terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Cap. 2



_Chegamos. Divertido não._ ele sorria abertamente._ tenho que sair mais para passear com você. Pura adrenalina!
Eu olhei para ele incrédula. Ele estava super animado, enquanto eu estava apavorada. Não consegui dizer nada por vários minutos, meu coração parecia que ia saltar pela boca.
_Qual é Helene. Você estava com medo? Eu não ia deixar que eles chegassem nem perto de você.
_É claro que eu estava com medo!_ eu gritei_ aqueles homens pareciam com lobos ferozes e você era apenas um... E ainda tinha a arma. Eu fiquei apavorada! Eles podiam ter te machucado, ou coisa pior. Ou você podia ter atirado em alguém e você seria um assassino agora e tudo isso porque eu queria comprar um vestido idiota pra minha mãe. _ meu peito arfava.
_Estava com medo por mim? _ ele torceu a cara._ isso não faz nenhum sentido. Eu sei me cuidar muito bem. E eu disse que não usaria a arma Helene, a não ser que fosse muito necessário.
_Pareceu muito necessário para mim._ eu ainda estava emburrada.
_Ei, foi divertido. Nada demais. Não fique assim._ ele tocou meu rosto_ relaxa.
_Você tinha razão. Está muito pior.
Ele desfez o sorriso e suspirou olhando para frente. A noite estava clara e fresca pelo vento constante que vinha do oceano.
_Eu vou cuidar de você. Não se preocupe._ ele disse com a voz rouca. Sei que ele queria me tranquilizar, mas nem mesmo ele parecia estar seguro de suas palavras.
Ficamos sentados dentro do carro por muitos minutos, quietos, perdidos em nossos pensamentos. Vi quando a Lua surgiu de mansinho no céu. Estava completamente cheia e brilhante.
Rafa se moveu de um jeito estranho ao meu lado e gemeu.
_O que foi? Está ferido? Eles te machucaram? _ coloquei a mão em sua cabeça que de repente estava abaixada em suas mãos. Ele não me respondeu, apenas respirava rápido e gemia baixo. _Rafa, por favor, fala, está sentindo alguma dor? _ entrei em pânico de novo.
Cheguei mais perto dele e tentei tirar suas mãos de sua cabeça para ver seu rosto. Ele se virou lentamente pra mim. Seus olhos estavam estranhos, mais sombrios e seu marrom estava avermelhado. Rafa me olhou de um jeito estranho, não totalmente estranho, eu já tinha visto aquele olhar antes, era um olhar faminto. Eu recuei instintivamente.
_Vá pra casa._ sua voz era um rosnado. _Vá agora! _ ele mandou.
_Rafa, o que foi?_ eu não podia deixa-lo passando mal.
_Eu não sei, mas alguma coisa não está bem comigo._ ele afundou a cabeça nas mãos de novo. _ Sai daqui Helene.
Eu tremi. Aquela não era a voz dele. Abri a porta da pick-up lentamente. Ainda não queria deixa-lo. Resolvi ir ver se minha mãe já tinha chegado do trabalho e pedir que ela viesse vê-lo. Quando dei a volta no carro dei de cara com ele de pé na minha frente. Seu corpo parecia ainda maior, ele estava um pouco arqueado na minha frente e seus olhos estavam cravados nos meus. Eu congelei no lugar.
_Rafa, você está me assustando._ falei com a voz tremula.
_Helene... Corre. _ ele disse antes de soltar um rosnado apavorante.
Eu corri o mais rápido que pude afundando meus pés na areia. Claro que eu não fui muito longe. Só senti um puxão forte na minha cintura e soltei um grito que foi logo abafado por uma grande mão áspera e peluda. A criatura enorme que me carregava me levou para o alto das pedras que invadiam o mar e parou no canto muito escuro entre duas pedras. Ele me colocou deitada, de uma forma cuidadosa, porém mais rápida do que eu podia perceber. Eu não conseguia raciocinar direito o medo e o choque me anuviava a mente. O Coração pulsando em meus ouvidos também não me ajudavam, mas eu sabia que aquilo que estava na minha frente era Rafa. Tinha duas vezes o meu tamanho e era coberto de pelos ralos e escuros, caminhava como um homem, mas um pouco curvado. Seu rosto estava desfigurado agora, bruto e peludo. Ele tinha presas visíveis em sua boca e era horripilante. Quis gritar de novo, mas a voz não vinha. Ele olhou por um instante pra mim. Virando sua cabeça de um lado para o outro, me analisando. De repente ele ergueu sua boca para o céu e uivou alto. Eu tomei um susto e tentei me levantar para fugir dali. Isso chamou sua atenção e vi a fúria em seus olhos vermelhos. Ele me agarrou muito rápido e me deitou de novo no chão agora mais brutamente. Senti minhas roupas sendo rasgadas sem ter visto o movimento de suas mãos. Suas unhas rasparam na minha pele e em um segundo eu estava completamente nua. O monstro parou e olhou para mim. Eu estava gritando e não tinha consciência disso até que o vi voltar a ser o Rafa. Era seu belo rosto moreno de novo. Mas ele não se conteve por muito tempo. Beijou minha boca com voracidade. Suas mãos subiam e desciam em meu corpo amassando minha carne, friccionando minha pele em todas as partes. Eu sentia seu toque queimar, era tudo muito confuso, eu queria empurrá-lo, mas seu contato não era de tudo ruim. Meu desejo também floresceu e parte de mim o queria tanto quanto ele, mas outra parte, uma verdadeiramente maior, o rejeitava com todas as forças.
_Helene._ o ouvi sussurrar quando alcançou meu sexo e fez uma carícia lenta. Contorci meu corpo debaixo de seu peso. O conflito se fez mais forte. Querendo e rejeitando fortemente. Percebi com pavor quando ele alcançou o botão de sua bermuda e o abriu.
_Não. _ gritei. _ Mas ele não me ouvia eu sabia disso. Seus movimentos eram cadenciados como se estivesse sonhando. _Pare Rafa... Pare. _ tentei empurrá-lo com mais força, mas ele nem se moveu. Senti com desespero seu membro tocar minha coxa esquerda deslizando para cima sem nenhuma hesitação.
Estava acabado. Afinal era aquele meu destino. Tanto tempo depois daquele primeiro dia em que fui atacada aos doze anos e Rafa me salvou, assim como vinha me salvando até hoje. Mas agora ele era meio fera, e era ele mesmo o meu agressor. Talvez fosse melhor que fosse ele e não um estranho qualquer. De certa forma ele era o único que tinha esse direito. Mesmo eu estando apavorada e sem ter nem ideia do que tinha acontecido para ele se transformar em um monstro, eu senti que devia me conformar e aceita-lo. Eu tentei ficar imóvel e recebe-lo em meu corpo, relaxar para ser menos doloroso. Esperei pela dor que eu sabia que viria, por ser minha primeira vez e pela brutalidade com que Rafa estava me tratando. Mas a dor não veio. Meus olhos estavam fechados com força então não vi o que aconteceu, só percebi que em milésimos de segundo ele não estava mais lá.
 Abri os olhos procurando no escuro e vi dois ao invés de um. Rafa era um monstro outra vez e estava salivando e rosnando para alguém que estava parado de costas diante de mim.
_Saia daqui. Você não quer fazer isso._ Uma voz aveludada, baixa e ameaçadora saía desse homem na minha frente.
_Não toque nela._ O rosnado da criatura ecoou no espaço.
_Eu não vou tocar nela. Vá para a sua matilha e fique lá por enquanto. Vou proteger Helene._ O homem disse. Ele sabia meu nome, mas eu não o reconheci. Não de costas para mim.
A coisa em que Rafa se transformou olhou para mim brevemente antes de desaparecer na noite. Foi muito rápido, mas eu pude ver a dor no fundo dos olhos dele. O Homem estranho não se virou imediatamente para mim. Eu percebi que estava congelada no lugar, mas comecei a me tornar consciente de que estava nua e procurei os trapos que minhas roupas tinham se tornado e tentei me cobrir. Peguei as pernas das minhas calças de viscose e as amarrei na cintura. Minhas mãos tremiam. Meu corpo todo tremia. Não sobrou muito da minha blusa, então eu só a segurei cobrindo parte dos meus seios volumosos. Os soluços de choro começaram a brotar no meu peito. Minha visão estava distorcida. Tudo tremia freneticamente. Tateei o chão no escuro buscando apoio para me levantar. Foi inútil, então eu me encolhi no canto da pedra chorando e tentando puxar o ar que não vinha. Minhas pernas estavam arranhadas, embora eu não as sentisse de nenhuma forma. Era como se elas não estivessem lá. O ar não vinha e eu não conseguia me acalmar. Eu precisava de ajuda. Minha mãe nunca me encontraria naquele lugar. Ninguém seria capaz de escalar aquela rocha, eu estava perdida.
_Não tenha medo de mim Helene._ o estranho na minha frente falou. Eu tinha me esquecido completamente dele. Ele ainda não tinha se virado para me olhar._ Vou leva-la para sua casa, se me deixar.
Pensei sobre isso por um momento. Quem era esse homem? Como ele chegou até aqui? Como sabia meu nome?
_Eu conheço você Helene. Pode confiar em mim. Não vou te machucar e não vou tocá-la se não quiser._ Sua voz era macia e me acalmava. Ele se virou lentamente e pude ver seu rosto na luz da lua. Era lindo. Tinha os cabelos tão negros quanto os meus e seus olhos também pareciam ser azuis, embora fosse difícil de dizer. Só sua pele branca era diferente da minha. Ele não sorria, mas seu rosto era tranquilizador._ Posso me aproximar? _ele perguntou antes de se mover um centímetro do lugar.
Pensei sobre isso por um instante. Eu tinha medo dele. Aprendi a ter medo de todos os homens, menos de Rafa. Mas que alternativa eu tinha agora? Eu só podia contar com a ajuda daquele estranho que parecia me conhecer.
Um aceno leve com a cabeça foi tudo o que eu consegui dar. Ele ainda esperou alguns segundos antes de dar o primeiro passo em minha direção. Mesmo assim quando ele fez isso eu quase pulei do lugar com o pânico me tomando de novo. Ele ergueu as palmas de suas mãos na sua frente para me certificar que não ia fazer nada. Encolhi-me ainda mais junto á pedra com meu peito arfando de pavor, meus braços protegendo meu peito, me fechando como um feto no canto.
_Calma. Eu sou seu amigo._ Olhei para seus olhos que agora estavam mais próximos. Meu instinto buscava achar em seus olhos aquele queimar característico, aquele desejo que deixava os homens insanos quando me viam e que era tão perigoso para mim. Mas não vi nada. Ele me olhava como uma mulher me olharia naquele momento, ele me olhava como minha mãe.
Relaxei um pouco, mas continuei o encarando em busca de alguma mudança repentina. O Homem estranho continuou se aproximando devagar e se agachou perto de mim. Encolhi mais um pouco me protegendo.
_Não tenha medo Helene, vou te levar para casa ok._ ele falou e estranhamente assoprou suavemente o meu rosto. O vento que vinha de sua boca se tornou uma névoa branca muito fina que eu vi entrando pelo meu nariz e minha boca que puxavam o ar descompassadamente. Aos poucos meus olhos foram ficando pesados e minha consciência foi se perdendo completamente.
Acordei na minha cama coberta por um lençol. O quarto estava escuro, mas logo que abri os olhos percebi que não estava sozinha. Meu corpo queimava de um jeito estranho. Meus lábios, meus seios e minhas coxas, tudo parecia estar formigando, até meu sexo. Levantei num pulo. A lembrança do que tinha acontecido veio com força na minha cabeça.
_Fiz um chá._ Dei um pulo com o susto, mas reconheci aquela voz no mesmo instante. Procurei pelo quarto e o vi perto da janela com o ombro encostado na parede e com os braços cruzados no peito. Ele me olhava desinteressadamente.
_Quem é você?_ minha voz saiu rouca.
_Seu atual protetor, ao que tudo indica._ ele sorriu como se isso fosse muito engraçado._ Meu nome é Sebastian Cruz. _ ele tinha um leve sotaque estrangeiro, mas falava um Português perfeito. Clássico como nos livros.
_O que... O que está fazendo aqui?_ minha cabeça estava rodando. Tinham muitos pensamentos de uma só vez.
_Beba o chá, depois conversamos._ ele falou com um meio sorriso nos lábios.
Olhei para a xícara na minha cabeceira e pensei que talvez fosse mesmo uma boa ideia. O chá tinha um gosto estranho e estava muito quente e sem açúcar. Fiz uma careta, mas terminei de beber. Não identifiquei de que era, mas não me interessei o bastante para perguntar. Funcionou bem. Meus pensamentos se tornaram mais claros e pude traçar uma linha dos acontecimentos. Lentamente fui recordando de tudo.
_O que era aquilo? No que Rafa se tornou? _ Sabia que ele sabia, pela conversa que tiveram.
_Era um lobisomem. Você não percebeu?_ ele zombou. O tal Sebastian era arrogante e altivo, mas de uma forma atraente.
_Isso não existe!_ eu soltei, mesmo tendo certeza de que vi exatamente isso, um lobisomem. Ele não me respondeu. Apenas olhou para mim esperando._ Por que Rafa virou um lobisomem? _ decidi encarar os fatos de uma vez. O estranho que agora eu sabia que se chamava Sebastian sorriu divertido.
_Você é uma mulher inteligente. Gosto disso. _ele falou e se virou para mim, ainda distante_ Coisa de família, você sabe. O pai dele... O avô... O bisavô e assim por diante. Eles são muitos pro meu gosto._ ele fez uma careta. Sebastian tinha um rosto muito expressivo.
_Mas eu nunca tinha visto ele assim.
_Foi a primeira vez que ele se transformou. Coitado._ Ele fez uma careta diferente, de deboche.
_Então ele não sabia de nada? E como você sabe dessas coisas?
_Bom, se ele não sabia de nada você terá que perguntar a ele, embora eu duvide. Essas tradições familiares costumam ser bem explicadas aos seus descendentes._ sua cara de deboche ainda estava lá_  Mas quanto a mim, eu sei de muita coisa. Sei, por exemplo, o que você é.
_Sabe? Então me diga, por favor._ eu implorei e me movi em sua direção instintivamente, esquecendo que ainda não estava vestida, apenas coberta pelo lençol. Isso me deixou envergonhada. Aquele homem me carregou nua e inconsciente para casa. Ele poderia ter feito o que quisesse comigo. Pensei no meu sexo formigando e estremeci. Onde eu estava com a cabeça em ficar de conversa com ele tão tranquilamente, enquanto nem sabia quem ele era e o que tinha feito comigo. Meu rosto caiu enquanto eu buscava me enrolar ainda mais no lençol. Meus olhos buscaram o rosto dele para tentar ter alguma resposta.
_Eu não toquei em você._ ele adivinhou minha preocupação.
_Como posso ter certeza?_ senti os arranhões que se espalhavam por todo meu corpo e que não podia sentir antes, mas que agora ardiam por toda parte.
_Precisa acreditar em mim, eu não faria isso._ ele pareceu confuso, tinha uma linha fina entre os olhos e seus lábios estavam caídos. Ele descruzou os braços e deu um passo em minha direção.
_Fique aí._ eu gritei. Ele ergueu as mãos de novo como fez na pedra e parou.
_Helene, é normal que se sinta assim, principalmente depois do que aconteceu ontem.
_Ontem? Quanto tempo eu estou dormindo?
_Algumas horas. Deve ser meio dia agora.
_Minha mãe? Ela sabe que estou aqui?
_Sim. Ela já veio te olhar algumas vezes antes de ir para o trabalho. Ela Não me viu. Não se preocupe. Ela pensa que ficou acordada até tarde com seu amigo lobisomem e por isso dormiu até tarde._ ele voltou a rir divertido.
_Como sabe o que ela pensa?
_É muito fácil saber o que as pessoas pensam. Você mesmo faz isso o tempo todo.
_Eu apenas percebo as expressões e a mudança no olhar das pessoas, não leio mentes.
_É muito eficiente. _ ele piscou para mim_  Mas receio que tenho técnicas ainda melhores. Mas me diga, _ ele franziu uma sobrancelha _ tem uma coisa que eu não entendi e estou louco para saber_ ele cruzou os braços na frente do peito novamente_ por que afinal, você parou de resistir a ele? Por que você parou de lutar? Você o permitiu. Você o queria? _ seu cenho estava franzido enquanto olhava para mim. Eu desviei o olhar, envergonhada. Eu sabia do que ele estava falando, e imaginar que esse homem estava lá me olhando ser quase violentada rasgou meu peito com uma dor profunda.
_ Eu não tinha mais porque resistir. Estava tudo perdido._ falei baixinho.
_Então você o permitiu? Não acho que tenha sido isso._ ele insistiu.
_Afinal eu achei que se algum homem tinha direito sobre mim esse era Rafael, por tudo o que ele fez por mim._ confessei.
_Brilhante conclusão!_ ele zombou_ Isso teria acabado com tudo._ agora ele estava bravo_ O que ele fez por você era a obrigação dele, estava escrito para ser assim desde... Desde sempre.
_Como assim, obrigação?
_Você queria saber o que você é. Pelo menos antes de ficar aí decidindo se eu abusei ou não de você enquanto dormia, então vou dizer a você o que você é. _ ele deu dois passos pelo quarto e se virou para mim novamente _  Você, Helene, é A Pura. Uma mulher especial, a mulher original. Nasce uma igual a você a cada 100 anos e essa mulher é destinada a perpetuação das subespécies humanas._ Sebastian falava rápido e tive que me esforçar para acompanhar o que estava dizendo.
_Como assim? _ minha cabeça girou.
 _ Macho de cada uma das três subespécies fica... “ligado” a você, até que você escolha um deles. _ ele me olhou profundamente nos olhos medindo minha reação. Eu esperei que ele continuasse. Aquilo ainda não fazia muito sentido. _Um lobisomem, um ultra-humano e um vampiro. _ Sebastian continuou _ O lobisomem fica com o cargo de te guardar até que complete seus vinte e um anos quando atinge sua total maturidade. Por isso que Rafael era tão devotado a você._ ele disse com desdém e bufou. _ Os outros dois são lentamente aproximados por um chamado invisível, um canto de sereia, até nós a encontramos e te damos a chance de escolher. Por sorte eu cheguei um pouco antes. _ ele ponderou algum pensamento e escureceu seus olhos, mas continuou_ O Ultra-humano deve chegar depois do seu aniversário, como é a regra.
Eu sei que meu rosto devia estar branco. Aquela era a história mais louca que eu já tinha ouvido, mas ainda assim meu subconsciente acreditou completamente nela. Mesmo que meu consciente relutasse, lá no fundo eu sabia que era verdade. Eu sabia que tinha alguma coisa muito diferente com a minha vida. Só não podia imaginar tanto. Meu pensamento estava acelerado. Eu estava excitada por finalmente ter respostas. Mesmo sendo aquelas. Estranhas, mas já era alguma coisa. Melhor do que viver como uma aberração e sem saber de nada.
_Se o... Ultra-humano ainda não chegou... Você só pode ser o... _ não consegui dizer a palavra.
_O vampiro. _Ele deu seu melhor sorriso que tinha visto até agora.
“Ah!” eu arfei. Minha cabeça girou. Voltei a olhar para ele que tinha desfeito o sorriso e olhava preocupado para mim.
_Acho melhor deixar você sozinha um pouco. Tome um banho e vista-se. Vamos ficar mais a vontade para conversar com mais roupas entre nós._ ele falou e desapareceu. Simplesmente sumiu. Tive a impressão de ter visto um vulto passar pela janela, mas não tinha certeza.
Levantei-me e corri para o chuveiro. Realmente precisava de um banho. Meu corpo estava todo marcado, então evitei olhar muito para ele. Mas o que estava ficando cada vez mais difícil de ignorar era a queimação que se estendia em quase todas as partes do meu corpo. Se eu me concentrasse nelas eu podia sentir o calor, uma espécie de desejo por ser tocada naqueles lugares. Era estranho sentir isso, ainda mais depois da violência que sofri, mas era muito real e muito forte. Experimentei passar minhas próprias mãos para ver se aquilo aliviava, mas não tinha efeito. A pele formigava em protesto pedindo pares de mãos diferentes. Abri mais o chuveiro para que a água se tornasse mais fria, mas o calor vinha de dentro do corpo, não de fora. Desisti. Saí do banho me olhando rapidamente no espelho. Meus olhos estavam mais escuros hoje. Eles refletiam minhas emoções e com certeza hoje era um dia escuro para mim. Onde estaria Rafael? Como ele estaria se sentindo agora. Senti tanta dor imaginando seu arrependimento, seu desespero por ter se tornado um monstro tão horrível e brutal. Sequei uma lágrima que se desprendeu dos meus olhos e passei a secar meus cabelos. Eles estavam compridos de novo. Não tinha um mês que eu os tinha cortado curtinhos, mas eles cresciam assombrosamente rápido, e já estavam tocando minhas costas com suas ondas volumosas e seu brilho negro como o ébano. Fiz um coque grande, como sempre, para evitar a atenção e fui ao meu quarto me vestir. As roupas não estavam me servindo direito, meus quadris estavam mais largos e minha cintura mais fina nas últimas semanas. Achei a calça de malha mais larga que eu tinha e vesti uma camisa de malha também.
_Pronto._ murmurei para mim mesma.
_Está adorável!_ dei um pulo com o susto. Sebastian estava bem na minha frente, vindo do nada. _Desculpe._ ele sorriu.
_Estava me espionando?_ perguntei enraivada. Eu tinha acabado de me vestir e ele voltou. Ele pareceu confuso de novo.
_Você disse que estava pronta.
_Eu disse?_ lembrei que eu tinha sussurrado “pronto”, mas nem se tivesse alguém no quarto teria ouvido isso. _ Você me ouviu?
_Sim. Eu escuto muito bem._ ele sorriu de novo e se aproximou mais. _ Gosto de suas roupas. Elas tornam quase tolerável ficar perto de você. Ele tocou meu rosto. Eu congelei no lugar. Minha pele se acalmava sob seu toque. Percebi instantaneamente que eram aquelas mãos que meu corpo pedia, ansiava. Meu coração disparou e eu baixei meus olhos. Um medo de que ele adivinhasse meus pensamentos se apossou de mim. Ele colocou os dedos sob meu queixo para puxar meu rosto para o dele novamente._ Não esconda seu olhar de mim. _ sua voz era gentil, pedinte. Perdi-me em seus olhos azuis. Eram mesmo azuis, só que mais escuros que os meus. Mais sombrios. Sua pele branca contrastava divinamente com o cabelo negro e liso que brincava bagunçado, levemente comprido sobre suas sobrancelhas. _Ainda tem medo de mim?_ ele perguntou docemente.
Percebi que não sentia medo. Sentia outras coisas, menos medo. Balancei a cabeça negando e um sorriso satisfeito surgiu em seu rosto. Meu coração estava pulando e o desejo por ser tocada aumentando cada vez mais. Balancei em sua direção involuntariamente.
_Sei que quer que eu te toque. _ ele olhou sério para mim. Meus olhos se arregalaram na mesma hora._ Não é culpa sua, é só uma regra que o lobo quebrou. Ele não tinha o direito de te tocar, você não pertence a ele, então se ele tocou em você isso dá o direito dos outros dois fazerem o mesmo.
Eu me afastei dele indignada.
_Como é? _ eu gritei. Sebastian parecia incomodado com a minha reação, ou com meu grito. Ele mantinha sua voz sempre tão plana que de repente eu criei uma perturbação no ambiente.
_Helene, não fui eu quem criou as regras, eu apenas sei que elas existem.
_Está me dizendo que você e outro cara estranho que eu ainda nem sei quem é, vão tocar em mim assim como Rafael fez? Uma ova que vão!_ nunca me senti com tanta raiva.
_Não terá sossego até que façamos._ sua voz era irritantemente calma.
_Eu quero que vá embora. Saia da minha casa agora!_ quando pisquei os olhos ele não estava mais lá. Minha irritação diminuiu no mesmo instante dando espaço para o vazio que sua ausência deixou.
_Droga! Droga! Droga!_ gritei sabendo que seja lá onde estivesse ele estava ouvindo.
Fui para a cozinha e tomei um copo de agua para tentar colocar meus nervos no lugar. Eu tinha que pensar direito. Hoje era o aniversário da minha mãe. Eu tinha planejado fazer um bolo pra ela. Iria convidar Rafa e umas amigas dela que também eram solteiras para comemorar. Mamãe não tinha um namorado atualmente. Não que ficasse sozinha. Ela arrumava uns namorados de vez em quando, mas não durava muito. Como ela insistia em trazê-los para casa depois de alguns encontros, tudo acabava em clima horrível quando eles colocavam os olhos em mim. Rafa já teve que espantar muitos desses caras que depois de minha mãe terminar com eles, ficavam me perseguindo. Eu sempre fui um estorvo na vida dela. Como eu gostaria de ser diferente. De ser normal. Suspirei e resolvi dar seguimento ao plano inicial, pelo menos parte dele, já que Rafael estava fora da lista de convidados. Percebi que o estava chamando pelo nome e não pelo apelido carinhoso. Eu não podia negar que estava magoada com o que ele fez. Eu confiava nele e agora estava tudo perdido. Eu nunca me senti tão sozinha. Segurei meu choro. Não ia adiantar ficar me lastimando, então comecei a fazer o bolo para o aniversário da minha mãe.
O trabalho ocupou minha mente, mas tive que me esforçar muito para me desligar do formigamento que não me deixava em paz. Consegui fazer o bolo e arrumar a casa para a comemoração. Seria uma coisa simples e íntima. Já tinha convidado suas amigas e logo elas começaram a chegar. Samanta, era a mais velha, tinha uns quarente e cinco anos e tinha um quiosque aqui na praia. Marlene era funcionária pública e era a que mais arrastava minha mãe para as baladas, elas tinham a mesma idade, trinta e oito anos, e Janice era pouco mais nova, porém, era a mais centrada. Ela era professora do pré-escolar, assim como mamãe, e estava esperando seu príncipe encantado pacientemente.
_Sejam bem vindas! Vocês já sabem onde encontrar tudo na casa, então, fiquem à vontade.
Elas se viravam bem conversando entre si e pegando bebidas na geladeira, então não tive que me esforçar muito em fazer sala. Coloquei o CD do Tim Maia favorito da minha mãe e fiquei pelos cantos, fingindo prestar atenção no que elas diziam. Meu eu ainda não era o mesmo. Eu estava mais estranha do que nunca. Pude ver isso nos olhares das mulheres, mas ignorei. Exatamente as oito, minha mãe chegou. Cantamos parabéns para você e acendemos as velas do bolo. Vi em seus olhos castanhos as lagrimas brotarem. Ela era tão emotiva quanto eu. Eu a abracei e lhe entreguei meu presente. Ela adorou o vestido quando o estendeu na frente de seu corpo.
_Que lindo, filha! Quando comprou?_ seus olhos buscaram os meus e vi a preocupação neles.
_Ontem. Rafa me levou ao shopping.
_Shopping? À noite?_ vi no seu rosto que ela sabia da briga no estacionamento. Claro que deve ter sido o assunto da cidade hoje. Eu concordei com a cabeça e olhei em volta para indicar que não estávamos sozinhas e que poderíamos falar depois. Ela sorriu entendendo e me abraçou agradecendo de novo. _Onde Rafa está?
_Ele não estava se sentindo muito bem e foi embora, acho que estava com febre. Mandou pedir desculpas e te desejar feliz aniversário._ menti, torcendo para que ela não prestasse muita atenção.
_Ha, que pena. Espero que ele melhore logo._ minha mãe gostava muito do Rafa. Ela ainda não tinha perdido as esperanças de eu ficar com ele, mas no momento estava muito distraída com seu vestido novo e não percebeu nada.
Depois de receber cumprimentos e presentes de nossas visitantes, mamãe teve a ideia de abrir uma garrafa de vinho. Nós ficamos conversando e bebendo vinho até tarde.
_Então Helene, você ainda tem aqueles problemas com os homens. _ Marlene me perguntou me dando uma olhada dos pés à cabeça. Eu sabia que minha mãe conversava de nossos problemas pessoais com as amigas e Samanta já tinha presenciado uma sena, mas as outras duas não. Pelo que percebi Marlene, a mais velha, não acreditava que uma garota tão mal arrumada como eu podia despertar tanta a atenção masculina.
_Piorando cada dia mais. _ eu usei a sinceridade que o vinho me dava para responder. Ela riu sarcástica.
_Fico curiosa. _ ela falou e bebericou em seu copo recentemente reabastecido.
_Traga seu próximo namorado aqui e observe._ eu atirei e depois gargalhei alto.
_Filha, eu acho que você já bebeu demais._ minha mãe pegou o copo da minha mão.
_Ei, mãe, eu estou bem. Será que uma garota não pode se divertir na festa de aniversário de sua mãe? _eu tentei alcançar o copo de novo, mas ela o desviou de mim.
_Claro que pode filha, mas tenho medo que você passe mal.
_Eu nunca passei mal na minha vida mãe, você sabe disso. Nenhum resfriado, nenhuma dorzinha de barriga... Nada. Nem sei o que é isso._ ri alto. Todas estavam com os olhos arregalados para mim e achei que já estava falando demais. _ Acho que vou dar um mergulho agora. _ disse e fui me levantando. Minha mãe me alcançou e segurou meu braço.
_Helene. Acho que você não está em condições de nadar agora. Vamos pra cama._ ela estava calma, mas visivelmente chateada com meu comportamento.
_Eu estou bem mãe. Um mergulho vai me fazer bem. Eu não vou para longe da praia._ ela me avaliou por um momento e me deixou ir.
Caminhei para a praia com meu equilíbrio um tanto afetado. O formigamento no meu corpo só aumentava e eu queria apagar aquela queimação de algum modo. Cheguei perto do mar e deixei as ondas molharem meus pés. A água estava morninha e agradável. Dei mais alguns passos adiante e me abaixei ficando totalmente submersa na água salgada. Foi um mergulho rápido. Logo saí com medo de ser arrastada pelas ondas que estavam fortes naquela noite. Voltei para a praia e pude ver que minha mãe e suas amigas me observavam da varanda. Quando eu acenei para elas e me sentei na areia elas voltaram para dentro de casa.
_Linda noite para se embriagar._ a voz de veludo estava sussurrando no meu ouvido.
Tomei um susto de novo. Seu rosto estava muito perto do meu e eu podia sentir seu calor na minha pele. O desejo por ser beijada por ele pinicou em meus lábios.
_Faça de uma vez._ me deitei na areia com meus olhos fechados e esperei que ele aplacasse meu sofrimento. Esperei... Esperei... Abri meus olhos e o encontrei me olhando com uma mistura de confusão, medo ou surpresa, eu não consegui distinguir.
_Levante-se. _ ele disse curtamente.
Eu me sentei novamente confusa.
_Não entendo. Você me disse que..._ Sebastian não me deixou terminar.
_Não. Você não entende. Eu disse que você iria precisar que eu a tocasse, mas isso não é nem de longe fácil para mim._ ele estava visivelmente mal humorado.
_Por quê? Você não quer tocar em mim._ olhei para ele desconfiada procurando em seus olhos aquela atração que os homens demonstravam e novamente eu não a encontrei nos olhos dele. _você não me deseja._ não era uma pergunta e até mesmo eu podia ver a decepção na minha voz. Uma dorzinha funda perturbou meu coração. Eu nunca tinha sentido a rejeição antes, mas eu sabia que se tratava exatamente daquele sentimento.
Sebastian me olhou incrédulo e um tanto irritado.
_Você bebeu vinho demais! _Eu abaixei meus olhos para ele não ver a dor neles. Meu corpo pedia por aquele lindo homem estranho e justamente ele não me queria. Era humilhante. Ele colocou a mão sob meu queixo e o puxou gentilmente em sua direção._ Não esconda seus olhos de mim, por favor._ sua voz era doce, sua expressão mudou quando ele reconheceu meu sentimento. Seus olhos se tornaram intensos nos meus e não havia mais irritação neles só carinho._ Amo você Helene. Mais do que a minha vida. Por isso é tão difícil toca-la sabendo que ainda não é totalmente minha. Sabendo que você pode não me escolher._ ele suspirou fundo e fechou brevemente os olhos. _ Minha natureza e todos os meus instintos me levam a fazer uma coisa, mas meu coração me leva em outra direção. É muito difícil._ agora eu pude ver, estava lá aquele brilho intenso de desejo em seus olhos azuis escuros.
_É que eu não vi... Antes, em seus olhos._ tentei explicar bobamente. Ele sorriu entendendo e passou a mão pelo meu rosto.
_Sou muito velho. Sei camuflar minhas emoções muito bem quando quero e não queria te assustar.  Agora é melhor você entrar, precisa de um banho e de dormir._ ele se levantou tão rápido que não pude ver o movimento e estendeu a mão para mim. Segurei sua mão, mas ainda estava um pouco frustrada, afinal ele não tocou em mim como eu precisava e pelo que ele disse, não pretendia fazer isso.
Caminhamos para casa parando na varanda.
_Vai me deixar entrar no seu quarto?_ ele perguntou com um sorriso brincalhão.
_Você não precisou da minha permissão da primeira vez._  lembrei que acordei com ele no meu quarto.
_Na verdade eu não preciso, mas já que você me expulsou uma vez, acho educado só voltar lá com o seu consentimento._ Ele ainda sorria.
_Oh, me desculpe por aquilo. Eu estava meio enlouquecida. Devia te agradecer por ter me salvado do... _ não consegui dizer a palavra em voz alta.
_Do lobisomem._ ele esclareceu claramente divertido com meu constrangimento. _Não precisa agradecer. O prazer foi meu._ senti meu rosto esquentar de vergonha ao lembrar que ele me carregou nos braços, nua e desacordada.
_A festa começou muito antes dos convidados chegarem pelo que vejo._ Uma voz diferente me chamou atenção. Procurei pela praia e vi que um homem vinha caminhando em nossa direção. Sebastian não olhava para ele, era como se já soubesse que ele estava ali o tempo todo.

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  1. Luh, voc ainda me faz ter um infarto ! essa historia esta cada vez melhor, to morta de curiosidade ! (lari)

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    1. Oi Lari! Hahaha viu como a mente feminina pode ser perigosa! Viaje comigo nessa história porque vem mais coisa por aí. Bjss

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