_Se eu pudesse dizer que alguma visão chega perto de ser tão
linda quanto você seria essa, com certeza._ Rafa olhou pra mim com um sorriso
travesso.
_Não seja bobo Rafa, Essa vista é de longe mais linda que
qualquer coisa._ voltei meus olhos para o horizonte alaranjado pelo por do Sol.
A linha firme que o
mar traçava entre o seu azul e o azul do céu era tão reta que parecia sólida. Imaginei-me
caminhando sobre ela e tocando a bola avermelhada que estava baixando
lentamente para se esconder até o próximo dia.
_Eu estive pensando..._Rafa quebrou o silencio, mas sua voz
estava um tanto insegura, o que me chamou a atenção. Eu tinha razão, seu rosto
era incerto.
_Diga._ eu encorajei com um meio sorriso.
_Não quero que se ofenda..._ele vacilou.
_Não vou me ofender Rafa, pode falar qualquer coisa comigo,
você sabe._ Rafa nunca tinha me magoado, pelo contraio, ele sempre fazia de
tudo para me proteger de tudo.
_Talvez... Só talvez, você não seja exatamente igual a nós.
_Como assim? Eu acho que é muito claro que eu não sou igual
a ninguém.
_Sim, mas, e se você for realmente diferente, quero dizer,
se você não for daqui, se não for humana.
_Um ET? _eu sorri_ eu já pensei sobre isso. Na verdade eu
até conversei com a mamãe, mas ela disse que não tem nenhuma chance de eu não
ser filha dela. Eu nasci de parto normal quase sem nenhuma dor e tão rápido que
não houve tempo de ir ao hospital. Ela disse que nunca esqueceria os meus
grandes olhos da cor do mar olhando conscientemente pra ela._ eu desviei meus
olhos para o mar quando a lembrança, vaga, mas presente daquele dia veio a
minha mente. Eu me lembrava de tudo. De cada momento da minha vida desde o
nascimento e isso também não parecia ser comum entre as pessoas.
_Eles têm mesmo a cor do mar. _Rafa falou buscando meus
olhos, um tanto distraído. _Também mudam de tonalidade assim como ele. Hoje
estão tão claros e azuis como essas águas.
_Vamos pra casa, você já está vermelho e suado como um porco
Rafa._ Eu falei me levantando.
_Tira essa onda porque
isso não acontece com você, sua ET nascida de mulher. Talvez seu pai fosse um
ET, isso você não perguntou sua mãe não é?_ Rafa estava brincando, mas sei que
era o que ele estava querendo saber afinal.
Virei-me pra ele rápido demais e quase esbarrei em seu rosto,
eu não sabia que ele também tinha se levantado. Seus olhos redondos e marrons
estavam fixos nos meus. Seu rosto estava mais quadrado e masculino do que eu me
lembrava, tinha muito tempo que não o olhava tão de perto, ou com tanta
atenção. Seus lábios grossos e bem desenhados estavam entreabertos, seu hálito
era almiscarado e parecia ser algo saboroso de se provar. Senti um aperto na
garganta e um calor que não vinha do Sol.
Quando fui falar percebi que também estava com minha boca um
pouco aberta.
_Meu pai era humano, eu me lembro dele._ minha voz saiu num
sussurro. Rafa não respondeu. Estava paralisado olhando pra mim. Pude sentir a energia que vinha dele, de seu
corpo. _Rafa, é melhor agente ir agora..._ eu ia me afastando, mas ele segurou
meu braço e trouxe para mais perto. Os grandes músculos de seu braço se
tencionaram ao me segurar firme em seu peito. Meu corpo se colou completamente
no dele e por um momento só o que eu tinha consciência era do seu cheiro quente
e amadeirado invadindo minha cabeça. _Rafa,_ eu chamei sem vontade, mas tinha
alguma coisa na minha mente que dizia que era muito errado estar assim com ele,
mesmo que meu corpo começasse finalmente a responder ao seu, eu sabia que não
devia.
_Eu acho que não consigo deixar você ir agora._ ele falou
com esforço, parecia ter algo preso em sua garganta. Nossas respirações estavam
aceleradas, senti meu coração disparar e a onda de calor e sensações que
ultimamente eu vinha sentindo do nada, surgiu com força me assustando. Era como
uma alucinação, quase uma fantasia erótica com imagens e desejos que eu nunca
tinha sentido. Um tipo de eletricidade que corria em minha pele como se fosse
tocada por um homem que me fazia querer cada vez mais.
_Não._ Eu quase gritei e ele me soltou.
_Me desculpe._ Rafa falou suspirando forte e se curvou
apoiando as mãos nos joelhos.
Eu me senti arrependida por tê-lo rejeitado. Por que eu não
podia simplesmente ficar com ele? Ele era bonito, inteligente e cuidava de mim.
Além do mais eu o amava, não do jeito que era necessário, mas amava.
_Não é culpa sua, não precisa se desculpar. _ minha mão foi
em sua direção num impulso por consolá-lo, mas achei que não seria boa ideia, então
a recolhi no meu peito. _ Vem, vamos lá pra casa, você pode tomar um banho e
fazer um lanche comigo, depois temos que ir à cidade comprar um presente para o
aniversário da minha mãe. _tentei manter um sorriso no rosto, eu sabia que ele
saberia que eu estava sorrindo, mesmo sem olhar para mim. Rafa levantou os
olhos brevemente e vi que ele estava decidindo. Ele preferia ir embora, mas cedeu
ao meu pedido, como sempre.
_Só se você fizer bolinhos de chuva pra mim._ ele bateu a
areia da bermuda e se ergueu. Seu rosto estava perfeitamente refeito. Rafa já
tinha se acostumado a se refazer dessas situações comigo. Éramos amigos desde o
pré-escolar e ele foi o único que conseguiu conviver comigo depois das mudanças
da minha puberdade.
_Mas nem está chovendo! _ coloquei minhas mãos na cintura
fazendo uma cena de brincadeira.
_Isso não é problema._ ele correu para uma onda que tinha
quebrado muito próxima de nós e salpicou água em mim_ se é de chuva que você
precisa.
Eu corri para longe dele toda molhada e rindo.
_Rafa, você é um peste! _Corri pra casa e ele me seguiu
correndo também, logo ele me ultrapassou com facilidade.
_Você é muito lenta! Tomara que nunca tenha que fugir de
ninguém de verdade._ Ele chegou à varanda sorrindo, mas seu sorriso se anuviou
quando ele disse a ultima frase. Eu fingi que não percebi seus temores.
Bati minha bermuda de malha, que era comprida até os joelhos.
Era o que eu usava para ir à praia. Eu não podia colocar um biquíni nem nada
parecido, já tinha atenção demais completamente vestida.
_Acho melhor você tirar essa areia antes de entrar ou minha
mãe vai ter um ataque.
_Não sei por que, é você quem limpa a casa mesmo._ Ele disse
passando as mãos pelo corpo para soltar a areia presa em sua pele bronzeada.
Reparei em como seu peito estava definido, sabia que Rafa malhava, era uma das
poucas coisas que ele fazia na vida, além de me paparicar, mas de repente eu
estava muito consciente de suas formas, de sua presença masculina. _Já estou
limpo? _ ele perguntou olhando curiosamente pra mim. Percebi que o estava
encarando, na verdade eu o estava “secando”.
_Está bom._ respondi sem
graça, minhas palavras pareceram ter duplo sentido. Ele sorriu, e entrou na
casa aberta.
_Faça bastante, está
muito bom! _Rafa comeu o que seria seu décimo bolinho.
_Tenho que dizer, depois que você começou a malhar está
ficando difícil sustentar seus novos músculos._ Tirei mais uns bolinhos da
frigideira e coloquei no prato com a toalha de papel. Percebi que ele não fez
nenhuma piada disso então me virei para olhá-lo. Rafa estava pensativo, pegando
mais um bolinho no cestinho da mesa. _O que foi?
_Eu nunca disse que estava malhando._ ele enfatizou a ultima
palavra de um jeito estranho.
_Bom, mas você está sempre dizendo que vai a academia, não é
para malhar?_ eu estava confusa.
_Não. Não estou indo em uma academia para malhar._ ele se
mexeu desconfortavelmente na cadeira.
_Então para que?
_É uma academia de tiro, você precisa fazer algumas aulas
para ter um porte de armas._ ele falou me olhando apreensivo, como se fosse uma
confissão._ eu já terminei as aulas e adquiri o documento, vou escolher uma
arma hoje.
_Você tá brincando não é?_ vacilei por um estante, mas seu
rosto continuou sério, então vi que era verdade._ Por que você quer uma arma
Rafa?
_Para proteção, nada
demais._ ele disse simplesmente, mas eu sabia qual era a sua intenção.
_Para minha proteção você quer dizer. _ falei sério e me
virei para apagar o fogo da frigideira. Aquilo não era bom, meu rosto queimou
de indignação.
_Helene é só por precaução, não precisa se preocupar com
isso, só vou usar em último caso.
_Rafael Silva, armas são perigosas. Não importa o quanto
você saiba lidar com elas. Eu não gosto disso, não mesmo._ tentei manter minha
voz dura, alta e até grossa, mas acho que não funcionou. Rafa olhou pra mim
segurando um sorriso que de repente se explodiu em uma gargalhada. _Do que você
está rindo? _perguntei irritada.
_Desculpe Helene, mas tem tanto tempo que não escuto você me
chamar pelo nome completo que eu voltei à infância por um segundo. Você sempre
fica ainda mais adorável quando tenta ficar brava. _ele continuou rindo e
sacudindo a cabeça. Percebi que ele evitava me olhar.
_Rafa, esse não é o ponto. Afinal, eu não quero você se arriscando
tanto por minha causa.
Ele parou de rir e se levantou olhando para mim, seus olhos
estavam intensos. Ele deu um passo na minha direção, mas parou.
_Por sua causa... _ele pausou procurando as palavras_ eu
daria minha vida por você. E se eu tiver que atirar em alguém para te proteger,
Helene, não tenha dúvida que eu atirarei. Não vou deixar ninguém tocar em você
de novo. Nunca me perdoei por aquele dia, por não estar lá.
_Rafa você precisa esquecer aquilo, não foi culpa sua, você
não é obrigado a me proteger.
_Obrigado não, mas eu quero. Eu não vejo que tenho outra
escolha. Você precisa de proteção Helene e parece que precisará, cada vez mais.
_Do que você está falando? Como assim cada vez mais?_ também
dei um passo para mais perto dele tentando decifrar seu rosto por trás de suas
meias palavras.
_Eu não tenho certeza_
ele se afastou, desviando os olhos de mim._ mas parece que você está mudando,
está mais atraente a cada dia. Como uma flor que está desabrochando e exalando
seu perfume por toda parte. Logo as abelhas virão aos enxames. E eu vou estar
preparado.
_Rafa..._meu queixo caiu. Era por isso que ele tem andado
tão preocupado e suas quedas por mim tão mais frequentes.
_Não fique preocupada demais, talvez seja só eu que estou
imaginando coisas. _ ele me olhou de novo com um sorriso tranquilo. _vamos à
cidade, você não disse que queria ir comprar um presente para sua mãe?
Meu Deus ele tinha razão. Talvez ele estivesse percebendo o
tempo todo que eu estava diferente, que eu sentia coisas agora. Coisas que eu nunca
senti. E se ele podia sentir, talvez os outros também pudessem. Talvez eu
tivesse demonstrando isso, ou agindo de acordo com isso afinal. Esse pensamento
me deixou em pânico. Já era muito difícil se desvencilhar da atração Exagerada
que eu despertava nos homens desde que minha menstruação veio pela primeira
vez. Fui atacada e quase estuprada aos doze anos a caminho da escola por estar
usando uma saia. Um homem adulto foi o primeiro a me ver naquela manhã e não
pode evitar me atacar. Foi Rafa que me salvou quando ouviu meus gritos abafados
no matagal perto da estrada. Ele chegou bem na hora que o desconhecido deitava
sobre mim com a mão abafando minha boca, depois de ter rasgado todas as minhas
roupas. Até hoje eu não entendo como Rafa conseguiu me ouvir, ou como conseguiu
bater num homem com o dobro de sua idade, e principalmente, como ele conseguiu
me ver completamente nua e conter seus instintos de homem. Hoje eu sei que não
deve ter sido fácil, contando com a experiência que tenho de problemas com
todos os homens que colocam os olhos em mim. Tive que me afastar de todos.
Amigos, conhecidos, parentes, amigas por causa dos seus namorados, todos. Só
Rafa ficou. E minha mãe é claro.
_Eu não sei o que seria de mim sem você. _disse tristemente,
angustiada com as lembranças.
Ele me olhou carinhosamente. Não era a primeira vez que eu
disse isso a ele, mas acho que nunca foi com tanto sentimento. Rafa me abraçou
apoiando meu rosto em seu peito como um bom amigo que ele era.
_Sabe que eu também não sei o que seria de mim se não fosse
você. Acho que eu teria que procurar um emprego para ocupar o meu tempo._ ele
acariciou meu cabelo docemente.
_Acho uma coisa boa que você seja um herdeiro rico. Assim
você tem tempo para me paparicar o tempo todo.
Ele sorriu alto.
_Também acho que veio bem a calhar._ ele virou meu rosto pra
cima para olhar para ele e secou uma lágrima que eu nem sabia que estava lá.
_Pronta pra ir?
_Se você já estiver cheio de bolinhos de chuva, já podemos
ir.
_Acho que ainda tem alguns pra eu comer enquanto você se
arruma._ ele sorriu e seus olhos se aqueceram nos meus. Eu sorri de volta e me
afastei gentilmente.
_Só vou demorar um minuto._ ele acenou com a cabeça uma vez _
Mas Rafa_ eu me lembrei de uma coisa _ Se você não está malhando, como é que
está tão musculoso? _ ele me olhou um pouco surpreso com a minha pergunta.
_Acho que é a minha genética. Meu pai era um cara enorme. _
ele deu de ombros e voltou a comer. _ isso poderia ser possível. Rafa tinha
minha idade e com vinte e um ele devia ter parado de crescer e começado a
“criar corpo.” Concordei brevemente e fui para o meu quarto. Depois de um banho
rápido me vesti com roupas simples e recatadas, como sempre, e saí. Encontrei Rafa
na sala assistindo globo esporte, ele se virou para mim com olhar ambivalente.
_Pronto. Estou bem?_ sei que essa pergunta tinha um
significado diferente no meu caso.
_Está bem. Melhor do que isso só se você usasse uma burca, o
que não seria má ideia. _ele sorriu com o pensamento e eu mostrei a língua pra
ele._ Mas mesmo assim é bom agente passar na loja de armas antes, afinal, vamos
a um shopping né.
Rafa não ficou mais de vinte minutos na loja, eu estava
esperando em sua pick-up Amarok de cor champanhe que chamava tanta atenção
quanto eu na rua. Quando ele saiu tinha uma bonita maleta e uma sacola nas
mãos.
_Tudo certo. _ele disse animado enquanto entrava no carro e retirava
uma espécie de cinto da sacola. Ele esticou diante do seu peito e o “vestiu”.
Nesse momento percebi que se tratava de uma cartucheira, como um colete. Ele o
colocou em volta dos braços e o prendeu à frente do peito. Em seguida abriu a
maleta, pegou o objeto horrível e colocou o pente com as balas. Eu virei meu
rosto para não olhar.
_É uma Colt, como a que usei para treinar. _ele falou
enquanto a colocava em seu colete.
_Acho isso um exagero muito perigoso.
_É só por precaução, já disse Helene. _ele deu a partida no
carro e fomos acompanhando o preguiçoso tráfego do centro de Rio das Ostras
tranquilamente.
Rafa sempre me levava para passear pela cidade, mesmo que na
maioria das vezes não saíamos do carro, então eu estava familiarizada com as
ruas, mas entrar no shopping era uma coisa que eu fazia muito raramente, e
estava um pouco tensa com a ideia.
A pick-up entrou no estacionamento e alguns olhares
masculinos me encontraram dentro do carro, e como era de se esperar, me
estudaram com interesse. Eu me sentia como um experimento mal resolvido de um
laboratório irresponsável. Não era nem de longe lisonjeiro para mim, ser o alvo
de tanta atenção dos homens. Eu sentia que não era uma coisa natural, não tinha
ideia do porque aquilo acontecia, mas sabia que não era pra ser assim.
Rafa estava muito sério. Ele mantinha o cenho fechado e
intimidante.
_Pronta?_ ele disse quando parou
na vaga mais próxima da saída que encontrou.
_Acho que sim. O quanto isso pode
ser ruim?_ eu disse desanimada.
_Acho que só ficaria muito ruim
se você entrasse no banheiro masculino por engano, e sem mim. Isso seria
péssimo. _ele fez piada para me distrair e funcionou. Rafa tinha o dom de me
fazer sentir melhor.
_Vamos acabar logo com isso._
falei e saí do carro. Rafa veio logo para o meu lado e segurou minha mão. Olhei
rapidamente pra ele, mas já sabia por que ele fazia isso, para os outros
pensarem que ele era meu namorado e se conterem. Isso funcionava, na maioria
das vezes.
Pegamos um elevador e saímos
direto no terceiro andar. Eu tinha uma ideia do que eu queria comprar, e sabia
onde encontrar.
O shopping estava quase vazio,
era segunda feira. Algumas moças e rapazes jovens estavam na frente do elevador
esperando por ele quando saímos apressadamente. Pude ouvir os murmúrios dos
meninos quando passei por eles. Rafa apertou minha mão e seguimos em direção á
loja que eu procurava. Eu tinha visto um belo vestido no folheto dessa loja que
mamãe levou para casa, então pensei que ele ficaria lindo nela.
_Essa aqui, eu o levei em direção
a uma vitrine com muito vestidos.
Rafa entrou um pouco a minha
frente olhando para todos os lados com a expressão concentrada. Eu gostaria de
dizer que era uma reação exagerada, mas eu sabia que não era. Ele tinha razão
em ter cuidado, já tínhamos passado por muitos problemas antes.
_Posso ajudar?_ uma jovem de
cabelos curtos se aproximou de nós. Ela não parecia me notar, mas estava muito consciente
do meu acompanhante. Não havia nenhum homem na loja o que me deixou aliviada.
Mas tinha mais duas vendedoras que também se mostravam muito impressionadas com
o Rafa. Seus olhos brilhavam para ele e seus rostos eram só sorrisos. Olhei
para ele que ainda estava sério e percebi que ele era mesmo muito bonito.
Raspei minha garganta propositalmente para que ela olhasse para mim e
funcionou.
_Eu preciso de um vestido longo,
floral no tamanho quarenta, por favor._ falei e ela olhou para mim por um
momento avaliando.
_Claro. _ela disse e foi para
trás do balcão._ tenho esses, ela colocou uma pilha de vestidos na minha
frente. _É para você mesmo?
_Não, é um presente para minha
mãe. _Vi no rosto dela que se perguntava como a filha poderia se vestir como
uma velha e levar vestidos tão joviais para a mãe.
Escolhi a estampa que estava mais
bonita e mandei embrulhar.
_Não vai levar um para você
também? _ ela não resistiu em perguntar. Rafa olhou para mim por uma fração de
segundo. Achei que ele deveria ter me imaginado em um daqueles vestidos.
_Não hoje. _eu respondi com um
meio sorriso que não consegui segurar.
_Tudo bem, obrigada pela compra e
votem sempre._ notei que ela disse isso olhando para Rafa. Ele não pareceu se
dar conta.
Paguei pelo vestido e saí da loja,
sempre escoltada por meu incansável amigo Rafa. Por que eu não podia
simplesmente ficar com ele? Perguntei-me de novo.
_Parece que eu vou ter que te
fazer uma escolta também._ eu brinquei.
_Hem? _ ele me olhou confuso.
_As garotas da loja pareciam que
iam se atirar em você, não percebeu? _ bajulei um pouco.
_Não._ ele sorriu presumido.
_Elas te encaravam na maior cara
de pau, mesmo me vendo ali com você. Como pode não ter percebido Rafa?_ eu
disse incrédula.
Rafa vacilou, por um momento,
pensei que ele não fosse responder, mas finalmente ele suspirou e disse:
_Eu não as vejo.
_Como assim, não as vê?
_Não vendo. São como a mobilha,
ou a decoração que você mal repara, eu não sei. Não as vejo como mulheres. Nem
de longe como eu vejo você. _ ele desviou o olhar de mim e senti que ele não
queria mais falar sobre isso.
Era minha culpa, eu tinha
certeza. Rafa passava muito tempo comigo e com essa intoxicação que era a minha
presença ele se tornou incapaz de perceber as outras mulheres. Eu senti raiva
de mim mesma. Eu continuei andando ao seu lado sem dizer nada. Aquilo não
estava certo, mas o que eu ia fazer, eu precisava tanto dele. Não podia
afastá-lo e no fundo do meu ser também tinha um tipo de sentimento diferente.
Satisfação por ele ser só meu. Eu estava louca, esse só podia ser o motivo. Eu
não aceitava Rafa como meu namorado, mas também não queria que ele ficasse com
mais ninguém. Que monstro egoísta eu tinha me tornado.
_O que foi?_ Rafa me perguntou
depois do meu silencio angustiado. Estávamos esperando o elevador.
_Nada._ respondi num sussurro.
_Não vai e contar?_ ele estava
gentil.
_Estou com raiva de mim, só isso.
Vai passar logo.
O elevador chegou não dando a
chance de ele dizer nada. Quando entramos vi que tinha dois homens dentro. Quis
correr dali, mas Rafa segurou minha mão com firmeza me encorajando.
Como era de se esperar eles
fixaram os olhos em mim e acompanharam cada movimento meu. Estremeci quando um
deles, o mais alto de cabelos loiros, esticou o braço na direção ao painel do
elevador, passando muito perto de mim para apertar um botão que já estava
apertado.
_Muito calor hoje, hem!_ o outro
falou para mim. Seus olhos ardendo em chamas de um desejo anormal que tanto me
repugnava. Eu apenas assenti com a cabeça.
_Você tem uma namorada muito
bonita._ o loiro disse para Rafa que se contraiu todo ao meu lado. Mas ele
também não disse nada, apenas acenou com a cabeça, seus lábios apertados em uma
linha fina.
_Uma pena que ela esteja
acompanhada não é Carlos._ eles comentavam entre si e eu fiquei chocada que
estivessem realmente falando aquilo na frente de Rafa. Apertei mais firme em
sua mão. Ele olhou furiosamente para os dois homens de meia idade que não
tiravam os olhos de mim. Eu queria não olhar para eles, mas tinham se colocado
bem na minha frente e meu pânico era muito grande para não olhar o perigo.
Graças a Deus o elevador chegou
ao nosso estacionamento. Rafa teve que empurrar os homens para me dar passagem
para sair. Meu corpo tremia como uma vara verde.
_Ei, não vão tão depressa. _um
deles chamou. E ouvi seus passos atrás de nós_ vamos nos conhecer, fazer amizade,
qual é o problema?
Rafa parou para enfrenta-los.
_Não queremos amizade com vocês.
Agora vão embora._ a voz dele era grossa como nunca.
_Quanta grosseria. Sua mãe não te
educou, talvez nós devíamos lhe dar uma boa lição._ eles se alinharam um ao
lado do outro e percebi que eram fortes, tão fortes quanto Rafa, mas eles
estavam em maior número. O terror tomou conta de mim quando lembrei-me que Rafa
estava armado. Se ele atirasse e matasse esses homens, eu não podia nem
imaginar isso.
_Vamos embora, por favor Rafa._
eu implorei puxando o seu braço.
_Eles não vão deixar,
tenho que resolver isso aqui._ seus olhos estavam fixos nos homens com
determinação de um guerreiro. Ele não tinha nenhuma sombra de medo, apenas
fúria.
Acenou para que eu me afastasse. Encostei-me no canto da
parede com meu corpo todo tremendo. Os olhos famintos dos dois homens me
seguiram e Rafa avançou sobre eles.
Foi uma luta violenta, eu não conseguia acompanhar, estava
atordoada e apavorada. Senti cada golpe que atingia ao Rafa com desespero. Eu
quis correr e pedir ajuda, mas não conseguia sair do lugar, e ainda tinha o
fato de que se eu atraísse outros homens para mim seria ainda pior para o meu
amigo.
Mas de algum modo Rafa estava vencendo. Ele abateu um e
depois o outro os deixando caídos no chão do estacionamento.
_Venha, temos que sair logo daqui._ ele correu para mim e
segurou minha mão, me levando para o carro. Eu não tinha certeza se conseguia
usar minhas pernas.
_Você... Você não atirou._ eu estava gaguejando.
_Ainda não _ ele sorriu _ mas se a segurança do shopping nos
alcançar vou ter que matar todos eles.
Eu olhei pra ele em pânico, e foi só aí que eu ouvi os
apitos e os chamados dos seguranças que vinham em nossa direção.
Entramos no carro e saímos do estacionamento cantando pneus.
Em poucos minutos estávamos na praia das conchas onde ficava minha casa.
amor, eu li esse capitulo e ja estou louca pelo proximo, jaja eu começo a ler o segundo capitulo. Esta ótimo, como sempre nao é querida ? continue com seu excelente trabalho! parabens ! (lari)
ResponderExcluirObrigada querida! Adoro dividir isso com vc! Bjss
ResponderExcluirnossa adorei ate agora e se eu disser que achei ate a trilha sonora ,,,,,eu li ouvindo CHRISTINA PERRI
ResponderExcluirQue legal Patrícia! Vou conferir essa trilha, escrever com a música certa é muito inspirador. Eu tenho escutado: Fire in the water,heart of stone,Llovera,love death birth. são musicas temas dos filmes amanhecer 1 e 2.(Vício rsrs). Obrigada pelo carinho. Bjss
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