terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Cap. 1



_Se eu pudesse dizer que alguma visão chega perto de ser tão linda quanto você seria essa, com certeza._ Rafa olhou pra mim com um sorriso travesso.
_Não seja bobo Rafa, Essa vista é de longe mais linda que qualquer coisa._ voltei meus olhos para o horizonte alaranjado pelo por do Sol.
 A linha firme que o mar traçava entre o seu azul e o azul do céu era tão reta que parecia sólida. Imaginei-me caminhando sobre ela e tocando a bola avermelhada que estava baixando lentamente para se esconder até o próximo dia.
_Eu estive pensando..._Rafa quebrou o silencio, mas sua voz estava um tanto insegura, o que me chamou a atenção. Eu tinha razão, seu rosto era incerto.
_Diga._ eu encorajei com um meio sorriso.
_Não quero que se ofenda..._ele vacilou.
_Não vou me ofender Rafa, pode falar qualquer coisa comigo, você sabe._ Rafa nunca tinha me magoado, pelo contraio, ele sempre fazia de tudo para me proteger de tudo.
_Talvez... Só talvez, você não seja exatamente igual a nós.
_Como assim? Eu acho que é muito claro que eu não sou igual a ninguém.
_Sim, mas, e se você for realmente diferente, quero dizer, se você não for daqui, se não for humana.
_Um ET? _eu sorri_ eu já pensei sobre isso. Na verdade eu até conversei com a mamãe, mas ela disse que não tem nenhuma chance de eu não ser filha dela. Eu nasci de parto normal quase sem nenhuma dor e tão rápido que não houve tempo de ir ao hospital. Ela disse que nunca esqueceria os meus grandes olhos da cor do mar olhando conscientemente pra ela._ eu desviei meus olhos para o mar quando a lembrança, vaga, mas presente daquele dia veio a minha mente. Eu me lembrava de tudo. De cada momento da minha vida desde o nascimento e isso também não parecia ser comum entre as pessoas.
_Eles têm mesmo a cor do mar. _Rafa falou buscando meus olhos, um tanto distraído. _Também mudam de tonalidade assim como ele. Hoje estão tão claros e azuis como essas águas.
_Vamos pra casa, você já está vermelho e suado como um porco Rafa._ Eu falei me levantando.
 _Tira essa onda porque isso não acontece com você, sua ET nascida de mulher. Talvez seu pai fosse um ET, isso você não perguntou sua mãe não é?_ Rafa estava brincando, mas sei que era o que ele estava querendo saber afinal.
Virei-me pra ele rápido demais e quase esbarrei em seu rosto, eu não sabia que ele também tinha se levantado. Seus olhos redondos e marrons estavam fixos nos meus. Seu rosto estava mais quadrado e masculino do que eu me lembrava, tinha muito tempo que não o olhava tão de perto, ou com tanta atenção. Seus lábios grossos e bem desenhados estavam entreabertos, seu hálito era almiscarado e parecia ser algo saboroso de se provar. Senti um aperto na garganta e um calor que não vinha do Sol.
Quando fui falar percebi que também estava com minha boca um pouco aberta.
_Meu pai era humano, eu me lembro dele._ minha voz saiu num sussurro. Rafa não respondeu. Estava paralisado olhando pra mim.  Pude sentir a energia que vinha dele, de seu corpo. _Rafa, é melhor agente ir agora..._ eu ia me afastando, mas ele segurou meu braço e trouxe para mais perto. Os grandes músculos de seu braço se tencionaram ao me segurar firme em seu peito. Meu corpo se colou completamente no dele e por um momento só o que eu tinha consciência era do seu cheiro quente e amadeirado invadindo minha cabeça. _Rafa,_ eu chamei sem vontade, mas tinha alguma coisa na minha mente que dizia que era muito errado estar assim com ele, mesmo que meu corpo começasse finalmente a responder ao seu, eu sabia que não devia.
_Eu acho que não consigo deixar você ir agora._ ele falou com esforço, parecia ter algo preso em sua garganta. Nossas respirações estavam aceleradas, senti meu coração disparar e a onda de calor e sensações que ultimamente eu vinha sentindo do nada, surgiu com força me assustando. Era como uma alucinação, quase uma fantasia erótica com imagens e desejos que eu nunca tinha sentido. Um tipo de eletricidade que corria em minha pele como se fosse tocada por um homem que me fazia querer cada vez mais.
_Não._ Eu quase gritei e ele me soltou.
_Me desculpe._ Rafa falou suspirando forte e se curvou apoiando as mãos nos joelhos.
Eu me senti arrependida por tê-lo rejeitado. Por que eu não podia simplesmente ficar com ele? Ele era bonito, inteligente e cuidava de mim. Além do mais eu o amava, não do jeito que era necessário, mas amava.
_Não é culpa sua, não precisa se desculpar. _ minha mão foi em sua direção num impulso por consolá-lo, mas achei que não seria boa ideia, então a recolhi no meu peito. _ Vem, vamos lá pra casa, você pode tomar um banho e fazer um lanche comigo, depois temos que ir à cidade comprar um presente para o aniversário da minha mãe. _tentei manter um sorriso no rosto, eu sabia que ele saberia que eu estava sorrindo, mesmo sem olhar para mim. Rafa levantou os olhos brevemente e vi que ele estava decidindo. Ele preferia ir embora, mas cedeu ao meu pedido, como sempre.
_Só se você fizer bolinhos de chuva pra mim._ ele bateu a areia da bermuda e se ergueu. Seu rosto estava perfeitamente refeito. Rafa já tinha se acostumado a se refazer dessas situações comigo. Éramos amigos desde o pré-escolar e ele foi o único que conseguiu conviver comigo depois das mudanças da minha puberdade.
_Mas nem está chovendo! _ coloquei minhas mãos na cintura fazendo uma cena de brincadeira.
_Isso não é problema._ ele correu para uma onda que tinha quebrado muito próxima de nós e salpicou água em mim_ se é de chuva que você precisa.
Eu corri para longe dele toda molhada e rindo.
_Rafa, você é um peste! _Corri pra casa e ele me seguiu correndo também, logo ele me ultrapassou com facilidade.
_Você é muito lenta! Tomara que nunca tenha que fugir de ninguém de verdade._ Ele chegou à varanda sorrindo, mas seu sorriso se anuviou quando ele disse a ultima frase. Eu fingi que não percebi seus temores.
Bati minha bermuda de malha, que era comprida até os joelhos. Era o que eu usava para ir à praia. Eu não podia colocar um biquíni nem nada parecido, já tinha atenção demais completamente vestida.
_Acho melhor você tirar essa areia antes de entrar ou minha mãe vai ter um ataque.
_Não sei por que, é você quem limpa a casa mesmo._ Ele disse passando as mãos pelo corpo para soltar a areia presa em sua pele bronzeada. Reparei em como seu peito estava definido, sabia que Rafa malhava, era uma das poucas coisas que ele fazia na vida, além de me paparicar, mas de repente eu estava muito consciente de suas formas, de sua presença masculina. _Já estou limpo? _ ele perguntou olhando curiosamente pra mim. Percebi que o estava encarando, na verdade eu o estava “secando”.
_Está bom._  respondi sem graça, minhas palavras pareceram ter duplo sentido. Ele sorriu, e entrou na casa aberta.
 _Faça bastante, está muito bom! _Rafa comeu o que seria seu décimo bolinho.
_Tenho que dizer, depois que você começou a malhar está ficando difícil sustentar seus novos músculos._ Tirei mais uns bolinhos da frigideira e coloquei no prato com a toalha de papel. Percebi que ele não fez nenhuma piada disso então me virei para olhá-lo. Rafa estava pensativo, pegando mais um bolinho no cestinho da mesa. _O que foi?
_Eu nunca disse que estava malhando._ ele enfatizou a ultima palavra de um jeito estranho.
_Bom, mas você está sempre dizendo que vai a academia, não é para malhar?_ eu estava confusa.
_Não. Não estou indo em uma academia para malhar._ ele se mexeu desconfortavelmente na cadeira.
_Então para que?
_É uma academia de tiro, você precisa fazer algumas aulas para ter um porte de armas._ ele falou me olhando apreensivo, como se fosse uma confissão._ eu já terminei as aulas e adquiri o documento, vou escolher uma arma hoje.
_Você tá brincando não é?_ vacilei por um estante, mas seu rosto continuou sério, então vi que era verdade._ Por que você quer uma arma Rafa?
_Para proteção, nada demais._ ele disse simplesmente, mas eu sabia qual era a sua intenção.              
_Para minha proteção você quer dizer. _ falei sério e me virei para apagar o fogo da frigideira. Aquilo não era bom, meu rosto queimou de indignação.
_Helene é só por precaução, não precisa se preocupar com isso, só vou usar em último caso.
_Rafael Silva, armas são perigosas. Não importa o quanto você saiba lidar com elas. Eu não gosto disso, não mesmo._ tentei manter minha voz dura, alta e até grossa, mas acho que não funcionou. Rafa olhou pra mim segurando um sorriso que de repente se explodiu em uma gargalhada. _Do que você está rindo? _perguntei irritada.
_Desculpe Helene, mas tem tanto tempo que não escuto você me chamar pelo nome completo que eu voltei à infância por um segundo. Você sempre fica ainda mais adorável quando tenta ficar brava. _ele continuou rindo e sacudindo a cabeça. Percebi que ele evitava me olhar.
_Rafa, esse não é o ponto. Afinal, eu não quero você se arriscando tanto por minha causa.
Ele parou de rir e se levantou olhando para mim, seus olhos estavam intensos. Ele deu um passo na minha direção, mas parou.
_Por sua causa... _ele pausou procurando as palavras_ eu daria minha vida por você. E se eu tiver que atirar em alguém para te proteger, Helene, não tenha dúvida que eu atirarei. Não vou deixar ninguém tocar em você de novo. Nunca me perdoei por aquele dia, por não estar lá.
_Rafa você precisa esquecer aquilo, não foi culpa sua, você não é obrigado a me proteger.
_Obrigado não, mas eu quero. Eu não vejo que tenho outra escolha. Você precisa de proteção Helene e parece que precisará, cada vez mais.
_Do que você está falando? Como assim cada vez mais?_ também dei um passo para mais perto dele tentando decifrar seu rosto por trás de suas meias palavras.
_Eu não tenho certeza_  ele se afastou, desviando os olhos de mim._ mas parece que você está mudando, está mais atraente a cada dia. Como uma flor que está desabrochando e exalando seu perfume por toda parte. Logo as abelhas virão aos enxames. E eu vou estar preparado.
_Rafa..._meu queixo caiu. Era por isso que ele tem andado tão preocupado e suas quedas por mim tão mais frequentes.
_Não fique preocupada demais, talvez seja só eu que estou imaginando coisas. _ ele me olhou de novo com um sorriso tranquilo. _vamos à cidade, você não disse que queria ir comprar um presente para sua mãe?
Meu Deus ele tinha razão. Talvez ele estivesse percebendo o tempo todo que eu estava diferente, que eu sentia coisas agora. Coisas que eu nunca senti. E se ele podia sentir, talvez os outros também pudessem. Talvez eu tivesse demonstrando isso, ou agindo de acordo com isso afinal. Esse pensamento me deixou em pânico. Já era muito difícil se desvencilhar da atração Exagerada que eu despertava nos homens desde que minha menstruação veio pela primeira vez. Fui atacada e quase estuprada aos doze anos a caminho da escola por estar usando uma saia. Um homem adulto foi o primeiro a me ver naquela manhã e não pode evitar me atacar. Foi Rafa que me salvou quando ouviu meus gritos abafados no matagal perto da estrada. Ele chegou bem na hora que o desconhecido deitava sobre mim com a mão abafando minha boca, depois de ter rasgado todas as minhas roupas. Até hoje eu não entendo como Rafa conseguiu me ouvir, ou como conseguiu bater num homem com o dobro de sua idade, e principalmente, como ele conseguiu me ver completamente nua e conter seus instintos de homem. Hoje eu sei que não deve ter sido fácil, contando com a experiência que tenho de problemas com todos os homens que colocam os olhos em mim. Tive que me afastar de todos. Amigos, conhecidos, parentes, amigas por causa dos seus namorados, todos. Só Rafa ficou. E minha mãe é claro.
_Eu não sei o que seria de mim sem você. _disse tristemente, angustiada com as lembranças.
Ele me olhou carinhosamente. Não era a primeira vez que eu disse isso a ele, mas acho que nunca foi com tanto sentimento. Rafa me abraçou apoiando meu rosto em seu peito como um bom amigo que ele era.
_Sabe que eu também não sei o que seria de mim se não fosse você. Acho que eu teria que procurar um emprego para ocupar o meu tempo._ ele acariciou meu cabelo docemente.
_Acho uma coisa boa que você seja um herdeiro rico. Assim você tem tempo para me paparicar o tempo todo.
Ele sorriu alto.
_Também acho que veio bem a calhar._ ele virou meu rosto pra cima para olhar para ele e secou uma lágrima que eu nem sabia que estava lá. _Pronta pra ir?
_Se você já estiver cheio de bolinhos de chuva, já podemos ir.
_Acho que ainda tem alguns pra eu comer enquanto você se arruma._ ele sorriu e seus olhos se aqueceram nos meus. Eu sorri de volta e me afastei gentilmente.
_Só vou demorar um minuto._ ele acenou com a cabeça uma vez _ Mas Rafa_ eu me lembrei de uma coisa _ Se você não está malhando, como é que está tão musculoso? _ ele me olhou um pouco surpreso com a minha pergunta.
_Acho que é a minha genética. Meu pai era um cara enorme. _ ele deu de ombros e voltou a comer. _ isso poderia ser possível. Rafa tinha minha idade e com vinte e um ele devia ter parado de crescer e começado a “criar corpo.” Concordei brevemente e fui para o meu quarto. Depois de um banho rápido me vesti com roupas simples e recatadas, como sempre, e saí. Encontrei Rafa na sala assistindo globo esporte, ele se virou para mim com olhar ambivalente.
_Pronto. Estou bem?_ sei que essa pergunta tinha um significado diferente no meu caso.
_Está bem. Melhor do que isso só se você usasse uma burca, o que não seria má ideia. _ele sorriu com o pensamento e eu mostrei a língua pra ele._ Mas mesmo assim é bom agente passar na loja de armas antes, afinal, vamos a um shopping né.
Rafa não ficou mais de vinte minutos na loja, eu estava esperando em sua pick-up Amarok de cor champanhe que chamava tanta atenção quanto eu na rua. Quando ele saiu tinha uma bonita maleta e uma sacola nas mãos.
_Tudo certo. _ele disse animado enquanto entrava no carro e retirava uma espécie de cinto da sacola. Ele esticou diante do seu peito e o “vestiu”. Nesse momento percebi que se tratava de uma cartucheira, como um colete. Ele o colocou em volta dos braços e o prendeu à frente do peito. Em seguida abriu a maleta, pegou o objeto horrível e colocou o pente com as balas. Eu virei meu rosto para não olhar.
_É uma Colt, como a que usei para treinar. _ele falou enquanto a colocava em seu colete.
_Acho isso um exagero muito perigoso.
_É só por precaução, já disse Helene. _ele deu a partida no carro e fomos acompanhando o preguiçoso tráfego do centro de Rio das Ostras tranquilamente.
Rafa sempre me levava para passear pela cidade, mesmo que na maioria das vezes não saíamos do carro, então eu estava familiarizada com as ruas, mas entrar no shopping era uma coisa que eu fazia muito raramente, e estava um pouco tensa com a ideia.
A pick-up entrou no estacionamento e alguns olhares masculinos me encontraram dentro do carro, e como era de se esperar, me estudaram com interesse. Eu me sentia como um experimento mal resolvido de um laboratório irresponsável. Não era nem de longe lisonjeiro para mim, ser o alvo de tanta atenção dos homens. Eu sentia que não era uma coisa natural, não tinha ideia do porque aquilo acontecia, mas sabia que não era pra ser assim.
Rafa estava muito sério. Ele mantinha o cenho fechado e intimidante.
_Pronta?_ ele disse quando parou na vaga mais próxima da saída que encontrou.
_Acho que sim. O quanto isso pode ser ruim?_ eu disse desanimada.
_Acho que só ficaria muito ruim se você entrasse no banheiro masculino por engano, e sem mim. Isso seria péssimo. _ele fez piada para me distrair e funcionou. Rafa tinha o dom de me fazer sentir melhor.
_Vamos acabar logo com isso._ falei e saí do carro. Rafa veio logo para o meu lado e segurou minha mão. Olhei rapidamente pra ele, mas já sabia por que ele fazia isso, para os outros pensarem que ele era meu namorado e se conterem. Isso funcionava, na maioria das vezes.
Pegamos um elevador e saímos direto no terceiro andar. Eu tinha uma ideia do que eu queria comprar, e sabia onde encontrar.
O shopping estava quase vazio, era segunda feira. Algumas moças e rapazes jovens estavam na frente do elevador esperando por ele quando saímos apressadamente. Pude ouvir os murmúrios dos meninos quando passei por eles. Rafa apertou minha mão e seguimos em direção á loja que eu procurava. Eu tinha visto um belo vestido no folheto dessa loja que mamãe levou para casa, então pensei que ele ficaria lindo nela.
_Essa aqui, eu o levei em direção a uma vitrine com muito vestidos.
Rafa entrou um pouco a minha frente olhando para todos os lados com a expressão concentrada. Eu gostaria de dizer que era uma reação exagerada, mas eu sabia que não era. Ele tinha razão em ter cuidado, já tínhamos passado por muitos problemas antes.
_Posso ajudar?_ uma jovem de cabelos curtos se aproximou de nós. Ela não parecia me notar, mas estava muito consciente do meu acompanhante. Não havia nenhum homem na loja o que me deixou aliviada. Mas tinha mais duas vendedoras que também se mostravam muito impressionadas com o Rafa. Seus olhos brilhavam para ele e seus rostos eram só sorrisos. Olhei para ele que ainda estava sério e percebi que ele era mesmo muito bonito. Raspei minha garganta propositalmente para que ela olhasse para mim e funcionou.
_Eu preciso de um vestido longo, floral no tamanho quarenta, por favor._ falei e ela olhou para mim por um momento avaliando.
_Claro. _ela disse e foi para trás do balcão._ tenho esses, ela colocou uma pilha de vestidos na minha frente. _É para você mesmo?
_Não, é um presente para minha mãe. _Vi no rosto dela que se perguntava como a filha poderia se vestir como uma velha e levar vestidos tão joviais para a mãe.

Escolhi a estampa que estava mais bonita e mandei embrulhar.
_Não vai levar um para você também? _ ela não resistiu em perguntar. Rafa olhou para mim por uma fração de segundo. Achei que ele deveria ter me imaginado em um daqueles vestidos.
_Não hoje. _eu respondi com um meio sorriso que não consegui segurar.
_Tudo bem, obrigada pela compra e votem sempre._ notei que ela disse isso olhando para Rafa. Ele não pareceu se dar conta.
Paguei pelo vestido e saí da loja, sempre escoltada por meu incansável amigo Rafa. Por que eu não podia simplesmente ficar com ele? Perguntei-me de novo.
_Parece que eu vou ter que te fazer uma escolta também._ eu brinquei.
_Hem? _ ele me olhou confuso.
_As garotas da loja pareciam que iam se atirar em você, não percebeu? _ bajulei um pouco.
_Não._ ele sorriu presumido.
_Elas te encaravam na maior cara de pau, mesmo me vendo ali com você. Como pode não ter percebido Rafa?_ eu disse incrédula.
Rafa vacilou, por um momento, pensei que ele não fosse responder, mas finalmente ele suspirou e disse:
_Eu não as vejo.
_Como assim, não as vê?
_Não vendo. São como a mobilha, ou a decoração que você mal repara, eu não sei. Não as vejo como mulheres. Nem de longe como eu vejo você. _ ele desviou o olhar de mim e senti que ele não queria mais falar sobre isso.
Era minha culpa, eu tinha certeza. Rafa passava muito tempo comigo e com essa intoxicação que era a minha presença ele se tornou incapaz de perceber as outras mulheres. Eu senti raiva de mim mesma. Eu continuei andando ao seu lado sem dizer nada. Aquilo não estava certo, mas o que eu ia fazer, eu precisava tanto dele. Não podia afastá-lo e no fundo do meu ser também tinha um tipo de sentimento diferente. Satisfação por ele ser só meu. Eu estava louca, esse só podia ser o motivo. Eu não aceitava Rafa como meu namorado, mas também não queria que ele ficasse com mais ninguém. Que monstro egoísta eu tinha me tornado.
_O que foi?_ Rafa me perguntou depois do meu silencio angustiado. Estávamos esperando o elevador.
_Nada._ respondi num sussurro.
_Não vai e contar?_ ele estava gentil.
_Estou com raiva de mim, só isso. Vai passar logo.
O elevador chegou não dando a chance de ele dizer nada. Quando entramos vi que tinha dois homens dentro. Quis correr dali, mas Rafa segurou minha mão com firmeza me encorajando.
Como era de se esperar eles fixaram os olhos em mim e acompanharam cada movimento meu. Estremeci quando um deles, o mais alto de cabelos loiros, esticou o braço na direção ao painel do elevador, passando muito perto de mim para apertar um botão que já estava apertado.
_Muito calor hoje, hem!_ o outro falou para mim. Seus olhos ardendo em chamas de um desejo anormal que tanto me repugnava. Eu apenas assenti com a cabeça.
_Você tem uma namorada muito bonita._ o loiro disse para Rafa que se contraiu todo ao meu lado. Mas ele também não disse nada, apenas acenou com a cabeça, seus lábios apertados em uma linha fina.
_Uma pena que ela esteja acompanhada não é Carlos._ eles comentavam entre si e eu fiquei chocada que estivessem realmente falando aquilo na frente de Rafa. Apertei mais firme em sua mão. Ele olhou furiosamente para os dois homens de meia idade que não tiravam os olhos de mim. Eu queria não olhar para eles, mas tinham se colocado bem na minha frente e meu pânico era muito grande para não olhar o perigo.
Graças a Deus o elevador chegou ao nosso estacionamento. Rafa teve que empurrar os homens para me dar passagem para sair. Meu corpo tremia como uma vara verde.
_Ei, não vão tão depressa. _um deles chamou. E ouvi seus passos atrás de nós_ vamos nos conhecer, fazer amizade, qual é o problema?
Rafa parou para enfrenta-los.
_Não queremos amizade com vocês. Agora vão embora._ a voz dele era grossa como nunca.
_Quanta grosseria. Sua mãe não te educou, talvez nós devíamos lhe dar uma boa lição._ eles se alinharam um ao lado do outro e percebi que eram fortes, tão fortes quanto Rafa, mas eles estavam em maior número. O terror tomou conta de mim quando lembrei-me que Rafa estava armado. ­Se ele atirasse e matasse esses homens, eu não podia nem imaginar isso.
_Vamos embora, por favor Rafa._ eu implorei puxando o seu braço.
 _Eles não vão deixar, tenho que resolver isso aqui._ seus olhos estavam fixos nos homens com determinação de um guerreiro. Ele não tinha nenhuma sombra de medo, apenas fúria.
Acenou para que eu me afastasse. Encostei-me no canto da parede com meu corpo todo tremendo. Os olhos famintos dos dois homens me seguiram e Rafa avançou sobre eles.
Foi uma luta violenta, eu não conseguia acompanhar, estava atordoada e apavorada. Senti cada golpe que atingia ao Rafa com desespero. Eu quis correr e pedir ajuda, mas não conseguia sair do lugar, e ainda tinha o fato de que se eu atraísse outros homens para mim seria ainda pior para o meu amigo.
Mas de algum modo Rafa estava vencendo. Ele abateu um e depois o outro os deixando caídos no chão do estacionamento.
_Venha, temos que sair logo daqui._ ele correu para mim e segurou minha mão, me levando para o carro. Eu não tinha certeza se conseguia usar minhas pernas.
_Você... Você não atirou._ eu estava gaguejando.
_Ainda não _ ele sorriu _ mas se a segurança do shopping nos alcançar vou ter que matar todos eles.
Eu olhei pra ele em pânico, e foi só aí que eu ouvi os apitos e os chamados dos seguranças que vinham em nossa direção.
Entramos no carro e saímos do estacionamento cantando pneus. Em poucos minutos estávamos na praia das conchas onde ficava minha casa.

4 comentários:

  1. amor, eu li esse capitulo e ja estou louca pelo proximo, jaja eu começo a ler o segundo capitulo. Esta ótimo, como sempre nao é querida ? continue com seu excelente trabalho! parabens ! (lari)

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  2. Obrigada querida! Adoro dividir isso com vc! Bjss

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  3. nossa adorei ate agora e se eu disser que achei ate a trilha sonora ,,,,,eu li ouvindo CHRISTINA PERRI

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  4. Que legal Patrícia! Vou conferir essa trilha, escrever com a música certa é muito inspirador. Eu tenho escutado: Fire in the water,heart of stone,Llovera,love death birth. são musicas temas dos filmes amanhecer 1 e 2.(Vício rsrs). Obrigada pelo carinho. Bjss

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