Minha cabeça
estava rodando. Era coisa demais para pensar de uma só vez. Meu estomago roncou
e lembrei que não tinha comido nada o dia todo.
_Preciso de
um banho._ falei me levantando ainda agarrada na colcha da cama. Peguei uma
roupa no armário e fui para o banheiro. Meu banho foi curto, novamente tentava
ignorar as exigências da minha pele que estavam mais brandas, como que pela
metade, mas ainda era muito incomodo.
Saí do
banheiro, já vestida e parei na porta.
_Está com
fome? Quer comer alguma coisa?_ fiquei impressionada de como já me sentia tão à
vontade com alguém que tinha acabado de conhecer. E que sabia que não era exatamente
um humano. Seu rosto se iluminou como de uma criança ao ver doces.
_Estou sempre
com fome._ ele disse sorrindo.
_Vamos para a
cozinha vou ver o que dá para fazer rápido. Também estou com muita fome.
_Você é mesmo,
ainda mais linda com esse contraste da sua pele morena e os cabelos negros com
o azul dos seus olhos_ Victor disse depois de comer todo o macarrão com
salsichas de seu prato sem tirar os olhos de mim.
_Fico
curiosa._ falei depois de engolir o macarrão da minha boca_ Qual era o nome
dela?
_Era Helene._
ele disse sorrindo _ Por algum motivo sempre é.
_Filha!
Cheguei._ Minha mãe chamou da porta e imediatamente nos encontrou na cozinha,
já que a casa era pequena demais para dar tempo de pensar em esconder Vitor
dela._ Oh, você tem visita._ ela olhou espantada para Victor que já se
levantava para cumprimenta-la. Ele estava perfeitamente calmo e casual. Um
desespero tomou conta de mim. Como eu iria explicar a presença dele na nossa
cozinha? E eu não queria explicar nada. Queria minha mãe bem longe dessa
loucura toda.
_Como vai
senhora? _Victor segurou sua mão de um jeito cortes e encantador. Cheguei a
pensar que ele beijaria sua mão como fez comigo da primeira vez, mas não. _
espero que não se importe com a minha visita.
_Claro que
não._ mamãe disse surpresa com sua formalidade fora de moda. _ Não me chame de
senhora, por favor. Pode me chamar de Claudia.
_Claro.
Claudia._ o nome tão comum da minha mãe ficou requintado e charmoso nos lábios
de Victor.
_Sua filha
faz um macarrão maravilhoso._ ele sorriu pra mim. Eu ainda estava paralisada.
_É. Ela
cozinha muito bem. _Mamãe estava distraída me olhando interrogativamente
tentando desvendar o que estava acontecendo ali.
Nesse momento
alguém bateu na porta. Eu me apressei em ir abrir e fugir temporariamente
daquela situação embaraçosa. Quando abri a porta tomei um susto que bambeou
minhas pernas e quase caí. Era Sebastian. Com seu melhor sorriso “sou perfeito
demais para ser humano” no rosto.
_Desculpe meu
atraso._ ele disse em voz alta e eu sabia que era para minha mãe ouvir._ Posso
entrar? _ isso era pra mim. Ele queria saber se eu queria sua companhia.
_Claro.
_respondi desistindo.
_Obrigado._
ele foi direto até minha mãe e a cumprimentou com a mesma reverencia que Victor
tinha feito.
_Senhora. É
um prazer revê-la.
_O prazer é
meu. _ ela não parecia se lembrar do nome dele_ Me chame de Claudia também, por
favor._ ela emendou. Mamãe não era tão velha para ser tratada de senhora e não
queria se sentir assim também.
_Claudia._
Sebastian deu seu sorriso encantador para ela, que tremeu um pouco. Percebi que
aquele efeito não era só em mim.
Olhei para
Victor com receio de que ele fizesse uma cena na frente da minha mãe por causa
da intromissão de Sebastian, mas ele não transpareceu nenhuma insatisfação.
_Desculpe a
invasão na sua casa Claudia_ Sebastian continuou_ Mas, estando Rafael
impossibilitado de receber visitas, a única pessoa que conhecemos na cidade,
além dele, é Helene. Por isso viemos passar um tempo de qualidade com essa
simpática moça, enquanto esperamos notícias de nosso amigo. _ ele olhou para
mim. _ espero que não estejamos sendo inconvenientes.
_Não. Podem
ficar a vontade. _ela estava visivelmente encantada com ele e sua voz estava um
pouco tremula_ Você está com fome? Parece que Helene e seu amigo não te esperam
para comer. _mamãe me censurou.
_Na verdade a
culpa foi minha. Eu parei em um lugar que me trazia boas recordações e me
atrasei, mas não tenho fome. Victor já conhece bem os meus hábitos alimentares._
eu olhei chocada para ele.
_Então de
onde vocês são?_ ela perguntou enquanto recolhia os pratos da mesa e levava
para a pia.
_Pode deixar
isso comigo mãe._ eu falei, mas ela se recusou.
_Deixe que eu
limpo filha. Vá dar atenção aos seus amigos._ Os olhos dela estavam claros e
sinceros então eu deixei. _Vocês não são brasileiros são?_ ela continuou,
curiosa como sempre.
_Na verdade
não._ Victor respondeu_ Eu sou da Escócia.
_Que
interessante! E você Sebastian?_ fiquei surpresa por ela ter se lembrado do
nome.
_E eu moro na
Transilvânia. _ Sebastian disse e nós duas nos viramos para ele.
_Como o Drácula?_
mamãe disse meio sorrindo.
_Sim, como o
Drácula. _ ele sorriu de volta, mas seus olhos debochados estavam em mim.
Desviei os olhos dele. Já era constrangedor demais estar na mesma cozinha que
ele, Victor e minha mãe. Não de mais aquilo. Eu queria sair gritando.
_Mas vocês
vêm muito para o Brasil? Porque o português dos dois é impecável. Notei apenas
um leve sotaque e alguns modos que não estamos acostumados a ver nos jovens
daqui.
_Bem, não
viemos tanto quanto gostaríamos. _Victor respondeu_ Sebastian ainda tinha seus
olhos fixos nos meus. Estava ficando difícil ignorá-lo. Meu rosto estava
ficando quente assim como restante do meu corpo.
_E como se
conheceram. Nunca soube que Rafael tenha saído do país. _ Mamãe estava muito
interessada na vida dos rapazes para o meu gosto. Ela era uma conversadora e
muito curiosa. Eu tinha que tira-los de lá de algum jeito.
_Fazemos um
intercambio cultural de vez em quando. Conhecemo-nos assim.
_Agora chega de perguntas mãe. Isso está parecendo a Santa Inquisição. _ saí da cozinha sem poder conte mais meu nervosismo _ Vamos ver o mar rapazes, a noite parece estar linda lá fora. _ eu chamei e fui para fora. Ouvi minha mãe consentir que fossemos e os dois pedirem licença a ela antes de me seguirem.
_Agora chega de perguntas mãe. Isso está parecendo a Santa Inquisição. _ saí da cozinha sem poder conte mais meu nervosismo _ Vamos ver o mar rapazes, a noite parece estar linda lá fora. _ eu chamei e fui para fora. Ouvi minha mãe consentir que fossemos e os dois pedirem licença a ela antes de me seguirem.
_Sua mãe é
quase tão adorável quanto você._ Sebastian pegou em minha cintura enquanto eu
caminhava na areia.
Ouvi um
raspar de garganta intencional atrás de nós. Sebastian que me sustentava pela
cintura, nos virou para olhar para Victor. Ele nos olhava passível.
_Você ainda
está aí?_ Sebastian perguntou sarcástico.
_Quero te
perguntar uma coisa._ Victor cruzou os braços a frete do peito. Fúria chispava
entre os dois agora. Sebastian me soltou e o encarou também com os braços
cruzados. _O que você está tramando dessa vez Sebastian?
_E do que
você está falando Victor?_ Sebastian disse forçando uma voz calma.
_Não me venha
com essa de inocente._ Victor explodiu_ Você sempre estraga tudo tentando tirar
maior vantagem nas coisas. Se você não tivesse matado o outro lobisomem talvez
ela não tivesse que passar por isso agora. Um lobisomem maduro não ia ataca-la
daquele jeito. E sabendo como você é doente, imagino que observou o ataque do
lobisomem sobre ela calmamente, o deixando chegar aos extremos, só o parando no
último minuto sabendo no que acarretaria isso para ela. Eu só me pergunto por
que Sebastian? Por que fez isso com ela?_ ele estava furioso. Sua voz não
chegava estar alta, mas era muito intensa, como se mudasse a atmosfera ao seu
redor.
_Primeiro,
sua ignorância não o permite saber que a Pura sempre terá um lobisomem jovem
que vai crescer com ela. Ganhar sua confiança e ser seu protetor desde a tenra
idade. Segundo, você está certo. Eu vi o ataque, eu estava observando eles ha
alguns dias. Consegui encontra-la usando um feitiço de uma bruxa. Mas eu tinha
que deixa-lo fazer o que tinha que fazer. Nem era para eu estar aqui, então não
esperava ter que interferir. Até que vi que o idiota não ia parar. Se eu não
estivesse lá, se eu não tivesse encontrado Helene antes do tempo de ser
chamado, você sabe que ela estaria morta agora. E nem eu, nem você e nem o
lobisomem teria a chance de ser escolhido outra vez. Acho que o destino acabou
por me redimir do meu erro do passado não acha?
_Morta? _ a
palavra escapou da minha boca.
_Sim. A
virgindade da Pura também é algo sagrado que não pode ser dividida entre os
três, então se um tomar para si..._ Victor não foi capaz de completar a frase,
mas eu entendi o que ele não conseguiu dizer. Ele se virou novamente para
Sebastian que ainda irradiava fúria _Mas porque ainda não a tocou como devia? Aonde
quer chegar com isso?
_Você é
inacreditável, Victor! _Sebastian ergueu suas mãos para o céu como se
desistisse de argumentar com uma criança._ Viu o que aconteceu quando eu apenas
beijei a Pura. Agora que você mesmo já teve de Helene o que é de SEU direito_
ele enfatizou a palavra_ Seu, porque eu duvido que ela fosse escolher qualquer
dessa merda pra ela, se tivesse uma chance. Então agora que já sentiu como é
intenso tê-la nua sob seu corpo e toca-la daquele jeito sem não poder toma-la
totalmente para si, multiplique isso por mil. Tente imaginar isso com o
agravante de um instinto muito mais forte que o seu e mais a sede sufocando sua
garganta._ Sebastian passou sua mão pelo cabelo exasperado _ Acho que você não
seria capaz de imaginar, seus instintos humanos são uma ninharia diante do poder
que tem os meus. Por isso só consegue disser besteiras, humano idiota!_ Victor
não respondeu. A atmosfera era insuportável. Peu coração estava dando saltos.
_ Isso pode
ser verdade. Mas não se esqueça que eu conheço sua mente Sebastian, e sei que
você poderia suportar se você quisesse. _ ele não esperou a resposta de
Sebastian. Apenas acenou para mim e saiu com passos lentos pela noite. De
repente eu não podia mais vê-lo. Eu fiquei lá congelada no lugar, tentando
assimilar o que tinha acabado de ouvir. Toda aquela confusão me fez sentir
saudades do meu amigo Rafa e da paz que ele me fazia sentir só por estar perto
de mim. Concluí com pesar que, talvez aquela nossa amizade nunca mais fosse a
mesma.
Sebastian
continuou parado onde estava ao meu lado, mas sem olhar para mim.
_Ele acha que
você faz isso para ter mais de minha atenção._ sussurrei.
_E está
funcionando?_ ele disse com a voz ainda rouca pelo recente acesso de raiva.
_Acho que sim,
de certo modo.
_Isso é bom.
Mas saiba que eu estou enlouquecido de vontade de tocar você como eles fizeram.
Mais do que você precisa disso.
_Você matou o
Lobisomem? Por quê?
_ Ele não
conteve sua raiva quando viu a Pura morta e me atacou._ ele ergueu os ombros
como se isso explicasse tudo._ eu balancei a cabeça e esfreguei meu rosto
tentando limpar minha mente daquela confusão toda.
_Sebastian. _
chamei e ele que se virou para mim. Seus olhos tinham algo diferente, suas
pupilas estavam levemente dilatadas e seu azul era sombrio. _Poderia existir
algum jeito de acabar com isso? Quero dizer, você conhece uma bruxa que parece
ser muito poderosa_ me senti meio ridícula dizendo isso _ Talvez ela consiga
nos livrar dessa maldição.
_Maldição? _
ele pareceu confuso.
_Sim. Essa
coisa de eu ser a Pura e de ter vocês... presos a mim. E todo esse feitiço que
exerço nos homens._ comecei a ficar agitada_ E se ela puder nos livrar de tudo
isso? _ senti uma esperança me inundando com essa ideia.
_Helene, isso
não é uma maldição._ ele chegou muito perto de mim e segurou meu rosto com as
duas mãos. Seu hálito doce tocou minha língua fazendo meus olhos fecharem
imediatamente, antecipando o prazer do seu gosto. _Isso é o que você é._ ele
disse baixinho. _ eu perdi minha linha de raciocínio. Estava queimado
novamente. Esperei pelos lábios dele nos meus, mas eles não vieram. Uma
frustração extrema me dominou e eu gemi.
_Por favor._
Implorei baixinho.
_Por favor, o
que Helene?
_Por favor,
me beije. _ele suspirou forte, quase grunhindo.
_Prometa
ficar quietinha._ ele estava decidindo.
_Sim, por
favor. _Sebastian se aproximou muito lentamente. Ele tocou seus lábios macios
nos meus tão devagar que eu quis puxá-lo para mim. Sua língua escorregou
docemente na minha boca e era maravilhoso. Era o melhor, eu podia jurar. Não
poderia existir um beijo tão saboroso quanto o beijo daquele vampiro. Lutei
para me manter imóvel como ele me pediu, mas foi em vão. Eu agarrei em seus
cabelos negros e sedosos. Colei meu corpo completamente no dele e o beijei tão
ferozmente quanto me foi possível. Nenhuma quantidade daquilo me seria
suficiente. Eu queria mais, muito mais. Porém, ele me afastou. Seus braços
fortes como aço me tiraram dele, deixando-me insatisfeita.
_Desculpe. _
eu disse, mas não conseguia me sentir realmente arrependida. Eu estava arfando.
Meu sangue corria nas minhas veias, quentes como larva de vulcão. Imaginei que
se eu podia sentir isso, ele sendo um vampiro, estaria ainda mais consciente do
meu sangue. Seus olhos ainda estavam fechados e ele me mantinha presa na
distancia de um braço. Quando ele abriu seus olhos eles estavam ainda mais
transformados. As pupilas tinham tomado todo o azul em volta. Eram
completamente negros. Aquilo me assustou um pouco. Foi a primeira vez que
Sebastian não pareceu humano para mim. Mas passado o susto, senti uma
curiosidade, ou seria um interesse de ver se ele teria presas. Estranhamente
esse pensamento aqueceu ainda mais o meu sangue.
_Você não
ficou quieta._ ele concluiu.
_Eu sei, me
desculpe, eu... eu não consegui._ admiti constrangida.
_Isso é bom._
ele disse com um breve sorriso no canto dos lábios. Pensei ter visto uma
pontinha de suas presas e meu coração pulou.
_Bom? Não
entendo.
_Sinal que
você gostou._ ele já estava quase refeito. Sua respiração estava uniforme e
seus olhos estavam normais de novo.
_Você parece
satisfeito.
_E estou._
ele disse soltando finalmente meus braços. Respirei fundo me avaliando. O
formigamento nos meus lábios tinha cedido, mas ainda restava todo o resto.
_Imagino o
porquê?
_Você
continua viva. _ ele sorriu travesso. Não tinha nenhuma presa e fiquei um pouco
decepcionada.
_Oh. Entendi.
_ Virei-me e fui em direção ao mar, ele me seguiu. Sentei-me na areia, aonde as
ondas chegavam devagarinho.
_Será que ela
poderia?_ eu continuei no assunto de antes dele me distrair com o beijo.
_ Não
acredito que ela tenha poder para isso, além do mais Katherine é muito
caprichosa e só faz o que é de seu interesse._ ele se sentou ao meu lado. _É
tão ruim assim para você? Quero dizer, ser cortejada por todos os machos e
ainda ter o melhor de cada raça para e escolher. Isso parece ser o desejo de
todas as mulheres que já conheci.
_Não quero nada
disso. Quero ser normal._ nesse momento Sebastian se levantou. Olhei para ele
que estava olhando para longe. Busquei ver o que ele estava vendo, mais levou
mais do que alguns minutos para que eu pudesse identificar que vinha alguém em
nossa direção. A expressão no rosto de Sebastian era ilegível. Levantei-me
aturdida. Senti um frio correr na minha espinha quando reconheci que era Rafael
que vinha para nós. Ele parou a muitos passos de distancia.
_Vou deixar vocês
conversarem._ Sebastian falou ainda olhando para Rafa_ Estarei por perto. _ ele
desapareceu.
Rafael deu
mais alguns passos, mas parou ainda distante de mim. Movi meus pés para alcançá-lo,
mas quando a imagem do monstro que ele tinha se transformado veio em minha
mente eu parei. Eu não sabia o que sentir. Tinha saudade e carinho por ele, mas
também tinha medo.
_Helene me
perdoe._ ele disse e caiu de joelhos. _ sua voz era fraca e seu rosto estava
cansado. Seus olhos castanhos estavam derretidos de emoção. Eu quis abraça-lo e
tirar todo aquele sofrimento dele. Eu o amava. Tinha certeza disso. Sabia
também que ele não tinha me atacado por vontade própria, mas não conseguia ter
a mesma confiança de novo. O medo que ele me atacasse de novo era muito forte. _
eu não vou mais ferir você. Eu juro._ ele suplicou _ Eu só não estava preparado
para controlar aquilo. Agora já posso. Não tenha medo de mim. Perdoe-me eu te
imploro, não sinta raiva de mim.
_Eu... Eu não
tenho raiva de você Rafa._ era verdade _ Como você está? Por onde andou?
_Por favor
não se preocupe comigo. Não é para ser assim. Só você importa e eu era para te
proteger. Estou fazendo tudo errado._ ele estava derrotado. Caminhei para ele
ordenando cada movimento de minhas pernas trementes. Abaixei-me na sua frente e
segurei seu rosto. Eu o amava tanto. Minhas lágrimas desceram descontroladas
por meu rosto.
_Oh! Rafa! Eu
senti tanto a sua falta. _ minha voz estava embargada.
_Também senti
a sua Helene. Mais do que pode imaginar. Nunca vou me perdoar pelo que fiz a
você._ ele me aninhou em seus braços protetoramente. Como só ele podia fazer.
_Não pense
assim. Você não teve culpa.
_Sim. Eu
tive._ ele falou com a voz rouca que eu sentia tanta saudade_ Se eu tivesse
levado a sério toda a história que meu pai me contava quando ele ainda estava
vivo, estaria mais preparado. Eu reconheceria os sintomas que já vinha sentindo
a muito tempo. O calor excessivo e o gosto maior pela violência. Eu não levei
nada disso em conta. Achava tudo uma grande besteira.
_Helene!_
mamãe me chamou da varanda. Era longe demais para ela ver o que eu estava
fazendo na escuridão, mas provavelmente ela sabia que eu não estava sozinha _Vai
demorar ainda para entrar? _ ela não costumava me regular, mas eu tinha certeza
que era a curiosidade que a estava consumindo. Ela não iria dormir antes de
saber tudo o que estava acontecendo.
_Já vou mãe.
_ Eu gritei. Sebastian se “materializou” do meu lado e Rafa me libertou de seus
braços instantaneamente. O olhar para Sebastian era de animosidade clara.
_Voltarei no
tempo certo Helene. Por enquanto tenha cuidado, por favor. _ ele me deu mais um
abraço e se levantou, me levantando junto com ele.
_Você não
pode ficar?_ pedi. Sebastian se moveu ao meu lado, mas eu ignorei.
_Ainda não.
Mas eu volto, não se preocupe.
_Vamos._
Sebastian segurou gentilmente em meu braço. Rafa olhou com fúria contida em
seus olhos e a mandíbula tensa. Fiquei apavorada. Se eles brigassem seria uma
tragédia.
_Vá com ele._
Rafa disse entre os dentes. _ por enquanto. É assim que deve ser.
_Até logo._
eu fui capaz de dizer. Ele assentiu com a cabeça e foi embora._ Fiquei olhando
ele se afastar por alguns minutos. Sebastian permaneceu silencioso ao meu lado.
Toda aquela situação era muito estranha. Estranha não era a palavra. A palavra
certa era bizarra. Depois de toda minha vida bizarra, eu consegui torna-la
ainda pior. Suspirei cansada.