terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Cap. 2



_Chegamos. Divertido não._ ele sorria abertamente._ tenho que sair mais para passear com você. Pura adrenalina!
Eu olhei para ele incrédula. Ele estava super animado, enquanto eu estava apavorada. Não consegui dizer nada por vários minutos, meu coração parecia que ia saltar pela boca.
_Qual é Helene. Você estava com medo? Eu não ia deixar que eles chegassem nem perto de você.
_É claro que eu estava com medo!_ eu gritei_ aqueles homens pareciam com lobos ferozes e você era apenas um... E ainda tinha a arma. Eu fiquei apavorada! Eles podiam ter te machucado, ou coisa pior. Ou você podia ter atirado em alguém e você seria um assassino agora e tudo isso porque eu queria comprar um vestido idiota pra minha mãe. _ meu peito arfava.
_Estava com medo por mim? _ ele torceu a cara._ isso não faz nenhum sentido. Eu sei me cuidar muito bem. E eu disse que não usaria a arma Helene, a não ser que fosse muito necessário.
_Pareceu muito necessário para mim._ eu ainda estava emburrada.
_Ei, foi divertido. Nada demais. Não fique assim._ ele tocou meu rosto_ relaxa.
_Você tinha razão. Está muito pior.
Ele desfez o sorriso e suspirou olhando para frente. A noite estava clara e fresca pelo vento constante que vinha do oceano.
_Eu vou cuidar de você. Não se preocupe._ ele disse com a voz rouca. Sei que ele queria me tranquilizar, mas nem mesmo ele parecia estar seguro de suas palavras.
Ficamos sentados dentro do carro por muitos minutos, quietos, perdidos em nossos pensamentos. Vi quando a Lua surgiu de mansinho no céu. Estava completamente cheia e brilhante.
Rafa se moveu de um jeito estranho ao meu lado e gemeu.
_O que foi? Está ferido? Eles te machucaram? _ coloquei a mão em sua cabeça que de repente estava abaixada em suas mãos. Ele não me respondeu, apenas respirava rápido e gemia baixo. _Rafa, por favor, fala, está sentindo alguma dor? _ entrei em pânico de novo.
Cheguei mais perto dele e tentei tirar suas mãos de sua cabeça para ver seu rosto. Ele se virou lentamente pra mim. Seus olhos estavam estranhos, mais sombrios e seu marrom estava avermelhado. Rafa me olhou de um jeito estranho, não totalmente estranho, eu já tinha visto aquele olhar antes, era um olhar faminto. Eu recuei instintivamente.
_Vá pra casa._ sua voz era um rosnado. _Vá agora! _ ele mandou.
_Rafa, o que foi?_ eu não podia deixa-lo passando mal.
_Eu não sei, mas alguma coisa não está bem comigo._ ele afundou a cabeça nas mãos de novo. _ Sai daqui Helene.
Eu tremi. Aquela não era a voz dele. Abri a porta da pick-up lentamente. Ainda não queria deixa-lo. Resolvi ir ver se minha mãe já tinha chegado do trabalho e pedir que ela viesse vê-lo. Quando dei a volta no carro dei de cara com ele de pé na minha frente. Seu corpo parecia ainda maior, ele estava um pouco arqueado na minha frente e seus olhos estavam cravados nos meus. Eu congelei no lugar.
_Rafa, você está me assustando._ falei com a voz tremula.
_Helene... Corre. _ ele disse antes de soltar um rosnado apavorante.
Eu corri o mais rápido que pude afundando meus pés na areia. Claro que eu não fui muito longe. Só senti um puxão forte na minha cintura e soltei um grito que foi logo abafado por uma grande mão áspera e peluda. A criatura enorme que me carregava me levou para o alto das pedras que invadiam o mar e parou no canto muito escuro entre duas pedras. Ele me colocou deitada, de uma forma cuidadosa, porém mais rápida do que eu podia perceber. Eu não conseguia raciocinar direito o medo e o choque me anuviava a mente. O Coração pulsando em meus ouvidos também não me ajudavam, mas eu sabia que aquilo que estava na minha frente era Rafa. Tinha duas vezes o meu tamanho e era coberto de pelos ralos e escuros, caminhava como um homem, mas um pouco curvado. Seu rosto estava desfigurado agora, bruto e peludo. Ele tinha presas visíveis em sua boca e era horripilante. Quis gritar de novo, mas a voz não vinha. Ele olhou por um instante pra mim. Virando sua cabeça de um lado para o outro, me analisando. De repente ele ergueu sua boca para o céu e uivou alto. Eu tomei um susto e tentei me levantar para fugir dali. Isso chamou sua atenção e vi a fúria em seus olhos vermelhos. Ele me agarrou muito rápido e me deitou de novo no chão agora mais brutamente. Senti minhas roupas sendo rasgadas sem ter visto o movimento de suas mãos. Suas unhas rasparam na minha pele e em um segundo eu estava completamente nua. O monstro parou e olhou para mim. Eu estava gritando e não tinha consciência disso até que o vi voltar a ser o Rafa. Era seu belo rosto moreno de novo. Mas ele não se conteve por muito tempo. Beijou minha boca com voracidade. Suas mãos subiam e desciam em meu corpo amassando minha carne, friccionando minha pele em todas as partes. Eu sentia seu toque queimar, era tudo muito confuso, eu queria empurrá-lo, mas seu contato não era de tudo ruim. Meu desejo também floresceu e parte de mim o queria tanto quanto ele, mas outra parte, uma verdadeiramente maior, o rejeitava com todas as forças.
_Helene._ o ouvi sussurrar quando alcançou meu sexo e fez uma carícia lenta. Contorci meu corpo debaixo de seu peso. O conflito se fez mais forte. Querendo e rejeitando fortemente. Percebi com pavor quando ele alcançou o botão de sua bermuda e o abriu.
_Não. _ gritei. _ Mas ele não me ouvia eu sabia disso. Seus movimentos eram cadenciados como se estivesse sonhando. _Pare Rafa... Pare. _ tentei empurrá-lo com mais força, mas ele nem se moveu. Senti com desespero seu membro tocar minha coxa esquerda deslizando para cima sem nenhuma hesitação.
Estava acabado. Afinal era aquele meu destino. Tanto tempo depois daquele primeiro dia em que fui atacada aos doze anos e Rafa me salvou, assim como vinha me salvando até hoje. Mas agora ele era meio fera, e era ele mesmo o meu agressor. Talvez fosse melhor que fosse ele e não um estranho qualquer. De certa forma ele era o único que tinha esse direito. Mesmo eu estando apavorada e sem ter nem ideia do que tinha acontecido para ele se transformar em um monstro, eu senti que devia me conformar e aceita-lo. Eu tentei ficar imóvel e recebe-lo em meu corpo, relaxar para ser menos doloroso. Esperei pela dor que eu sabia que viria, por ser minha primeira vez e pela brutalidade com que Rafa estava me tratando. Mas a dor não veio. Meus olhos estavam fechados com força então não vi o que aconteceu, só percebi que em milésimos de segundo ele não estava mais lá.
 Abri os olhos procurando no escuro e vi dois ao invés de um. Rafa era um monstro outra vez e estava salivando e rosnando para alguém que estava parado de costas diante de mim.
_Saia daqui. Você não quer fazer isso._ Uma voz aveludada, baixa e ameaçadora saía desse homem na minha frente.
_Não toque nela._ O rosnado da criatura ecoou no espaço.
_Eu não vou tocar nela. Vá para a sua matilha e fique lá por enquanto. Vou proteger Helene._ O homem disse. Ele sabia meu nome, mas eu não o reconheci. Não de costas para mim.
A coisa em que Rafa se transformou olhou para mim brevemente antes de desaparecer na noite. Foi muito rápido, mas eu pude ver a dor no fundo dos olhos dele. O Homem estranho não se virou imediatamente para mim. Eu percebi que estava congelada no lugar, mas comecei a me tornar consciente de que estava nua e procurei os trapos que minhas roupas tinham se tornado e tentei me cobrir. Peguei as pernas das minhas calças de viscose e as amarrei na cintura. Minhas mãos tremiam. Meu corpo todo tremia. Não sobrou muito da minha blusa, então eu só a segurei cobrindo parte dos meus seios volumosos. Os soluços de choro começaram a brotar no meu peito. Minha visão estava distorcida. Tudo tremia freneticamente. Tateei o chão no escuro buscando apoio para me levantar. Foi inútil, então eu me encolhi no canto da pedra chorando e tentando puxar o ar que não vinha. Minhas pernas estavam arranhadas, embora eu não as sentisse de nenhuma forma. Era como se elas não estivessem lá. O ar não vinha e eu não conseguia me acalmar. Eu precisava de ajuda. Minha mãe nunca me encontraria naquele lugar. Ninguém seria capaz de escalar aquela rocha, eu estava perdida.
_Não tenha medo de mim Helene._ o estranho na minha frente falou. Eu tinha me esquecido completamente dele. Ele ainda não tinha se virado para me olhar._ Vou leva-la para sua casa, se me deixar.
Pensei sobre isso por um momento. Quem era esse homem? Como ele chegou até aqui? Como sabia meu nome?
_Eu conheço você Helene. Pode confiar em mim. Não vou te machucar e não vou tocá-la se não quiser._ Sua voz era macia e me acalmava. Ele se virou lentamente e pude ver seu rosto na luz da lua. Era lindo. Tinha os cabelos tão negros quanto os meus e seus olhos também pareciam ser azuis, embora fosse difícil de dizer. Só sua pele branca era diferente da minha. Ele não sorria, mas seu rosto era tranquilizador._ Posso me aproximar? _ele perguntou antes de se mover um centímetro do lugar.
Pensei sobre isso por um instante. Eu tinha medo dele. Aprendi a ter medo de todos os homens, menos de Rafa. Mas que alternativa eu tinha agora? Eu só podia contar com a ajuda daquele estranho que parecia me conhecer.
Um aceno leve com a cabeça foi tudo o que eu consegui dar. Ele ainda esperou alguns segundos antes de dar o primeiro passo em minha direção. Mesmo assim quando ele fez isso eu quase pulei do lugar com o pânico me tomando de novo. Ele ergueu as palmas de suas mãos na sua frente para me certificar que não ia fazer nada. Encolhi-me ainda mais junto á pedra com meu peito arfando de pavor, meus braços protegendo meu peito, me fechando como um feto no canto.
_Calma. Eu sou seu amigo._ Olhei para seus olhos que agora estavam mais próximos. Meu instinto buscava achar em seus olhos aquele queimar característico, aquele desejo que deixava os homens insanos quando me viam e que era tão perigoso para mim. Mas não vi nada. Ele me olhava como uma mulher me olharia naquele momento, ele me olhava como minha mãe.
Relaxei um pouco, mas continuei o encarando em busca de alguma mudança repentina. O Homem estranho continuou se aproximando devagar e se agachou perto de mim. Encolhi mais um pouco me protegendo.
_Não tenha medo Helene, vou te levar para casa ok._ ele falou e estranhamente assoprou suavemente o meu rosto. O vento que vinha de sua boca se tornou uma névoa branca muito fina que eu vi entrando pelo meu nariz e minha boca que puxavam o ar descompassadamente. Aos poucos meus olhos foram ficando pesados e minha consciência foi se perdendo completamente.
Acordei na minha cama coberta por um lençol. O quarto estava escuro, mas logo que abri os olhos percebi que não estava sozinha. Meu corpo queimava de um jeito estranho. Meus lábios, meus seios e minhas coxas, tudo parecia estar formigando, até meu sexo. Levantei num pulo. A lembrança do que tinha acontecido veio com força na minha cabeça.
_Fiz um chá._ Dei um pulo com o susto, mas reconheci aquela voz no mesmo instante. Procurei pelo quarto e o vi perto da janela com o ombro encostado na parede e com os braços cruzados no peito. Ele me olhava desinteressadamente.
_Quem é você?_ minha voz saiu rouca.
_Seu atual protetor, ao que tudo indica._ ele sorriu como se isso fosse muito engraçado._ Meu nome é Sebastian Cruz. _ ele tinha um leve sotaque estrangeiro, mas falava um Português perfeito. Clássico como nos livros.
_O que... O que está fazendo aqui?_ minha cabeça estava rodando. Tinham muitos pensamentos de uma só vez.
_Beba o chá, depois conversamos._ ele falou com um meio sorriso nos lábios.
Olhei para a xícara na minha cabeceira e pensei que talvez fosse mesmo uma boa ideia. O chá tinha um gosto estranho e estava muito quente e sem açúcar. Fiz uma careta, mas terminei de beber. Não identifiquei de que era, mas não me interessei o bastante para perguntar. Funcionou bem. Meus pensamentos se tornaram mais claros e pude traçar uma linha dos acontecimentos. Lentamente fui recordando de tudo.
_O que era aquilo? No que Rafa se tornou? _ Sabia que ele sabia, pela conversa que tiveram.
_Era um lobisomem. Você não percebeu?_ ele zombou. O tal Sebastian era arrogante e altivo, mas de uma forma atraente.
_Isso não existe!_ eu soltei, mesmo tendo certeza de que vi exatamente isso, um lobisomem. Ele não me respondeu. Apenas olhou para mim esperando._ Por que Rafa virou um lobisomem? _ decidi encarar os fatos de uma vez. O estranho que agora eu sabia que se chamava Sebastian sorriu divertido.
_Você é uma mulher inteligente. Gosto disso. _ele falou e se virou para mim, ainda distante_ Coisa de família, você sabe. O pai dele... O avô... O bisavô e assim por diante. Eles são muitos pro meu gosto._ ele fez uma careta. Sebastian tinha um rosto muito expressivo.
_Mas eu nunca tinha visto ele assim.
_Foi a primeira vez que ele se transformou. Coitado._ Ele fez uma careta diferente, de deboche.
_Então ele não sabia de nada? E como você sabe dessas coisas?
_Bom, se ele não sabia de nada você terá que perguntar a ele, embora eu duvide. Essas tradições familiares costumam ser bem explicadas aos seus descendentes._ sua cara de deboche ainda estava lá_  Mas quanto a mim, eu sei de muita coisa. Sei, por exemplo, o que você é.
_Sabe? Então me diga, por favor._ eu implorei e me movi em sua direção instintivamente, esquecendo que ainda não estava vestida, apenas coberta pelo lençol. Isso me deixou envergonhada. Aquele homem me carregou nua e inconsciente para casa. Ele poderia ter feito o que quisesse comigo. Pensei no meu sexo formigando e estremeci. Onde eu estava com a cabeça em ficar de conversa com ele tão tranquilamente, enquanto nem sabia quem ele era e o que tinha feito comigo. Meu rosto caiu enquanto eu buscava me enrolar ainda mais no lençol. Meus olhos buscaram o rosto dele para tentar ter alguma resposta.
_Eu não toquei em você._ ele adivinhou minha preocupação.
_Como posso ter certeza?_ senti os arranhões que se espalhavam por todo meu corpo e que não podia sentir antes, mas que agora ardiam por toda parte.
_Precisa acreditar em mim, eu não faria isso._ ele pareceu confuso, tinha uma linha fina entre os olhos e seus lábios estavam caídos. Ele descruzou os braços e deu um passo em minha direção.
_Fique aí._ eu gritei. Ele ergueu as mãos de novo como fez na pedra e parou.
_Helene, é normal que se sinta assim, principalmente depois do que aconteceu ontem.
_Ontem? Quanto tempo eu estou dormindo?
_Algumas horas. Deve ser meio dia agora.
_Minha mãe? Ela sabe que estou aqui?
_Sim. Ela já veio te olhar algumas vezes antes de ir para o trabalho. Ela Não me viu. Não se preocupe. Ela pensa que ficou acordada até tarde com seu amigo lobisomem e por isso dormiu até tarde._ ele voltou a rir divertido.
_Como sabe o que ela pensa?
_É muito fácil saber o que as pessoas pensam. Você mesmo faz isso o tempo todo.
_Eu apenas percebo as expressões e a mudança no olhar das pessoas, não leio mentes.
_É muito eficiente. _ ele piscou para mim_  Mas receio que tenho técnicas ainda melhores. Mas me diga, _ ele franziu uma sobrancelha _ tem uma coisa que eu não entendi e estou louco para saber_ ele cruzou os braços na frente do peito novamente_ por que afinal, você parou de resistir a ele? Por que você parou de lutar? Você o permitiu. Você o queria? _ seu cenho estava franzido enquanto olhava para mim. Eu desviei o olhar, envergonhada. Eu sabia do que ele estava falando, e imaginar que esse homem estava lá me olhando ser quase violentada rasgou meu peito com uma dor profunda.
_ Eu não tinha mais porque resistir. Estava tudo perdido._ falei baixinho.
_Então você o permitiu? Não acho que tenha sido isso._ ele insistiu.
_Afinal eu achei que se algum homem tinha direito sobre mim esse era Rafael, por tudo o que ele fez por mim._ confessei.
_Brilhante conclusão!_ ele zombou_ Isso teria acabado com tudo._ agora ele estava bravo_ O que ele fez por você era a obrigação dele, estava escrito para ser assim desde... Desde sempre.
_Como assim, obrigação?
_Você queria saber o que você é. Pelo menos antes de ficar aí decidindo se eu abusei ou não de você enquanto dormia, então vou dizer a você o que você é. _ ele deu dois passos pelo quarto e se virou para mim novamente _  Você, Helene, é A Pura. Uma mulher especial, a mulher original. Nasce uma igual a você a cada 100 anos e essa mulher é destinada a perpetuação das subespécies humanas._ Sebastian falava rápido e tive que me esforçar para acompanhar o que estava dizendo.
_Como assim? _ minha cabeça girou.
 _ Macho de cada uma das três subespécies fica... “ligado” a você, até que você escolha um deles. _ ele me olhou profundamente nos olhos medindo minha reação. Eu esperei que ele continuasse. Aquilo ainda não fazia muito sentido. _Um lobisomem, um ultra-humano e um vampiro. _ Sebastian continuou _ O lobisomem fica com o cargo de te guardar até que complete seus vinte e um anos quando atinge sua total maturidade. Por isso que Rafael era tão devotado a você._ ele disse com desdém e bufou. _ Os outros dois são lentamente aproximados por um chamado invisível, um canto de sereia, até nós a encontramos e te damos a chance de escolher. Por sorte eu cheguei um pouco antes. _ ele ponderou algum pensamento e escureceu seus olhos, mas continuou_ O Ultra-humano deve chegar depois do seu aniversário, como é a regra.
Eu sei que meu rosto devia estar branco. Aquela era a história mais louca que eu já tinha ouvido, mas ainda assim meu subconsciente acreditou completamente nela. Mesmo que meu consciente relutasse, lá no fundo eu sabia que era verdade. Eu sabia que tinha alguma coisa muito diferente com a minha vida. Só não podia imaginar tanto. Meu pensamento estava acelerado. Eu estava excitada por finalmente ter respostas. Mesmo sendo aquelas. Estranhas, mas já era alguma coisa. Melhor do que viver como uma aberração e sem saber de nada.
_Se o... Ultra-humano ainda não chegou... Você só pode ser o... _ não consegui dizer a palavra.
_O vampiro. _Ele deu seu melhor sorriso que tinha visto até agora.
“Ah!” eu arfei. Minha cabeça girou. Voltei a olhar para ele que tinha desfeito o sorriso e olhava preocupado para mim.
_Acho melhor deixar você sozinha um pouco. Tome um banho e vista-se. Vamos ficar mais a vontade para conversar com mais roupas entre nós._ ele falou e desapareceu. Simplesmente sumiu. Tive a impressão de ter visto um vulto passar pela janela, mas não tinha certeza.
Levantei-me e corri para o chuveiro. Realmente precisava de um banho. Meu corpo estava todo marcado, então evitei olhar muito para ele. Mas o que estava ficando cada vez mais difícil de ignorar era a queimação que se estendia em quase todas as partes do meu corpo. Se eu me concentrasse nelas eu podia sentir o calor, uma espécie de desejo por ser tocada naqueles lugares. Era estranho sentir isso, ainda mais depois da violência que sofri, mas era muito real e muito forte. Experimentei passar minhas próprias mãos para ver se aquilo aliviava, mas não tinha efeito. A pele formigava em protesto pedindo pares de mãos diferentes. Abri mais o chuveiro para que a água se tornasse mais fria, mas o calor vinha de dentro do corpo, não de fora. Desisti. Saí do banho me olhando rapidamente no espelho. Meus olhos estavam mais escuros hoje. Eles refletiam minhas emoções e com certeza hoje era um dia escuro para mim. Onde estaria Rafael? Como ele estaria se sentindo agora. Senti tanta dor imaginando seu arrependimento, seu desespero por ter se tornado um monstro tão horrível e brutal. Sequei uma lágrima que se desprendeu dos meus olhos e passei a secar meus cabelos. Eles estavam compridos de novo. Não tinha um mês que eu os tinha cortado curtinhos, mas eles cresciam assombrosamente rápido, e já estavam tocando minhas costas com suas ondas volumosas e seu brilho negro como o ébano. Fiz um coque grande, como sempre, para evitar a atenção e fui ao meu quarto me vestir. As roupas não estavam me servindo direito, meus quadris estavam mais largos e minha cintura mais fina nas últimas semanas. Achei a calça de malha mais larga que eu tinha e vesti uma camisa de malha também.
_Pronto._ murmurei para mim mesma.
_Está adorável!_ dei um pulo com o susto. Sebastian estava bem na minha frente, vindo do nada. _Desculpe._ ele sorriu.
_Estava me espionando?_ perguntei enraivada. Eu tinha acabado de me vestir e ele voltou. Ele pareceu confuso de novo.
_Você disse que estava pronta.
_Eu disse?_ lembrei que eu tinha sussurrado “pronto”, mas nem se tivesse alguém no quarto teria ouvido isso. _ Você me ouviu?
_Sim. Eu escuto muito bem._ ele sorriu de novo e se aproximou mais. _ Gosto de suas roupas. Elas tornam quase tolerável ficar perto de você. Ele tocou meu rosto. Eu congelei no lugar. Minha pele se acalmava sob seu toque. Percebi instantaneamente que eram aquelas mãos que meu corpo pedia, ansiava. Meu coração disparou e eu baixei meus olhos. Um medo de que ele adivinhasse meus pensamentos se apossou de mim. Ele colocou os dedos sob meu queixo para puxar meu rosto para o dele novamente._ Não esconda seu olhar de mim. _ sua voz era gentil, pedinte. Perdi-me em seus olhos azuis. Eram mesmo azuis, só que mais escuros que os meus. Mais sombrios. Sua pele branca contrastava divinamente com o cabelo negro e liso que brincava bagunçado, levemente comprido sobre suas sobrancelhas. _Ainda tem medo de mim?_ ele perguntou docemente.
Percebi que não sentia medo. Sentia outras coisas, menos medo. Balancei a cabeça negando e um sorriso satisfeito surgiu em seu rosto. Meu coração estava pulando e o desejo por ser tocada aumentando cada vez mais. Balancei em sua direção involuntariamente.
_Sei que quer que eu te toque. _ ele olhou sério para mim. Meus olhos se arregalaram na mesma hora._ Não é culpa sua, é só uma regra que o lobo quebrou. Ele não tinha o direito de te tocar, você não pertence a ele, então se ele tocou em você isso dá o direito dos outros dois fazerem o mesmo.
Eu me afastei dele indignada.
_Como é? _ eu gritei. Sebastian parecia incomodado com a minha reação, ou com meu grito. Ele mantinha sua voz sempre tão plana que de repente eu criei uma perturbação no ambiente.
_Helene, não fui eu quem criou as regras, eu apenas sei que elas existem.
_Está me dizendo que você e outro cara estranho que eu ainda nem sei quem é, vão tocar em mim assim como Rafael fez? Uma ova que vão!_ nunca me senti com tanta raiva.
_Não terá sossego até que façamos._ sua voz era irritantemente calma.
_Eu quero que vá embora. Saia da minha casa agora!_ quando pisquei os olhos ele não estava mais lá. Minha irritação diminuiu no mesmo instante dando espaço para o vazio que sua ausência deixou.
_Droga! Droga! Droga!_ gritei sabendo que seja lá onde estivesse ele estava ouvindo.
Fui para a cozinha e tomei um copo de agua para tentar colocar meus nervos no lugar. Eu tinha que pensar direito. Hoje era o aniversário da minha mãe. Eu tinha planejado fazer um bolo pra ela. Iria convidar Rafa e umas amigas dela que também eram solteiras para comemorar. Mamãe não tinha um namorado atualmente. Não que ficasse sozinha. Ela arrumava uns namorados de vez em quando, mas não durava muito. Como ela insistia em trazê-los para casa depois de alguns encontros, tudo acabava em clima horrível quando eles colocavam os olhos em mim. Rafa já teve que espantar muitos desses caras que depois de minha mãe terminar com eles, ficavam me perseguindo. Eu sempre fui um estorvo na vida dela. Como eu gostaria de ser diferente. De ser normal. Suspirei e resolvi dar seguimento ao plano inicial, pelo menos parte dele, já que Rafael estava fora da lista de convidados. Percebi que o estava chamando pelo nome e não pelo apelido carinhoso. Eu não podia negar que estava magoada com o que ele fez. Eu confiava nele e agora estava tudo perdido. Eu nunca me senti tão sozinha. Segurei meu choro. Não ia adiantar ficar me lastimando, então comecei a fazer o bolo para o aniversário da minha mãe.
O trabalho ocupou minha mente, mas tive que me esforçar muito para me desligar do formigamento que não me deixava em paz. Consegui fazer o bolo e arrumar a casa para a comemoração. Seria uma coisa simples e íntima. Já tinha convidado suas amigas e logo elas começaram a chegar. Samanta, era a mais velha, tinha uns quarente e cinco anos e tinha um quiosque aqui na praia. Marlene era funcionária pública e era a que mais arrastava minha mãe para as baladas, elas tinham a mesma idade, trinta e oito anos, e Janice era pouco mais nova, porém, era a mais centrada. Ela era professora do pré-escolar, assim como mamãe, e estava esperando seu príncipe encantado pacientemente.
_Sejam bem vindas! Vocês já sabem onde encontrar tudo na casa, então, fiquem à vontade.
Elas se viravam bem conversando entre si e pegando bebidas na geladeira, então não tive que me esforçar muito em fazer sala. Coloquei o CD do Tim Maia favorito da minha mãe e fiquei pelos cantos, fingindo prestar atenção no que elas diziam. Meu eu ainda não era o mesmo. Eu estava mais estranha do que nunca. Pude ver isso nos olhares das mulheres, mas ignorei. Exatamente as oito, minha mãe chegou. Cantamos parabéns para você e acendemos as velas do bolo. Vi em seus olhos castanhos as lagrimas brotarem. Ela era tão emotiva quanto eu. Eu a abracei e lhe entreguei meu presente. Ela adorou o vestido quando o estendeu na frente de seu corpo.
_Que lindo, filha! Quando comprou?_ seus olhos buscaram os meus e vi a preocupação neles.
_Ontem. Rafa me levou ao shopping.
_Shopping? À noite?_ vi no seu rosto que ela sabia da briga no estacionamento. Claro que deve ter sido o assunto da cidade hoje. Eu concordei com a cabeça e olhei em volta para indicar que não estávamos sozinhas e que poderíamos falar depois. Ela sorriu entendendo e me abraçou agradecendo de novo. _Onde Rafa está?
_Ele não estava se sentindo muito bem e foi embora, acho que estava com febre. Mandou pedir desculpas e te desejar feliz aniversário._ menti, torcendo para que ela não prestasse muita atenção.
_Ha, que pena. Espero que ele melhore logo._ minha mãe gostava muito do Rafa. Ela ainda não tinha perdido as esperanças de eu ficar com ele, mas no momento estava muito distraída com seu vestido novo e não percebeu nada.
Depois de receber cumprimentos e presentes de nossas visitantes, mamãe teve a ideia de abrir uma garrafa de vinho. Nós ficamos conversando e bebendo vinho até tarde.
_Então Helene, você ainda tem aqueles problemas com os homens. _ Marlene me perguntou me dando uma olhada dos pés à cabeça. Eu sabia que minha mãe conversava de nossos problemas pessoais com as amigas e Samanta já tinha presenciado uma sena, mas as outras duas não. Pelo que percebi Marlene, a mais velha, não acreditava que uma garota tão mal arrumada como eu podia despertar tanta a atenção masculina.
_Piorando cada dia mais. _ eu usei a sinceridade que o vinho me dava para responder. Ela riu sarcástica.
_Fico curiosa. _ ela falou e bebericou em seu copo recentemente reabastecido.
_Traga seu próximo namorado aqui e observe._ eu atirei e depois gargalhei alto.
_Filha, eu acho que você já bebeu demais._ minha mãe pegou o copo da minha mão.
_Ei, mãe, eu estou bem. Será que uma garota não pode se divertir na festa de aniversário de sua mãe? _eu tentei alcançar o copo de novo, mas ela o desviou de mim.
_Claro que pode filha, mas tenho medo que você passe mal.
_Eu nunca passei mal na minha vida mãe, você sabe disso. Nenhum resfriado, nenhuma dorzinha de barriga... Nada. Nem sei o que é isso._ ri alto. Todas estavam com os olhos arregalados para mim e achei que já estava falando demais. _ Acho que vou dar um mergulho agora. _ disse e fui me levantando. Minha mãe me alcançou e segurou meu braço.
_Helene. Acho que você não está em condições de nadar agora. Vamos pra cama._ ela estava calma, mas visivelmente chateada com meu comportamento.
_Eu estou bem mãe. Um mergulho vai me fazer bem. Eu não vou para longe da praia._ ela me avaliou por um momento e me deixou ir.
Caminhei para a praia com meu equilíbrio um tanto afetado. O formigamento no meu corpo só aumentava e eu queria apagar aquela queimação de algum modo. Cheguei perto do mar e deixei as ondas molharem meus pés. A água estava morninha e agradável. Dei mais alguns passos adiante e me abaixei ficando totalmente submersa na água salgada. Foi um mergulho rápido. Logo saí com medo de ser arrastada pelas ondas que estavam fortes naquela noite. Voltei para a praia e pude ver que minha mãe e suas amigas me observavam da varanda. Quando eu acenei para elas e me sentei na areia elas voltaram para dentro de casa.
_Linda noite para se embriagar._ a voz de veludo estava sussurrando no meu ouvido.
Tomei um susto de novo. Seu rosto estava muito perto do meu e eu podia sentir seu calor na minha pele. O desejo por ser beijada por ele pinicou em meus lábios.
_Faça de uma vez._ me deitei na areia com meus olhos fechados e esperei que ele aplacasse meu sofrimento. Esperei... Esperei... Abri meus olhos e o encontrei me olhando com uma mistura de confusão, medo ou surpresa, eu não consegui distinguir.
_Levante-se. _ ele disse curtamente.
Eu me sentei novamente confusa.
_Não entendo. Você me disse que..._ Sebastian não me deixou terminar.
_Não. Você não entende. Eu disse que você iria precisar que eu a tocasse, mas isso não é nem de longe fácil para mim._ ele estava visivelmente mal humorado.
_Por quê? Você não quer tocar em mim._ olhei para ele desconfiada procurando em seus olhos aquela atração que os homens demonstravam e novamente eu não a encontrei nos olhos dele. _você não me deseja._ não era uma pergunta e até mesmo eu podia ver a decepção na minha voz. Uma dorzinha funda perturbou meu coração. Eu nunca tinha sentido a rejeição antes, mas eu sabia que se tratava exatamente daquele sentimento.
Sebastian me olhou incrédulo e um tanto irritado.
_Você bebeu vinho demais! _Eu abaixei meus olhos para ele não ver a dor neles. Meu corpo pedia por aquele lindo homem estranho e justamente ele não me queria. Era humilhante. Ele colocou a mão sob meu queixo e o puxou gentilmente em sua direção._ Não esconda seus olhos de mim, por favor._ sua voz era doce, sua expressão mudou quando ele reconheceu meu sentimento. Seus olhos se tornaram intensos nos meus e não havia mais irritação neles só carinho._ Amo você Helene. Mais do que a minha vida. Por isso é tão difícil toca-la sabendo que ainda não é totalmente minha. Sabendo que você pode não me escolher._ ele suspirou fundo e fechou brevemente os olhos. _ Minha natureza e todos os meus instintos me levam a fazer uma coisa, mas meu coração me leva em outra direção. É muito difícil._ agora eu pude ver, estava lá aquele brilho intenso de desejo em seus olhos azuis escuros.
_É que eu não vi... Antes, em seus olhos._ tentei explicar bobamente. Ele sorriu entendendo e passou a mão pelo meu rosto.
_Sou muito velho. Sei camuflar minhas emoções muito bem quando quero e não queria te assustar.  Agora é melhor você entrar, precisa de um banho e de dormir._ ele se levantou tão rápido que não pude ver o movimento e estendeu a mão para mim. Segurei sua mão, mas ainda estava um pouco frustrada, afinal ele não tocou em mim como eu precisava e pelo que ele disse, não pretendia fazer isso.
Caminhamos para casa parando na varanda.
_Vai me deixar entrar no seu quarto?_ ele perguntou com um sorriso brincalhão.
_Você não precisou da minha permissão da primeira vez._  lembrei que acordei com ele no meu quarto.
_Na verdade eu não preciso, mas já que você me expulsou uma vez, acho educado só voltar lá com o seu consentimento._ Ele ainda sorria.
_Oh, me desculpe por aquilo. Eu estava meio enlouquecida. Devia te agradecer por ter me salvado do... _ não consegui dizer a palavra em voz alta.
_Do lobisomem._ ele esclareceu claramente divertido com meu constrangimento. _Não precisa agradecer. O prazer foi meu._ senti meu rosto esquentar de vergonha ao lembrar que ele me carregou nos braços, nua e desacordada.
_A festa começou muito antes dos convidados chegarem pelo que vejo._ Uma voz diferente me chamou atenção. Procurei pela praia e vi que um homem vinha caminhando em nossa direção. Sebastian não olhava para ele, era como se já soubesse que ele estava ali o tempo todo.

Cap. 1



_Se eu pudesse dizer que alguma visão chega perto de ser tão linda quanto você seria essa, com certeza._ Rafa olhou pra mim com um sorriso travesso.
_Não seja bobo Rafa, Essa vista é de longe mais linda que qualquer coisa._ voltei meus olhos para o horizonte alaranjado pelo por do Sol.
 A linha firme que o mar traçava entre o seu azul e o azul do céu era tão reta que parecia sólida. Imaginei-me caminhando sobre ela e tocando a bola avermelhada que estava baixando lentamente para se esconder até o próximo dia.
_Eu estive pensando..._Rafa quebrou o silencio, mas sua voz estava um tanto insegura, o que me chamou a atenção. Eu tinha razão, seu rosto era incerto.
_Diga._ eu encorajei com um meio sorriso.
_Não quero que se ofenda..._ele vacilou.
_Não vou me ofender Rafa, pode falar qualquer coisa comigo, você sabe._ Rafa nunca tinha me magoado, pelo contraio, ele sempre fazia de tudo para me proteger de tudo.
_Talvez... Só talvez, você não seja exatamente igual a nós.
_Como assim? Eu acho que é muito claro que eu não sou igual a ninguém.
_Sim, mas, e se você for realmente diferente, quero dizer, se você não for daqui, se não for humana.
_Um ET? _eu sorri_ eu já pensei sobre isso. Na verdade eu até conversei com a mamãe, mas ela disse que não tem nenhuma chance de eu não ser filha dela. Eu nasci de parto normal quase sem nenhuma dor e tão rápido que não houve tempo de ir ao hospital. Ela disse que nunca esqueceria os meus grandes olhos da cor do mar olhando conscientemente pra ela._ eu desviei meus olhos para o mar quando a lembrança, vaga, mas presente daquele dia veio a minha mente. Eu me lembrava de tudo. De cada momento da minha vida desde o nascimento e isso também não parecia ser comum entre as pessoas.
_Eles têm mesmo a cor do mar. _Rafa falou buscando meus olhos, um tanto distraído. _Também mudam de tonalidade assim como ele. Hoje estão tão claros e azuis como essas águas.
_Vamos pra casa, você já está vermelho e suado como um porco Rafa._ Eu falei me levantando.
 _Tira essa onda porque isso não acontece com você, sua ET nascida de mulher. Talvez seu pai fosse um ET, isso você não perguntou sua mãe não é?_ Rafa estava brincando, mas sei que era o que ele estava querendo saber afinal.
Virei-me pra ele rápido demais e quase esbarrei em seu rosto, eu não sabia que ele também tinha se levantado. Seus olhos redondos e marrons estavam fixos nos meus. Seu rosto estava mais quadrado e masculino do que eu me lembrava, tinha muito tempo que não o olhava tão de perto, ou com tanta atenção. Seus lábios grossos e bem desenhados estavam entreabertos, seu hálito era almiscarado e parecia ser algo saboroso de se provar. Senti um aperto na garganta e um calor que não vinha do Sol.
Quando fui falar percebi que também estava com minha boca um pouco aberta.
_Meu pai era humano, eu me lembro dele._ minha voz saiu num sussurro. Rafa não respondeu. Estava paralisado olhando pra mim.  Pude sentir a energia que vinha dele, de seu corpo. _Rafa, é melhor agente ir agora..._ eu ia me afastando, mas ele segurou meu braço e trouxe para mais perto. Os grandes músculos de seu braço se tencionaram ao me segurar firme em seu peito. Meu corpo se colou completamente no dele e por um momento só o que eu tinha consciência era do seu cheiro quente e amadeirado invadindo minha cabeça. _Rafa,_ eu chamei sem vontade, mas tinha alguma coisa na minha mente que dizia que era muito errado estar assim com ele, mesmo que meu corpo começasse finalmente a responder ao seu, eu sabia que não devia.
_Eu acho que não consigo deixar você ir agora._ ele falou com esforço, parecia ter algo preso em sua garganta. Nossas respirações estavam aceleradas, senti meu coração disparar e a onda de calor e sensações que ultimamente eu vinha sentindo do nada, surgiu com força me assustando. Era como uma alucinação, quase uma fantasia erótica com imagens e desejos que eu nunca tinha sentido. Um tipo de eletricidade que corria em minha pele como se fosse tocada por um homem que me fazia querer cada vez mais.
_Não._ Eu quase gritei e ele me soltou.
_Me desculpe._ Rafa falou suspirando forte e se curvou apoiando as mãos nos joelhos.
Eu me senti arrependida por tê-lo rejeitado. Por que eu não podia simplesmente ficar com ele? Ele era bonito, inteligente e cuidava de mim. Além do mais eu o amava, não do jeito que era necessário, mas amava.
_Não é culpa sua, não precisa se desculpar. _ minha mão foi em sua direção num impulso por consolá-lo, mas achei que não seria boa ideia, então a recolhi no meu peito. _ Vem, vamos lá pra casa, você pode tomar um banho e fazer um lanche comigo, depois temos que ir à cidade comprar um presente para o aniversário da minha mãe. _tentei manter um sorriso no rosto, eu sabia que ele saberia que eu estava sorrindo, mesmo sem olhar para mim. Rafa levantou os olhos brevemente e vi que ele estava decidindo. Ele preferia ir embora, mas cedeu ao meu pedido, como sempre.
_Só se você fizer bolinhos de chuva pra mim._ ele bateu a areia da bermuda e se ergueu. Seu rosto estava perfeitamente refeito. Rafa já tinha se acostumado a se refazer dessas situações comigo. Éramos amigos desde o pré-escolar e ele foi o único que conseguiu conviver comigo depois das mudanças da minha puberdade.
_Mas nem está chovendo! _ coloquei minhas mãos na cintura fazendo uma cena de brincadeira.
_Isso não é problema._ ele correu para uma onda que tinha quebrado muito próxima de nós e salpicou água em mim_ se é de chuva que você precisa.
Eu corri para longe dele toda molhada e rindo.
_Rafa, você é um peste! _Corri pra casa e ele me seguiu correndo também, logo ele me ultrapassou com facilidade.
_Você é muito lenta! Tomara que nunca tenha que fugir de ninguém de verdade._ Ele chegou à varanda sorrindo, mas seu sorriso se anuviou quando ele disse a ultima frase. Eu fingi que não percebi seus temores.
Bati minha bermuda de malha, que era comprida até os joelhos. Era o que eu usava para ir à praia. Eu não podia colocar um biquíni nem nada parecido, já tinha atenção demais completamente vestida.
_Acho melhor você tirar essa areia antes de entrar ou minha mãe vai ter um ataque.
_Não sei por que, é você quem limpa a casa mesmo._ Ele disse passando as mãos pelo corpo para soltar a areia presa em sua pele bronzeada. Reparei em como seu peito estava definido, sabia que Rafa malhava, era uma das poucas coisas que ele fazia na vida, além de me paparicar, mas de repente eu estava muito consciente de suas formas, de sua presença masculina. _Já estou limpo? _ ele perguntou olhando curiosamente pra mim. Percebi que o estava encarando, na verdade eu o estava “secando”.
_Está bom._  respondi sem graça, minhas palavras pareceram ter duplo sentido. Ele sorriu, e entrou na casa aberta.
 _Faça bastante, está muito bom! _Rafa comeu o que seria seu décimo bolinho.
_Tenho que dizer, depois que você começou a malhar está ficando difícil sustentar seus novos músculos._ Tirei mais uns bolinhos da frigideira e coloquei no prato com a toalha de papel. Percebi que ele não fez nenhuma piada disso então me virei para olhá-lo. Rafa estava pensativo, pegando mais um bolinho no cestinho da mesa. _O que foi?
_Eu nunca disse que estava malhando._ ele enfatizou a ultima palavra de um jeito estranho.
_Bom, mas você está sempre dizendo que vai a academia, não é para malhar?_ eu estava confusa.
_Não. Não estou indo em uma academia para malhar._ ele se mexeu desconfortavelmente na cadeira.
_Então para que?
_É uma academia de tiro, você precisa fazer algumas aulas para ter um porte de armas._ ele falou me olhando apreensivo, como se fosse uma confissão._ eu já terminei as aulas e adquiri o documento, vou escolher uma arma hoje.
_Você tá brincando não é?_ vacilei por um estante, mas seu rosto continuou sério, então vi que era verdade._ Por que você quer uma arma Rafa?
_Para proteção, nada demais._ ele disse simplesmente, mas eu sabia qual era a sua intenção.              
_Para minha proteção você quer dizer. _ falei sério e me virei para apagar o fogo da frigideira. Aquilo não era bom, meu rosto queimou de indignação.
_Helene é só por precaução, não precisa se preocupar com isso, só vou usar em último caso.
_Rafael Silva, armas são perigosas. Não importa o quanto você saiba lidar com elas. Eu não gosto disso, não mesmo._ tentei manter minha voz dura, alta e até grossa, mas acho que não funcionou. Rafa olhou pra mim segurando um sorriso que de repente se explodiu em uma gargalhada. _Do que você está rindo? _perguntei irritada.
_Desculpe Helene, mas tem tanto tempo que não escuto você me chamar pelo nome completo que eu voltei à infância por um segundo. Você sempre fica ainda mais adorável quando tenta ficar brava. _ele continuou rindo e sacudindo a cabeça. Percebi que ele evitava me olhar.
_Rafa, esse não é o ponto. Afinal, eu não quero você se arriscando tanto por minha causa.
Ele parou de rir e se levantou olhando para mim, seus olhos estavam intensos. Ele deu um passo na minha direção, mas parou.
_Por sua causa... _ele pausou procurando as palavras_ eu daria minha vida por você. E se eu tiver que atirar em alguém para te proteger, Helene, não tenha dúvida que eu atirarei. Não vou deixar ninguém tocar em você de novo. Nunca me perdoei por aquele dia, por não estar lá.
_Rafa você precisa esquecer aquilo, não foi culpa sua, você não é obrigado a me proteger.
_Obrigado não, mas eu quero. Eu não vejo que tenho outra escolha. Você precisa de proteção Helene e parece que precisará, cada vez mais.
_Do que você está falando? Como assim cada vez mais?_ também dei um passo para mais perto dele tentando decifrar seu rosto por trás de suas meias palavras.
_Eu não tenho certeza_  ele se afastou, desviando os olhos de mim._ mas parece que você está mudando, está mais atraente a cada dia. Como uma flor que está desabrochando e exalando seu perfume por toda parte. Logo as abelhas virão aos enxames. E eu vou estar preparado.
_Rafa..._meu queixo caiu. Era por isso que ele tem andado tão preocupado e suas quedas por mim tão mais frequentes.
_Não fique preocupada demais, talvez seja só eu que estou imaginando coisas. _ ele me olhou de novo com um sorriso tranquilo. _vamos à cidade, você não disse que queria ir comprar um presente para sua mãe?
Meu Deus ele tinha razão. Talvez ele estivesse percebendo o tempo todo que eu estava diferente, que eu sentia coisas agora. Coisas que eu nunca senti. E se ele podia sentir, talvez os outros também pudessem. Talvez eu tivesse demonstrando isso, ou agindo de acordo com isso afinal. Esse pensamento me deixou em pânico. Já era muito difícil se desvencilhar da atração Exagerada que eu despertava nos homens desde que minha menstruação veio pela primeira vez. Fui atacada e quase estuprada aos doze anos a caminho da escola por estar usando uma saia. Um homem adulto foi o primeiro a me ver naquela manhã e não pode evitar me atacar. Foi Rafa que me salvou quando ouviu meus gritos abafados no matagal perto da estrada. Ele chegou bem na hora que o desconhecido deitava sobre mim com a mão abafando minha boca, depois de ter rasgado todas as minhas roupas. Até hoje eu não entendo como Rafa conseguiu me ouvir, ou como conseguiu bater num homem com o dobro de sua idade, e principalmente, como ele conseguiu me ver completamente nua e conter seus instintos de homem. Hoje eu sei que não deve ter sido fácil, contando com a experiência que tenho de problemas com todos os homens que colocam os olhos em mim. Tive que me afastar de todos. Amigos, conhecidos, parentes, amigas por causa dos seus namorados, todos. Só Rafa ficou. E minha mãe é claro.
_Eu não sei o que seria de mim sem você. _disse tristemente, angustiada com as lembranças.
Ele me olhou carinhosamente. Não era a primeira vez que eu disse isso a ele, mas acho que nunca foi com tanto sentimento. Rafa me abraçou apoiando meu rosto em seu peito como um bom amigo que ele era.
_Sabe que eu também não sei o que seria de mim se não fosse você. Acho que eu teria que procurar um emprego para ocupar o meu tempo._ ele acariciou meu cabelo docemente.
_Acho uma coisa boa que você seja um herdeiro rico. Assim você tem tempo para me paparicar o tempo todo.
Ele sorriu alto.
_Também acho que veio bem a calhar._ ele virou meu rosto pra cima para olhar para ele e secou uma lágrima que eu nem sabia que estava lá. _Pronta pra ir?
_Se você já estiver cheio de bolinhos de chuva, já podemos ir.
_Acho que ainda tem alguns pra eu comer enquanto você se arruma._ ele sorriu e seus olhos se aqueceram nos meus. Eu sorri de volta e me afastei gentilmente.
_Só vou demorar um minuto._ ele acenou com a cabeça uma vez _ Mas Rafa_ eu me lembrei de uma coisa _ Se você não está malhando, como é que está tão musculoso? _ ele me olhou um pouco surpreso com a minha pergunta.
_Acho que é a minha genética. Meu pai era um cara enorme. _ ele deu de ombros e voltou a comer. _ isso poderia ser possível. Rafa tinha minha idade e com vinte e um ele devia ter parado de crescer e começado a “criar corpo.” Concordei brevemente e fui para o meu quarto. Depois de um banho rápido me vesti com roupas simples e recatadas, como sempre, e saí. Encontrei Rafa na sala assistindo globo esporte, ele se virou para mim com olhar ambivalente.
_Pronto. Estou bem?_ sei que essa pergunta tinha um significado diferente no meu caso.
_Está bem. Melhor do que isso só se você usasse uma burca, o que não seria má ideia. _ele sorriu com o pensamento e eu mostrei a língua pra ele._ Mas mesmo assim é bom agente passar na loja de armas antes, afinal, vamos a um shopping né.
Rafa não ficou mais de vinte minutos na loja, eu estava esperando em sua pick-up Amarok de cor champanhe que chamava tanta atenção quanto eu na rua. Quando ele saiu tinha uma bonita maleta e uma sacola nas mãos.
_Tudo certo. _ele disse animado enquanto entrava no carro e retirava uma espécie de cinto da sacola. Ele esticou diante do seu peito e o “vestiu”. Nesse momento percebi que se tratava de uma cartucheira, como um colete. Ele o colocou em volta dos braços e o prendeu à frente do peito. Em seguida abriu a maleta, pegou o objeto horrível e colocou o pente com as balas. Eu virei meu rosto para não olhar.
_É uma Colt, como a que usei para treinar. _ele falou enquanto a colocava em seu colete.
_Acho isso um exagero muito perigoso.
_É só por precaução, já disse Helene. _ele deu a partida no carro e fomos acompanhando o preguiçoso tráfego do centro de Rio das Ostras tranquilamente.
Rafa sempre me levava para passear pela cidade, mesmo que na maioria das vezes não saíamos do carro, então eu estava familiarizada com as ruas, mas entrar no shopping era uma coisa que eu fazia muito raramente, e estava um pouco tensa com a ideia.
A pick-up entrou no estacionamento e alguns olhares masculinos me encontraram dentro do carro, e como era de se esperar, me estudaram com interesse. Eu me sentia como um experimento mal resolvido de um laboratório irresponsável. Não era nem de longe lisonjeiro para mim, ser o alvo de tanta atenção dos homens. Eu sentia que não era uma coisa natural, não tinha ideia do porque aquilo acontecia, mas sabia que não era pra ser assim.
Rafa estava muito sério. Ele mantinha o cenho fechado e intimidante.
_Pronta?_ ele disse quando parou na vaga mais próxima da saída que encontrou.
_Acho que sim. O quanto isso pode ser ruim?_ eu disse desanimada.
_Acho que só ficaria muito ruim se você entrasse no banheiro masculino por engano, e sem mim. Isso seria péssimo. _ele fez piada para me distrair e funcionou. Rafa tinha o dom de me fazer sentir melhor.
_Vamos acabar logo com isso._ falei e saí do carro. Rafa veio logo para o meu lado e segurou minha mão. Olhei rapidamente pra ele, mas já sabia por que ele fazia isso, para os outros pensarem que ele era meu namorado e se conterem. Isso funcionava, na maioria das vezes.
Pegamos um elevador e saímos direto no terceiro andar. Eu tinha uma ideia do que eu queria comprar, e sabia onde encontrar.
O shopping estava quase vazio, era segunda feira. Algumas moças e rapazes jovens estavam na frente do elevador esperando por ele quando saímos apressadamente. Pude ouvir os murmúrios dos meninos quando passei por eles. Rafa apertou minha mão e seguimos em direção á loja que eu procurava. Eu tinha visto um belo vestido no folheto dessa loja que mamãe levou para casa, então pensei que ele ficaria lindo nela.
_Essa aqui, eu o levei em direção a uma vitrine com muito vestidos.
Rafa entrou um pouco a minha frente olhando para todos os lados com a expressão concentrada. Eu gostaria de dizer que era uma reação exagerada, mas eu sabia que não era. Ele tinha razão em ter cuidado, já tínhamos passado por muitos problemas antes.
_Posso ajudar?_ uma jovem de cabelos curtos se aproximou de nós. Ela não parecia me notar, mas estava muito consciente do meu acompanhante. Não havia nenhum homem na loja o que me deixou aliviada. Mas tinha mais duas vendedoras que também se mostravam muito impressionadas com o Rafa. Seus olhos brilhavam para ele e seus rostos eram só sorrisos. Olhei para ele que ainda estava sério e percebi que ele era mesmo muito bonito. Raspei minha garganta propositalmente para que ela olhasse para mim e funcionou.
_Eu preciso de um vestido longo, floral no tamanho quarenta, por favor._ falei e ela olhou para mim por um momento avaliando.
_Claro. _ela disse e foi para trás do balcão._ tenho esses, ela colocou uma pilha de vestidos na minha frente. _É para você mesmo?
_Não, é um presente para minha mãe. _Vi no rosto dela que se perguntava como a filha poderia se vestir como uma velha e levar vestidos tão joviais para a mãe.

Escolhi a estampa que estava mais bonita e mandei embrulhar.
_Não vai levar um para você também? _ ela não resistiu em perguntar. Rafa olhou para mim por uma fração de segundo. Achei que ele deveria ter me imaginado em um daqueles vestidos.
_Não hoje. _eu respondi com um meio sorriso que não consegui segurar.
_Tudo bem, obrigada pela compra e votem sempre._ notei que ela disse isso olhando para Rafa. Ele não pareceu se dar conta.
Paguei pelo vestido e saí da loja, sempre escoltada por meu incansável amigo Rafa. Por que eu não podia simplesmente ficar com ele? Perguntei-me de novo.
_Parece que eu vou ter que te fazer uma escolta também._ eu brinquei.
_Hem? _ ele me olhou confuso.
_As garotas da loja pareciam que iam se atirar em você, não percebeu? _ bajulei um pouco.
_Não._ ele sorriu presumido.
_Elas te encaravam na maior cara de pau, mesmo me vendo ali com você. Como pode não ter percebido Rafa?_ eu disse incrédula.
Rafa vacilou, por um momento, pensei que ele não fosse responder, mas finalmente ele suspirou e disse:
_Eu não as vejo.
_Como assim, não as vê?
_Não vendo. São como a mobilha, ou a decoração que você mal repara, eu não sei. Não as vejo como mulheres. Nem de longe como eu vejo você. _ ele desviou o olhar de mim e senti que ele não queria mais falar sobre isso.
Era minha culpa, eu tinha certeza. Rafa passava muito tempo comigo e com essa intoxicação que era a minha presença ele se tornou incapaz de perceber as outras mulheres. Eu senti raiva de mim mesma. Eu continuei andando ao seu lado sem dizer nada. Aquilo não estava certo, mas o que eu ia fazer, eu precisava tanto dele. Não podia afastá-lo e no fundo do meu ser também tinha um tipo de sentimento diferente. Satisfação por ele ser só meu. Eu estava louca, esse só podia ser o motivo. Eu não aceitava Rafa como meu namorado, mas também não queria que ele ficasse com mais ninguém. Que monstro egoísta eu tinha me tornado.
_O que foi?_ Rafa me perguntou depois do meu silencio angustiado. Estávamos esperando o elevador.
_Nada._ respondi num sussurro.
_Não vai e contar?_ ele estava gentil.
_Estou com raiva de mim, só isso. Vai passar logo.
O elevador chegou não dando a chance de ele dizer nada. Quando entramos vi que tinha dois homens dentro. Quis correr dali, mas Rafa segurou minha mão com firmeza me encorajando.
Como era de se esperar eles fixaram os olhos em mim e acompanharam cada movimento meu. Estremeci quando um deles, o mais alto de cabelos loiros, esticou o braço na direção ao painel do elevador, passando muito perto de mim para apertar um botão que já estava apertado.
_Muito calor hoje, hem!_ o outro falou para mim. Seus olhos ardendo em chamas de um desejo anormal que tanto me repugnava. Eu apenas assenti com a cabeça.
_Você tem uma namorada muito bonita._ o loiro disse para Rafa que se contraiu todo ao meu lado. Mas ele também não disse nada, apenas acenou com a cabeça, seus lábios apertados em uma linha fina.
_Uma pena que ela esteja acompanhada não é Carlos._ eles comentavam entre si e eu fiquei chocada que estivessem realmente falando aquilo na frente de Rafa. Apertei mais firme em sua mão. Ele olhou furiosamente para os dois homens de meia idade que não tiravam os olhos de mim. Eu queria não olhar para eles, mas tinham se colocado bem na minha frente e meu pânico era muito grande para não olhar o perigo.
Graças a Deus o elevador chegou ao nosso estacionamento. Rafa teve que empurrar os homens para me dar passagem para sair. Meu corpo tremia como uma vara verde.
_Ei, não vão tão depressa. _um deles chamou. E ouvi seus passos atrás de nós_ vamos nos conhecer, fazer amizade, qual é o problema?
Rafa parou para enfrenta-los.
_Não queremos amizade com vocês. Agora vão embora._ a voz dele era grossa como nunca.
_Quanta grosseria. Sua mãe não te educou, talvez nós devíamos lhe dar uma boa lição._ eles se alinharam um ao lado do outro e percebi que eram fortes, tão fortes quanto Rafa, mas eles estavam em maior número. O terror tomou conta de mim quando lembrei-me que Rafa estava armado. ­Se ele atirasse e matasse esses homens, eu não podia nem imaginar isso.
_Vamos embora, por favor Rafa._ eu implorei puxando o seu braço.
 _Eles não vão deixar, tenho que resolver isso aqui._ seus olhos estavam fixos nos homens com determinação de um guerreiro. Ele não tinha nenhuma sombra de medo, apenas fúria.
Acenou para que eu me afastasse. Encostei-me no canto da parede com meu corpo todo tremendo. Os olhos famintos dos dois homens me seguiram e Rafa avançou sobre eles.
Foi uma luta violenta, eu não conseguia acompanhar, estava atordoada e apavorada. Senti cada golpe que atingia ao Rafa com desespero. Eu quis correr e pedir ajuda, mas não conseguia sair do lugar, e ainda tinha o fato de que se eu atraísse outros homens para mim seria ainda pior para o meu amigo.
Mas de algum modo Rafa estava vencendo. Ele abateu um e depois o outro os deixando caídos no chão do estacionamento.
_Venha, temos que sair logo daqui._ ele correu para mim e segurou minha mão, me levando para o carro. Eu não tinha certeza se conseguia usar minhas pernas.
_Você... Você não atirou._ eu estava gaguejando.
_Ainda não _ ele sorriu _ mas se a segurança do shopping nos alcançar vou ter que matar todos eles.
Eu olhei pra ele em pânico, e foi só aí que eu ouvi os apitos e os chamados dos seguranças que vinham em nossa direção.
Entramos no carro e saímos do estacionamento cantando pneus. Em poucos minutos estávamos na praia das conchas onde ficava minha casa.

Prólogo


Não passava um dia sem que eu rezasse para que tudo fosse diferente, ou melhor, que fosse igual ao que todo mundo vivia. Se existia um Deus, com certeza ele já estava cansado de ouvir meus pedidos repetitivos: “Quero apenas ser uma pessoa normal.” Mas Ele parecia não querer me atender. Às vezes eu chegava a acreditar que Ele tinha realmente um plano para mim, como dizia o pessoal da igreja. Mas que plano absurdo seria esse? E se eu não quisesse fazer parte disso? Ele não devia me dar alguma escolha?