_Chegamos. Divertido não._ ele sorria abertamente._ tenho
que sair mais para passear com você. Pura adrenalina!
Eu olhei para ele incrédula. Ele estava super animado,
enquanto eu estava apavorada. Não consegui dizer nada por vários minutos, meu
coração parecia que ia saltar pela boca.
_Qual é Helene. Você estava com medo? Eu não ia deixar que
eles chegassem nem perto de você.
_É claro que eu estava com medo!_ eu gritei_ aqueles homens
pareciam com lobos ferozes e você era apenas um... E ainda tinha a arma. Eu
fiquei apavorada! Eles podiam ter te machucado, ou coisa pior. Ou você podia
ter atirado em alguém e você seria um assassino agora e tudo isso porque eu
queria comprar um vestido idiota pra minha mãe. _ meu peito arfava.
_Estava com medo por mim? _ ele torceu a cara._ isso não faz
nenhum sentido. Eu sei me cuidar muito bem. E eu disse que não usaria a arma
Helene, a não ser que fosse muito necessário.
_Pareceu muito necessário para mim._ eu ainda estava
emburrada.
_Ei, foi divertido. Nada demais. Não fique assim._ ele tocou
meu rosto_ relaxa.
_Você tinha razão. Está muito pior.
Ele desfez o sorriso e suspirou olhando para frente. A noite
estava clara e fresca pelo vento constante que vinha do oceano.
_Eu vou cuidar de você. Não se preocupe._ ele disse com a
voz rouca. Sei que ele queria me tranquilizar, mas nem mesmo ele parecia estar
seguro de suas palavras.
Ficamos sentados dentro do carro por muitos minutos, quietos,
perdidos em nossos pensamentos. Vi quando a Lua surgiu de mansinho no céu.
Estava completamente cheia e brilhante.
Rafa se moveu de um jeito estranho ao meu lado e gemeu.
_O que foi? Está ferido? Eles te machucaram? _ coloquei a
mão em sua cabeça que de repente estava abaixada em suas mãos. Ele não me
respondeu, apenas respirava rápido e gemia baixo. _Rafa, por favor, fala, está
sentindo alguma dor? _ entrei em pânico de novo.
Cheguei mais perto dele e tentei tirar suas mãos de sua
cabeça para ver seu rosto. Ele se virou lentamente pra mim. Seus olhos estavam
estranhos, mais sombrios e seu marrom estava avermelhado. Rafa me olhou de um
jeito estranho, não totalmente estranho, eu já tinha visto aquele olhar antes,
era um olhar faminto. Eu recuei instintivamente.
_Vá pra casa._ sua voz era um rosnado. _Vá agora! _ ele
mandou.
_Rafa, o que foi?_ eu não podia deixa-lo passando mal.
_Eu não sei, mas alguma coisa não está bem comigo._ ele
afundou a cabeça nas mãos de novo. _ Sai daqui Helene.
Eu tremi. Aquela não era a voz dele. Abri a porta da pick-up
lentamente. Ainda não queria deixa-lo. Resolvi ir ver se minha mãe já tinha
chegado do trabalho e pedir que ela viesse vê-lo. Quando dei a volta no carro
dei de cara com ele de pé na minha frente. Seu corpo parecia ainda maior, ele
estava um pouco arqueado na minha frente e seus olhos estavam cravados nos
meus. Eu congelei no lugar.
_Rafa, você está me assustando._ falei com a voz tremula.
_Helene... Corre. _ ele disse antes de soltar um rosnado
apavorante.
Eu corri o mais rápido que pude afundando meus pés na areia.
Claro que eu não fui muito longe. Só senti um puxão forte na minha cintura e
soltei um grito que foi logo abafado por uma grande mão áspera e peluda. A
criatura enorme que me carregava me levou para o alto das pedras que invadiam o
mar e parou no canto muito escuro entre duas pedras. Ele me colocou deitada, de
uma forma cuidadosa, porém mais rápida do que eu podia perceber. Eu não
conseguia raciocinar direito o medo e o choque me anuviava a mente. O Coração
pulsando em meus ouvidos também não me ajudavam, mas eu sabia que aquilo que
estava na minha frente era Rafa. Tinha duas vezes o meu tamanho e era coberto
de pelos ralos e escuros, caminhava como um homem, mas um pouco curvado. Seu
rosto estava desfigurado agora, bruto e peludo. Ele tinha presas visíveis em
sua boca e era horripilante. Quis gritar de novo, mas a voz não vinha. Ele
olhou por um instante pra mim. Virando sua cabeça de um lado para o outro, me
analisando. De repente ele ergueu sua boca para o céu e uivou alto. Eu tomei um
susto e tentei me levantar para fugir dali. Isso chamou sua atenção e vi a
fúria em seus olhos vermelhos. Ele me agarrou muito rápido e me deitou de novo
no chão agora mais brutamente. Senti minhas roupas sendo rasgadas sem ter visto
o movimento de suas mãos. Suas unhas rasparam na minha pele e em um segundo eu
estava completamente nua. O monstro parou e olhou para mim. Eu estava gritando
e não tinha consciência disso até que o vi voltar a ser o Rafa. Era seu belo
rosto moreno de novo. Mas ele não se conteve por muito tempo. Beijou minha boca
com voracidade. Suas mãos subiam e desciam em meu corpo amassando minha carne,
friccionando minha pele em todas as partes. Eu sentia seu toque queimar, era
tudo muito confuso, eu queria empurrá-lo, mas seu contato não era de tudo ruim.
Meu desejo também floresceu e parte de mim o queria tanto quanto ele, mas outra
parte, uma verdadeiramente maior, o rejeitava com todas as forças.
_Helene._ o ouvi sussurrar quando alcançou meu sexo e fez
uma carícia lenta. Contorci meu corpo debaixo de seu peso. O conflito se fez
mais forte. Querendo e rejeitando fortemente. Percebi com pavor quando ele
alcançou o botão de sua bermuda e o abriu.
_Não. _ gritei. _ Mas ele não me ouvia eu sabia disso. Seus
movimentos eram cadenciados como se estivesse sonhando. _Pare Rafa... Pare. _
tentei empurrá-lo com mais força, mas ele nem se moveu. Senti com desespero seu
membro tocar minha coxa esquerda deslizando para cima sem nenhuma hesitação.
Estava acabado. Afinal era aquele meu destino. Tanto tempo
depois daquele primeiro dia em que fui atacada aos doze anos e Rafa me salvou,
assim como vinha me salvando até hoje. Mas agora ele era meio fera, e era ele mesmo
o meu agressor. Talvez fosse melhor que fosse ele e não um estranho qualquer. De
certa forma ele era o único que tinha esse direito. Mesmo eu estando apavorada
e sem ter nem ideia do que tinha acontecido para ele se transformar em um
monstro, eu senti que devia me conformar e aceita-lo. Eu tentei ficar imóvel e
recebe-lo em meu corpo, relaxar para ser menos doloroso. Esperei pela dor que
eu sabia que viria, por ser minha primeira vez e pela brutalidade com que Rafa
estava me tratando. Mas a dor não veio. Meus olhos estavam fechados com força
então não vi o que aconteceu, só percebi que em milésimos de segundo ele não
estava mais lá.
Abri os olhos
procurando no escuro e vi dois ao invés de um. Rafa era um monstro outra vez e
estava salivando e rosnando para alguém que estava parado de costas diante de
mim.
_Saia daqui. Você não quer fazer isso._ Uma voz aveludada,
baixa e ameaçadora saía desse homem na minha frente.
_Não toque nela._ O rosnado da criatura ecoou no espaço.
_Eu não vou tocar nela. Vá para a sua matilha e fique lá por
enquanto. Vou proteger Helene._ O homem disse. Ele sabia meu nome, mas eu não o
reconheci. Não de costas para mim.
A coisa em que Rafa se transformou olhou para mim brevemente
antes de desaparecer na noite. Foi muito rápido, mas eu pude ver a dor no fundo
dos olhos dele. O Homem estranho não se virou imediatamente para mim. Eu
percebi que estava congelada no lugar, mas comecei a me tornar consciente de que
estava nua e procurei os trapos que minhas roupas tinham se tornado e tentei me
cobrir. Peguei as pernas das minhas calças de viscose e as amarrei na cintura.
Minhas mãos tremiam. Meu corpo todo tremia. Não sobrou muito da minha blusa,
então eu só a segurei cobrindo parte dos meus seios volumosos. Os soluços de
choro começaram a brotar no meu peito. Minha visão estava distorcida. Tudo
tremia freneticamente. Tateei o chão no escuro buscando apoio para me levantar.
Foi inútil, então eu me encolhi no canto da pedra chorando e tentando puxar o
ar que não vinha. Minhas pernas estavam arranhadas, embora eu não as sentisse
de nenhuma forma. Era como se elas não estivessem lá. O ar não vinha e eu não
conseguia me acalmar. Eu precisava de ajuda. Minha mãe nunca me encontraria
naquele lugar. Ninguém seria capaz de escalar aquela rocha, eu estava perdida.
_Não tenha medo de mim Helene._ o estranho na minha frente
falou. Eu tinha me esquecido completamente dele. Ele ainda não tinha se virado
para me olhar._ Vou leva-la para sua casa, se me deixar.
Pensei sobre isso por um momento. Quem era esse homem? Como
ele chegou até aqui? Como sabia meu nome?
_Eu conheço você Helene. Pode confiar em mim. Não vou te
machucar e não vou tocá-la se não quiser._ Sua voz era macia e me acalmava. Ele
se virou lentamente e pude ver seu rosto na luz da lua. Era lindo. Tinha os
cabelos tão negros quanto os meus e seus olhos também pareciam ser azuis,
embora fosse difícil de dizer. Só sua pele branca era diferente da minha. Ele
não sorria, mas seu rosto era tranquilizador._ Posso me aproximar? _ele
perguntou antes de se mover um centímetro do lugar.
Pensei sobre isso por um instante. Eu tinha medo dele.
Aprendi a ter medo de todos os homens, menos de Rafa. Mas que alternativa eu
tinha agora? Eu só podia contar com a ajuda daquele estranho que parecia me
conhecer.
Um aceno leve com a cabeça foi tudo o que eu consegui dar.
Ele ainda esperou alguns segundos antes de dar o primeiro passo em minha
direção. Mesmo assim quando ele fez isso eu quase pulei do lugar com o pânico
me tomando de novo. Ele ergueu as palmas de suas mãos na sua frente para me certificar
que não ia fazer nada. Encolhi-me ainda mais junto á pedra com meu peito
arfando de pavor, meus braços protegendo meu peito, me fechando como um feto no
canto.
_Calma. Eu sou seu amigo._ Olhei para seus olhos que agora
estavam mais próximos. Meu instinto buscava achar em seus olhos aquele queimar
característico, aquele desejo que deixava os homens insanos quando me viam e que
era tão perigoso para mim. Mas não vi nada. Ele me olhava como uma mulher me
olharia naquele momento, ele me olhava como minha mãe.
Relaxei um pouco, mas continuei o encarando em busca de
alguma mudança repentina. O Homem estranho continuou se aproximando devagar e
se agachou perto de mim. Encolhi mais um pouco me protegendo.
_Não tenha medo Helene, vou te levar para casa ok._ ele
falou e estranhamente assoprou suavemente o meu rosto. O vento que vinha de sua
boca se tornou uma névoa branca muito fina que eu vi entrando pelo meu nariz e minha
boca que puxavam o ar descompassadamente. Aos poucos meus olhos foram ficando
pesados e minha consciência foi se perdendo completamente.
Acordei na minha cama coberta por um lençol. O quarto estava
escuro, mas logo que abri os olhos percebi que não estava sozinha. Meu corpo
queimava de um jeito estranho. Meus lábios, meus seios e minhas coxas, tudo
parecia estar formigando, até meu sexo. Levantei num pulo. A lembrança do que
tinha acontecido veio com força na minha cabeça.
_Fiz um chá._ Dei um pulo com o susto, mas reconheci aquela
voz no mesmo instante. Procurei pelo quarto e o vi perto da janela com o ombro
encostado na parede e com os braços cruzados no peito. Ele me olhava
desinteressadamente.
_Quem é você?_ minha voz saiu rouca.
_Seu atual protetor, ao que tudo indica._ ele sorriu como se
isso fosse muito engraçado._ Meu nome é Sebastian Cruz. _ ele tinha um leve
sotaque estrangeiro, mas falava um Português perfeito. Clássico como nos
livros.
_O que... O que está fazendo aqui?_ minha cabeça estava
rodando. Tinham muitos pensamentos de uma só vez.
_Beba o chá, depois conversamos._ ele falou com um meio
sorriso nos lábios.
Olhei para a xícara na minha cabeceira e pensei que talvez
fosse mesmo uma boa ideia. O chá tinha um gosto estranho e estava muito quente
e sem açúcar. Fiz uma careta, mas terminei de beber. Não identifiquei de que
era, mas não me interessei o bastante para perguntar. Funcionou bem. Meus
pensamentos se tornaram mais claros e pude traçar uma linha dos acontecimentos.
Lentamente fui recordando de tudo.
_O que era aquilo? No que Rafa se tornou? _ Sabia que ele
sabia, pela conversa que tiveram.
_Era um lobisomem. Você não percebeu?_ ele zombou. O tal
Sebastian era arrogante e altivo, mas de uma forma atraente.
_Isso não existe!_ eu soltei, mesmo tendo certeza de que vi
exatamente isso, um lobisomem. Ele não me respondeu. Apenas olhou para mim
esperando._ Por que Rafa virou um lobisomem? _ decidi encarar os fatos de uma
vez. O estranho que agora eu sabia que se chamava Sebastian sorriu divertido.
_Você é uma mulher inteligente. Gosto disso. _ele falou e se
virou para mim, ainda distante_ Coisa de família, você sabe. O pai dele... O
avô... O bisavô e assim por diante. Eles são muitos pro meu gosto._ ele fez uma
careta. Sebastian tinha um rosto muito expressivo.
_Mas eu nunca tinha visto ele assim.
_Foi a primeira vez que ele se transformou. Coitado._ Ele
fez uma careta diferente, de deboche.
_Então ele não sabia de nada? E como você sabe dessas
coisas?
_Bom, se ele não sabia de nada você terá que perguntar a
ele, embora eu duvide. Essas tradições familiares costumam ser bem explicadas
aos seus descendentes._ sua cara de deboche ainda estava lá_ Mas quanto a mim, eu sei de muita coisa. Sei,
por exemplo, o que você é.
_Sabe? Então me diga, por favor._ eu implorei e me movi em
sua direção instintivamente, esquecendo que ainda não estava vestida, apenas
coberta pelo lençol. Isso me deixou envergonhada. Aquele homem me carregou nua
e inconsciente para casa. Ele poderia ter feito o que quisesse comigo. Pensei
no meu sexo formigando e estremeci. Onde eu estava com a cabeça em ficar de
conversa com ele tão tranquilamente, enquanto nem sabia quem ele era e o que
tinha feito comigo. Meu rosto caiu enquanto eu buscava me enrolar ainda mais no
lençol. Meus olhos buscaram o rosto dele para tentar ter alguma resposta.
_Eu não toquei em você._ ele adivinhou minha preocupação.
_Como posso ter certeza?_ senti os arranhões que se
espalhavam por todo meu corpo e que não podia sentir antes, mas que agora
ardiam por toda parte.
_Precisa acreditar em mim, eu não faria isso._ ele pareceu
confuso, tinha uma linha fina entre os olhos e seus lábios estavam caídos. Ele
descruzou os braços e deu um passo em minha direção.
_Fique aí._ eu gritei. Ele ergueu as mãos de novo como fez
na pedra e parou.
_Helene, é normal que se sinta assim, principalmente depois
do que aconteceu ontem.
_Ontem? Quanto tempo eu estou dormindo?
_Algumas horas. Deve ser meio dia agora.
_Minha mãe? Ela sabe que estou aqui?
_Sim. Ela já veio te olhar algumas vezes antes de ir para o trabalho.
Ela Não me viu. Não se preocupe. Ela pensa que ficou acordada até tarde com seu
amigo lobisomem e por isso dormiu até tarde._ ele voltou a rir divertido.
_Como sabe o que ela pensa?
_É muito fácil saber o que as pessoas pensam. Você mesmo faz
isso o tempo todo.
_Eu apenas percebo as expressões e a mudança no olhar das
pessoas, não leio mentes.
_É muito eficiente. _ ele piscou para mim_ Mas receio que tenho técnicas ainda melhores.
Mas me diga, _ ele franziu uma sobrancelha _ tem uma coisa que eu não entendi e
estou louco para saber_ ele cruzou os braços na frente do peito novamente_ por
que afinal, você parou de resistir a ele? Por que você parou de lutar? Você o
permitiu. Você o queria? _ seu cenho estava franzido enquanto olhava para mim.
Eu desviei o olhar, envergonhada. Eu sabia do que ele estava falando, e
imaginar que esse homem estava lá me olhando ser quase violentada rasgou meu
peito com uma dor profunda.
_ Eu não tinha mais porque resistir. Estava tudo perdido._
falei baixinho.
_Então você o permitiu? Não acho que tenha sido isso._ ele
insistiu.
_Afinal eu achei que se algum homem tinha direito sobre mim
esse era Rafael, por tudo o que ele fez por mim._ confessei.
_Brilhante conclusão!_ ele zombou_ Isso teria acabado com tudo._
agora ele estava bravo_ O que ele fez por você era a obrigação dele, estava
escrito para ser assim desde... Desde sempre.
_Como assim, obrigação?
_Você queria saber o que você é. Pelo menos antes de ficar
aí decidindo se eu abusei ou não de você enquanto dormia, então vou dizer a
você o que você é. _ ele deu dois passos pelo quarto e se virou para mim
novamente _ Você, Helene, é A Pura. Uma
mulher especial, a mulher original. Nasce uma igual a você a cada 100 anos e essa
mulher é destinada a perpetuação das subespécies humanas._ Sebastian falava
rápido e tive que me esforçar para acompanhar o que estava dizendo.
_Como assim? _ minha cabeça girou.
_ Macho de cada uma
das três subespécies fica... “ligado” a você, até que você escolha um deles. _
ele me olhou profundamente nos olhos medindo minha reação. Eu esperei que ele
continuasse. Aquilo ainda não fazia muito sentido. _Um lobisomem, um
ultra-humano e um vampiro. _ Sebastian continuou _ O lobisomem fica com o cargo
de te guardar até que complete seus vinte e um anos quando atinge sua total
maturidade. Por isso que Rafael era tão devotado a você._ ele disse com desdém
e bufou. _ Os outros dois são lentamente aproximados por um chamado invisível,
um canto de sereia, até nós a encontramos e te damos a chance de escolher. Por
sorte eu cheguei um pouco antes. _ ele ponderou algum pensamento e escureceu
seus olhos, mas continuou_ O Ultra-humano deve chegar depois do seu
aniversário, como é a regra.
Eu sei que meu rosto devia estar branco. Aquela era a
história mais louca que eu já tinha ouvido, mas ainda assim meu subconsciente
acreditou completamente nela. Mesmo que meu consciente relutasse, lá no fundo
eu sabia que era verdade. Eu sabia que tinha alguma coisa muito diferente com a
minha vida. Só não podia imaginar tanto. Meu pensamento estava acelerado. Eu
estava excitada por finalmente ter respostas. Mesmo sendo aquelas. Estranhas,
mas já era alguma coisa. Melhor do que viver como uma aberração e sem saber de
nada.
_Se o... Ultra-humano ainda não chegou... Você só pode ser o...
_ não consegui dizer a palavra.
_O vampiro. _Ele deu seu melhor sorriso que tinha visto até
agora.
“Ah!” eu arfei. Minha cabeça girou. Voltei a olhar para ele
que tinha desfeito o sorriso e olhava preocupado para mim.
_Acho melhor deixar você sozinha um pouco. Tome um banho e
vista-se. Vamos ficar mais a vontade para conversar com mais roupas entre nós._
ele falou e desapareceu. Simplesmente sumiu. Tive a impressão de ter visto um
vulto passar pela janela, mas não tinha certeza.
Levantei-me e corri para o chuveiro. Realmente precisava de
um banho. Meu corpo estava todo marcado, então evitei olhar muito para ele. Mas
o que estava ficando cada vez mais difícil de ignorar era a queimação que se
estendia em quase todas as partes do meu corpo. Se eu me concentrasse nelas eu
podia sentir o calor, uma espécie de desejo por ser tocada naqueles lugares. Era
estranho sentir isso, ainda mais depois da violência que sofri, mas era muito
real e muito forte. Experimentei passar minhas próprias mãos para ver se aquilo
aliviava, mas não tinha efeito. A pele formigava em protesto pedindo pares de
mãos diferentes. Abri mais o chuveiro para que a água se tornasse mais fria,
mas o calor vinha de dentro do corpo, não de fora. Desisti. Saí do banho me
olhando rapidamente no espelho. Meus olhos estavam mais escuros hoje. Eles
refletiam minhas emoções e com certeza hoje era um dia escuro para mim. Onde
estaria Rafael? Como ele estaria se sentindo agora. Senti tanta dor imaginando
seu arrependimento, seu desespero por ter se tornado um monstro tão horrível e
brutal. Sequei uma lágrima que se desprendeu dos meus olhos e passei a secar
meus cabelos. Eles estavam compridos de novo. Não tinha um mês que eu os tinha
cortado curtinhos, mas eles cresciam assombrosamente rápido, e já estavam
tocando minhas costas com suas ondas volumosas e seu brilho negro como o ébano.
Fiz um coque grande, como sempre, para evitar a atenção e fui ao meu quarto me
vestir. As roupas não estavam me servindo direito, meus quadris estavam mais
largos e minha cintura mais fina nas últimas semanas. Achei a calça de malha
mais larga que eu tinha e vesti uma camisa de malha também.
_Pronto._ murmurei para mim mesma.
_Está adorável!_ dei um pulo com o susto. Sebastian estava
bem na minha frente, vindo do nada. _Desculpe._ ele sorriu.
_Estava me espionando?_ perguntei enraivada. Eu tinha
acabado de me vestir e ele voltou. Ele pareceu confuso de novo.
_Você disse que estava pronta.
_Eu disse?_ lembrei que eu tinha sussurrado “pronto”, mas
nem se tivesse alguém no quarto teria ouvido isso. _ Você me ouviu?
_Sim. Eu escuto muito bem._ ele sorriu de novo e se
aproximou mais. _ Gosto de suas roupas. Elas tornam quase tolerável ficar perto
de você. Ele tocou meu rosto. Eu congelei no lugar. Minha pele se acalmava sob
seu toque. Percebi instantaneamente que eram aquelas mãos que meu corpo pedia,
ansiava. Meu coração disparou e eu baixei meus olhos. Um medo de que ele
adivinhasse meus pensamentos se apossou de mim. Ele colocou os dedos sob meu
queixo para puxar meu rosto para o dele novamente._ Não esconda seu olhar de
mim. _ sua voz era gentil, pedinte. Perdi-me em seus olhos azuis. Eram mesmo
azuis, só que mais escuros que os meus. Mais sombrios. Sua pele branca
contrastava divinamente com o cabelo negro e liso que brincava bagunçado,
levemente comprido sobre suas sobrancelhas. _Ainda tem medo de mim?_ ele
perguntou docemente.
Percebi que não sentia medo. Sentia outras coisas, menos
medo. Balancei a cabeça negando e um sorriso satisfeito surgiu em seu rosto.
Meu coração estava pulando e o desejo por ser tocada aumentando cada vez mais. Balancei
em sua direção involuntariamente.
_Sei que quer que eu te toque. _ ele olhou sério para mim.
Meus olhos se arregalaram na mesma hora._ Não é culpa sua, é só uma regra que o
lobo quebrou. Ele não tinha o direito de te tocar, você não pertence a ele,
então se ele tocou em você isso dá o direito dos outros dois fazerem o mesmo.
Eu me afastei dele indignada.
_Como é? _ eu gritei. Sebastian parecia incomodado com a
minha reação, ou com meu grito. Ele mantinha sua voz sempre tão plana que de
repente eu criei uma perturbação no ambiente.
_Helene, não fui eu quem criou as regras, eu apenas sei que
elas existem.
_Está me dizendo que você e outro cara estranho que eu ainda
nem sei quem é, vão tocar em mim assim como Rafael fez? Uma ova que vão!_ nunca
me senti com tanta raiva.
_Não terá sossego até que façamos._ sua voz era
irritantemente calma.
_Eu quero que vá embora. Saia da minha casa agora!_ quando
pisquei os olhos ele não estava mais lá. Minha irritação diminuiu no mesmo
instante dando espaço para o vazio que sua ausência deixou.
_Droga! Droga! Droga!_ gritei sabendo que seja lá onde estivesse
ele estava ouvindo.
Fui para a cozinha e tomei um copo de agua para tentar
colocar meus nervos no lugar. Eu tinha que pensar direito. Hoje era o
aniversário da minha mãe. Eu tinha planejado fazer um bolo pra ela. Iria
convidar Rafa e umas amigas dela que também eram solteiras para comemorar. Mamãe
não tinha um namorado atualmente. Não que ficasse sozinha. Ela arrumava uns
namorados de vez em quando, mas não durava muito. Como ela insistia em trazê-los
para casa depois de alguns encontros, tudo acabava em clima horrível quando
eles colocavam os olhos em mim. Rafa já teve que espantar muitos desses caras
que depois de minha mãe terminar com eles, ficavam me perseguindo. Eu sempre
fui um estorvo na vida dela. Como eu gostaria de ser diferente. De ser normal.
Suspirei e resolvi dar seguimento ao plano inicial, pelo menos parte dele, já
que Rafael estava fora da lista de convidados. Percebi que o estava chamando
pelo nome e não pelo apelido carinhoso. Eu não podia negar que estava magoada
com o que ele fez. Eu confiava nele e agora estava tudo perdido. Eu nunca me
senti tão sozinha. Segurei meu choro. Não ia adiantar ficar me lastimando,
então comecei a fazer o bolo para o aniversário da minha mãe.
O trabalho ocupou minha mente, mas tive que me esforçar
muito para me desligar do formigamento que não me deixava em paz. Consegui
fazer o bolo e arrumar a casa para a comemoração. Seria uma coisa simples e
íntima. Já tinha convidado suas amigas e logo elas começaram a chegar. Samanta,
era a mais velha, tinha uns quarente e cinco anos e tinha um quiosque aqui na
praia. Marlene era funcionária pública e era a que mais arrastava minha mãe
para as baladas, elas tinham a mesma idade, trinta e oito anos, e Janice era
pouco mais nova, porém, era a mais centrada. Ela era professora do pré-escolar,
assim como mamãe, e estava esperando seu príncipe encantado pacientemente.
_Sejam bem vindas! Vocês já sabem onde encontrar tudo na
casa, então, fiquem à vontade.
Elas se viravam bem conversando entre si e pegando bebidas
na geladeira, então não tive que me esforçar muito em fazer sala. Coloquei o CD
do Tim Maia favorito da minha mãe e fiquei pelos cantos, fingindo prestar
atenção no que elas diziam. Meu eu ainda não era o mesmo. Eu estava mais
estranha do que nunca. Pude ver isso nos olhares das mulheres, mas ignorei.
Exatamente as oito, minha mãe chegou. Cantamos parabéns para você e acendemos
as velas do bolo. Vi em seus olhos castanhos as lagrimas brotarem. Ela era tão
emotiva quanto eu. Eu a abracei e lhe entreguei meu presente. Ela adorou o
vestido quando o estendeu na frente de seu corpo.
_Que lindo, filha! Quando comprou?_ seus olhos buscaram os
meus e vi a preocupação neles.
_Ontem. Rafa me levou ao shopping.
_Shopping? À noite?_ vi no seu rosto que ela sabia da briga
no estacionamento. Claro que deve ter sido o assunto da cidade hoje. Eu
concordei com a cabeça e olhei em volta para indicar que não estávamos sozinhas
e que poderíamos falar depois. Ela sorriu entendendo e me abraçou agradecendo
de novo. _Onde Rafa está?
_Ele não estava se sentindo muito bem e foi embora, acho que
estava com febre. Mandou pedir desculpas e te desejar feliz aniversário._
menti, torcendo para que ela não prestasse muita atenção.
_Ha, que pena. Espero que ele melhore logo._ minha mãe
gostava muito do Rafa. Ela ainda não tinha perdido as esperanças de eu ficar
com ele, mas no momento estava muito distraída com seu vestido novo e não
percebeu nada.
Depois de receber cumprimentos e presentes de nossas
visitantes, mamãe teve a ideia de abrir uma garrafa de vinho. Nós ficamos
conversando e bebendo vinho até tarde.
_Então Helene, você ainda tem aqueles problemas com os
homens. _ Marlene me perguntou me dando uma olhada dos pés à cabeça. Eu sabia
que minha mãe conversava de nossos problemas pessoais com as amigas e Samanta
já tinha presenciado uma sena, mas as outras duas não. Pelo que percebi Marlene,
a mais velha, não acreditava que uma garota tão mal arrumada como eu podia
despertar tanta a atenção masculina.
_Piorando cada dia mais. _ eu usei a sinceridade que o vinho
me dava para responder. Ela riu sarcástica.
_Fico curiosa. _ ela falou e bebericou em seu copo
recentemente reabastecido.
_Traga seu próximo namorado aqui e observe._ eu atirei e
depois gargalhei alto.
_Filha, eu acho que você já bebeu demais._ minha mãe pegou o
copo da minha mão.
_Ei, mãe, eu estou bem. Será que uma garota não pode se
divertir na festa de aniversário de sua mãe? _eu tentei alcançar o copo de
novo, mas ela o desviou de mim.
_Claro que pode filha, mas tenho medo que você passe mal.
_Eu nunca passei mal na minha vida mãe, você sabe disso.
Nenhum resfriado, nenhuma dorzinha de barriga... Nada. Nem sei o que é isso._
ri alto. Todas estavam com os olhos arregalados para mim e achei que já estava
falando demais. _ Acho que vou dar um mergulho agora. _ disse e fui me levantando.
Minha mãe me alcançou e segurou meu braço.
_Helene. Acho que você não está em condições de nadar agora.
Vamos pra cama._ ela estava calma, mas visivelmente chateada com meu
comportamento.
_Eu estou bem mãe. Um mergulho vai me fazer bem. Eu não vou
para longe da praia._ ela me avaliou por um momento e me deixou ir.
Caminhei para a praia com meu equilíbrio um tanto afetado. O
formigamento no meu corpo só aumentava e eu queria apagar aquela queimação de
algum modo. Cheguei perto do mar e deixei as ondas molharem meus pés. A água
estava morninha e agradável. Dei mais alguns passos adiante e me abaixei
ficando totalmente submersa na água salgada. Foi um mergulho rápido. Logo saí
com medo de ser arrastada pelas ondas que estavam fortes naquela noite. Voltei
para a praia e pude ver que minha mãe e suas amigas me observavam da varanda.
Quando eu acenei para elas e me sentei na areia elas voltaram para dentro de
casa.
_Linda noite para se embriagar._ a voz de veludo estava
sussurrando no meu ouvido.
Tomei um susto de novo. Seu rosto estava muito perto do meu
e eu podia sentir seu calor na minha pele. O desejo por ser beijada por ele
pinicou em meus lábios.
_Faça de uma vez._ me deitei na areia com meus olhos
fechados e esperei que ele aplacasse meu sofrimento. Esperei... Esperei... Abri
meus olhos e o encontrei me olhando com uma mistura de confusão, medo ou
surpresa, eu não consegui distinguir.
_Levante-se. _ ele disse curtamente.
Eu me sentei novamente confusa.
_Não entendo. Você me disse que..._ Sebastian não me deixou
terminar.
_Não. Você não entende. Eu disse que você iria precisar que
eu a tocasse, mas isso não é nem de longe fácil para mim._ ele estava
visivelmente mal humorado.
_Por quê? Você não quer tocar em mim._ olhei para ele
desconfiada procurando em seus olhos aquela atração que os homens demonstravam e
novamente eu não a encontrei nos olhos dele. _você não me deseja._ não era uma
pergunta e até mesmo eu podia ver a decepção na minha voz. Uma dorzinha funda
perturbou meu coração. Eu nunca tinha sentido a rejeição antes, mas eu sabia
que se tratava exatamente daquele sentimento.
Sebastian me olhou incrédulo e um tanto irritado.
_Você bebeu vinho demais! _Eu abaixei meus olhos para ele
não ver a dor neles. Meu corpo pedia por aquele lindo homem estranho e
justamente ele não me queria. Era humilhante. Ele colocou a mão sob meu queixo
e o puxou gentilmente em sua direção._ Não esconda seus olhos de mim, por favor._
sua voz era doce, sua expressão mudou quando ele reconheceu meu sentimento.
Seus olhos se tornaram intensos nos meus e não havia mais irritação neles só
carinho._ Amo você Helene. Mais do que a minha vida. Por isso é tão difícil
toca-la sabendo que ainda não é totalmente minha. Sabendo que você pode não me
escolher._ ele suspirou fundo e fechou brevemente os olhos. _ Minha natureza e
todos os meus instintos me levam a fazer uma coisa, mas meu coração me leva em
outra direção. É muito difícil._ agora eu pude ver, estava lá aquele brilho
intenso de desejo em seus olhos azuis escuros.
_É que eu não vi... Antes, em seus olhos._ tentei explicar
bobamente. Ele sorriu entendendo e passou a mão pelo meu rosto.
_Sou muito velho. Sei camuflar minhas emoções muito bem
quando quero e não queria te assustar. Agora é melhor você entrar, precisa de um banho
e de dormir._ ele se levantou tão rápido que não pude ver o movimento e
estendeu a mão para mim. Segurei sua mão, mas ainda estava um pouco frustrada,
afinal ele não tocou em mim como eu precisava e pelo que ele disse, não
pretendia fazer isso.
Caminhamos para casa parando na varanda.
_Vai me deixar entrar no seu quarto?_ ele perguntou com um
sorriso brincalhão.
_Você não precisou da minha permissão da primeira vez._ lembrei que acordei com ele no meu quarto.
_Na verdade eu não preciso, mas já que você me expulsou uma
vez, acho educado só voltar lá com o seu consentimento._ Ele ainda sorria.
_Oh, me desculpe por aquilo. Eu estava meio enlouquecida.
Devia te agradecer por ter me salvado do... _ não consegui dizer a palavra em
voz alta.
_Do lobisomem._ ele esclareceu claramente divertido com meu
constrangimento. _Não precisa agradecer. O prazer foi meu._ senti meu rosto
esquentar de vergonha ao lembrar que ele me carregou nos braços, nua e
desacordada.
_A festa começou muito antes dos convidados chegarem pelo
que vejo._ Uma voz diferente me chamou atenção. Procurei pela praia e vi que um
homem vinha caminhando em nossa direção. Sebastian não olhava para ele, era
como se já soubesse que ele estava ali o tempo todo.