cabelos castanhos claros avermelhados pendendo levemente pelos ombros com um corte natural, mas moderno, assim como o estilo de suas roupas que pareciam de marca. Os tecidos eram finos, mas nada extravagante. Tudo se alinhava perfeitamente nela. Uma segunda pele cor creme de gola redonda e calças legue preta que contornava sua silhueta alongada, e um lenço floral pendendo pelo seu colo que quebrava a neutralidade. Ela era alta, mas incrivelmente delicada. Seus movimentos eram todos leves, harmoniosos. Era uma presença muito agradável. Imaginei que os homens ficariam loucos por ela. 
Fui flagrada em minha análise quando ela terminou e apoiou seus cotovelos na mesa e seu queixo delicado sobre os punhos e fixou seus olhos nos meus.
_Sei que você vai me encher de perguntas, mas gostaria que respondesse apenas uma para mim primeiro._ ela disse deixando escapar uma ponta de ansiedade em sua voz.
_Ok.
_Por que você não escolheu?_ a ansiedade estava muito mais evidente agora. Essa era a pergunta de um milhão de dólares afinal. Esse era o ponto que mudava tudo. Foi isso que criou tantos problemas. E provavelmente era por isso que ela estava aqui.
_Eu não pude._ comecei com o que eu tinha de mais concreto. Apoiei-me no encosto  da cadeira como se pudesse me afastar de seu olhar intenso _ eu amo os três. _ suspirei. Isso não explicava muito, vi no rosto de Victória que ela estava longe de estar satisfeita com minha resposta. Ela esperou por mais_ Eles são diferentes, e os amo de forma diferente também, mas nenhum menos ou mais do que os outros. _ ela continuou esperando por mais, com certeza eu não tinha chegado ao ponto_ Entenda é mais do que atração física... eu realmente os amo. Não poderia escolher um e com isso dizer aos outros que eles não foram bons o bastante. Eu não posso fazer um feliz e deixar os outros dois magoados._ desabafei como nunca tinha feito nem para mim mesma. A expressão no rosto de Victória se clareou e ela parecia entender finalmente.
_Você teme magoar aqueles que você ama. Está se sacrificando por isso._ ela disse mais para ela mesma.
_Não estou me sacrificando._ falei apressada_ Eu também quero ter uma vida normal. Quero viver as coisas que todo mundo vive e eu nunca pude. Quero estudar, ter amigos, trabalhar... até namorar alguém sem ter um fardo de uma profecia nas costas._ me levantei incapaz de continuar sendo encarada por Victória.
_Entendo._ ela disse simplesmente e voltei a olha-la. Era difícil saber se ela entendia, acreditava ou estava simplesmente deixando o assunto de lado. Seu sorriso novamente não entregava nada. _ estou pronta, pode me encher de perguntas agora._ suas palavras mudaram o clima totalmente. Tornando-o mais leve de repente.
_Não quero ser rude, mas por que você está aqui?_ sentei-me em sua frente de novo, mais animada._ ela deu uma gargalhada doce de uma criança em um balanço de parque.
_Você não seria rude, nem se tentasse._ ela se recuperava de seu riso_ eu viria conhecê-la de qualquer forma, mas o concelho me mandou.
_O concelho? Que concelho?
_Sobre o que você e Victor conversavam?_ ele franziu levemente a sobrancelha. Seu rosto incrivelmente jovem ganhando uma seriedade madura por um momento.
_Basicamente, sobre eu não querer ser a Pura._ sorri significativamente para ela. Sua gargalhadinha de menina voltando.
_Sim, sim. Imagino. Então, o nós temos um concelho formado por indivíduos de todas as raças da Terra, você sabe, as sub-raças humanas. O concelho serve para criar e fazer valer as leis que protegem cada uma dessas raças. Eu faço parte do concelho. Sou mais uma cientista do que uma política, mas como sou quem mais sabe sobre a Pura me ofereci para vir até você e lhe apresentar as leis.
_Eu tenho que seguir as leis desse concelho?
_Oh sim! _ ela ficou alarmada_ Entenda Helene você tem poderes que podem ser muito perigosos se for usado levianamente. As outras Puras, quando escolhiam seus parceiros, eram incorporadas automaticamente no esquema por eles mesmos, mas no seu caso é diferente, estamos nos reunindo constantemente para decidirmos o que fazer com relação a isso e a primeira decisão foi de que você precisava de uma tutora e aqui estou. Sabemos que teremos que fazer algumas adequações nas leis para você, mas ainda não temos nada decidido. Tenho que me reportar ao concelho diariamente para atualizá-los sobre seus progressos na adaptação a nova vida e as suas necessidades.
_Está me dizendo que tenho um conselho cheio de estranhos decidindo sobre a minha vida nesse exato momento?_ minha voz subiu uma oitava.
_Helene, não é assim, estamos todos procurando nos adaptar, a situação das sub-raças é delicada, se não fosse por nossa organização não existiríamos mais...
_E se eu não quiser suas regras?_ esbravejei interrompendo o que ela dizia.
_Por favor, Helene, me perdoe! _ ela segurou minhas mãos e se inclinou na minha frente com submissão quase se ajoelhando. Sua reação foi tão inesperada que dissipou minha irritação na mesma hora. Logo as imagens de suas memórias vieram em minha mente. Homens e mulheres cochichando com as expressões preocupadas. Um Homem enorme presidia a reunião e batia um pequeno martelo de juiz em um púlpito, pedindo ordem ,mas era em vão, ninguém parecia ouvi-lo. As vozes ficavam cada vez mas exaltadas, eu podia ouvir alguém perguntar ao meu lado se seria o fim para eles, para o mundo...
Soltei a mão de Victoria e me afastei dela assombrada.
_Eu não quero fazer mal a ninguém_ eu disse a encarando já do outro lado da cozinha, sem me lembrar de ter ido até lá.
_Estão todos com muito medo. Entenda, isso nunca aconteceu antes, a Pura é sagrada, quero dizer, você é quase uma divindade e não podemos controlá-la, nem se quiséssemos _ ela balançou a cabeça rindo de suas próprias palavras_ claro que não podemos controlá-la, é você que pode controlar quase tudo, ou tudo, não sabemos.  O fato é que sua mudança de rumo deixou a sociedade sobrenatural alarmada. Os humanos já são a maioria esmagadora no mundo e sua crueldade e desrespeito tem sido uma ameaça real para nós há séculos. Veja a extinção dos vampiros, por exemplo, todos temem que aconteçam o mesmo com os outros.
_Os vampiros não estão extintos._ eu atirei me lembrando subitamente de Sebastian e sendo atingida pela amargura de vê-lo partir _ Pelo menos, não completamente._ conclui tristemente._ Victoria me observou calada. Eu engoli duramente_ Mas eu entendo o que você quer dizer. Sobre tudo em fim._ lutei para fazer minha voz parecer plana, mas estava sufocada com a sua afirmação da extinção da raça de Sebastian. Eu não conheci outros vampiros, mas podia dizer que o que eu conheci não merecia ser extinto do planeta. Sequei uma lágrima que quase escapou dos meus olhos.
_Eu não consegui dizer antes, as leis são para nos proteger dos humanos, por isso seríamos eternamente gratos se você as conhecessem e as observassem. Claro que como eu disse, terá situações em que você vai precisar excedê-las para sua sobrevivência.
_Claro. Eu não quero prejudicar ninguém, eu só achei estranho ter estranhos decidindo os meus passos. Mas entendi agora a preocupação de vocês. _ minha voz estava morta e me senti cansada de repente. Não queria pensar mais sobre aquilo naquele momento.
_Posso ficar aqui?_ Victória deu seu melhor sorriso maroto.
_Claro. _Respondi confusa. Tinha certeza que se ela estava aqui há algumas semanas deveria estar hospedada em algum hotel, então porque ela queria ficar em minha casa?
Minha casa era pequena e tinha apenas dois quartos, o meu e o de minha mãe que já estava dormindo a horas. Eu ofereci meu quarto, mas ela pareceu quase ofendida quando eu o fiz, então não insisti. Era constrangedor colocar aquela boneca de porcelana gigante para dormir em um colchonete na sala, mas ela não parecia se incomodar.
_Boa noite!_ eu disse depois de me certificar que ela não precisava de mais nada. Ela tinha trazido uma pequena maleta com todos os objetos pessoais que se necessitava para passar uma noite fora, então só lhe forneci a roupa de cama e o colchão.
_Boa noite! _ ela respondeu contente enquanto se virava no travesseiro.
Entrei no meu quarto e fechei a porta, me demorando um instante, encostada nela. “Uma divindade” ela havia dito. Como eu disse as novidades ficavam cada vez melhores. Bufei com o pensamento e tentei limpá-lo por pelo menos essa noite. Já era madrugada e um pouco de sono me faria bem.
Nem de longe aquilo era o tipo de sono que eu esperava. Meu corpo dormiu tranquilamente nos meus lençóis, mas a inconsciência que eu tanto almejava era um luxo que eu não teria mais. Tive essa certeza no momento em que dormi e me vi pairando pelo quarto plenamente alerta e vendo claro como o dia meu corpo deitado em minha cama. Constatei com pesar que nunca mais poderia fugir dos meus problemas mergulhando em uma boa noite de sono.
Rondei, flutuando pela casa como um espectro. Vi Victória dormindo como um bebê e isso me deu alguma tranquilidade. Eu gostava dela. Não sabia se era pela sua semelhança com Victor ou por sua áurea leve e amiga. Com certeza era pelas duas coisas.
O dia amanheceu logo e me peguei em dúvida de como voltaria para meu corpo e como saberia se ele já estava descansado o bastante. Eu não o sentia de nenhuma forma. Cheguei a ter medo de estar morta, mas eu o via respirar normalmente na minha cama, então me prostrei ao seu lado e esperei.
Um barulho na cozinha chamou minha atenção, mas no mesmo instante em que eu estava olhando para a porta, estava de volta no meu corpo que despertava sonolento. Estiquei minhas pernas para perceber que elas estavam com as forças renovadas, me agarrei ao travesseiro absorvendo o prazer perdido daquele conforto sonolento. Senti o sono me expulsando do corpo novamente e me forcei para voltar. Era frustrante. Toda a conversa da noite anterior com Victória estava viva e revivida na minha mente e os sentimentos que a menção dos vampiros que me lembrou de Sebastian também. Cada célula do meu corpo relembrava dele, seu cheiro seu calor, seu toque, seus lábios... o temido calor começou a vir para a borda e eu me levantei rapidamente me abanando. Andei pelo quarto tentando me recompor. Fui até o banheiro e me joguei no chuveiro. Quantos banhos a mais eu tomaria em minha vida a partir de agora? Perguntei enquanto sentia a água fria abrandando a temperatura da minha pele, mas fazendo pouco pelo meu interior. Já era difícil sem pensar em Sebastian, ficava impossível me controlar com ele tatuado na minha mente.
Desisti do banho e saí para a cozinha, eu me distrairia com minha nova convidada. Ela já estava de pé na cozinha. Tinha um cheiro de coisas queimando e fumaça por todo lugar.



segunda-feira, 15 de abril de 2013

Cap. 10




Entidades de luz, limpem a Pura. Façam que tudo volte a ser bom.”
Ela continuava dizendo e repetindo cadenciadamente. Uma sensação diferente vinha crescendo em mim. Eu ainda não estava totalmente desperta, mas eu sabia o que estava acontecendo. Aquela mulher estava retirando o feitiço de bloqueio.
_Não! _Eu pulei da cama e colei meu corpo junto a parede.
_Fique quieta!_ uma voz rude gritou e logo a reconheci. Júlio saiu do lado escuro do quarto e veio até mim._ Volte para a cama e fique quieta!_ ele pegou no meu braço e me puxou com mais força que o necessário. Caí na cama sem equilíbrio. Meu coração aos pulos com o medo daquele homem grosseiro.
_Não toque nela Júlio._ Rafa abriu a porta e entrou no quarto trazendo a brisa fria da madrugada com ele.
_Rafa! Por favor, faça eles pararem com isso. Por favor, por favor, parem.
_Júlio! Você não vê que ela não quer estar aqui e não quer nada disso? Deixe-a ir embora, eu te imploro. Não quero que seja assim, não quero que ela seja forçada a ficar comigo._ Rafa disse para Júlio com voz firme, mas respeitosa.
_Não importa o que você ou ela quer. Todos devem cumprir seus destinos para que o equilíbrio não se perca.
_O destino dela é escolher, mas que escolha ela está tendo agora?_ Rafa revidou sua postura assumindo uma tendência ao enfrentamento.
_Ela escolheu dispensar os outros. Não fomos nós que fizemos isso, foi escolha dela. E não aceito, mas nenhuma discursão sobre isso. _Júlio se colocou bem na frente de Rafa, seu tamanho avantajado cobrindo totalmente meu defensor.
_Não briguem, não briguem, por favor, eu só quero ir embora._ coloquei minha cabeça entre as mãos. Sentia-me fraca de novo. Incapaz de raciocinar uma maneira de sair daquela situação.
_Xiii. Calma menina._ a mulher sentou-se ao meu lado e segurou minha mão. Seu toque era de alguma forma, acolhedor e calmante_ Não vamos te fazer mal, pelo contrário, queremos te ajudar.
_Não preciso de nenhuma ajuda. Só preciso que me deixem em paz._ eu reclamei, mas não consegui gritar com ela. Algo em sua presença e em seus olhos era muito bom e sincero. E intimidador também.
_Olhe bem para você. Está envolta em negras nuvens. Precisa ser limpa. Essas trevas estão te fazendo mal, querida.
_Não, não estão. Pela primeira vez na vida eu pude caminhar pelas ruas sem ser perseguida por homens estranhos. Pela primeira vez na vida pude conhecer um namorado da minha mãe sem acabar tudo em desgraça e tristeza. Pela primeira vez eu me sinto uma pessoa normal e feliz. Não quero tirar o feitiço que me liberta, não quero._ eu estava chorando. Implorando para aquelas pessoas estranhas que não sabiam nada do sofrimento que eu vivia, mas que eu torcia para que me compreendessem.
_Mas você é a Pura, tudo isso faz parte do que você é. Vai ficar melhor depois que escolher seu parceiro.
_Não quero ser obrigada a escolher parceiro nenhum. Quero viver livre de toda essa coisa!_ disse com tanta determinação que a doce mulher fixou os olhos em mim.
_Você não quer? Como pode não querer ser a maior das agraciadas da criação?
_Agraciada? Não sou agraciada! Sou infeliz, isso que sou. Quero ser normal, pelo amor de Deus!
_Chega dessa conversa inútil._ Júlio rosnou_ O dia já amanhece e o feitiço deve ser quebrado para não interferir na natureza da Pura. Amanhã ela deverá escolher Rafael para ser seu companheiro._ A pequena senhora baixou levemente o rosto em claro sinal de respeito e obediência àquele ser repugnante que era o líder daquele povo que ela fazia parte. Ela se levantou e voltou ao seu ritual de orações.
_Não, por favor, não._ eu pedi e tentei sair da cama de novo.
_Segure-a Rafael, ou eu mesmo o farei._ Júlio ordenou. Rafa veio até mim com o rosto mortificado. Ele segurou meu braço e me forçou a sentar na cama. Ele não olhava no meu rosto. E não disse nada. Só me segurava de forma que eu não podia sonhar em me soltar.
O Sol subiu lentamente e seus raios surgiam renovadores através da janela aberta. As orações repetidas se intensificaram e vi com lágrimas nos olhos quando uma fumaça escura começou a girar a minha volta e se desfizeram no espaço.
_Está livre. _a mulher disse e abriu os olhos. Ela me olhou brevemente, observando minha miserável tristeza e depois saiu do quarto. Júlio também me olhava, mas seu olhar flamejava desejo e espanto. Rafa o encarava com desconfiança e ameaça. Ele já tinha me defendido muitas vezes de homens que me olhavam com aquele tipo de olhar. Vi naquele momento que tudo estava de volta. Tinha sido doce e breve minha esperança de ser feliz.
_Fique com ela. Não deixarei ninguém entrar e não a deixe sair. A matilha não pode vê-la._ ele disse e com muito esforço se virou e saiu do quarto fechando a porta trás de si.
_Sinto muito._ Rafa murmurou ainda sem olhar para mim_ Sinto-me envergonhado pelo meu povo estar fazendo isso._ Eles não entendem que há algo diferente com você.
_Diferente?_ Sebastian sempre me dizia que eu era diferente das outras, mas eu não considerei que Rafa também acharia _ Como diferente?
_Pelo que me informei das histórias das outras Puras elas podiam viver normalmente entre os humanos. Elas despertavam atração nos homens e tinham alguns inconvenientes, mas não era nada tão violento como é com você. Ninguém poderia suportar a vida que você suporta Helene, eu entendo isso. Sei que é por isso que quis se livrar de tudo. Está sendo fortemente torturada desde a puberdade. Eu tentei explicar isso para Júlio. Eu contei com que violência eu a ataquei, mas ele não me ouve e nem considera nada que não leve a seu objetivo.
_Não é sua culpa. A culpa é minha por não querer assumir o que eu sou. Eu estraguei tudo, mas acho que só tenho que me conformar agora. Não poderei ter a vida que sonhava, mas eu sei que você me fará feliz também. _eu disse secando minhas lágrimas e tentando me convencer de minhas próprias palavras.
_Farei tudo para que seja feliz Helene.  
O dia se arrastava devagar. Passei meu tempo entre choros e comidas caseiras que me serviam no quarto. Rafa nunca esteve tão calado. Ele parecia mais envelhecido e acabrunhado. Eu sabia que ele se sentia muito mal pelo seu papel nessa história toda.
_Helene, eu tenho uma coisa para te falar e estou o dia todo me consumindo com isso. Porque eu não sei se deveria dizer. As consequências podem ser muito ruins, mas me sinto um canalha em te esconder essa informação. _ eu estava olhando pela fresta da janela com cuidado para não ser vista, quando Rafa pegou minhas mãos, ele parecia aflito.
_O que é Rafa?_ ele suas sobrancelhas estavam unidas e vincadas. Ele procurava as palavras. Aquilo me deixou ainda mais nervosa_ Fala logo, o que foi?
_É que você dispensou os outros pretendentes, mas o que você não sabe é que do mesmo jeito que você os rejeitou, pode chama-los de volta._ ele disse com dificuldade.
_Está dizendo que posso ligar eles a mim de novo?
_Sim, na hora que quiser antes de fazer sua escolha. Eu descobri isso ouvindo uma conversa da anciã com Júlio. Ela disse que você poderia convoca-los outra vez e eles viriam de onde estivessem ao seu encontro, como seguindo o canto da sereia. Júlio não gostou muito dessa informação, então mandou que ela guardasse segredo. Ele sabe que eu sei, porque pode ler meus pensamentos, mas ele pensou que eu não seria idiota o bastante para te contar._ eu olhei nos profundos olhos castanhos de Rafa. Ele estava me devolvendo o direito de escolher, mesmo que isso pudesse significar me perder. Senti uma profunda comoção por sua atitude.
_Porque eu faria isso Rafa? Sempre foi você quem mais me mereceu. Acho até que você merece alguém melhor do que eu, mas sei que a mim que você quer. _ eu toquei seu rosto com carinho_ E mesmo assim, age sem nenhum egoísmo. Eu te amo Rafa, por isso e por todas as demonstrações que vem me dando ao longo de todos esses anos, do homem maravilhoso que você é. Não vou convocar os outros. Já me despedi deles. Desejo profundamente que eles encontrem a felicidade, por que também merecem, mas eu ficarei aqui com você.
_Ah Helene. Eu te amo!_ Rafa me tomou em seus braços e me beijou. Seu calor me envolveu e logo meu corpo reagia a sua paixão. Seus lábios se moviam nos meus com determinação devoradora. Suas mãos apertavam meu corpo contra o seu me fazendo sentir seus músculos duros se tencionando cada vez mais. _É cada vez mais insuportável resistir a você Helene. Quero que seja minha. Para sempre. _ ele murmurou com a voz rouca pelo desejo. Rafa me levantou do chão em seu abraço e me levou até a cama. Senti o colchão tocar as minhas pernas antes dele me deitar de costas e me cobrir com seu corpo. Olhei em seu rosto e percebi que ele estava fora de si. Seus movimentos cadenciados eram espontâneos demais e estavam ficando cada vez menos gentis. Lembrei-me do dia em que ele me atacou e minha excitação sumiu instantaneamente.
_Rafa. Acho melhor pararmos agora._ pedi tentando me afastar dele.
_Você é minha Helene. Quero ter você agora._ ele me prendeu novamente.
_Escute. Eu ainda não te escolhi. Preciso ter a idade certa. Só amanhã a terei. 
_Helene eu preciso de você._ ele voltou a me beijar, mas o rejeitei. Suas mãos corriam pela lateral de meu corpo e me faziam sentir-me cada vez mais desconfortável com a lembrança que me traziam. _ Você está tão linda!_ De novo eu me arrependi da camisola.
_Pare com isso Rafa. _ tentei me levantar e para minha surpresa ele deixou. Caminhei irritada para o outro lado do quarto e ele continuou deitado com o rosto no travesseiro.
_Você não me quer por que não está pronta, ou por que não me perdoou pelo que eu fiz._ ele disse virando o rosto para me olhar.
_Eu não sei Rafa. Eu já perdoei você, mas quando me toca as lembranças e o medo vem à tona de novo._ eu disse cuidadosamente. Não queria magoá-lo.
_Sabe de uma coisa, o que eu fiz foi horrível, você nunca me escolheria se a situação fosse diferente. Não importa o quanto você goste de mim, ou seja grata. _ ele afundou o rosto no travesseiro de novo. _ A marca de decepção que eu deixei está aí, em seu coração, nada vai mudar isso._ sua voz saiu abafada.
_Não diga isso Rafa, eu só estou confusa e assustada, afinal estou aqui contra minha vontade e estou...
_Triste._ ele completou minha frase voltando a me olhar, mas a tristeza estava em seus próprios olhos. Suspirei fundo. Eu não tinha nada para dizer que o fizesse se sentir melhor. Caminhei de novo até a pequena fresta da janela, mas quando olhei o que vi me assustou. Os olhos de Júlio estavam lá bem próximos à abertura me observando. Ele se afastou quando foi pego e eu também me afastei de repente.
_O que foi?_ Rafa se ergueu na cama.
_Júlio estava nos observando._ minha voz saiu fraca. Eu não queria acreditar que ele estivesse mesmo fazendo aquilo. Era errado espionar, mas eu senti que significava algo muito pior. Os olhos que vi estavam insanos.
Com um barulho seco, a porta se abriu. Rafa estava do meu lado em meio segundo e Júlio estava na porta.
_Saia Rafael. Quero falar com ela._ tudo que eu temia aconteceu. O grande macho alfa estava enlouquecido na minha frente. Instintivamente me escondi atrás de Rafa.
_Não vou deixar ela sozinha com você Júlio, nem com ninguém._ Rafa estava tremendo, mas não era de medo. Seu corpo radiava fúria.
_Não discuta comigo!_ Júlio gritou tão forte que as paredes tremeram.
_Terá que me matar para tocar nela._ Rafa deu um passo para trás me colocando entre ele e a janela.
_Se for preciso eu farei, mas uma ordem minha não pode ser desobedecida, e eu ordeno que saia agora!_ O alfa usou toda sua autoridade o que fez com que as pernas de Rafael quase dobraram com o poder dela.
_Sairei._ ele disse e o gigante enlouquecido sorriu. Meu coração já frenético de pânico disparou ainda mais. Rafa ia me abandonar ao bel prazer daquele homem rude? Eu me agarrei mais a ele com desespero, mas ele se moveu se virando para mim _ Tenho que sair._ ele disse e eu já ia começar a protestar, mas ele me segurou nos braços, muito rápido, e abriu a janela_ Mas vou te levar comigo._ e estávamos do lado de fora. Rafa corria mais veloz do que eu achava possível comigo nos braços em direção à mata. O Urro de raiva de Júlio ecoou nas pedras ao nosso redor.
Rafa continuou correndo sem nenhum esforço. Era como se eu não pesasse nada, mas seu rosto estava muito tenso e eu sabia que não estávamos seguros. Depois de poucos minutos ouvi passos nos seguindo. Os barulhos de mato sendo amaçado com rapidez vinham de todos os lados. Rafa encontrou uma pequena entrada de uma caverna e me levou para dentro. O teto de pedra era baixo para Rafa, mas quando ele me colocou de pé eu não precisei me abaixar como ele fazia. Tinha uns três metros de profundidade e o fundo era muito escuro, mas Rafa pareceu enxergar bem o suficiente para caminhar com segurança pelo piso irregular.
_Estamos cercados. Júlio enlouqueceu. Ele convocou a matilha para nos caçar e agora ele vai perder o controle de todos eles quando puserem os olhos em você._ Rafa falou rapidamente seus olhos alternando entre mim e a entrada da caverna.
_Ah meu Deus Rafa! O que vamos fazer?_ o pânico fez minhas pernas falharem e me apoiei nas paredes de pedra. Logo precisei me sentar no chão. A imagem de lobisomens enormes, medonhos e ferozes me caçando rodopiava na minha cabeça.
_Helene, escute, vou lutar até a morte se for preciso, mas não vou deixar que nenhum deles toque em você, entendeu._ essa outra imagem de Rafa morrendo para me defender só me fez ficar ainda pior. Rosnados e uivos aumentavam a cada segundo do lado de fora. _ Fique aqui.  Não importa o que aconteça não saia, ok!_ eu só  concordei com a cabeça.
Rafa se aproximou da entrada da caverna e a cobriu com seu corpo. Ele estava mudando de forma e eu não queria olha-lo se transformar naquele monstro horrível. Suas costas viradas para mim cresciam assombrosamente em largura, e seus braços em comprimento. Pelos nasciam em todos os seus membros, crescendo rapidamente e tornando-o escuro como a noite. Em segundos Rafa tinha se tornado um lobisomem enorme e poderoso. Mas, apesar de sua aparente força descomunal eu sabia que ele não seria suficiente. Tinham muitos iguais a ele e até mais fortes do lado de fora que iriam mata-lo. Essa certeza doeu mais do que tudo já havia doido na minha vida. Ele não teria nenhuma chance lutando sozinho e era tudo culpa minha. Tudo culpa do meu egoísmo.
Meu coração desesperado desejou profundamente que Victor e Sebastian estivessem ali também me protegendo. Eu não sabia se eles também seriam fortes o bastante, mas meu desejo de tê-los por perto era irracional. Sabia que estavam longe demais para chegarem a tempo, mas mesmo assim eu os chamei. “Sebastian, quero você de volta, venha me salvar.” “Victor, quero você de volta, venha, por favor.” Chorei baixinho e continuei repetindo como uma oração. Depois resolvi fazer realmente uma oração pedindo àquele mesmo deus que fez toda aquela trama na minha vida, tivesse piedade de mim e me perdoasse por negar o meu papel e salvasse a mim e ao Rafa. Se ele não pudesse me salvar, que salvasse ao Rafa que não merecia morrer daquele jeito. Era isso! Eu não merecia nenhuma salvação. Não podia deixar que um inocente pagasse no meu lugar. Precisava fazer alguma coisa. Eu tinha causado aquilo, teria que sofrer as consequências.
 Estava decidida a me entregar e poupar a vida de Rafa, mas sabia que ele não deixaria. Tinha que bolar um plano. Uma determinação cresceu dentro de mim, retirando meu medo. Senti-me forte quando decidi que minha vida não estava valendo a pena ser defendida por alguém muito melhor do que eu. Afinal eu não era a Pura que todos esperavam ansiosos para estabelecer o equilíbrio das raças. Até ali eu estava sendo apenas uma mulher fraca, covarde e egoísta.
Levantei-me com firmeza e caminhei até o lobo de pé na minha frente. Ele percebeu minha aproximação e ficou mais tenso.
_Diga a eles que eu irei, mas só aceito sair daqui com o Alfa, Júlio._ eu disse decidida para Rafa. Ele rosnou e me olhou com seus grandes olhos negros e brilhantes. Seu rosto estava desfigurado, mas agora que o olhava sem medo, percebi que preservava muitos dos seus traços._ Faça isso Rafa, por favor.
_Estou aqui._ A voz alta e rude de Júlio reverberou na caverna e ele estava na porta bem diante de Rafa e de mim.
_Precisa afastar os outros antes de me tirar daqui, ou vão atacar você também._ eu disse a ele com firmeza.
_Eles são a minha matilha, não vão me atacar._ ele falou em tom de zombaria.
_Para um líder você não é muito inteligente._ eu revidei_ Se até você está se esquecendo dos seus propósitos por causa da atração da Pura, por que acha que com os outros será diferente? _ ele arregalou os olhos para mim_ Eles ainda não me viram, mas se verem vão matar você. _ minhas palavras o atingiram como um golpe. Ele franziu o cenho e voltou para fora. Rafa acompanhava cada movimento dele, mas me deu um breve olhar de admiração por minha coragem. Ouvi as ordens para que a matilha se afastasse e depois ele voltou impaciente para nós. Rafa não sedia em sua posição na minha frente.
_Você vem comigo._ ele disse em tom possessivo e deu um passo em minha direção. Rafa rosnou e o enfrentou mais.
_Rafa, deixe. Ele não vai me machucar._ eu menti _ Vai ficar tudo bem._ eu toquei seu rosto de fera vendo nele apenas o que ainda havia do meu amigo, que eu amava tanto_ Confie em mim e, por favor, fique vivo para mim.
_Não!_ ele disse em um rosnado. Júlio rosnou também, mas rafa o ignorou, apenas olhava furioso para mim.
_Me deixe ir com ele Rafa_ eu estava apavorada com a iminência de uma briga dos dois _ Ele só quer me tocar, como você fez! _ eu gritei _ E sendo ele o alfa tem mais direito sobre mim do que você._ aquelas palavras doeram nele, eu sabia, mas doeu muito mais em mim. Eu sabia que era o único jeito de convencê-lo a me deixar ir.
 Rafa rosnou e uivou alto. Depois ele falou algo com Júlio na sua linguagem de lobisomem. Júlio não tirava os olhos cobiçosos de mim, mas pareceu abalado com seja lá o que foi que Rafa lhe disse. Rafa saiu da minha frente e gemeu quando Júlio me pegou nos braços e me levou para dentro da mata correndo em sua velocidade desumana. Em poucos minutos estávamos em outra casa. Era mais uma cabana feita de madeiras roliças, encostada em uma grande pedra e longe de tudo. Só havia mato e pedras ao redor.
Ele entrou na cabana aberta ainda me carregando. Era apenas um cômodo e não tinha móveis no interior, apenas uma esteira de palha gasta no chão e uma lamparina apagada no canto da parede. A noite já tinha caído ha algumas horas e só o brilho da lua ainda cheia deixava ver algumas formas, mas quando ele fechou a porta atrás de si, a pouca luz que entrava entre uma madeira e outra era muito insignificante para ajudar a manter minha coragem. Eu sabia o que viria agora. Teria que ser forte para suportar o que aquele homem faria comigo e quem sabe sobreviver até o dia seguinte. Por um momento pensei se Rafa ainda iria me querer depois disso. Na verdade eu nem sabia se a Pura ainda poderia escolher alguém depois que sua pureza fosse roubada.
_O que Rafa lhe disse._ eu perguntei quando ele me colocou no chão. Eu me agarrei à esperança de distraí-lo.
_Disse que me mataria se eu a ferisse.
_E você sentiu medo dele? Eu vi que ficou abalado.
_Eu vejo através dele. E vi que dizia a verdade. Seria uma luta onde apenas um sobreviveria._ ele disse distraidamente enquanto me olhava. Percebi que, de tanto ser carregada aos trancos, minha camisola tinha sido rasgada e o decote no meu peito estava ainda maior, quase revelando meus seios. Aprecei-me a fechá-la com ambas as mãos.
_Sabe que pode resistir se quiser.
_Não acho que possa._ ele deu mais um passo na minha direção. Eu já estava quase encostada na parede tentando me afastar dele._ Estou lutando bastante para segurar meus impulsos que certamente iriam te machucar. _ ele esboçou um sorriso maligno.
_Rafa vem resistindo a isso a vida toda, ele não é mais forte do que você._ apelei para seu orgulho.
_Ele teve tempo para se acostumar, mas mesmo assim ele falhou, não falhou?_ ele mediu minha reação.
_Só quando se transformou. Ele perdeu o controle por um momento._ Júlio me imprensou na parede e colocou ambos os braços dos meus lados encostando suas palmas nas madeiras redondas.
_Sabe de uma coisa você tinha razão. Não devíamos ter tirado a escuridão que rodeava você. _sua respiração pesada estava em meu rosto.
_Não faça isso Júlio. Você é o alfa, tem responsabilidades com seu povo. Vai arruinar a melhor oportunidade de a Pura escolher um lobisomem. Você não quer fazer isso. _ ele puxou o ar pelo nariz e fechou os olhos como se saboreasse meu cheiro.
_Tudo que eu quero agora é estar dentro de você._ apertei meus olhos esperando o inevitável, mas um barulho surdo me fez abri-los novamente.
_Uma ova que você vai. _Milagrosamente Sebastian estava dentro da cabana puxando o corpo de Júlio como se fosse um boneco de pano, deu-lhe uma joelhada no abdômen e o jogou contra a outra parede. O telhado de palha tremeu como se fosse cair com o impacto. O Homem enorme que me aterrorizava estava agora se contorcendo no chão. Na fraca luz que agora entrava pela porta eu vi o sangue escuro espirrando por sua boca.
_Helene, você está bem?_ Sebastian segurou meu rosto e olhou por todo meu corpo procurando por ferimentos.
_Eu estou bem, mas como chegou tão rápido?_ um misto de confusão, medo e extrema felicidade, me invadiram.
_Eu estava perto, sempre. _ Belo traje para um sequestro. _ ele observou sarcástico.
_Eu não tive tempo de me trocar, mas você... Você estava com Katherine na França. _minha mente não acreditava no que meus olhos viam._ Você ficou lá, com ela._ uma ponta de ressentimento escapou em minha voz.
_Não acho que seja hora de ter ciúmes, querida. Você me chamou e estou aqui._ ele estava divertido e mesmo naquela situação aquilo me irritou.
­­_Você tem que ir embora, tem muitos deles Sebastian, muitos deles.
_Vamos embora em um minuto._ ele se virou para Júlio que se levantava e se recuperava do impacto.
_Você é o vampiro._ Júlio estava surpreso e quase maravilhado por ver Sebastian.
_Que bom que já me conhece, assim podemos dispensar as apresentações. Vim buscar Helene e não quero ter que machucar ninguém.
_Machucar?_ Júlio bufou_ Quem tem que se preocupar em se machucar aqui é você vampiro. Não vai levar a Pura a lugar nenhum. _ os olhos ferozes estavam em mim de novo. Meu corpo tremeu com medo.
_Quem vai me impedir, você e mais quantos?_ Sebastian desafiou.
_Eu e mais vinte e cinco, se não contar o Rafael que está muito rebelde nesse momento._ ele sorriu sorrateiramente e se transformou em uma besta bem na nossa frente em menos de um segundo. Sebastian me protegeu ainda mais com seu corpo enquanto o lobisomem uivava tão alto que meu ouvido doeu. Ele estava chamando os outros lobos eu sabia disso.
_A conversa está boa, mas é melhor agente ir agora._ Sebastian e me pegou nos braços e passou como um vento pela porta da cabana.
Não fomos muito longe, estávamos cercados de monstros enormes bem antes de sairmos da clareira. Sebastian me colocou no chão com cuidado, medindo cada movimento e observando cada um dos lobisomens que nos rodeavam rosnando e furiosos. Eles se aproximavam lentamente. Seus olhos estavam queimando em mim, tarde demais para evitar o pior. Todas aquelas feras tinham apenas um objetivo agora, me pegar. Mas eles hesitavam olhando para Sebastian. Imaginei que eles também reconheciam o que ele era, assim como Júlio e sentiam-se intimidados. Porém eles eram muitos e Sebastian era apenas um. Eu tinha visto que ele era muito forte já que abateu Júlio com tanta facilidade, mas mesmo se ele vencesse àquela briga, não seria antes que algum deles aproveitasse sua distração e me pegasse.
_Temos que sair daqui, não posso lutar e te proteger ao mesmo tempo._ Sebastian sussurrou para mim, confirmando o que eu tinha pensado. Um dos lobisomens se aproximou mais. Eu me assustei com sua ousadia, mas logo reconheci que era Rafa. Ele veio em nossa direção, mas logo assumiu a postura de me defender, se virando para enfrentar os outros. _Ah! O mocinho resolveu aparecer._ Sebastian também o reconheceu. Os outros ainda nos observavam e rosnavam, mas vi nos olhos flamejantes deles que a fúria crescia e não iam tardar muito até atacarem. Um lobisomem ainda maior surgiu entre eles e não tive dúvida que se tratava do grande macho alfa. Júlio caminhava entre os outros que não lhe davam nenhuma atenção. Como eu temia.
_Rafa, Sebastian isso não tem como ficar pior, vocês vão morrer se tentarem me defender, me entregue e vão embora, serei só eu e não nós três. _ eu pedi. A coisa que eu mais temia naquele momento era ver os dois caírem mortos aos meus pés.
_O que fizeram com você aqui além de acabarem com a proteção que eu arrumei para você? Tiraram seu juízo também?_ Sebastian atirou mal humorado.
Com um rugido feroz um dos lobisomens se atirou sobre nós. No mesmo instante os outros também tomaram a coragem. Em segundos tudo o que podia ver ao meu redor eram corpos enormes colidindo uns nos outros. Rafa mordia e dilacerava os outros em cenas de puro terror. Sebastian fazia movimentos rápidos, mas harmoniosos como em uma dança, e arrancava os membros dos monstros, lançando-os pelo ar. Ouvia gritos apavorados e levei algum tempo para perceber que eram meus. Todos os lobos vinham em minha direção e eram desviados de mim sempre no último segundo por um dos meus dois guerreiros protetores. Gritei ainda mais alto guando senti braços em volta da minha cintura me puxando com força.
_Calma, sou eu._ Victor me levou para fora do tumulto e me escondeu entre duas pedras. Os outros dois lhe davam cobertura lutando com os que tentavam nos seguir.
_Victor! _ fui capaz de dizer. Alivio transbordava em minha voz rouca pelos gritos.
_Desculpe a demora, eu estava dentro do avião quando ouvi seu chamado. Tive que esperar pousar e pegar outro de volta. Você está ferida?_ ele também me inspecionou detalhadamente.
_Eu estou bem, mas e eles? _ me virei para observar a briga e me dei conta que estava tremendo muito, porque a minha visão estavam distorcidas. A briga continuava ferrenha. Os sons de agonia se misturavam grunhidos de raiva. Não dava para saber exatamente o que estava acontecendo agora que estava longe, eu não distinguia mais Rafa em meio aos outros e não podia discernir se Sebastian estava vencendo ou perdendo as batalhas. _Eu não posso ficar aqui e deixar eles morrerem, eu não posso. _ comecei a chorar.
_Helene, escute, eu tenho que te levar para um lugar seguro. Eles vão ficar bem, agora precisamos aproveitar que temos vantagem para sairmos daqui._ Victor olhava em volta escolhendo a melhor direção a tomar.
_Não. _ eu gritei_ Não vou deixa-los morrer!_ puxei meu braço de sua mão e caminhei determinada, em direção ao confronto.
_Pare! O que está fazendo?_ Victor me pegou de volta.
_Me solta Victor. _  minha voz era diferente quando ordenei. Seus olhos se arregalaram de espanto e eu os fixei impondo minha vontade. Senti uma força desconhecida crescer no meu interior, como nunca imaginei que fosse capaz. Esse poder o fez recuar e vi seus olhos cederem quando finalmente baixou a cabeça respeitosamente e soltou meu braço sem questionar. Fique maravilhada com o poder que sentia em mim.  Caminhei com passos firmes, mas era como se não sentisse o chão sólido debaixo dos meus pés. Meus pés descalços só sentiam o deslizar da seda nos tornozelos, como se pisasse em plumas, ou flutuasse.

terça-feira, 19 de março de 2013

Cap. 9


Tomamos café e conversamos coisas alegres. Eu estava feliz e Victor também parecia estar. Fomos para o aeroporto de táxi. Victor já tinha devolvido o carro alugado. O motorista olhou para mim com interesse, mas nada exagerado. Ele perguntou o destino e Victor o respondeu. Já que eu não sabia nada de Frances. O dia estava nublado e com certeza não demoraria a chover. Caminhei naturalmente pelo aeroporto e em meio as pessoas. Eu ficava fascinada por poder fazer isso de maneira tão simples como nunca.
Confirmamos o voo e caminhamos para a plataforma. Tivemos que esperar pouco. Eu estava nervosa, mais o medo de voar tinha diminuído. A ansiedade por chegar em casa e começar logo minha nova vida estava me deixando sem tempo para pensar em outras coisas. Exceto em Sebastian. Ele não saia da minha cabeça. Eu não conseguia esquecer aquele rosto contraído e os olhos fixos em mim quando saí daquela casa.
_Victor_ eu chamei a atenção dele que estava conferindo o painel de pousos e decolagens do aeroporto. Ele se virou para mim imediatamente_ O que são as Bruxas? Alguma outra raça?
_Pode se dizer que sim, pela genética especial que é transmitida de mãe para filha, mas elas são basicamente humanas.
_Como você?
_Sim, mas assim como só existem vampiros machos, só existem bruxas fêmeas.
_Sério! E se eles tivessem filhos? Seriam bruxas ou vampiros?_ minha pergunta saiu sem pensar.
_ As sub-raças só podem ter filhos com os humanos que são mais neutros. Bruxas e vampiros não costumavam se unir, e mesmo quando faziam, eles não podiam ter filhos.
_Entendo._ mergulhei nos meus pensamentos. Sebastian tinha seus motivos para ser tão arredio. Ele era o único sobrevivente de uma raça em extinção. Mas ao contrário do que ele disse sobre não ser a melhor opção da raça e sim a única, eu achava justamente o contrário. Só o fato dele ter sobrevivido a despeito de tudo, o tornava o melhor e mais forte de todos.
_Vamos._ Victor me tirou os meus pensamentos_ Já estão embarcando. _ eu me levantei e o segui para o portão de embarque. Atravessamos a plataforma e o grande avião tinha suas escadas á minha frente. Victor subia primeiro, mas quando eu coloquei o pé no primeiro degrau uma força desconhecida me fez olhar para trás.
Era Ele. Sebastian caminhava suavemente em minha direção. Seus olhos estavam apertados, incomodados com a luz do dia. Ele era uma criatura da noite, assim como a Lua e as estrelas. E também era tão misterioso e lindo como elas. Suas roupas totalmente negras que se destacavam tanto na ensolarada Rio das Ostras estavam perfeitamente adequadas àquela cidade sofisticada que era Paris.
_Sebastian._ eu sussurrei mais para mim mesma quando parei e dei espaço para que as outras pessoas embarcassem na minha frente. Enquanto ele se aproximava mil pensamentos vinham a minha cabeça. Será que ele iria para o Brasil comigo? E Katherine, ela teria aberto mão dele? Não achava isso provável, mas meu coração se enchia mais de esperança a cada passo que o trazia para mim. _Sebastian._ repeti quando ele parou na minha frente. Ele não disse nada, apenas me puxou gentilmente para seus braços num abraço carinhoso. Seu rosto deslizava nos meus cabelos suavemente. Fui inundada com seu perfume indescritível. Donos de laboratórios de perfumaria venderiam suas almas para colocar aquela fragrância em frascos. Seria uma fonte de fortuna, eu pensei bobamente enquanto sentia o calor de seu corpo no meu e o aperto firme de suas mãos. Não resisti ao desejo de tocar seu cabelo macio e logo estava com meus dedos agarrados em sua nuca. Sebastian virou seu rosto para me encarar e seus olhos estavam negros. Ele franziu a testa como se tentasse resistir ao impulso, mas foi inútil. Seus lábios tocaram os meus no beijo mais doce que eu já havia provado. Ele também me segurou pela parte de trás de minha cabeça e seu aperto aumentava junto com minha excitação. Era uma sensação muito forte e em segundos eu não me lembrava de mais nada. Não sabia onde estava e nem quem ele era, ou mesmo quem eu era. Eu só sentia. Sentia seu calor, seu gosto seu corpo. E queria mais, muito mais. Sem que eu pudesse impedi-lo, ele se afastou lentamente de minha boca. Foram apenas alguns centímetros, mas não podia mais sentir seu sabor. Quis estreitar mais a distancia, mas ele me continha, resistia.
_Oh Helene. Está tão linda!_ ele murmurou no meu ouvido _ Eu sinto muito.
_Sente pelo que?_ perguntei ainda anestesiada. Meu corpo parecia flutuar em uma nuvem.
_Vim apenas me despedir, mas resistir a você é simplesmente impossível. Tão doce. Tão quente. Não resta dúvida que seu pai Elfo não seguiu o protocolo quando escolheu os genes de sua mãe. Acho que ele é quem foi seduzido por ela._ ele brincou, mas era uma brincadeira quase triste. Eu lembrei que ele tinha me dito que eu tinha mais libido que uma Pura deveria ter, e ele culpou a minha mãe por isso. _Foi feita pra mim. _ ele murmurou ainda mais baixo. Um suspiro que quase não pude ouvir enquanto afundava seu rosto no um cabelo.
_Você vai ficar?_ me arrependi por ter perguntado no momento que disse as palavras. Era lógico que ele iria ficar. Ficar com a bruxa fria e fútil.
_Eu só não podia deixar você ir embora com aquela imagem minha, Helene. _ ele explicou com uma expressão de desgosto. Eu vi que ele estava triste. E tudo que eu queria evitar era vê-lo triste. E os outros também. Eu pensei que se eu os libertasse todos poderiam viver suas vidas e buscar por sua felicidade. Sem estarem amarrados a mim. Mas Sebastian não seria feliz com aquela mulher.
_Por que você vai ficar com Katherine? Ela o está obrigando? É por mim que está fazendo isso?_ eu estava agitada.
_Ela não pode me obrigar a nada e não é por sua causa. Ficarei um tempo aqui, depois saio pelo mundo de novo. Não tenho nada melhor para fazer no momento._ ele disse cansado.
_Nada melhor do que ficar com aquela garota ... _ eu procurei um jeito de parecer menos ofensiva.
_Fútil, infantil, egoísta e má? _ ele completou sorrindo travesso_ Eu não sou muito diferente dela, não se engane Helene, eu apenas não sou hipócrita.
_Você não é nada disso._ eu disse com tristeza que ele pensasse assim de si próprio.
_Talvez eu não seja assim quando estou com você, mas isso não importa agora. Deve ir ou seu avião partirá sem você. _ ele me abraçou mais uma vez, só que muito brevemente.
_Vou ver você de novo?_ pedi miseravelmente.
_Quem pode prever o futuro é Victor._ ele debochou _ mas vou tentar ficar longe. Não vou interferir na sua “vidinha normal”. Não se preocupe. _ ele sorriu de novo tentando ser sarcástico, mas falhou. Vi o desanimo escondido em seus olhos. _Vá logo e dê lembranças a sua mãe. Ele se afastou de mim e já se virava para ir embora. Olhei para o avião e vi Victor de braços cruzados em frente ao peito, nos olhando com cara de poucos amigos. Quando me virei para Sebastian de novo ele estava longe caminhando de costas para mim.
_Sebastian, obrigada!_ eu gritei. Ele não se virou, apenas levantou brevemente sua mão esquerda em um aceno _ obrigada por tudo._ conclui baixinho. Estava chorando. Uma angustia sufocante e um sentimento de perda enorme me torturava. Olhei Victor que me esperava e subi no avião.
_ Me desculpe Victor._ pedi quando ele sentou ao lado no avião. Ele não me olhava apenas suspirou. Sequei minhas lágrimas e tentei me recompor.
_Desculpas aceitas._ ele disse amargo _ A culpa não foi sua mesmo. É só Sebastian que não consegue deixar de ser ele mesmo.
_Ele está fazendo um grande sacrifício por mim. Você não acha que ele merece algum desconto?_ eu era acima de tudo muito grata a Sebastian por ter me dado uma oportunidade de ter uma vida que sempre desejei. Só ele pôde fazer isso por mim, e ele sacrificava sua própria oportunidade de ser feliz para me dar isso.
_Ele só faz isso porque acha que você não o escolheria mesmo._ ele atirou. Victor estava mais irritado que eu imaginava que ele poderia.
_Porque você está tão bravo?
_Porque ele te beijou escandalosamente ha minutos atrás._ ele me encarou como se aquilo fosse óbvio demais para que eu tivesse perguntado.
_Sim, mas eu e você não somos namorados, então..._ eu não tinha pegado a lógica daquilo.
_Helene. Você é a Pura. Nunca vai deixar de ser. E agora que você nos liberou eu não posso reivindicar o beijo que ele te deu. Qualquer um de nós pode estar com você sem nenhum compromisso ou consequência e isso é...
_Uma bagunça. Eu sei, mas o que você quer Victor? Quer ter o direito de me beijar também? É por isso que está bravo?
_Se fossem seus beijos sem compromisso que eu quisesse teria tentado seduzir você no hotel, ou nos passeios que fizemos. Eu não fiz isso, e não foi por falta de vontade. Fiz por respeito a sua decisão de deixar a nós três para viver sua vida humana. Uma vida que nunca teria com algum de nós. Nem comigo.
_Mas você vive entre os humanos.
_Sim, mas meus dons são um segredo que tem que ser mantido de qualquer forma. Nossos filhos seriam como eu e teríamos que educa-los longe das outras crianças até que eles pudessem manter sigilo de seus poderes, e muitas outras coisas seriam diferentes. Eu não estou com humor para falar sobre isso agora. _Ele bufou_ Victor não respeita nada. Ele vem e beija você na primeira oportunidade que tem. Eu estou surpreso que não tenha ficado lá com ele. Com a nossa ligação desfeita, você poderia facilmente ser seduzida, com qualquer mulher que ele toca.
Eu estava pasma. Fazia sentido. O vampiro era um sedutor por sua natureza e agora que eu não tinha a contra balança da ligação com Victor ele poderia ter me seduzido.
_Mas isso daria certo?_ eu estava alarmada _ Se ele me seduzisse sem que fosse ele a escolha da Pura, poderíamos ficar juntos?
_Eu não sei._ Victor ficou ainda mais irritado com a direção da nossa conversa_ Isso nunca aconteceu.
_ Bom, em todo caso, quem fez a bagunça toda fui eu. E Sebastian não usou isso a seu favor._ Victor me olhou acusadoramente _ Não totalmente, afinal eu estou aqui indo para casa, não estou.
_É. Você está._ ele concordou finalmente, mas seu humor não melhorou de pronto.
Meus pensamentos giravam, mas de uma coisa eu tinha certeza, eu tinha que manter distancia dos três daqui por diante. Já que eu decidi abrir mão de escolher um deles teria que ficar sem nenhum. Isso seria seguro, justo e... doloroso. Eu gostava mesmo deles. Cada um havia me conquistado de um jeito diferente, mas na mesma intensidade. Eu conhecia Sebastian e Victor ha tão pouco tempo, mas eles já faziam parte da minha vida. Imaginei então o que seria de mim sem Rafael. Não, eu não poderia imaginar isso. Fiquei calada e pensativa por toda a viagem. Victor pareceu se acalmar depois de algumas horas, mas também não falou muito. Eu não me sentia culpada por ter beijado Sebastian. Era como ele disse, eu simplesmente não podia evitar. A atração que o vampiro exercia sobre mim era irresistível. Se ele quisesse poderia ter feito de mim o que quisesse. Eu teria ido com ele se ele tivesse me pedido e estaria alegremente em seus braços agora. Balancei a cabeça tentando tirar esse pensamento. Não era seguro pensar em Sebastian. Aquilo que eu sentia por ele não era natural, nem especial. Era somente uma reação genérica das mulheres por ele. Eu não seria feliz sabendo que estava sendo manipulada por meus hormônios. Eu precisava pensar no futuro humano que eu escolhi. Poderia estudar mais, trabalhar e fazer novos amigos. Um mundo novo se abria na minha frente. Um mundo que eu assistia na TV e sonhava poder estar nele. Agora eu poderia.
Não consegui dormir um minuto sequer na viagem de volta para casa. Minha mente e meu corpo estavam cansados, mas alertas. Desembarcamos no Rio de Janeiro e Victor pegou seu carro que estava no estacionamento do aeroporto.
_Você é muito legal por me trazer para casa depois de tudo. _ eu disse em reconhecimento sincero.
_Não supervalorize uma pequena gentileza. Você merece ser muito bem tratada pela importância que tem. _ ele disse com um sorriso confortável_ E também merece pela pessoa que você é, independente disso tudo.
_Sério? Existe algo em mim independente disso tudo?
_Claro que existe bobinha. Você tem uma personalidade única, como todo mundo afinal de contas, do contrário não estaria indo na direção inversa do destino. _ ele sorriu mais largamente. Estávamos chegando à minha casa e meu peito se apertou quando vi que se aproximava o momento de mais uma despedida. Eu provavelmente nunca mais veria aquele sorriso arrasador de novo. _O que foi?_ ele perguntou quando viu meu rosto cair.
_Vou sentir sua falta. _ confessei mesmo sabendo que estava sendo egoísta com ele.
_Entendo. _ ele ficou sério_ Me custa muito deixar você, mesmo que seja para a sua felicidade.
_Eu sei. Não devia ficar assim, mas não consigo evitar.
_Tudo vai passar com tempo. Você vai esquecer isso tudo._ ele tentou melhorar as coisas.
_Não posso me esquecer de nada Victor, você não sabe?_ eu disse desanimada.
_Oh, é mesmo. Desculpe, me esqueci._ ele deu uma risada gostosa e tive que rir com ele.
Estávamos parados em frente à praia onde eu morava. Eu olhei o mar que me viu crescer e me senti em casa. Só não estava totalmente segura agora que sabia que ficaria sozinha. Tive medo daquele vazio que senti no quarto do hotel em Paris. Torci para que aquilo fosse porque eu estava em um lugar estranho, longe de casa. Victor me ajudou a levar as malas até a porta de casa, mas não quis entrar. Era fim de tarde e logo minha mãe chegaria do trabalho, então ele não queria ter que se despedir dela também.
_Você vai ficar bem?_ ele perguntou com um olhar tão doce que me abalou intimamente. A ligação estava desfeita, mas ele ainda parecia me amar. Como isso funcionava? Eu me perguntei.
_Vou sim, não se preocupe. Só vou sentir sua falta. Você poderia vir me visitar se quiser._ disse esperançosa.
_Sabe que isso não seria o melhor para você. Precisa seguir em frente, se vai viver uma vida humana, terá que conviver com humanos.
_Você acha que eu sou louca por fazer isso não é?
_Louca não, mas não compreendo muito bem a lógica disso, tenho que confessar, mas vejo em seus olhos que é o que acredita que precisa, e Helene, nós só podemos viver dentro daquilo que acreditamos. Não há outro caminho a seguir.
_E em que você acredita Victor.
_Eu? _ ele franziu o cenho perfeito_ Agora mesmo estou buscando novas crenças._ aquilo cortou meu coração já abalado. Eu estava acabando com as esperanças dele também. Victor era o mais confiante de ser escolhido. Apesar de nunca ter sido arrogante com isso. Ele era o que tinha mais chances e por isso é o que mais estava perdendo.
_Sinto tanto._ estava banhada em lágrimas de novo_ Obrigada por tudo Victor e me desculpe.
_Ah não faça assim Helene. Não se culpe. Talvez não tivesse mesmo que ser. Talvez os planos de Deus tenha mudado, por isso o lobisomem te atacou daquele jeito. Pelo menos você não teve que morrer e agora pode viver sua vida feliz. _ ele me envolvia ternamente em seus braços, mas não me manteve ali por muito tempo. Antes que eu pudesse estar preparada para me despedir ele me beijou a testa com ternura e se afastou.
_Adeus, linda Helene. Tenha uma bela vida._ ele falou com seu sotaque charmoso e seus modos de cavalheiro do século XVI.
_Adeus gentil Victor. Seja feliz._ eu o imitei tentando disfarçar minha dor. Em segundos ele tinha partido para sempre e o vazio cresceu no meu peito.
Mamãe não demorou a chegar. Eu estava na cozinha fazendo um chá de camomila com maçã quando ouvi a porta se abrir. Ouvi sua voz tão familiar e percebi o quanto estava com saudades dela. Mas tinha outra voz a acompanhando. Ela não estava sozinha. E um frio correu pela minha espinha dorsal. Reação instintiva às vozes masculinas estranhas na minha casa.
_Filha você está aí?_ mamãe deve ter visto minhas bagagens ainda na sala. Eu esperei que ela viesse até mim na cozinha.
_Oi mãe._ eu disse colocando minha xícara na mesa e indo abraça-la. Meus olhos não se fecharam atrás dela, eu procurava pelo visitante misterioso. Um homem de meia idade parecendo muito distinto surgiu na porta. Ele tinha um rosto benigno e seus cabelos grisalhos bem cortados davam-lhe certo charme. Ele me olhava com curiosidade, mas não teve a reação que eu temia._ Senti sua falta._ eu respirei aliviada que o feitiço estava funcionando e pude relaxar nos braços de minha mãe.
_Eu é que senti filha, você não imagina. Como está linda! Deixa-me ver você._ ela se afastou de mim e correu os olhos pelo meu corpo e voltou a me olhar nos olhos_ Linda demais, mas parece triste, o que foi?_ ela estreitou os olhos e se voltou para olhar seu convidado, de repente se lembrado que ele estava ali e medindo a sua reação, como eu tinha feito. Ele continuava quieto com um sorriso agradável no rosto esperando ser apresentado. Mamãe se iluminou quando viu uma reação tão positiva. Ela abriu um largo sorriso._ Funcionou! Deu certo. É maravilhoso!_ ela me abraçou de novo e logo me soltou e foi em direção ao homem_ Helene esse é Rodolfo. Nós estamos nos conhecendo e... _ ela parecia não saber como definir o relacionamento deles.
_Sou o namorado de sua mãe._ ele completou com bom humor_ É um prazer finalmente conhecer você._ ele me ofereceu sua mão com entusiasmo. Eu regredi na mesma hora lembrando que se eu o tocasse ele estaria ultrapassando os limites do bloqueio.
_O prazer é meu._ eu disse, me esquivando_ desculpe não pegar sua mão, mas estou com um problema e não posso tocá-lo. _ ele olhou confuso para minha mãe. Ela também não estava entendendo. Eu resolvi ser direta e verdadeira, afinal se eles tinham um relacionamento teriam que entender minhas limitações._ Mãe. Você sabe aquele problema que eu fui resolver na França? _ ela concordou com a cabeça_ Então, eu consegui uma solução paliativa que nada adianta se encostarem em mim._ vi no olhar de mamãe que ela entendeu.
_Então é isso. Isso já é um grande avanço. _ ela disse animada. O tal Rodolfo continuava nos olhando sem entender_ Querido eu te explicarei tudo depois, agora vamos tomar um chá e ouvir sobre a viagem de Helene. _ ele concordou e eu gelei. O que poderia dizer a eles? Sobre as compras e os passeios. Sim, isso estava bom.
Depois de muitos chás e conversas, descobri que Rodolfo era um cara muito legal e bem humorado. Mamãe ria de tudo que ele dizia. Eles estavam visivelmente apaixonados e felizes. Entreguei os presentes que trouxe para ela que adorou tudo. Depois levei minhas roupas para o quarto. Ela deixou seu namorado abandonado na sala vendo TV para me ajudar a guarda-las no meu guarda-roupa. Tirando todas as velhas e colocando as novas. Tive que segurar algumas coisas de minha preferencia, ou ela teria jogado tudo fora.
_Estou muito feliz por você meu amor._ mamãe me abraçou e novo_ Mas por que parece estar triste?
_ Eu tive que me despedir de Victor e de Sebastian. Vou sentir falta deles._ disse a versão simplificada da verdade.
_Mas, por quê?  Eles foram embora porque você não escolheu nenhum dos dois?_ ela tinha o cenho franzido de novo_ ou foi por que o encanto acabou? Não me diga que foi isso que os afastou?
_Não foi isso. Na verdade, eu vi que nenhum deles tem nada haver comigo. Nossas vidas são totalmente diferentes.
_Entendo. Então você considera o Rafael?
_Não, nem ele. _ suspirei profundamente.
_Filha eu não entendo você, se quisesse mesmo ficar sozinha estaria feliz em dispensar esses homens lindos que te querem, mas você não está. O que pretende? Eu sei que você não teve nenhum relacionamento para saber, mas não vai encontrar nenhum que seja perfeito, ou livre de problemas. Sempre temos que abrir mão de coisas para termos outras.
_Eu sei, mas está dizendo que se eu me casasse com o Victor e tivesse que ir para outro país com ele estaria tudo bem? E você mamãe?
_Querida, se você o amasse de verdade não deveria pensar em mais nada, nem em mim. Eu sentiria sua falta, mas você é uma mulher adulta e deve viver sua vida. Não sou dependente de você e nem você de mim, não mais.
_Você tem razão. Eu acho que estou muito perdida e não sei o que devo ou não fazer. Nunca tive tantas opções.
_Ah meu amor! Não fique assim, na sua idade nada é definitivo. Tome seu tempo para colocar as coisas no lugar, então estará mais preparada para decidir a sua vida._  ela sorriu e eu sorriu de volta tentando fazê-la se sentir melhor, mas meu coração se apertou ainda mais ao lembrar que eu já tinha feito escolhas definitivas, mesmo antes de estar preparada. _ Agora descanse. Amanhã será um novo dia para você. Um dia de liberdade total. Será maravilhoso! E vamos poder planejar uma grande festa de aniversário. Tenho vários amigos que querem te conhecer.
Meu aniversário! Eu nem estava lembrando mais disso. Seria depois de amanhã. Será que eu mudaria depois que completasse vinte e um anos?
Quando finalmente minha mãe me deixou sozinha no quarto eu me joguei na cama e me rendi ao desanimo. A atmosfera pesada sobre mim, era o que me deixava cansada. Eu não tinha me arrependido de ter feito nada, sabia que era tudo parte do que era necessário para conseguir a vida que eu queria, mas ainda assim, sentia os efeitos da energia escura que Katherine me envolveu. E também sentia a profunda solidão por ter liberado meus pretendentes. Essa última era a pior. O vazio que tinha por dentro me consumia completamente agora. O ar entrava em meus pulmões que pareciam grandes demais. Meu coração batia muito leve, como se estivesse completamente vazio.  O sentimento era muito ruim.
Percebi que ficar deitada sem dormir não estava me fazendo descansar, só me concentrava no mal estar que estava sentindo, então me levantei para ir tomar banho e poder dormir. Torcia para que conseguisse. Fui até o armário e peguei uma camisola de ceda que tinha visto na vitrine de uma loja cara de Paris e tinha me apaixonado. Ela era longa justa ao corpo. Sua cor era de um vermelho profundo e fascinante. Victor insistiu para que eu experimentasse. Eu nem queria entrar na loja, claro, o luxo era intimidador demais, mas ele não me deixou sair de lá sem me presentear com ela. Decidi usá-la na minha primeira noite em casa, na minha nova vida.
Dessa vez a água não me ajudou muito. Eu estava  realmente cansada e angustiada. A dúvida de se minha decisão tinha sido a coisa certa ou não, me torturava cada vez mais. Mas como Victor disse, era no que eu acreditava e não podia agir de outra forma. Saí do banheiro secando os camelos com uma toalha.
_Helene._ tomei um susto e me virei imediatamente para a janela. Rafael estava lá parado com o rosto mais tenso que já tinha visto nele, salvo aquele dia da transformação. Quis tirar aquela imagem da minha cabeça e recebe-lo amigavelmente, mas sua expressão sombria não me permitiu isso.
_Rafael, o que está fazendo aqui?
_Preciso falar com você, é muito sério. _ ele me olhava com o rosto contraído, como se não estivesse me reconhecendo.
_O que há de errado com você?_ perguntei confusa e com medo.
_Eu é que pergunto, o que diabos fizeram com você? _ ele rosnou. Entendi que de alguma forma ele podia ver o bloqueio escuro a minha volta. _ Júlio tinha razão. Poluíram você! Mas por que fizeram isso?
_Ninguém me poluiu Rafa, eu pedi para que me ajudassem a ser normal e esse foi o único jeito._ expliquei sem vontade e voltei ao banheiro para pendurar minha roupa. Quando me vi no espelho lembrei que estava naquela camisola absurdamente sensual e fiquei constrangida por Rafa ter me visto assim. Tinha que pedir para ele ir embora, afinal já era tarde e eu estava cansada da viagem, mas antes eu queria saber por que ele tinha invadido meu quarto, ele não costumava fazer isso, era um hábito de Sebastian. Sacudi minha cabeça para me livrar desse pensamento_ E quem é Júlio?_ voltei para o quarto, me sentei na cama e me cobri com a colcha.
_Júlio é o lobo Alfa. _ ele vacilou um pouco e caminhou na minha direção_ Helene o que fizeram com você foi errado, transgrediram todas as regras que envolvem a Pura. Júlio não vai permitir isso e eu tive que implorar para vir falar com você antes dele. Entenda eu tenho que obedecê-lo, não tenho escolha.
_Ele virá aqui falar comigo? Falar o que?_ eu o encarei confusa_ Rafa depois de tanto tempo sem ver você e quando aparece é com essa conversa?
_Helene, é sério. Eu vim falar com você, mas ele vai leva-la, querendo ou não. _ seu rosto estava contrariado.
_Me levar para onde?
_Não se preocupe ninguém vai te machucar. Ele apenas quer garantir que a Pura cumpra seu destino.
_Eu não vou a lugar nenhum Rafa, eu não quero cumprir nenhum destino da Pura. Fui à Paris para encontrar a bruxa que podia mudar tudo. Não quero escolher nenhum de vocês. Eu não quero._ eu estava desesperada e irritada. Quem esse tal Júlio alfa não sei do que, pensava que era para interferir na minha vida.
_Não terá que escolher mais._ Rafa disse cuidadosamente_ Júlio sabe que você dispensou os outros, nós temos uma anciã, esposa de um dos lobos que tem poderes e pôde ver tudo o que você fez. Ela disse que agora você só tem uma escolha, eu._ vi um brilho fraco nos olhos dele_ Então quando você completar vinte e um anos me escolherá e poderemos purificar nossa raça. Isso é muito importante para a matilha.
_Isso é um absurdo! Eu não posso dispensar você, então será meu escolhido? _ eu gritei.
_É no que todos lá acreditam._ ele estava constrangido.
_Rafa, eu sei que você gosta de mim, mas não acredito que usaria desse tipo de artifício para que eu fique com você.
_Eu nunca faria isso Helene, mas não estou no comando, eu tenho que obedecê-lo. Peço que venha comigo, antes que eles venham aqui para leva-la contra sua vontade. Os lobisomens não são maus, mas eles são muito facilmente irritáveis e estão aborrecidos com a sua atitude. Sentem-se prejudicados pela Pura já por séculos, quando elas não os escolhiam, agora você abre mão de tudo nos tirando outra chance. Não vão deixar. Eu sinto muito.
_Está me dizendo que se eu não for por vontade própria eles vão me sequestrar?_ mal terminei a frase e ouvi um uivo alto do lado de fora da casa e meu corpo estremeceu.
_Helene, precisamos ir. Será melhor não envolver sua mãe nisso._ minha mãe, eu pensei, ela deve ter ouvido o lobo.
_Meu Deus! Mande-o embora.
_Não posso. Só vão sair daqui com você.
_Por que tenho que ir junto? O que eles querem?
_Querem garantir que você esteja perto de mim para me escolher, por que se você for para longe isso pode nunca acontecer.
_Isso não é justo Rafa!
_Eu sei. Eu sinto muito, mas te imploro Helene. _ Rafa veio em minha direção, mas antes que ele chegasse, um homem enorme surgiu no meu quarto. Ele era mais moreno do que Rafa e duas vezes maior em musculatura. Eu tremi quando o vi caminhando até mim. Ele não disse nada apenas me apanhou nos braços como se eu fosse uma boneca de pano e me levou para a janela.
_Me solta! _ eu gritei, mas me arrependi. Se minha mãe ouvisse ela viria ver o que estava acontecendo e eles poderiam fazer algo com ela.
_Júlio, eu a levo, eu disse que levaria._ Rafa pediu enérgico, mas com respeito.
_Demora demais. Não temos a noite toda. _ ele me segurou possessivamente e quando ele me olhou vi o desejo nos olhos dele. Seu rosto era vincado e duro. Podia dizer que era jovem, mas a rigidez de suas expressões o tornava sério como um homem velho. Era de uma beleza forte e rude. _tive medo. Muito medo. Ele estava me tocando, então o feitiço não me protegia dele. O que aquele homem gigante faria comigo?
Ele não se demorou com conversas. Com um movimento rápido me levou para fora da janela e correu comigo em seus braços para as pedras. Agarrei-me em seu corpo instintivamente, com medo da velocidade que ele corria. Estava apavorada demais para falar alguma coisa. Desejei não ter colocado aquela camisola, a seda roçava na minha pele e nos braços fortes de Júlio. Eu podia sentir a provocação que aquele tecido fino fazia nele, mas ele resistia. Existia uma firme determinação dentro daquele homem. Mas até quando ele aguentaria? Isso era difícil saber.
 Meu único conforto era ver Rafa correndo ao nosso lado o tempo todo. Subíamos e descíamos no meio a um matagal que eu nem sabia que existia ali. Aos poucos percebi que não estávamos sós, passos pesados e sons de rosnados estranhos estavam a nossa volta. Era assustador. Imaginei outros lobisomens, mas eles deveriam estar totalmente transformados escondidos na escuridão da mata.
Não sei por quanto tempo fui carregada. Pareceu uma eternidade. Eu queria gritar, mas não conseguia. Sentia-me estranhamente presa nos braços daquele homem estranho e medonho.
Chegamos a uma espécie de clareira e logo vi luzes acesas e as sombras de pequenas casas. Júlio me levou até uma delas e me colocou em um quarto que tinha uma cama de solteiro e uma mesinha apenas. Rafa entrou junto conosco e não tirava os olhos de mim nem por um segundo.
_Ela ficará aqui. Amanhã Dona Berta virá retirar o feitiço.
_Não._ disse tentando me levantar, mas estava tonta e fraca_ o Homem rude só olhou para mim por um segundo, mas ele me ignorava o tempo todo.
_Ela não vai tentar fugir. Não terá forças para isso. A escuridão a sua volta lhe consome a cada hora. Mas você Rafael, nem pense em tentar leva-la. A casa está cercada e as consequências não seriam boas para você se tentasse. _ Rafael o encarou furioso, mas algo no olhar firme de Júlio o fez baixar o olhar lentamente.
_Helene, me perdoe._ Rafa se abaixou perto da cama quando ficamos a sós_ Tiraria você daqui se pudesse, eu juro.
_Eu não entendo Rafa, eles não têm o direito de fazer isso comigo._ minha cabeça girou ainda mais com minhas palavras e eu tive que me deitar. O travesseiro tinha o cheiro de Rafa, então imaginei que deveria ser onde ele dormia agora que morava junto com a matilha. Seu cheiro gostoso e familiar me acalmou.
_Eles pensam que tem esse direito. Eu sinto muito.
_Você não pode se negar... a ficar comigo?_ eu me esforcei a dizer, minha consciência quase se perdendo.
_Como eu me negaria a você? Seria como arrancar o meu coração._ ouvi sua voz sumindo e afundei na inconsciência.
Liberta! Limpa! Vá embora toda sombra!”
Uma voz rouca e firme penetrou em meus sonhos confusos e me trouxe lentamente de volta a vigília. Abri os olhos, piscando várias vezes para focar as imagens. O quarto estava escuro, a luz fraca que vinha da janela era insuficiente para me permitir distinguir todas as formas, Imaginei que estivesse quase amanhecendo, mas mesmo com pouca luz, pude ver que a pessoa ao lado da cama, que falava com tanta propriedade, era uma mulher pequena e idosa. Ela tinha cabelos muito escuros, curtos ou presos, e sua pele apresentava rugas finas em volta dos olhos que permaneciam fechados enquanto ela fazia uma espécie de oração, com as mãos estendidas em direção ao meu corpo deitado.